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5.4 Pattern organisationnel pour la simulation

5.4.4 Principe de simulation associ´ e

Fala-se em terra de sulanqueiros, pois, como apontado no capítulo II, desde a década de 60, Santa Cruz do Capibaribe, que tinha uma atividade predominantemente agrícola, foi cedendo espaço às atividades de confecção de vestuário, que são predominantes, não só na cidade, mas na região em que está localizada. Os trabalhadores ocupados no setor de confecções totalizam um número de 38.973 habitantes numa sociedade de 72.459 pessoas em idade economicamente ativa. Isso indica um percentual de mais da metade da população ativa, 53,8%, ocupada com atividades confeccionistas. (IBGE, 2013; SEBRAE, 2013)

Tal predominância tanto pode ser justificada pelas estatísticas apontadas, como pela ideia de que a atividade da sulanca garante a

sobrevivência da população, criando emprego para todos. Como cita Pereira Neto (2011) em sua pesquisa:

Esses números parecem ser reforçados pela auto-percepção dos agentes envolvidos, ao enfatizarem, em seus discursos, a ideia de uma terra sem desemprego. No conjunto de entrevistas realizadas em campo, essa ideia esteve associada fortemente às carências de mão-de-obra, principalmente de costureiras, observadas nas inúmeras placas espalhadas em cada unidade produtiva da cidade onde se anuncia essa demanda. (p. 112)

Esses dados são indicativos, pelo menos imaginariamente, de um lugar de primazia à sulanca e às pessoas que dela se ocupam, visto que mudaram consideravelmente o cenário santacruzense. Tal discurso, que exalta as vantagens das atividades confeccionistas, não é ingênuo ou desprovido de sentido, mas reforça um ideal de poder perante as demais formas de trabalho.

Essa atividade é considerada como central para economia local, isso é perceptível na fala da professora: “[...] por conta que é a renda aqui do nosso município, porque se, tudo depende da sulanca, né?” (Clara, 38 anos, 20 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe há 11 anos, mas nasceu em uma vila do município).

A marca que nos propomos a tratar nesse tópico diz respeito ao lugar social do professor, ou seja, o modo como ele existe em meio à atividade confeccionista predominante nessa configuração. Para isso, é importante destacar que “o que caracteriza o lugar do indivíduo em sua sociedade é que a natureza e a extensão da margem de decisão que lhe é acessível dependem da estrutura e da constelação histórica da sociedade em que ele vive e age.” (ELIAS, 1994b, p. 49).

Dessa maneira, como observamos na questão anterior, a margem de decisão do professor parece ser um tanto limitada, a maioria aponta a docência como o que foi possível. Isso de algum modo esboça um lugar social enfraquecido, pois a margem das escolhas é bastante restrita nessa configuração.

Esse campo de alternativas possíveis que faz com que alguns escolham a arte de lecionar não é algo que exclui a sulanca, há uma relação de interpendência entre as duas atividades. Assim:

A rede de interdependência entre os seres humanos é o que os liga. [...] Uma vez que as pessoas são mais ou menos dependentes entre si, inicialmente por ação da natureza e mais tarde através da aprendizagem social, da educação, socialização e necessidades recíprocas socialmente geradas, elas existem, poderíamos nos arriscar a dizer, apenas como pluralidades, apenas como configurações (ELIAS, 1994c, p. 249).

Essa relação de interdependência ocorre até mesmo quando os atores envolvidos na sulanca desvalorizam a educação formal e a figura do professor. Pois, os mesmos necessitam de uma formação básica para executar sua atividade, que requer o mínimo de noções numérico-matemáticas e de linguagem, que são aprendidas através do professor. Como ilustra a fala da professora Carmem, sobre a posição do aluno diante do conhecimento que lhe é necessário:

E a sulanca em si, ela atrapalha em várias questões, principalmente na questão econômica, está estudando, por quê? Pra quê? Basta ler e contar, que é só o que a sulanca exige, só! Pra que mais? Pra eles, quantas pessoas eu já não formei, que fizeram apenas até o segundo grau [...]. E o quê que eles dizem? Não professora, eu já, eu só aprendi mesmo a ler, escrever, contar, porque é o que minha profissão de sulanqueiro exige, pronto! Então eles terminam o segundo grau, só pra dizer: terminei. Mas não porque influenciou na prática dele, no seu trabalho, de forma nenhuma, só porque queria uma formação realmente. (Carmem, 40 anos, 16 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe há 30 anos).

