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5.3 Flow control
3.1 Momentos que condicionaram a entrada na gestão escolar
Registou-se que a entrada de FG para o Conselho Directivo não foi por iniciativa pessoal, a entrada ficou a dever-se a um convite por parte da Presidente que integrava na altura o Conselho Directivo, isto em 1979/1980. Aceitou o convite porque gostaria de experimentar algo novo dentro da profissão e também porque iria ficar com duas pessoas experientes no órgão de topo. Formou uma equipa e foram eleitos. Na altura em que teve de constituir equipa, pela primeira vez, deparou-se com uma dificuldade devido a ter só frequência de um ano na escola “ES” não conhecia muito bem as pessoas, no entanto conseguiu formar equipa. Para isso teve em conta alguns aspectos na escolha das pessoas constituintes da sua lista, como serem trabalhadoras “não [gostava], nunca [gostou] na vida de trabalhar com pessoas que começam uma coisa e depois deixam”, e serem organizadas “[FG] não [gostava] de trabalhar com pessoas desorganizadas [fazia-lhe] confusão aliás mesmo quando [vê] pessoas
desorganizadas [faz-lhe] confusão à cabeça” e poder despositar confiança “para [FG] o aspecto fundamental numa equipa de trabalho [era] a chamada confiança mútua”.
3.2 Desempenho do cargo
É neste contexto de desempenho do cargo que FG nomeou alguns atributos pessoais/profissionais que considerou serem motivadores para o cargo de Presidente do Conselho Directivo/Executivo; a preferência pelo trabalho de grupo; a desmistificação do ideário de poder em relação ao cargo.
Em relação aos “atributos pessoais [FG] pensa que (...) é o bom senso, (...) é preciso é a pessoa ser ponderada, ser dialogante numa palavra é o bom senso”. Quanto aos atributos profissionais “[FG] tinha feito um estágio clássico”, agora “atributos profissionais para a gestão nem [FG] nem ninguém, aliás naquela época e mesmo ainda hoje ninguém tem” e “[FG] não tinha (...) alguma classificação profissional para isso”.
No desempenho de um cargo destes a eleição vai para o trabalho em grupo, “[FG] [preferia] trabalhar em grupo porque há outras pessoas que têm outra maneira de ver e poderá ser até bastante melhor (...) e costuma-se dizer que da discussão nasce a luz e é muitas vezes essa troca de impressões, troca de pontos de vista que leva a arranjar uma solução, uma saída e portanto eu sou um adepto do trabalho em grupo”. Algumas vezes “[gostava] de trabalhar sozinho isso [era] nas pequenas coisas” por exemplo organização de papéis, decisões simples e que não necessitassem do alvará de mais ninguém.
No que respeita às funções que compete ao Conselho Directivo/Executivo e o ideário de poder FG colocou algumas interrogações “qual poder, (...) um órgão que depende sempre dos serviços de um outro acima dele, cujas decisões são sempre passíveis de serem questionadas por quem está acima dele” “se, por acaso, alguém pensa que ir para o Conselho Directivo/Executivo, (...), é uma questão de poder, aquilo não dá poder nenhum, dá é o poder de ter muitas dores de cabeça, isso dá”. O poder do Conselho Executivo continua a ser muito limitado “o ambiente que terá os poderes que lhes são conferidos pela lei, pelos normativos é um poder que está sempre metido dentro de uma legislação e terá uma determinada margem de manobra de espaço”. O poder é algo muito relativo” mas “às vezes pode entrar-se numa situação de quero, posso e mando e isso não leva a lado nenhum, pronto leva a conflitos e à mínima coisa a faísca salta portanto [FG] [penso] que depende da harmonia é evidente que a última decisão cabe sempre a quem responde perante os seus superiores hierárquicos portanto cabe sempre ao órgão de gestão”.
No que respeita às funções pedagógicas do Presidente do Conselho Directivo/Executivo FG referiu que “ele é o coordenador de toda a parte pedagógica da escola, é evidente que ele se apoia no Conselho Pedagógico (...)”. Quanto às tarefas administrativas do Presidente do Conselho Directivo/Executivo “as administrativas (...) é a aplicação da legislação em vigor e outras tarefas até mais burocráticas (...)”. FG “não [se] [sentia] mal com a parte administrativa, [ele] quando [refere] parte administrativa é a parte legislativa, a leitura, interpretação e aplicação da parte legislativa, [FG] acha que isso é muito importante (...) o presidente não [pode] descurar (...) a leitura atenta e atempada de todas as instruções e legislação seja em circulares, em despachos, em decretos, em portarias (...)”.
3.3 Aquisição de desempenho para o exercício do cargo de Presidente do Conselho Executivo
Neste ponto optámos por deixar, na primeira pessoa do singular, a opinião de FG quanto à necessidade de formação para o exercício do cargo e quanto à ideia de quem deve gerir ou dirigir uma escola. Para FG “onde poderá haver uma falha é na parte administrativa para a qual a pessoa não estará preparada e aí a pessoa terá que se apoiar nos serviços administrativos”.
