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A recente literatura descreve que a opção pela metodologia – história de vida – exige entrevistas exaustivas efectuadas ao nosso entrevistado, de forma a tornar o mais consistente possível a narrativa (Helling, 1998 in Bogdan & Biklen, 1994). Este método permite depoimentos na primeira pessoa e têm como fim, o estudo do comportamento humano. Pegando neste ponto de vista, extremamente relevante para o estudo em causa, inserimos aqui o conceito de “carreira” que respeita as diversas fases, sendo inerente o conhecimento das formas de pensar de cada indivíduo ao longo da vida (Hughes 1934 in Bogdan & Biklen 1994). A utilização das histórias de vida sociológicas remete para a reconstituição da carreira dos indivíduos, dando importância aos acontecimentos que merecem consideração e a pessoas que contribuíram (de uma forma ou de outra) significativamente na moldagem das definições do próprio sujeito e das suas perspectivas sobre a realidade da vida. Como escreve Goodson (2000 in Nóvoa, 2000) os seminários e cursos destinados ao desenvolvimento profissional centram-se, cada vez mais, nas investigações sobre as vidas e carreiras de professores.

Como diz Sarmento (2002: 264) citando Ferrarotti (1983) “o nosso sistema está todo ele nos

nossos actos, nos nossos sonhos, delírios, obras, comportamentos e a história deste sistema está inteira na história da nossa vida individual”. Tendo toda a lógica, aqui referir o que

Bronfenbrenner (1976 in Bairrão, 1995) escreveu num artigo dedicado à educação - um investigador não deve cingir as investigações só ao contexto laboratório mas devem processa- las no quadro da vida real. O professor ao contar a sua história de vida, está a fazer uma reconstituição significativa e activa dos “pedaços” mais relevantes da sua vida profissional e acaba por envolver aspectos da vida pessoal. Para Moita (2000 in Nóvoa, 2000):

“só uma história de vida permite captar o modo como cada pessoa, permanecendo ela própria, se transforma. Só uma história de vida põe em evidência o modo como cada pessoa mobiliza os seus

conhecimentos, os seus valores, as suas energias, para ir dando forma à sua identidade, num diálogo com os seus contextos. Numa história de vida podem identificar-se as continuidades e as rupturas, as coincidências no tempo e no espaço, as “transferências” de preocupações e de interesses, os quadros de referência presentes nos vários espaços do quotidiano”.

O narratário ao contar a sua história de vida, e sabendo antecipadamente o que procurámos conhecer, compreender e analisar da sua vida, é de prever que seleccione do seu espólio de experiências vividas o que quer revelar. Por isso, o professor ao falar da sua própria vida é cuidadoso e consciente e durante a exploração pode ou não surgir questões éticas importantes (Goodson, 2000 in Nóvoa, 2000). Ao contar a sua história de vida, há uma preocupação em transmitir uma linearidade, sequencialidade e singularidade. Utiliza estratégias que lhe permitam desenvolver uma ideia lógica da sua própria história de vida como um meio essencial para escapar “à prisão do passado e abrir-se para o futuro” (Giddens 1993, 1991 in Sarmento, 2002: 265).

Os relatos orais constituem um desenvolvimento interdisciplinar que engloba disciplinas como a educação, a antropologia, a história, a literatura biográfica, a psicologia, a sociologia, entre outras. Para Yow (in Mertens, 1998: 196), os relatos orais envolvem “an interviewer who

inspires narrators to begin the act of remembering, jogs their memories, and records and presents the narrators’ words through recorded in-depht interviews”. Ou seja, nos relatos orais,

existe um entrevistador que inspira e influencia o narrador para que este inicie o acto de recordação e que regista em gravador os seus contributos, realizando, desta forma, uma entrevista profunda ao narrador. No que respeita aos relatos orais, o investigador conduz entrevistas profundas de modo a compreender “how things got to be the way they are” (Mertens, 1998: 196), isto é, porque é que determinado fenómeno ocorreu de determinada maneira e tem um certo significado, e não outro, na vida do narrador.

Portanto, nos relatos orais, a tónica é colocada no passado do narrador. Se, por outro lado, as entrevistas profundas são utilizadas em estudos de investigação centrados no presente, não se tratam, já, de relatos orais mas de narrativas de vida. Josselson (in Mertens, 1998: 196) considera que existe uma forte relação entre os relatos orais e as narrativas de vida, e ainda que estas formas de investigação mostram-se “more valuable than studying preconceived

psychometric scales or contrived experiments” pois, é o próprio narrador que relata ou

descreve os acontecimentos que considera mais significativos na sua vida. A importância e o reconhecido valor dos relatos orais e das narrativas de vida, poderá ser corroborado tomando como exemplo o caso dos historiadores. Estes utilizam, nas suas investigações, dados existentes anteriormente à investigação, bem como, acontecimentos já ocorridos.