Com esse discurso (não porque influenciou na prática dele, no seu trabalho, de forma nenhuma), a professora não se dá conta de que a educação toca de algum modo a vida dos alunos, visto que é na escola que os sulanqueiros aprendem a ler, escrever e contar, ainda que esse aprendizado ocorra nas séries iniciais e ela não consiga perceber a efetividade ou a aplicação do conteúdo ministrado no nível mais avançado de ensino.

Esses mesmos sujeitos, que aprendem noções básicas na escola, em seus discursos reproduzem e apontam um lugar de inferioridade financeira àqueles que optam pelo espaço educacional. Ser professor é sinônimo de não ganhar dinheiro. Sofia nos relata que os alunos dizem:

A senhora ganha dinheiro professora? É, eu digo assim: o seu salário é bom? Aí, eles sabem tanto do nosso salário, que diz assim: a gente ganha mais do que a senhora. E realmente é! (Sofia, 48 anos, 15 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe desde que nasceu).

Isso demonstra a desvalorização simbólica da figura do professor e do seu trabalho (o docente é alguém que não ganha dinheiro), embasada na questão financeira. Tal fenômeno aproxima o professor do sulanqueiro, afinal, como aponta Marcelo (2009), o docente é um operário do conhecimento. A entrevistada Júlia nos dá um exemplo de como essa questão pode atravessar o fazer do professor:

Olha, a interferência que tem é porque faz com que você infelizmente veja o quanto a profissão é desvalorizada. Vou te dar um exemplo: tem feiras no mês que a gente chega a tirar numa feira o que ganha no mês de trabalho. Então, a questão financeira te faz ver isso, infelizmente! (Júlia, 32 anos, 12 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe desde que nasceu).

De certo modo, essa valorização da sulanca em detrimento da escolarização ocorre porque é a principal fonte de renda da população, o que dificulta o trabalho do professor (aquele que trabalha um mês para receber o equivalente a uma feira boa) e a ideia de que a escola realmente tem algo que possa contribuir para a vida dos seus educandos. Ney relata sua experiência de lecionar em Santa Cruz do Capibaribe:

Ser professor aqui, como em qualquer canto, é muito difícil, mas Santa Cruz tem um diferencial, das outras regiões, dos outros municípios. As pessoas tem um poder aquisitivo aqui, num é? Até os mais pobres, eles tem emprego, num é isso? E por ter emprego, eles não se interessam muito por educação (Ney, 33 anos, 10 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe desde que nasceu).

Apesar dessa ideia de que todos possuem emprego, é importante salientar que há uma diferença entre o sulanqueiro bem-sucedido e os pequenos comerciantes. Quanto ao último, o professor parece estar no mesmo patamar financeiro, com a diferença da estabilidade. Sendo assim, vale destacar que o abismo é em relação ao grande empresário, pois “como sulanqueiro, aquele que se dá bem, né? Não precisa mais nem passar na frente ‘duma’ escola mais” (Flora, 41 anos, 20 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe há 35 anos).

O que pode ser observado também no recorte abaixo, o qual Daniela ressalta as vantagens de quem se dedica à sulanca, principalmente aos indivíduos que lograram êxito nessa atividade:

Se bem que quem trabalha com a sulanca vive bem melhor do que quem, quem tem uma profissão, é... é uma prestação de serviço. É bem, é autônomo, quem trabalha com a sulanca é autônomo, então [...] Principalmente os que conseguiram progredir, né? Em suas profissões, suas facções, fabricos e fábricas (Daniela, 27 anos, 7 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe há 24 anos).

Na sua fala, o professor Rui evidencia claramente uma diferença entre os comerciantes que cresceram em sua atividade e os mais simples, ou os empregados das confecções (que parecem permanecer no mesmo nível econômico dos professores). Ser docente nesse contexto é um desafio, pois os proprietários possuem uma situação financeira consideravelmente melhor:

