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Chapitre VII : Les problèmes de l’Habitat :

VII.7. Le problème de l’hygiène

O digital divide é referido por Campbell (2006) como a diferença entre aqueles que possuem acesso à Internet e os que não o têm. O autor considera que esta definição se está a tornar cada vez mais complexa e dependente de vários fatores sociais. A importância do conceito é tanto maior quanto a da própria Internet, que tem vindo a adquirir um papel crescente nos contextos educativo, lúdico e de convívio social de muitas crianças e jovens (Gomes, et al., 1997).

As medidas a favor do combate à exclusão tecnológica que ocorreram em Portugal, desde 2006, conduziram à disponibilização de tecnologias nas escolas e nas bibliotecas públicas e promoveram também a aquisição de computadores portáteis pelas famílias a baixo custo ou a custo zero, dependendo dos seus rendimentos (por exemplo o programa

e.escolinha referido no ponto 2.1. Medidas governamentais para a tecnologia educativa

(ver página 11).

Apesar de o nosso país ter iniciado este esforço na melhoria do acesso à tecnologia mais tarde do que a maioria dos congéneres europeus, estas medidas mostram que Portugal era o estado com maior número de portáteis usados pelos mais jovens (Ponte et al., 2011), o que corresponde a uma mudança vertiginosa já em processo regressivo. Mas a difusão generalizada de tecnologia não significa acesso também generalizado à rede mundial. O relatório do projeto EU Kids Online 2 (Ponte, et al., 2011) refere que cerca de 22% das crianças auscultadas ainda não acedia frequentemente à Internet. Será que estamos a valorizar mais a tecnologia do que o uso que dela fazemos? De facto, segundo o mesmo relatório, em Portugal, a frequência de acessos à Internet estava muito abaixo da média europeia. Os programas nacionais já referidos permitiram o acesso à tecnologia a baixo custo, mas a utilização da Internet ainda tem custos altos, o que pode ser um fator de inibição do acesso à rede.

Chris Campbell (2006) afirma que a percentagem de acesso à Internet, em casa, junto de famílias abastadas é muito mais alta do que o mesmo índice junto de famílias socialmente menos favorecidas. Este autor conclui que as diferenças sociais parecem estar a ser agravadas pelo acesso à Internet, pelo acesso à informação e à cultura e pela facilidade de comunicação proporcionada por estes meios. As famílias de estatuto económico mais alto possuem acesso à Internet em casa e têm mais experiência de utilização destes meios, o que permite aos jovens passarem mais tempo online e desenvolvem mais competências tecnológicas e maior sensibilidade para os perigos a

elas inerentes. A relação entre a discriminação social e a exclusão de acesso à rede mundial pode ser ainda agravada quando, no contexto europeu, a Mediappro (2006) conclui que existe uma forte probabilidade de conjugação com outros fatores exclusivos, de entre os quais refere o acesso à educação, à habitação, à nutrição e à saúde. Livingstone & Bober (2005) conseguem dados quantitativos que referem cerca de 100% de acessos, em casa, nas famílias da classe média, enquanto nas mais desfavorecidas esse valor é ligeiramente superior a 50%. O projeto EU Kids Online 2, alguns anos depois, chega a resultados semelhantes (Livingstone et al., 2011).

Para além dos fatores socioeconómicos, a variável género parece também associada à exclusão digital. Este fator parece ultrapassado na Europa (Ponte, et al., 2011), mas em Portugal continuam a existir diferenças grandes: as raparigas acedem menos do que os rapazes, em particular no que se relaciona com jogos online. Em sentido oposto, as meninas comunicam mais do que os meninos (Livingstone & Helsper, 2007). Não recolhemos dados que nos permitam perceber se, no número total de acessos, a variável género tem peso importante, mas as opções de utilização dos meninos são diferentes das escolhidas pelas meninas.

Outro dado interessante do mesmo relatório (Ponte, et al., 2011) relaciona-se com a idade em que os jovens começam a aceder à Internet. Em Portugal conclui-se que o primeiro acesso é feito por volta dos 10 anos, enquanto na Suécia essa iniciação se faz com 7 anos. Acreditamos que estes dados ainda têm um fraco reflexo do programa

e.escolinha, que abrange a população a partir dos 6-7 anos, mas pode também significar

que os alunos possuem o computador Magalhães mas não o utilizam para acesso à Internet.

A utilização que os jovens fazem da tecnologia depende, em boa parte, das aprendizagens que vão efetuando junto das várias comunidades de que são membros, em que a família, os amigos e a escola têm papéis importantes. No relatório sobre apropriação dos média pelos jovens (Mediappro, 2006) refere-se que a aprendizagem pode ser feita com a ajuda de um amigo ou de um irmão, mas que é maioritariamente individual, pois os jovens aprendem sozinhos por exploração e na tentativa de resolver desafios. O modo como a aprendizagem se efetua relaciona-se com as competências tecnológicas das várias gerações que compõem as famílias a que pertencem os jovens e com as sugestões de atividades proporcionadas pela escola.