Todos os estudos ou investigações começam com uma investigação histórica pois, “the act of

conducting a literature review involves locating and synthesizing information that is already known about a topic” (Mertens, 1998: 197), ou seja, qualquer investigação tem por base

informações já existentes acerca do problema que se pretende estudar. A mesma apresenta várias etapas:

Etapa 1: Definição do problema

Por vezes, o investigador não tem definido, à partida, um problema específico para a sua investigação, podendo este surgir a partir da leitura de materiais de diversa ordem. Os problemas indicados para a investigação histórica podem ser identificados através dos mesmos passos ou etapas por que passam os problemas de outros tipos de investigação. O investigador pode estar interessado em estudar determinado fenómeno social e, por isso, interessar-se em obter um entendimento histórico das condições em que tal fenómeno se desenvolveu ou desenvolve. Por outro lado, o investigador pode descobrir novos factos e considerar necessário reexaminá-los ou submetê-los a uma reinterpretação com base numa estrutura histórica diferente daquela a que os mesmos foram anteriormente submetidos (Mertens, 1998).

Etapa 2: Condução da revisão bibliográfica

A revisão da literatura relevante para desenvolver uma determinada investigação pode ser feita com dois objectivos ou finalidades. Primeiro, o investigador pode realizar uma leitura de fundo de modo a encontrar o que existe publicado acerca da questão ou problema que pretende investigar. Se, porventura, o investigador ainda não determinou a questão ou problema que pretende estudar, é importante que estabeleça limites geográficos e temporais para a sua pesquisa pois, “delimiting a study can be an important step in designing a study that is ‘do-able’” (Mertens, 1998: 200). O segundo objectivo refere-se a uma revisão bibliográfica dos dados históricos actuais que o investigador pretende analisar como, por exemplo, diários, cartas, entre outros. De modo a iniciar a sua investigação ou estudo, o investigador deve saber, igualmente, entre as bases de dados existentes, as que produzirão informação de natureza histórica acerca do assunto que pretende estudar ou investigar (Mertens, 1998).

Etapa 3: Identificar fontes/bases de factos históricos

Após a formulação das questões e da revisão bibliográfica acerca do problema da investigação, é chegado o momento do investigador começar a identificar os dados históricos primários, ou seja, artefactos, documentos e relatos orais. De entre as diferentes fontes de dados a que o investigador pode recorrer para desenvolver a sua investigação, mostra-se particularmente pertinente referir os relatos orais e as narrativas de vida.

Etapa 4: Sintetizar e Avaliar os dados históricos

A quarta etapa da investigação histórico-narrativa refere-se à síntese e avaliação dos dados históricos recolhidos, sejam eles, documentos ou materiais históricos gerais, documentos pessoais (diários, jornais) ou factos de relatos orais. Uma vez que o objectivo desta exposição prende-se, sobretudo, com um maior esclarecimento acerca da investigação histórico-narrativa, irá falar-se apenas desta quarta fase relativamente aos factos de relatos orais. Sabendo que a memória humana, por vezes, “falha” o investigador deve preocupar-se com dois aspectos relativos aos dados: consistência do testemunho e validade do relato. De modo a averiguar da consistência do testemunho, o investigador pode solicitar ao narrador a clarificação de determinada situação ou acontecimento. No que respeita à validade, o investigador pode consultar outras fontes e compará-las com a narrativa. Para que os dados recolhidos dos relatos orais sejam o mais rigoroso possível, deve ter-se em atenção o contexto em que ocorre a entrevista.

Os relatos orais permitem ao investigador aceder a informações que não se encontram disponíveis em qualquer outro tipo de fonte. No que respeita às vantagens deste tipo de investigação, podem ser referidas as seguintes: os relatos orais oferecem ao investigador informações importantes sobre as motivações do sujeito para determinada acção; permitem ao investigador ter acesso a informações que não se encontram escritas, quer seja pela sua natureza ou pelas características das pessoas envolvidas; podem fornecer informações sobre todas as classes sociais. Assim como noutros tipos de investigação, também a investigação histórico-narrativa apresenta limitações. Em primeiro lugar, os relatos orais tendem a focar as experiências individuais e pessoais do sujeito e a deixar de parte as principais tendências institucionais, nacionais ou internacionais que envolveram a vida do sujeito; a investigação narrativa é normalmente realizada com pessoas que sobrevivem, portanto, deve perguntar-se ao narrador como é que a passagem do tempo e selecção individual afectaram a amostra de narradores.