Olha, ser professor em Santa Cruz, em Santa Cruz, é um desafio... eu acho, viu? Mas assim, isso em função da questão da confecção, porque quem trabalha na confecção, num é? É, donos, eu digo, tô falando na questão de você ser proprietária de, ter o seu próprio, seu próprio, sua própria empresa, não é? Sua própria empresa, então você tem uma condição financeira muito bem, muito melhor do que mesmo ser professor, num é? Então ser professor em Santa Cruz é na verdade, eu acho que seria você dizer assim: eu estou aqui como alguém que estou contribuindo na formação de outras pessoas, num é? E... e... com relação a atividade econômica, tá certo? Eu, eu diria que é um grande desafio, você deixar de estar no comércio, né? Pra realmente ser professor, tá entendendo? Porque as pessoas que trabalha, é, na atividade de confecção de Santa Cruz, eu

não tô falando na questão de, de, da pessoa que é empregado não, mas quem é proprietário, tem uma situação bem melhor do que o professor (Rui, 58 anos, 20 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe desde que nasceu).

Apesar de usar o pronome na segunda pessoa do singular (é um grande desafio, você deixar de estar no comércio, né?) Rui fala dele, do desafio que é para ele diante desse contexto, escolher o magistério. Para justificar esse lugar desafiador, elabora um discurso de idealização da docência (eu estou aqui como alguém que estou contribuindo na formação de outras pessoas).

Para além desses discursos sobre o não reconhecimento na figuração local, também é importante ressaltar que cinco dos professores falaram do seu lugar social a partir de uma perspectiva mais globalizante. Igualando, assim, o magistério em Santa Cruz do Capibaribe às demais localidades. Os discursos desses entrevistados são ilustrados na posição de Nara, que apesar de citar a sulanca, acha que as dificuldades da docência se configuram de maneira equivalente em todos os lugares:

Ser professor em Santa Cruz eu acho que é como em todas as outras cidades, não vejo uma diferença por município, em ser, ou por estado em ser professor não. Acho que as mesmas dificuldade que a gente passa aqui, a gente passa na, os mesmos professores passam nas demais cidades [...] Aqui tem mais assim, a questão da, da, da confecção, da sulanca, que eles se desbandeiam mais para o lado de lá [...] que eles valorizam mais, né? Mas eu acredito que os mesmos problemas que a gente passa aqui, nas outras cidades também, por um outro motivo, devem passar. Acho que a desvalorização educacional é geral (Nara, 44 anos, 22 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe desde que nasceu).

Ainda nesse sentido, Rita considera que “[...] não só em Santa Cruz, a realidade é a mesma, é quase a mesma, sabe? Política pra o professor é a mesma, num é? Então num diferencia muita coisa não!” (Rita, 45 anos, 16 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe há cerca de 20 anos). Segundo Lira (2013), isso é fruto de uma política nacional pouco efetiva para o magistério, de modo que:

[...] é essencial que a questão da desvalorização da profissão docente possa ser encarada como um problema a ser enfrentado a partir de uma política de Estado. Para que a mesma possa modificar a situação do professor, e não como mecanismos paliativos que em vez de melhorar a situação desse profissional acaba por impor novas exigências, ocasionado arrocho salarial, perda de garantias trabalhistas e previdenciárias. O desafio é articular o discurso político de valorização da profissão (ideia) com as possibilidades de sua materialização (efetivação) [...] (p. 71).

No entanto, as formas de dominação não estão centradas somente na questão econômica, apesar de que ela seja bastante notória na configuração que analisamos. Elias dá um exemplo da relação entre patrão e empregado, que pode ser aplicado no que se refere à desvalorização do professor face à configuração que tratamos:

Os que ocupam a posição de patrões são interdependentes dos que ocupam a posição de trabalhadores, devido à relação funcional que existe entre as duas posições. Mas a sua dependência recíproca não é a mesma — as forças do poder não são igualmente distribuídas. Mesmo a este nível, o problema não diz apenas respeito ao modo como o rendimento disponível é realmente dividido entre grupos que ocupam posições diferentes. A distribuição destas possibilidades «econômicas» é ela própria função de um maior equilíbrio de poder — a distribuição das possibilidades de exercer o poder entre estes grupos. O equilíbrio de poder dos interesses comerciais, não se expressa unicamente na distribuição de possibilidades «econômicas» mas também na distribuição de possibilidades que os membros de um desses grupos têm de controlar, de comandar e de despedir os outros, no decurso do seu trabalho (ELIAS, 2008, p. 156).