O papel de mediação da família na utilização que os jovens fazem da Internet tem influência nas competências digitais que desenvolvem. Assim, nas situações em que os pais praticam uma mediação mais restritiva, os filhos deparam-se com menos riscos mas têm menos oportunidades de exploração da Net e consequentemente desenvolvem menos competências digitais. Por outro lado, os que praticam uma mediação mais ativa com maior colaboração nas atividades dos filhos, permitem que eles se deparem com mais riscos e maior diversidade de experiências online desenvolvendo maiores competências digitais (Duerager & Livingstone, 2012). Mas a mediação é efetuada em contextos familiares onde os mais velhos são utilizadores das tecnologias e Ponte, et al. (2011) afirmam que dois terços das crianças são os únicos utilizadores da Internet em casa. Segundo Prensky (2001) os jovens são nativos digitais, utilizam as tecnologias com naturalidade porque cresceram delas rodeados, enquanto os pais são migrantes digitais e têm alguma dificuldade em se adaptarem a elas. White, Manton, & Cornu (2008) discutem e atualizam o conceito de nativo/migrante enunciado por Prensky. Segundo estes autores o modo como nos relacionamos com as tecnologias não depende da nossa idade, mas de experiências anteriores e de grupos de interesse em que tenhamos vivido. Aqueles que tiveram oportunidade de utilizar as tecnologias com frequência, no trabalho ou em atividades de lazer, já assumem alguns comportamentos que não são comuns na sua geração, por exemplo, que é mais simples e mais eficaz pesquisar um conceito na Internet do que consultar uma enciclopédia em papel, porque a diversidade de informação a que têm acesso permite uma melhor apropriação do referido conceito. Assim, White, Manton, & Cornu (2008) propõem uma classificação de residente/visitante digital que não depende da idade mas sim das vivências tecnológicas do indivíduo. O meu percurso profissional corrobora esta noção de residente/visitante em desfavor da anterior (nativo/migrante) uma vez que, apesar de ter nascido na década de 50 do século XX, e poder ser classificada como migrante digital, comecei a utilizar as tecnologias com cerca de vinte anos e hoje considero-me uma residente digital, uma vez que a tecnologia faz parte do meu quotidiano. Não obstante estarmos de acordo com esta ideia de White, Manton, & Cornu (2008), constatamos que muitos dos visitantes digitais também são migrantes digitais e que as gerações mais velhas têm frequentemente uma posição tecnofóbica em oposição ao reconhecimento das vantagens de utilização das tecnologias e da necessidade de adquirir competências nesta área (Monteiro, 2007). Segundo esta autora, o fosso geracional conduz a que os jovens tenham, em muitos casos, mais competências tecnológicas do que os seus pais, que lhes servem de referência em todas às áreas comportamentais com exceção desta. A História habituou-nos a viver numa

sociedade com uma organização vertical onde os mais velhos ensinam e conduzem os mais jovens mas, no caso das tecnologias, esse controlo perdeu-se, pelo que os mais jovens passaram a ter autonomia e controlo sobre uma parte da sua vida. As crianças crescem num contexto desconhecido para os mais velhos, “onde são elas próprias que, de acordo com os seus interesses, selecionam o tipo de informação a assimilar, construindo os seus modelos de conhecimento, crescimento e sociabilidade” (Monteiro, 2007, p. 523). Esta noção de controlo sobre a família estende-se à própria tecnologia. Segundo Turkle (1997), a atração exercida pelas tecnologias associa-se a uma sensação de controlo e os jovens podem sentir-se atraídos por mundos simulados onde se sentem donos e senhores do seu pequeno universo. O desenvolvimento tecnológico da criança pode contribuir para que a família aprenda a usar o computador. No prefácio do livro “A Família em Rede”, Negroponte faz uma afirmação com o mesmo sentido: “nunca antes tivemos tanto a aprender com os miúdos, e admitimos esse facto” (Papert, 1997, p. 15).

Um contexto familiar pobre, do ponto de vista tecnológico, não é propício ao desenvolvimento de competências básicas para avaliação de conteúdos online, uma vez que os jovens não tiveram formação nem existem referências em casa que lhes permitam adquirir essas competências (Livingstone & Bober, 2005). Um outro aspeto do mesmo problema é que os jovens não utilizam todo o potencial da Internet: têm experiências pouco diversificadas, visitam uma estreita gama de sites, não interagem com outras pessoas (Livingstone & Bober, 2005), ou nem sempre são capazes de avaliar a informação que recolhem (Mediappro, 2006). Este é um outro aspeto da exclusão tecnológica: mesmo com acesso à tecnologia e à Internet, a fraca qualidade de utilização pode ser desmotivadora de um uso mais assíduo. A diferença entre aqueles que efetuam uma utilização rica e diversificada que se torna estimulante e os outros para os quais a utilização surge ocasionalmente e com pouco significado transforma-se também num fator de exclusão tecnológica (Livingstone & Bober, 2005). Este último facto de inclusão tecnológica conduz-nos à necessidade de perceber melhor como os jovens usam a tecnologia e em particular a Internet, pois esse conhecimento permitirá tomar medidas para reduzir os perigos a que possam estar expostos.