5.3 Simulation dans MadKit
5.3.5 Exemples d’applications
No que se refere à escolha pela docência, é importante considerar que embora esse fenômeno seja marcado pelas subjetividades e diga respeito a histórias de vida muito particulares, a opção por esta profissão ocorre a partir do arranjo social local. Pois, na perspectiva elisiana, não se deve buscar explicações somente na ação individual, mas na relação entre o indivíduo e a sociedade. Sendo assim:
[...] as oportunidades entre as quais a pessoa se vê forçada a optar não são, em si mesmas, criadas por essa pessoa. São prescritas e limitadas pela estrutura específica de sua sociedade e pela natureza das funções que as pessoas exercem dentro dela. E seja qual for a oportunidade que ela aproveite, seu ato se entremeará com os de outras pessoas; desencadeará outras sequencias de ações, cuja direção e resultado provisório não dependerão desse indivíduo, mas da distribuição do poder e da estrutura das tensões em toda essa rede humana móvel (ELIAS, 1994a, p. 48).
Desse modo, é possível afirmar que a figuração que se ergue em torno da sulanca produz oportunidades específicas. Os indivíduos que residem há mais tempo na localidade conseguem perceber essa relação de modo mais nítido. Isso é possível observar no discurso de três das entrevistadas, que apontam a escolha pela docência como uma das opções impostas, entre ser costureira/sulanqueira ou professora:
Porque na época que eu tava estudando, cursando magistério, então eu, era mais fácil conseguir emprego, ou era professora ou costureira. Aqui, né? A confecção que já tinha iniciado aqui, então eu fiquei como professora (Sofia, 48 anos, 15 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe desde que nasceu).
Eu acho que mais por conta da família, e, eu entrei no magistério mais por conta da família. [...] Antes de começar a vida da escola eu era costureira. [...] Eu acho que na nossa cidade a nossa realidade é costura, né? É sulanca! Quem não sabe costurar é praticamente um analfabeto, mas a sulanca a gente não sabe até quando vai, também, se a gente fosse se dedicar a ela, os estudos ia ficar de lado (Gal, 32 anos, 8 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe há 23 anos).
É, eu escolhi ser professora... Por falta de opção na época, que o campo de educação, é, o campo era muito restrito, então, ou você era sulanqueiro ou professor. Num é hoje, hoje se abriu mais, né? Mas na minha época foi porque não tinha opção mesmo (Nara, 44 anos, 22 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe desde que nasceu).
O discurso de Gal traz elementos interessantes de serem analisados, de modo que ela muda de sujeito, deixa de falar na primeira pessoa do singular e passa a primeira pessoa do plural para justificar que ser sulanqueiro é um demérito, utilizando os termos “a gente”, “nossa”, o que indiica que essas construções ocorrem a partir do cultural. Ela ainda aponta a condição de analfabeto econômico para quem não sabe costurar, no entanto, a incerteza da durabilidade do setor confeccionista a faz escolher a docência, pois não basta ter dinheiro, é preciso ser estável.
Os fragmentos citados nos remetem a uma ideia de quais opções eram possíveis há cerca de 20 anos, principalmente para as mulheres. O ser professor para alguém que já residia em Santa Cruz do Capibaribe, na época do crescimento da sulanca, era a opção possível para os que não queriam se entregar ao ofício de costurar, trabalhar em fabricos ou nas feiras, diferentemente das docentes que se aproximaram da cidade pela abrangência de oportunidades de emprego.
