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4.4 Programs as functions
A análise de conteúdo é uma técnica utilizada em investigação educativa, sobretudo, no que respeita à análise dos dados recolhidos em entrevistas e observações naturalistas. Esta técnica de análise de dados tem como principal objectivo aumentar a compreensão do investigador acerca dos dados que recolheu. Para Bardin (2004) a análise de conteúdo é um conjunto de regras e métodos, um conjunto de instrumentos metodológicos (que cada vez mais tendem a aperfeiçoar-se) aplicáveis a situações múltiplas, cujo factor comum é uma interpretação controlada, com base na dedução, isto é na inferência. Esta interpretação varia entre o rigor objectivo e a subjectividade, o que lhe confere um grande valor, na medida em que permite o tempo necessário, rico e frutífero entre a mensagem e a reacção interpretativa.
Assim, podemos falar da análise de conteúdo como uma técnica de investigação que permite
“a descrição objectiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto da comunicação”
(Berelson, s/d in Vala, 1986: 103) ou, como mais tarde definiu Krippendorf “uma técnica de
investigação que permite fazer inferências, válidas e replicáveis, dos dados para o seu contexto” (s/d in Vala, 1986: 103). Assim, a análise de conteúdo deixa de ser apenas uma
técnica de descrição para passar a ser uma técnica que permite inferir e passar da “descrição à
interpretação, enquanto atribuição de sentido às características do material que foram levantadas, enumeradas e organizadas” (Bardin, s/d in Vala, 1986: 104).
A análise de conteúdo constitui-se, então, como um processo sistemático que se caracteriza por trabalhar os dados recolhidos de diversas formas: organiza-os, divide-os em categorias,
sintetiza-os e retira-lhes as ideias mais importantes. A definição de análise de conteúdo dada
por Berelson constitui ainda o ponto de partida para as explicações reclamadas por quem se inicia, que ele define deste modo: “uma técnica de investigação que através de uma descrição
objectiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto das comunicações, tem por finalidade a interpretação destas mesmas comunicações” (Berelson s/d in Bardin, 2004: 31).
Bardin (2004: 27) “afirma que a análise de conteúdo é um conjunto de técnicas de análise das
comunicações”. Não podendo ser considerado um instrumento, a análise de conteúdo é antes
um leque de ferramentas ou um único instrumento, “mas marcado por uma grande disparidade
de formas e adaptável a um campo de aplicação muito vasto: as comunicações” (Bardin, 2004:
27). Conforme o documento e o objectivo da análise, o procedimento do investigador será diferente, sendo que, existe uma multiplicidade de exemplos de entre a infinidade de análises de conteúdo possíveis.
Se se tratar de pôr em evidência o conteúdo de uma entrevista não directiva, desmascarar a axiologia subjacente aos manuais escolares, estabelecer uma tipologia das aspirações maritais ou até, medir a implicação do político nos seus discursos a análise de conteúdo será efectuada de forma diferente. Quanto mais complexo, instável ou mal explorado, for o código, maior esforço terá que fazer quem o analisa. Também a invulgaridade e o insólito, trarão maior complexidade à análise, na medida em que colocarão dificuldades em encontrar elementos nas análises já realizadas, para lhe servirem de inspiração. Quando se tenta uma distância relativamente aos métodos de análise de conteúdo e ao domínio em que os mesmos podem ser explorados, existe a percepção de que o campo de análise é imensamente vasto. P.Herry e S. Moscovici referem que “tudo o que é dito ou escrito é susceptível de ser submetido a uma
análise de conteúdo” (Bardin, 2004: 28).
Analisando os domínios da aplicação potencial das técnicas da análise de conteúdo, independentemente dos procedimentos, sistematizámos o conjunto dos tipos de comunicações segundo dois critérios, embora possam existir outros igualmente bons: o número de pessoas implicadas na comunicação e a natureza do código e do suporte da mensagem. Embora pareça difícil definir a análise de conteúdo a partir do seu território, uma vez que tudo é susceptível de análise, tenta-se pelo menos descobrir uma unidade, no que respeita às regras de funcionamento.
Quem se inicia na análise de conteúdo, tem presente e quer obedecer às categorias de fragmentação da comunicação para que se torne uma análise válida, pese embora o facto destas serem raramente utilizáveis. As categorias de fragmentação da comunicação devem ser: homogéneas; exaustivas (devem esgotar a totalidade do texto); exclusivas, o que quer dizer que um mesmo elemento do conteúdo, não pode ser atribuído a duas categorias diferentes; objectivas.
No que relaciona a análise de conteúdo e a linguística, pode dizer-se que ambas têm como objectivo a linguagem. No entanto, existe uma diferença que é necessário tornar visível: o objecto da linguística é a língua (descrever o seu funcionamento), enquanto que o da análise de conteúdo é a palavra, isto é, tentar conhecer o que está por detrás das palavras sobre as quais se debruça.
