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2.3 Predicates and Boolean operations

As primeiras histórias de vida que surgiram foram em forma de autobiografias sobre os chefes Índios Americanos, as quais foram reunidas no século vinte por antropologistas (Barrett, 1906; Radin, 1920 in Goodson & Sikes, 2001). Languess (1973 in Sarmento, 2002) revelou-nos registos de histórias de vida, datados de 1832, de guerreiros índios. Ao longo dos tempos os investigadores sociólogos da Escola de Chicago foram realçando a natureza social e interactiva da realidade, com o intuito de captarem as perspectivas dos entrevistados. William I. Thomas em conjunto com Florian Znaniecki (investigador polaco e antigo aluno da Escola de Chicago) mostraram a sua preocupação e necessidade de investigação científica sociológica de tal modo que criaram um novo paradigma, alertando para o eventual perigo de se pretender dar um valor geral aos comportamentos individuais. A tese executada em conjunto “Polish Peasant in

Europe and America” (1927: 12) incide numa investigação na Europa e EUA, em que estiveram

em contacto directo com imigrantes polacos tentado compreender a sua desorganização social (Ball & Goodson, 1985).

Consequentemente, esta perspectiva foi adoptada pelos sociólogos e investigadores escolares. Os dois autores William I. Thomas & Robert Park identificados como fundadores da Escola Sociológica de Chicago e partilham um conjunto de princípios comuns, nomeadamente, a atribuição de importância à compreensão de percepções da realidade quotidiana de diferentes pessoas e a compreensão da comunidade citadina que é vista como um todo, o que obriga a que qualquer estudo deva estar articulado com a análise da comunidade investigável, independentemente do que estudassem tinham de ter sempre como pano de fundo a comunidade como um todo, a este processo Becker (1986 in Bogdan & Biklen, 1994: 27) apelidou-o de “mosaico científico”. Neste quadro de movimentações Becker (1970 in Bogdan & Biklen, 1994) estudou a socialização dos adultos e das determinantes da carreira profissional e levou a cabo uma investigação sobre os professores de Chicago na tentativa de aplicar a tradição psicossociológica ao estudo do professor. Os sociólogos privilegiavam as interacções com a realidade social (Carey s/d in Bogdan & Biklen, 1994). Os teóricos Ball & Goodson (1985) referem que a carreira e a experiência de vida do professor moldam, a sua forma de ensinar, a vida do professor fora do espaço escolar, identidade e cultura e tem impacto no seu trabalho como professor.

A utilização deste novo paradigma na corrente sociológica, como tudo na vida, é aceite por uns e criticada por outros investigadores, dos quais destacámos Bain (1929 in Bogdan & Biklen, 1994: 29) que publicou um artigo “The Validity of Life Histories and Diaries”, no qual explicou que defende o uso das histórias de vida e diários como adequados ao trabalho social mas não

à Sociologia, colocando em causa a validade científica. Não era possível aos investigadores tratarem das histórias de vida estatisticamente e nem padronizá-las.

A abordagem sobre as entidades profissionais tem sido trabalhada em diferentes correntes teóricas tais como a etnometodologia, a histórica, a sociologia fenomenológica, correntes que se desenvolveram a partir da Escola Polaca de Sociologia e da Escola Chicago no contexto de um paradigma qualitativo. Este tipo de abordagem tem vindo a adquirir um florescimento considerável de estudos a partir da década de 70, e que em 1980 acompanha o crescente interesse por parte da investigação educacional (Goodson, 2000 in Nóvoa, 2000). A autora Loureiro (1997: 119) alerta-nos para o facto de que “em Portugal a situação neste domínio é

ainda marcada pela carência de estudos empíricos”. A pesquisa tradicional funcionalista e

estruturalista ignorava o sujeito, enquanto singular, na sua totalidade e especificidade, o que deu mais forças aos seguidores das histórias de vida para prosseguirem com o desenvolvimento das narrativas (Sarmento, 2002; Afonso, 2005). Esta expansão é interpretada por Nóvoa (1992 in Afonso, 2005: 77) como “expressão de um movimento social mais amplo . .

. uma mutação cultural que pouco a pouco faz reaparecer os sujeitos face às estruturas e ao sistema, qualidade face à quantidade, a vivência face ao instituído”.

A ciência sociológica, surgiu em 1851, deu os primeiros passos através de registos, ilustrações e descrições de aspectos do quotidiano social, em 1862 o autor Henry Mayhew (Bogdan & Biklen, 1994) com as suas obras busca dar visibilidade às condições de vida em que se encontravam os desempregados e os operários. Há data de 1892 foi fundado o Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago por Albion Small que vai aproveitar esses trabalhos para a criação de um novo paradigma sociológico, em oposição ao paradigma positivista. Do ponto de vista teórico Faris (1967 in Bogdan & Biklen, 1994) redige que os sociólogos interpretavam os símbolos e as personalidades como meios de interacção social, metodologicamente baseavam-se no estudo de caso, quer a título individual ou conjunto (Wiley 1979 in Bogdan & Biklen, 1994).