O que implica dizer que não há um consenso sobre a identidade, pois aqueles que possuem um sentimento de pertença e cresceram no local conseguem ter mais clareza como foi o processo de disseminação da atividade confeccionista e seus ecos, diferentemente dos que lecionam e residem há menos tempo na cidade, que apesar de reconhecerem a influência dessa atividade não vivenciaram esse processo de escolha, migraram para cidade pelas oportunidades. Assim ocorreu com a entrevistada Iracema:
Eu vim aqui pra Santa Cruz comecei a trabalhar como vendedora em lojas, aí depois eu tinha várias amigas professoras, que as vezes eu ia dar aula no lugar delas, fazer substituição, aí quando foi um dia ela disse: olhe, preencha o currículo e leve pra secretaria de educação. Aí eu preenchi, deixei na secretaria, com um 2 meses depois ligaram da
secretaria pra mim tirar uma licença do EJA. Aí eu tirei 6 meses do EJA, depois 6 meses de educação infantil. E no ano seguinte eu fiz o concurso, passei e estou aqui até hoje (Iracema, 37 anos, 12 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe há 15 anos).
Como destacado no trecho acima, a entrevistada foi atraída pelas oportunidades de emprego, só depois ela busca seguir a carreira docente. Iracema, juntamente com muitos outros indivíduos, fizeram a população de Santa Cruz do Capibaribe crescer em mais de 50% nas últimas duas décadas, segundo os dados do Censo já apontados no capítulo II. Esse crescimento é motivado pela expansão do Polo de Confecções, nas palavras da professora Joana:
A sulanca é um atrativo pra essas pessoas chegarem de lugares tão diferentes, num é? Então vem de vários lugares do Brasil e até do mundo, num é? E a gente vê, percebe que é um atrativo. A sulanca também, por ela gerar muita renda, uma renda né? Um dinheiro bom, gerar emprego [...] (Joana, 46 anos, 18 anos de profissão e reside em Santa Cruz desde que nasceu, passou apenas um tempo morando em outra cidade).
No entanto, como toda sociedade está sempre adquirindo outros arranjos, o discurso das entrevistadas parece indicar que há uma diferença entre quando a sulanca foi implantada e hoje em dia, como destacou Nara ([...] ou você era sulanqueiro ou professor. Num é hoje, hoje se abriu mais, né?). Embora essa abertura de oportunidades conviva ainda com as possibilidades ligadas estritamente ao Polo de Confecções.
Isso porque quando nos referimos aos processos sociais é preciso levar em consideração que não se trata de fatos lineares. Essa abertura de perspectivas pode estar atrelada a implantação de alguns cursos de graduação na cidade, há cerca de nove anos. Bem como a incerteza da sulanca como um emprego estável, como ressaltou a entrevistada Gal (mas a sulanca a gente não sabe até quando vai). Em contraposição à ilusão de estabilidade do serviço público.
Nesse sentido, a teoria elisiana pode ser útil, auxiliando a desconstruir as dicotomias (entre a sulanca e a educação formal) que são utilizadas para analisar a história a partir de rupturas e mudanças bruscas:
Logo, é inerente às peculiaridades dos processos sociais que eles sejam bipolares. Diferentemente do processo biológico de evolução, os processos sociais são reversíveis. Surtos em uma direção podem dar lugar a surtos contrários e ambos podem ocorrer simultaneamente (ELIAS, 2006, p. 28).
Apesar de as oportunidades serem mais diversificadas atualmente, a opção pelo magistério ainda é considerada a que foi possível para oito dos entrevistados, mesmo que eles não tenham citado como uma escolha em oposição a sulanca, mas frisaram a cultura específica como promotora dessas alternativas:
Foi uma opção, porque... por falta de outras. Porque, na verdade eu queria ser estilista. Mas eu não tive oportunidade e eu resolvi ser professora (Marisa, 37 anos, 19 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe desde que nasceu).
É, e eu não queria de jeito nenhum não fazer magistério não, só que eu fui obrigada, tá entendendo? No início, porque só tinha só um transporte só pra trazer a gente pra vim estudar aqui em Santa Cruz, aí pronto, eu fiz (Clara, 38 anos, 20 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe há 11 anos, mas nasceu em uma vila do município).
Na verdade, é, foi mais assim, não tinha tanta opção. Como a maioria das minhas ‘colega’ ia fazer magistério e depois a mesma turma, é, foi fazer pedagogia. Aí assim, eu... vai pela maioria (Flora, 41 anos, 20 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe há 35 anos).