Posteriormente referiu a necessidade de formação na área de administração e gestão educacional para quem se candidata ao cargo de Presidente do Conselho Executivo visto que “uma escola não pode ser confundida ou gerida como quem gere uma empresa porque uma empresa tem um fim em vista que é o lucro e tem de ter lucro se não terá de fechar as suas portas, ora o fim em vista de um estabelecimento de ensino ou de uma escola é a formação dos alunos”.
Depois a hipótese de “ter como gestor um elemento estranho à escola, um elemento que pode até nem ser professor, isso a mim é que me faz um bocado de confusão e mete-me um bocado de medo porque isso é a tal concepção, até posso estar errado no meu pensamento, de que a escola é uma empresa e a escola não é uma empresa”. “Vai-se agora pegar numa pessoa licenciada em economia ou direito e vai para a frente na escola assim sem mais nem menos é essa pessoa que vai gerir a escola, que vem orientar a escola, eu não estou a ver com bons olhos isso”.
“A minha opinião é que uma escola não é uma empresa, (...) a “matéria-prima” duma escola são pessoas, são alunos e não é como uma empresa qualquer de metalurgia que se pega na chapa mete-se na máquina e do outro lado saem parafusos (...) a “matéria-prima” de uma
escola são miúdos que vão crescendo dentro dessa escola, (...) e a função da escola é prepará-los para a vida académica seja para a outra vida”.
As escolas para FG devem ser geridas por professores “se for um professor ainda pelo menos em teoria, por isso é que eu digo em teoria qualquer Presidente do Conselho Directivo qualquer elemento integrante do órgão de gestão logicamente à partida está preparado, ele fez uma licenciatura, fez o seu estágio ou clássico ou integrado ou outro qualquer tipo de estágio, ele é considerado profissional pelos serviços centrais para o ensino, é um professor do quadro não é por acaso que a legislação diz que o presidente e o vice-presidente (...) têm que ser professores do quadro portanto são pessoas efectivas penso que pedagogicamente estão preparados portanto a parte pedagógica está assegurada”.
A opinião de FG vai exactamente ao encontro do que apresentámos na nossa justificação do estudo.
3.4 Compreender o desenvolvimento profissional no quadro do desempenho de funções de gestão escolar
No presente estudo, procurámos adaptar ao modelo de aquisição de destrezas de Dreyfus o desenvolvimento profissional ocorrido dentro da gestão escolar. O desenvolvimento profissional do entrevistado está aliado a vastos anos da sua permanência na gestão escolar. Primeiramente para FG a integração no Conselho Directivo implicou uma consciencialização das responsabilidades porque “não se pode concorrer ao Conselho Executivo a dizer agora vou para lá estou bem no lugar, não faço nenhum, não vou dar aulas, não vou aturar “cachopos” claro que isso é mentira! Tenho de aturar os “cachopos” e os pais (...) é um mundo muito grande!”
Tais responsabilidades envolvem a vida de terceiros e por isso as acções de FG enquanto Presidente do Conselho Directivo/Executivo passaram a ser tomadas de acordo com normas, competências e atribuições que dizem respeito ao Conselho Directivo/Executivo, por isso “as pessoas tinham de compreender certas tomadas de posição, poderia não ser do agrado das pessoas mas tinham de compreender que qualquer órgão de gestão de uma escola responde perante os serviços centrais e não perante os colegas”.
Sendo o Conselho Directivo/Executivo constituído por uma equipa que dirige uma escola que é um local de ensino onde se movimentam os docentes, os alunos, o pessoal não docente, pais,
encarregados de educação e parcerias acontece por vezes situações conflituosas. FG na tentativa de resolver os possíveis conflitos utilizou o diálogo como dissipador de conflitos porque tinha plena consciência que “o facto de [ele] ser presidente não [queria] dizer que [ele] tivesse sempre razão porque apresentava determinadas coisas que os [seus] colegas achavam que talvez não fosse bem assim, podíamos pôr a questão de outra maneira e quando eles por vezes também punham outras coisas [FG] dizia talvez não fosse esse o meio. A verdade é que era conversando que [eles] [chegavam] a algum lado”.
O facto de ter sido adepto do diálogo, ter tido consciência das responsabilidades que o desempenho do cargo acarreta, FG conseguiu “[manter] uma equipa que pelo menos neste momento o actual presidente e uma das vice-presidentes estiveram [com ele] alguns vinte anos”, “as divergências ficavam entre nós mas a maior parte das vezes eram consertadas, se não fossem consertadas nunca conseguíamos estar todos a trabalhar durante mais de duas décadas”. Ao longo dos seus mandatos a equipa manteve-se inalterada o que permitiu um apuramento da sua coesão porque as pessoas passaram a conhecer melhor os hábitos de trabalho de cada pessoa, bem como as opiniões o que proporcionou aquela situação de que às vezes já nem era preciso falar, ou seja cada um já sabia o que fazer perante determinada situação.