Para Denzin (1995 in Sarmento, 2002: 256) as características das histórias de vida manifestadas no Departamento da Universidade de Chicago vão encontrar outros desenvolvimentos na Europa e diferem do que se faz hoje:

“começava-se por uma selecção de hipóteses de pesquisa e de problemas a serem respondidos, com tentativa de operacionalização de conceitos-chave depois de seleccionada uma situação e um sujeito; depois seguia-se a recolha dos acontecimentos e das experiências da vida subjectiva que pertenciam ao problema em estudo; partia-se então para o seccionamento dos acontecimentos por pontos de vista, contradições, irregularidades e descontinuidades, procurando-se interpretações subjectivas destes

acontecimentos na sua ordem cronológica ou natural; a análise dessas recolhas era feita em termos de validade e fiabilidade”.

Resolvida a validade do estudo, partia-se para as hipóteses a fim de serem testadas; organizada a história de vida, submetida a outras opiniões, finalizando passavam à elaboração do texto final tendo em conta o enquadramento teórico. Este método de elaboração de um estudo foi progredindo com o apoio da Antropologia.

Para Ferrarotti (1983 in Sarmento, 2002) o método biográfico para se tornar mais específico necessita de uma renovação metodológica, da exigência de uma nova Antropologia, passando o mesmo a sofrer modificações e a definir várias finalidades. As finalidades antropológicas, na década de 20 a 40, incidiam na necessidade de perceber as dimensões culturais da humanidade. A Antropologia, escola de investigação educacional qualitativa ouvia o que os professores tinham para dizer, respeitavam e tratavam com rigor os dados que os professores proferiam no decorrer das narrativas. Segundo a tradição, o investigador após recolha e observação dos dados, colocava de lado os que não serviam os seus interesses, mas neste modelo os dados fornecidos pelos professores são invioláveis e após rigorosa análise é que os dados serão ou não dispensados (Goodson, 2000 in Nóvoa, 2000).

Os trabalhos desenvolvidos nesta área pela Escola de Chicago, durante as décadas de 20 e de 30 revelaram grande importância na corrente Sociológica com recurso a entrevistas directas e a meios de observação social. Segundo Poirier (et al., 1999) no decorrer dos anos 50 houve um crescente interesse na Europa em aplicar e desenvolver a metodologia histórias de vida, ao passo que na América esse interesse foi desaparecendo. Bertaux (1976 in Sarmento, 2002) acentua que entre 1944-1973 aumentou a curiosidade pela idiossincrasia, não descurando o contexto cultural onde o indivíduo se desloca, a utilização das histórias de vida ofereceu uma forma de observação dos percursos sociais.

A sociologia da Escola de Chicago só tardiamente é que teve algum impacto na Sociologia da Educação. Entre 1893 e 1935 foram realizadas mais de uma centena de doutoramentos, só duas se relacionavam com questões educativas (Faris, 1967 in Bogdan & Biklen, 1994). Como caso isolado em Bogdan & Biklen (1994: 30) destacam uma tese de mestrado de Willard Waller, em 1932, intitulada Sociology of Teaching que incide na temática educação, baseada em histórias de vida e outros recursos como entrevistas em profundidade, observação participante, registos de casos, diários, cartas entre outros documentos pessoais. A sua intenção era auxiliar os professores a tomarem consciência sobre as realidades sociais escolares. A Sociologia da Educação terá iniciado os seus trabalhos com recurso às

metodologias quantitativas, procurando agora a afirmação do paradigma qualitativo. A perspectiva sociológica chama à atenção para o facto de ao estudarmos o ciclo de vida devemos ter em consideração a influência de factores sociais que geram diferenças significativas nos estádios de desenvolvimento dos professores, a perspectiva psicológica interpreta o ciclo de vida como uma sequência biológica, igual para todas as pessoas.

No decorrer das décadas de 30 e 50, a depressão verificada nos EUA e os problemas sociais entre os emigrantes e os nacionais, parece que originaram o interesse pelas abordagens qualitativas, com objectivo de deixar registado a natureza e a extensão desses problemas, assim a educação passa a ser vista como um meio de intervenção nas mudanças sociais e culturais. Actualmente, este movimento têm-se imposto despertando o interesse dos psicólogos pelos professores, estudando o seu ciclo de vida, stress, dilemas ou de sociólogos pela profissão docente que procuram conhecer as memórias, o universo social da camada docente (Nóvoa, 2000).

10.3 Material biográfico uma breve apresentação de várias definições