Essa falta de opção apontada nas falas acima remete tanto aos determinantes sociais, que permitiam nesse contexto a alternância entre as duas atividades, quanto à desresponsabilização das docentes, que não se dão conta que não escolher é uma escolha. Flora, ao falar de si, muda a concordância do verbo para a terceira pessoa do singular, para isentar-se da responsabilidade de ter escolhido à sala de aula (eu... vai pela maioria).
A maioria das colegas de Flora optou pelo magistério. Tal como elas, muitos professores escolheram compulsoriamente à docência, pois era o que estava dentro do campo de possibilidades. Tavares (2012), com base numa leitura elisiana indica que:
Este entendimento do que é possível como fruto da relação entre indivíduos e contextos, e de que essa relação esta sujeita a deslocamentos provocados pelas tensões inerentes às relações sociais, faz parte do que estamos chamando de campo de possibilidades. Por isto, a noção de campo de possibilidade se entende de forma relacional, entre as práticas sociais de cada um individualmente e do conjunto das pessoas entre si, em relação às estruturas e condições históricas e sociais. Um campo de possibilidades é definido por seus marcadores sociais, mas também pelas suas tensões, que esgarçam limites e tornam difusas as fronteiras do campo (TAVARES, 2012, p. 105).
O campo de possibilidades definido pela configuração que analisamos, não exclui que o professor vivencie no seu cotidiano atividades relacionadas à sulanca, sem ser necessário abandonar sua profissão. Essa conciliação de fazeres é observada em quatro das entrevistadas que vendem os produtos na feira e fabricam peças de vestuário, quando necessário. Como ocorre no caso de Bethânia: “Ajudo na feira alguns dias. No período de feiras boas, ajudo meus pais”. (Bethânia, 40 anos, 20 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe desde que nasceu).
Já no caso de Flora, ela concilia as duas atividades por considerar que são flexíveis no que diz respeito ao horário, e que dedicar-se a apenas uma delas pode ser estressante:
Eu trabalho com a sulanca também, é, tenho um fabrico e fabrico algumas coisas também, além da profissão. É por isso que eu trabalho só um horário, é, como professora, e, o outro horário eu me dedico a outra atividade. [...] Dá, dá pra conciliar, até porque assim, teve uma época que eu trabalhei só com a escola, né? E eu acho assim, dois ‘horário’, dois ‘horário’ fica um pouco estressante, até eu acho que não tem nem tanto rendimento, é, nem pra os alunos, nem pra mim [...] (Flora, 41 anos, 20 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe há 35 anos).
Além dos horários, possíveis de conciliação, Flora aponta as duas profissões como boas, ressaltando que o sulanqueiro possui liberdade de transitar, sem ter que necessariamente cumprir rotinas, o que faz com que ela consiga exercer as duas paralelamente:
Então, eu, pra falar a verdade, eu acho bom as duas coisas: como sulanqueiro que tá na rua, você tá livre, tem contato com pessoas de outras cidades, de outro lugar, num é? E dá pra ir levando as duas (Flora, 41 anos, 20 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe há 35 anos).
Todavia, apesar dessas profissões possuírem suas vantagens, o lado econômico privilegia mais a figura do sulanqueiro, como aponta Júlia, que se tivesse que escolher entre a sala de aula e as atividades de confecção afirma que “Por amor, por amor, seria a educação. Agora vendo pelo lado financeiro, a confecção, com certeza” (Júlia, 32 anos, 12 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe desde que nasceu). O verbo no futuro do pretérito indica incerteza (“seria”) no que se refere ao magistério, que se contrapõe com a escolha pela sulanca (“com certeza”).
