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4.2 Functions for manipulating expressions

A abordagem biográfica ou o método biográfico constitui uma metodologia utilizada em Ciências Sociais, como forma de produção de conhecimentos, entendendo-se como “o

percurso geral da investigação que orientará o procedimento do investigador em função dos objectivos precisos que visa e das questões que coloca a si próprio” (Digneffe, 1997: 205). O

objectivo do método biográfico é segundo G. Balandier (in Digneffe, 1997: 206), “aceder [pelo

interior] a uma realidade que ultrapassa o narrador e o modela . . . captar as vivências sociais, o sujeito nas suas práticas, na maneira como negoceia as condições sociais que lhe são particulares”. Portanto, os sujeitos são considerados actores sociais. Este método é cada vez

mais utilizado, privilegiando os relatos de vida, autobiografias e devem ser consideradas pelo investigador “as trajectórias sociais efectivas dos indivíduos e as representações individuais da

3.1 Motivos que podem levar o investigador a optar pelo método biográfico

Segundo Françoise Digneffe existem cinco principais motivos. Um deles é o facto de este método permitir “sair da oposição entre indivíduo e sociedade” (Digneffe, 1997: 206), visto que um dos seus objectivos principais é encontrar a relação entre as condições de existência e as vivências. Um segundo motivo prende-se com o facto do método biográfico permitir “captar as

relações dialécticas ou de circularidade entre o ponto de vista subjectivo do homem e a sua inscrição na objectividade de uma história” (Digneffe, 1997: 207). Em terceiro lugar, o método

biográfico possibilita, “numa perspectiva interaccionista, captar as subjectividades,

compreender de que modo a conduta é continuamente remodelada, de modo a ter em conta as expectativas dos outros” (Digneffe, 1997: 208), como as mesmas são expressas e como o

autor supõe que elas possam ser expressas. O método biográfico possibilita, também, “captar

o que escapa às estatísticas, às regularidades objectivas dominantes, aos determinismos macrossociológicos” (Digneffe, 1997: 209). Neste sentido, a abordagem biográfica revela-se

como crítica perante algumas teorias, nomeadamente, o funcionalismo e o estruturalismo. Por último, outro dos motivos que poderá levar o investigador a optar pela abordagem biográfica é o facto de esta metodologia permitir “reconhecer um valor sociológico no saber individual” (Digneffe, 1997: 210).

3.2 Etapas da Investigação

Nas diferentes sequências das investigações que utilizam a abordagem biográfica ou método biográfico identificam-se as seguintes etapas da investigação, não necessariamente nesta sucessão temporal: 1) a problemática e o quadro teórico; 2) a constituição da amostra; 3) as entrevistas; 4) a análise das entrevistas; 5) os resultados: a construção de tipologias de representações ou de “sócio-estruturas”. Françoise Digneffe descreve de forma sucinta em que consiste cada uma das etapas de investigação. No entanto, apenas irei abordar cada uma delas de forma sintética. Ao nível da etapa de investigação referente à problemática e quadro teórico, verifica-se que qualquer investigação em ciências sociais que utiliza a abordagem biográfica ou método biográfico parte de uma ou mais questões sobre a realidade social, nomeadamente, considerando mudanças que podem ter ocorrido ou práticas que podem ter evoluído. Assim, o procedimento seguido é maioritariamente indutivo, sendo que as entrevistas e sua análise devem produzir um saber novo, fornecerem informações imprescindíveis para o avanço da investigação, gerar hipóteses provisórias novas, confirmadas ou não por entrevistas posteriores.

Relativamente à etapa da constituição da amostra, o autor refere que no método biográfico são utilizados maioritariamente relatos de vida, “suficientemente numerosos e diversificados” (Digneffe, 1997: 213), de modo a fornecerem dados para se confirmarem ou não os pressupostos iniciais. Para tal, as entrevistas devem ser representativas do conjunto da problemática. Ou seja, deve ser assegurada a diversificação das posições institucionais e sociais dos entrevistados; deve ser criada uma lista de “variáveis estratégicas” passíveis de

“intervirem na maneira de viver o problema que é objecto da investigação” (Digneffe, 1997:

213). Esta lista pode ser criada antes de iniciar as entrevistas, tal como modificada e completada em simultâneo aquando da recolha de dados. Portanto, a “questão da amostra não

se coloca a priori . . . a questão da dimensão óptima da amostra não faz sentido” (Digneffe,

1997: 214).

Em relação às entrevistas, a entrevista biográfica aproxima-se da entrevista não directiva ou semidirectiva. Contudo, a entrevista biográfica a realizar não pode ser construída a priori. Aliás, evolui ao longo da investigação. Ou seja, o relato de vida é “um relato de práticas ou uma

expressão de representações”, mas essencialmente “uma actividade de comunicação feita de deambulações, de encontros e de acasos” (Digneffe, 1997: 215). Esta actividade realiza-se,

segundo Digneffe, “no quadro do dispositivo sócio-institucional que é a entrevista: . . . estrutura-

se um campo de comunicação que vai da deambulação iniciática (o entrevistado fala dos seus percursos) à encenação de si próprio (consoante os públicos imaginados)” (Digneffe, 1997:

216).

