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Principaux contrats

Dans le document Areva reference document 2007 (Page 147-155)

Em 2004, após grande engajamento oriundo de várias esferas, o samba de roda foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil e, em seguida, em 2005, proclamado pela UNESCO como Obra Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, o que gerou uma série de transformações nesta tradição. Sobre estas mudanças, Raiana do Carmo (2009) debruçou-se sobre os impactos da política federal de salvaguarda que foi empreendida após a proclamação da UNESCO. Dentre as suas constatações, foi possível observar: um maior engajamento no campo político, o que pode ser ilustrado pela afirmação e consolidação da Associação dos Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia - ASSEBA; a formação e a reativação de grupos de samba de roda no Recôncavo; uma crescente necessidade e interesse de profissionalização dos grupos; a inserção de novos elementos na música, fruto da relação com outras influências musicais, que se materializam, por

exemplo, através da inserção de instrumentos considerados não “tradicionais”, assim como na flexibilização da ritualidade das apresentações. Mesmo identificando a necessidade de melhorias em alguns campos, como por exemplo, no protagonismo político dos grupos, a autora reconhece que houve uma maior valorização dos sambas do Recôncavo, principalmente, pelos próprios sambadores e que a política de salvaguarda tem contribuído para o restabelecimento do samba no contexto sociocultural musical do Recôncavo Baiano.

Indo um pouco além das palavras da autora, creio que essa valorização também contribuiu para o aumento do interesse acadêmico sobre essa manifestação. Mesmo reconhecendo que antes do processo de patrimonialização já haviam pesquisadores engajados com essa tradição, trabalhando, publicando textos, produzindo material audiovisual, cujo trabalhos foram fundamentais para o processo de patrimonialização, também é notório que após a outorga do título pela UNESCO tem sido crescente a quantidade de trabalhos ligados aos sambas do Recôncavo Baiano, a citar, dentre outros: MARQUES (2004, 2006, 2015, 2017) SANDRONI (2005, 2006, 2007, 2010); IYANAGA (2010, 2013, 2015a, 2015b); SANDRONI & SANT'ANNA (2007); NOBRE (2008, 2017); MENDES & JÚNIOR (2008); CARMO (2009); LORDELO (2009); MESQUITA COSTA (2012); BARRETO, ROSÁRIO, GUMES (2015)15; GRAEFF (2015); DORING (2016a; 2016b; 2011); LIMA (2011a,

2011b, 2012, 2013); MARQUES, SANTANA, SALLES (2017); EXDELL (2017); MELO (2017); QUEIROZ (2019). Essa ação de visibilização político-cultural, têm contribuído para que as epistemologias ligadas aos sambas do Recôncavo Baiano conquistem espaço em contextos que vão além do campo da Etnomusicologia e da Antropologia. Inclusive, é notório que áreas como a da Educação tem se interessado por essa prática, como demonstra os trabalhos de Petry Lordelo (2009), Katharina Doring (2011), na difusão do conhecimento, como demonstra Clécia Queiroz (2019), assim como na própria área de Educação Musical, como demonstra o trabalho de Alex Mesquita (2012).

Raiana do Carmo (ibid.), ainda salienta a necessidade de atentar para questões que possam surgir com a profissionalização dos grupos, tais como a

15Embora Luciana Barreto, Rosildo do Rosário e Scheilla Gumes sejam os organizadores desta obra, a pesquisa e produção dos textos é creditada a Prof. Drª. Katharina Doring, que tem grande produção ligada aos sambas do Recôncavo Baiano e desde o ano de 2002 vem publicando diversos trabalhos sobre o tema.