De acordo com Bardin as fases da análise de conteúdo combinam-se em volta de “três pólos
cronológicos” (2004: 89) que são a pré-análise, a exploração do material, o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação. O primeiro, pré-análise, corresponde à fase da
organização, constituindo-se como um tempo de intuições e tendo por objectivo, operacionalizar e sistematizar as ideias iniciais, de forma a obter um esquema preciso (embora flexível) do desenvolvimento das operações sucessivas, num plano de análise. Nesta primeira fase escolhem-se os documentos para análise, formulam-se as hipóteses e os objectivos e elaboram-se indicadores que sirvam de fundamento à interpretação final. Apesar de se manterem muito ligados entre si, não existe qualquer obrigatoriedade na sucessão destes três factores, nem sequer a nível cronológico. A escolha de documentos depende dos objectivos, sendo este possível apenas em função dos documentos disponíveis. Por outro lado, os indicadores são construídos em função das hipóteses, ou estas criadas na presença de certos índices. Assim, num primeiro momento, denominado leitura “flutuante” (Bardin, 2004: 90), o investigador estabelece um primeiro contacto com os documentos que vai analisar, tirando algumas impressões e orientando-se já para uma posterior análise. Progressivamente, a leitura vai tornando-se mais precisa, em função das probabilidades decorrentes.
Num segundo momento, o investigador procede à escolha dos documentos, a qual pode ser determinada à partida de acordo com o que se quer analisar, e de acordo com os objectivos que se pretende concretizar, os quais vão constituir o corpus que será tido em conta e submetido ao tratamento analítico. As regras principais para se constituir esse corpus são: a regra da exaustividade, ou seja, não se pode deixar de fora qualquer um dos elementos, seja qual for a razão que possa contrariar o plano de rigor. Esta regra completa-se pela de não- selectividade em que todos os documentos referentes a determinado assunto devem ser
recenseados. Quanto à regra da representatividade, a mesma refere que a análise pode realizar-se numa amostra desde que o material o possibilite, sendo que a amostragem será
“rigorosa se a amostra for uma parte representativa do universo inicial” (Bardin, 2004: 91),
podendo assim generalizar-se os resultados obtidos, ao todo. A regra da homogeneidade traduz-se no facto de os documentos retidos deverem obedecer a critérios precisos de escolha e não se mostrarem muito singulares para além desses mesmos critérios. Por último, a regra de pertinência, estabelece que os documentos recolhidos devem ser pertinentes de modo a responderem, o mais adequadamente possível, aos objectivos suscitados pela análise.
Num terceiro momento, dá-se a formulação das hipóteses e dos objectivos por parte do investigador. A formulação das hipóteses é, numa fase inicial, uma intuição, uma afirmação provisória que o investigador se propõe analisar e sê-lo-á até ao momento em que for submetida à prova de dados fidedignos. Tal como refere Bardin (2004: 93) enunciar “hipóteses
consiste, muitas vezes, em explicitar e precisar – e, por conseguinte, em dominar – dimensões e direcções de análise, que apesar de tudo funcionam no processo”. Por seu turno, o objectivo
representa a finalidade a que nos propusemos e que pretendemos alcançar, isto é, “o quadro
teórico e/ou pragmático, no qual os resultados obtidos serão utilizados” (Bardin, 2004: 92).
Num quarto momento, o investigador referencia os índices e elabora os indicadores. Os primeiros serão escolhidos em função das hipóteses, caso estas tenham sido previamente levantadas, sendo que a sua organização sistemática resulta nos indicadores, que devem ser precisos e seguros, sendo para tal necessário testá-los em alguns elementos do documento em análise. Por último, o investigador na fase de pré-análise procede à preparação do material que será posteriormente explorado e tratado.
A segunda fase da análise de conteúdo refere-se à exploração do material, isto é, o investigador estuda o material que recolheu e já submeteu a uma pré-análise, de modo a tratar e interpretar os resultados obtidos.
A última fase da análise de conteúdo consiste precisamente no tratamento dos resultados
obtidos e interpretação. Com esta “longa e fastidiosa” fase (Bardin, 2004: 95) os resultados
obtidos são submetidos a um tratamento de modo a constituírem-se como significativos e válidos.
De acordo com Bardin (2004), a natureza qualitativa da nossa investigação obrigava à técnica da análise de conteúdo, enquanto esforço de interpretação. Terminada a recolha da história de vida do professor passámos para a fase que permite a reconstrução da sua história, como
descrevemos no processo de análise e interpretação da história de vida. Concluída a fase da “pré-análise” (Bardin, 2004: 89), ou seja, a organização da história em discurso directo, passámos para a fase de exploração do material (Bardin, 2004: 95) na qual procedemos à nossa “interpretação dos dados” fornecidos por o “nosso” professor. Segundo Bogdan e Biklen (1994) e Afonso (2005), esta técnica compreende um certo número de etapas.
Durante o tratamento, análise e interpretação dos dados, optámos por parafrasear porque nós estamos a recontar uma história de vida. Ao longo da construção desta longa etapa vamos integrando excertos retirados dos relatos do nosso investigado, colocados entre aspas.