O guia da entrevista pretende orientar e ajudar o entrevistador para que o mesmo escute o entrevistado e, concomitantemente, assegure que o relato de vida se centra na problemática da investigação. Não se pretende que o entrevistador formule sucessivas questões, mas sim que recolha informações sobre elementos concretos da vida do sujeito, sobre a sua maneira de pensar sobre certos problemas ou relações. Logo, o guia da entrevista é importante pois orienta a recolha de dados, mas o mesmo pode ser reformulado durante a investigação, podendo algumas questões tornarem-se mais importantes do que outras consoante o entrevistado.

Relativamente ao grau directividade das entrevistas realizadas, o investigador deverá ser ora directivo (nas primeiras entrevistas visto que tem de formular muitas questões aos entrevistados no intuito de obter informações, e especificamente quando pretende obter informações sobre determinados acontecimentos da vida do entrevistado) ora não directivo (nas entrevistas posteriores e especificamente quando está em causa a expressão de

elementos afectivos por parte do entrevistado) consoante o avanço da investigação e o número de entrevistas já realizadas.

Quanto à etapa da investigação referente à análise das entrevistas, torna-se pertinente sublinhar que essa análise deverá centrar-se na problemática em questão e seguir, de certa forma, as questões que nortearam a sua constituição. Segundo Bertaux (in Digneffe, 1997: 223), a “análise prossegue ao longo da investigação e consiste na construção progressiva de

uma representação do objecto sociológico”. Assim, Digneffe refere que numa primeira fase da

análise das entrevistas, a mesma realiza-se entrevista a entrevista. Posteriormente, faz-se uma análise comparativa dos relatos obtidos (análise transversal), destacando-se dessa forma

“modelos de trajectória ou modelos de representações, que surgirão frequentemente sob a forma de tipologias” (Digneffe, 1997: 224).

Por último, a etapa referente aos resultados (construção de tipologias de representações ou de “sócio-estruturas”) deverá englobar a produção de conhecimentos novos relativos a aspectos da realidade social, os quais o investigador apresenta em função das suas questões iniciais, tal como, em função daquilo que “descobriu” ao longo da investigação e de novas questões surgidas. Na generalidade, as investigações que utilizam o método biográfico culminam na

“construção de tipologias dinâmicas que subsumem a diversidade das trajectórias e das representações” (Digneffe, 1997: 230). Portanto, em muitas investigações deste tipo, os

resultados proporcionam uma série de novas questões sobre a problemática em questão, tal como, sobre mudanças sociais importantes, provando “que o social se esquiva logo que

pensamos tê-lo agarrado” (P. Grell (s/d) in Digneffe, 1997: 234).

3.3 Sintetizando

Sintetizando, o método biográfico é caracterizado “pelo facto de conceber uma importância

central . . . [à] «procura de uma inteligibilidade na organização de cadeias de acontecimentos», . . . [sendo que a] dimensão do tempo ou de sucessão temporal situa-se no centro das interpretações ou das análises” (Digneffe, 1997: 243). No entanto, essa procura de

inteligibilidade não significa que uma biografia seja redutível “à combinação de séries

cronológicas construídas pelo investigador” (Digneffe, 1997: 244), pois o “sentido da vida dos sujeitos é sempre irredutível e indemonstrável” (Coninck, Godard (s/d) in Digneffe, 1997: 244).

O facto da análise das entrevistas ser realizada entrevista a entrevista tem a sua razão na busca de causalidade entre diferentes acontecimentos, de forma a permitir a compreensão de uma trajectória. Assim, a utilização da abordagem biográfica ou método biográfico apresenta

algumas vantagens em investigações, no âmbito das ciências sociais, visto que através da mesma poder-se-á estudar os percursos, compreendendo a transição de um estado para outro, compreendendo a mudança; poder-se-á analisar momentos de ruptura; de uma forma geral, poder-se-á analisar modos de organização “num espaço social em mudança” (Digneffe, 1997: 243).

3.4 Reflexão e problematização

Após toda a exposição sobre o tema da abordagem biográfica ou método biográfico, verifica-se que não são descritos quaisquer limites deste método. Porém, o facto do procedimento da investigação não se encontrar estipulado à partida e ser construído ao longo da mesma, nomeadamente, o facto de ser possível alterar as questões de partida, reformulando-as ou considerar novas questões, não estar definida a priori a amostra a considerar, e o investigador ter de ser ora directivo ora não directivo na realização das entrevistas, constituem, na nossa opinião, motivos para que este método não seja muito simples de utilizar, constituindo a sua utilização um entrave para alguns investigadores, sobretudo os investigadores inexperientes. Portanto, considerámos que é exigida uma certa capacidade e experiência profissional por parte do investigador para gerir todas estas questões e utilizar a abordagem biográfica ou método biográfico da melhor forma.