O equilíbrio de poder e a interdependência estão presentes na relação entre a docência e a sulanca. Pois não se pode dizer que o sulanqueiro é o único detentor de poder, pois o docente, no seu trabalho, exerce essa capacidade sobre os alunos, embora muitas vezes suas possibilidades sejam limitadas pela interferência da confecção e comercialização de roupas. Tais limitações ocorrem de diversas formas e podem ser representadas pelo absenteísmo dos alunos, como destaca Ana:

Santa Cruz tem um grande diferencial das outras cidades, que é o fato da sulanca, né? [...] Então, a gente lida com isso, acho

que desde que eu tô aqui, há 17 anos, que a gente lida com essa dificuldade na sala de aula, a falta do aluno, em alguns dias da semana, por conta da feira (Ana, 38 anos, 18 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe há 17 anos).

Ou até mesmo pelo fato de que os alunos se envolvem desde muito cedo na produção de peças de vestuário, e não se dedicam como deveriam as atividades escolares, como ressalta Marina:

[...] infelizmente a nossa cidade tem uma prática onde as crianças começam a ajudar seus pais com uns 7 anos de idade, e isso interfere demais no que diz respeito a aprendizagem. Porque que eles poderia ter em casa pra estudar ou ter uma ajuda na sua alfabetização, isso não acontece, porque tá ajudando os seus pais, na sua grande maioria. [...] Porque o mundo deles só é exclusivamente confecção. E a... e nós sabemos que tudo nunca é para sempre, e se não for com um pouquinho de conhecimento que eles adquira, as futuras gerações vai ficar um pouco a desejar na nossa cidade (Marina, 44 anos, 26 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe há 23 anos).

Além disso, há a falta de colaboração dos pais no processo de aprendizagem dos seus filhos, que deixa o professor sem possibilidades, pois além do seu fazer, ele necessita de uma contrapartida do aluno e da família. Iracema fala sobre essa dificuldade:

A gente, a gente faz um trabalho com o aluno pra ele fazer em casa e muitas vezes ele diz: professora, eu não faço não, não tive como fazer não porque minha mãe tava fazendo serão até não sei que hora, meu pai foi pra o moda center [...] O pessoal daqui de Santa Cruz vê muito a sulanca, sulanca, sulanca! Até assim, na realização de, realizar um outro, na, pensar em fazer uma outra tarefa, muitos só pensam fabrico: ah, eu vou, eu vou fabricar, vou fabricar, e as vezes muita gente acha que o mundo tá, tá concentrado só aqui na sulanca (Iracema, 37 anos, 12 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe há 15 anos).

Entretanto, podemos observar ainda que com a predominância do setor confeccionista, a educação formal, por diversas vezes, é vista como algo que é

supérfluo, que não faz sentido ao indivíduo que pretende dedicar-se ao universo da produção de roupas. Nas palavras de Nara:

Como eu, eu, eu gosto de frisar, é, as pessoas não dão muito valor, né? A educação. Aqui tem mais assim, a questão da, da, da confecção, da sulanca, que eles se desbandeiam mais para o lado de lá. Acho que não seria a palavra desbandear, né? Eu falei desbandear, mas, é, se usaria outra palavrazinha, que eles valorizam mais, né? (Nara, 44 anos, 22 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe desde que nasceu).

A educação oferecida pela escola parece não fazer sentido para os alunos, não ser útil ao cotidiano deles, pois ressaltam que frequentar o espaço de aprendizagem é uma forma de perder tempo, quando poderiam estar trabalhando, como ilustra o discurso de Sofia:

[...] eu já ensinei a noite também e muitos alunos deixam de frequentar a escola porque tem que fazer cerão. Outros dizem: ah professora, eu vou desistir, (já perto do final do ano), porque, é, lá no meu fabrico tá precisando muito de cerão e eu num vou deixar de ganhar dinheiro pra tá em escola, escola num dá dinheiro (Sofia, 48 anos, 15 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe desde que nasceu).

O lugar do professor em Santa Cruz do Capibaribe é, sobretudo, o de saber lidar cotidianamente com as implicações e efeitos da sulanca no universo educacional. Manifestações essas que ocorrem sob vários prismas: apontando a desvalorização financeira do professor; dificultando o processo de ensino- aprendizagem (pela iniciação precoce e sem qualificação no mercado de trabalho por parte dos alunos); bloqueando a participação dos pais junto à escola (por esgotarem a maior parte do seu tempo nas atividades de produção); e desvalorizando a educação formal como algo importante ou útil.