Este tipo de investigação apresenta ainda uma importante limitação relacionada com a falibilidade da memória humana pois, o sujeito tende a recordar os acontecimentos importantes que marcaram a sua vida e a esquecer outros que considera mais rotineiros. Para realizar uma investigação histórico-narrativa o investigador deve, em primeiro lugar, estabelecer um acordo com o narrador, no qual esclareça sobre a natureza, a duração e o controlo do trabalho de investigação pois, uma investigação deste tipo pode durar vários anos. Em segundo lugar, deve tentar estabelecer um calendário do trabalho, indicando o tempo, o espaço e a natureza das questões. O investigador deve ainda estabelecer um contrato com o narrador em que sejam especificados o acesso a outro tipo de informações, bem como, aos direitos editoriais do

trabalho final. O investigador deve informar o narrador de que serão incluídos na investigação, tanto os aspectos positivos como negativos do seu relato. Por último, se o investigador tiver dúvidas sobre se deve ou não incluir determinado tipo de informações acerca do narrador no trabalho final, deve aconselhar-se junto de informantes de confiança (Mertens, 1998). Portanto, estes são alguns dos aspectos a que o investigador não deve ser alheio tanto no início como no decorrer de qualquer investigação.

Sintetizando, a investigação histórico-narrativa apresenta-se como um tipo de investigação cada vez mais frequente pois, como foi referido anteriormente, permite ao investigador aceder a informações que não se encontram disponíveis em nenhuma outra fonte, bem como, compreender mais pormenorizadamente que motivações moveram o sujeito a realizar determinadas acções. Portanto, para além de tomar conhecimento dos acontecimentos mais marcantes da vida do sujeito, tem a possibilidade de aprofundar as situações ou momentos que mais interessarem à sua pesquisa. Para além disso, e embora reconhecendo as limitações da memória humana, o investigador tem a colaboração do próprio sujeito não tendo, assim, que recorrer sempre a outras fontes de informação, fazendo-o apenas quando realmente necessário. No entanto, considero que, pela natureza absolutamente pessoal deste tipo de investigação é fundamental que sejam estabelecidas as “regras” de tal investigação.

Em síntese, neste ponto do capítulo II evidenciamos as temáticas: dar voz ao professor; a história das histórias de vida baseada na perspectiva sociológica; material biográfico: breve apresentação de várias definições aplicadas aos conceitos: (auto)biografias, narrativas e histórias de vida e por fim a opção por uma perspectiva metodológica. Um investigador que se interesse por estudos que incidam no professor enquanto pessoa e profissional a melhor opção é permitir que seja o próprio a contar a sua história de vida, assim o investigador dará voz ao professor. Se conjugarem a história de vida do professor e desenvolvimento profissional permitirá ao (s) actor (es) educativo (s) maior autoridade e controlo da investigação do que um estudo que incida na prática pedagógica, mas a nível do desenvolvimento dos professores o que é urgente e tem faltado é a voz do próprio professor. É importante e útil dar uso e voz aos professores porque assim podem falar sobre si próprios, sobre as suas alegrias, tristezas, desejos, experiências, imprevistos, situações passadas que acabam por interagir entre a vida pessoal e profissional e vice-versa.

Todavia, também a história de vida tem a sua própria história. A história das histórias de vida remonta às autobiografias de chefes Índios Americanos que só foram compiladas no século XX por antropólogos. Posteriormente, investigadores da Escola de Chicago foram realizando estudos de natureza social e interactiva dentro do contexto real, aplicados a imigrantes. A

evolução desta perspectiva foi adoptada pelos sociólogos e investigadores educacionais. Por volta das décadas de 20 e 30 é que a sociologia da Escola de Chicago teve impacto na Sociologia da Educação, que iniciou os seus trabalhos recorrendo às metodologias quantitativas e procurando a sua afirmação. A perspectiva sociológica veio alertar para o facto de que ao estudarmos o ciclo de vida devemos ter em consideração a influência de factores sociais que provocam diferenças nos estádios de desenvolvimento dos professores.

Ao inserirmos todas estas apreciações, afigura-se-nos evidente a opção pela metodologia – histórias de vida – em estudos dedicados ao professor enquanto pessoa e profissional. Assim é dar voz ao professor através de entrevistas aprofundadas e de forma a tornar o mais consistente possível a narrativa fornecida a partir da primeira pessoa.