“espetacularização” e a “descaracterização” dos sambas de roda. A espetacularização das culturas populares na América Latina também preocupa José Jorge de Carvalho (2010), que também problematiza as relações sociais, culturais e econômicas refletindo sobre o processo de espetacularização e canibalização das culturas populares. Para ele, a “espetacularização” é uma operação em que um evento criado para atender a uma necessidade expressiva específica de um grupo é transformado em espetáculo para consumo de outro grupo (CARVALHO, 2010). Para o autor, o processo de “espetacularização” objetifica os artistas populares, que devem “apresentar-se, alterando as bases de seus códigos específicos, para deleite de espectadores de classe média, em seus momentos de consumo de lazer ou cultura de turismo.” (CARVALHO,2010, p.51). No âmbito dos sambas do Recôncavo é possível notar este fenômeno quando percebemos que o ritual que tradicionalmente se materializa em uma roda, muitas vezes, ao ser levado ao palco, passa a agregar uma outra forma de apresentação, geralmente, em semicírculo, adaptada para uma concepção de apreciação. Sobre canibalização, o autor diz que são processos de predação e expropriação das culturas populares. José Jorge de Carvalho (ibid.) pontua que essa prática de metáfora relacionada ao canibalismo possui longa trajetória no campo da cultura e está bastante associada à indústria do turismo, que incentiva as viagens de turistas do “Primeiro Mundo para lugares distantes, onde habitam seres de costumes exóticos, supostamente inexplorados. Um dos costumes exóticos que mais fascinam os turistas ocidentais é justamente o canibalismo!” O autor explica que o ‘canibal cultural’ é um consumidor de costumes alheios e para isso se desloca para um contexto ‘primitivo’ a fim de usufruir de seu modo de vida e de suas expressões culturais. (CARVALHO, 2010, p.63). José Jorge ainda diz que:

O tema da ‘espetacularização’ e ‘canibalização’ foi resultado dos diálogos iniciados após o I Seminário Nacional para Políticas Públicas

para as Culturas Populares, de 2005. Os dois termos procuram

exprimir a percepção e a consciência de que as culturas populares estão sendo expostas a um movimento crescente e contínuo de invasão, expropriação e predação, conectado basicamente com a voracidade das indústrias do entretenimento e do turismo e também com a cooptação de artistas populares por parte de políticos regionais populistas. (CARVALHO,2010, P.41)

Estas importantes problematizações geram discussões complexas visto que as tradições são vivas e as transformações fazem parte do seu processo de perpetuação. Olhando por outro prisma, numa visão mais extremista, as transformações também

podem fazer com que o samba de roda vire uma outra manifestação. No entanto, se contextualizarmos o samba de roda a partir de um ponto de vista sociocultural e, se acreditamos que a sociedade está em constante transformação, fruto de diversas influências como as conquistas dos movimentos sociais, dos processos de globalização, por exemplo, seria muito difícil que o movimento da sociedade não influenciasse nas manifestações culturais, bem como fosse influenciadas por elas, como defende Christopher Small (1996). As culturas musicais afrodiaspóricas são marcadas por essas transformações, fluxos e negociações. Neste trabalho, usarei o termo negociações para me referir aos encontros, as trocas e as alianças de referencias culturais que são articuladas ao longo da afrodiáspora do Atlântico Negro. Sem dúvidas, essas negociações não acontecem de uma maneira não-hegemônica e as mesmas são marcadas pelas estruturas de poder que tangenciam toda a nossa sociedade. Sobre isso, José Jorge de Carvalho (ibid.) continua a sua crítica apontando que não podemos pensar apenas nos fluxos e na vitalidade das culturas sem levar em consideração os processos de invisibilização, exclusão e as narrativas de não existência, no âmbito das relações sociais e econômicas, o autor diz que:

A maioria dos pesquisadores ainda trata este assunto a partir de uma teoria do hibridismo e da negociação de sentido, que sustenta uma ideia nada realista de mútua influência e reciprocidade. Essas dimensões de troca certamente existem, porém não conseguem eliminar as perversidades e as manipulações a que são expostos mestres e mestras, em seus contratos de apresentação e gravação de discos com as produtoras, ou em suas parcerias com as secretarias municipais e estaduais de cultura para projetos culturais e educativos. No ponto em que estamos atualmente, já não faz sentido falar em culturas híbridas ou em trocas culturais sem tomarmos em conta as gritantes assimetrias de poder no campo da cultura. (CARVALHO,2010, P.46)

Concordo com o autor que precisamos lutar contra as assimetrias de poder no campo da cultura. Também defendo a existência e a visibilização de epistemologias que são colocadas no lugar de subalternização no curso da modernidade e, consequentemente desvalorizadas nos diversos âmbitos inclusive os econômicos. No entanto, este trabalho ver as tradições culturais como materializações de existências e as mesmas estão em pleno processo de modificação e dinamização de seus processos identitários, o que me leva a acreditar que os processos de trocas e transformações são inevitáveis. Sendo assim, a força-tarefa, nesse sentido, poderia caminhar na direção de garantir um contexto em que o processo inevitável de

ressignificações não fosse uma imposição do sistema sociocultural de matriz hegemônica e colonial no qual a nação brasileira está estruturada. Ao me relacionar com os sambas do Recôncavo, pude perceber o quanto essa dinâmica de ressignificações se faz presente no âmbito do fazer musical.

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