Essa desvalorização financeira justifica o fato de muitos professores recorrerem a uma atividade paralela. A sulanca passa, assim, a ser fonte de um auxílio de renda que possibilita aos mesmos sustentarem sua escolha junto à carreira docente. Sofia indica isso quando diz:
[...] tem época sim, que eu tenho que costurar também pra poder compensar, pra poder dá pra pagar as despesas, porque senão... Que é isso que eu tô pensando, né? No próximo ano eu ver o que eu vou fazer porque só educação não dá. (Sofia, 48 anos, 15 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe desde que nasceu).
A produção e comercialização de peças de vestuário são tratadas como subsídio para compensar as lacunas deixadas pela dedicação ao ensino, principalmente no que se refere à remuneração. É vista como uma atividade de complementação de renda. Segundo Nóvoa (1999), essa necessidade do professor exercer outros trabalhos é fruto de um processo de desprofissionalização e proletarização a que os docentes vêm sendo
submetidos nas últimas décadas. O que justifica o fato de ter que recorrer em alguns momentos a outras fontes de renda para garantir seu sustento.
Em contrapartida, nove dos entrevistados percebem sua escolha profissional como uma vocação. Nóvoa (1999) aponta que isso tem haver com a construção histórica do magistério, onde só no início do século XX foi tratado como uma profissão, pois até então era marcado pelo chamado vocacional e pela missão divina. Tais discursos podem ser percebidos em um número representativo dos entrevistados, como ilustram os recortes abaixo:
Porque sempre eu gostei de ensinar, por amor, realmente por amor, eu não me via fazendo outra coisa. Tudo que eu pensava era relacionado a ensinar alguma coisa, então, uma dica boa foi essa, tô até hoje. (Carmem, 40 anos, 16 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe há 30 anos) Eu acredito que vocação, desde pequena eu quis ser professora, depois que me formei fui que fui, foi que fui observando o quão difícil é, o quanto difícil é! (Daniela, 27 anos, 7 anos de profissão e reside em Santa Cruz do Capibaribe há 24 anos)
Isso porque uma sociedade não se forma sem resquícios de modelos anteriores. Os professores, de algum modo, reproduzem essas noções que atravessaram a história e que situaram por longos períodos o docente no plano do chamado, da vocação. Temos nessas falas perspectivas romantizadas das escolhas profissionais.
Ainda é possível refletir que esse discurso pode ser problemático por naturalizar a escolha pela docência como uma vocação, com um processo interno, sem considerar os arranjos culturais que produziram e proporcionaram que os mesmos fizessem tais escolhas. Pois, por amor, por vocação, eles também poderiam ter optado pela sulanca, mas não citam a mesma como algo “divino” ou “iluminado”. Pelo contrário, essa atividade é vista como aquela que inverte os valores socialmente legitimados. Isso é notório na fala de Joana, para ela:
A sulanca também, por ela gerar muita renda, uma renda né? Um dinheiro bom, gerar emprego, as pessoas também, é... ficam com valores distorcidos, sabe? Muito consumistas, né? Então cada vez querem mais e mais e mais. [...]Então eu acho
que a sulanca tende a uma contribuição um pouco negativa por esse lado. Tem o lado positivo, né? Da renda, do emprego. Mas tem um lado de desviar muito as pessoas nesse sentido: do materialismo, do consumismo, de querer sempre mais e de não valorizar a família, né? E de outras coisas que precisa, né? (Joana, 46 anos, 18 anos de profissão e reside em Santa Cruz desde que nasceu, passou apenas um tempo morando em outra cidade).
Essa visão vocacionada do lecionar pode sustentar as escolhas de muitos professores, que optam, ainda que com um número inferior de vantagens, pelas salas de aula em detrimento das feiras. O primeiro passo é compreender que a escolha pela profissão, em Santa Cruz do Capibaribe, é pautada pelas opções possíveis (ora o docente optando pela sala de aula e excluindo sulanca, ora conciliando as duas atividades) e pela vocação.
A partir desse ponto, quando se opta pelo magistério, há uma busca para construção de uma marca que consiga identificar qual o lugar ocupado pelos docentes num local onde sobressai outra atividade. É desse espaço social que trataremos no segundo tópico deste capítulo.