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Essa categoria obteve média e mediana 3, o que significa que os respondentes a consideraram ‘razoável’. Mais da metade acha que a SMS ‘nunca’ ou ‘raramente’ oferece chance de crescimento no trabalho e oportunidades iguais para todos. A maioria considera também que o funcionário público ‘nunca’ ou ‘raramente’ pode crescer sem influência política ou que seu trabalho proporciona crescimento pessoal, o que é coerente com os relatos anteriores que remetem à cultura clientelista presente na questão da carreira. A variável ‘oportunidade de

crescimento’ é uma das que causam mais insatisfação entre os respondentes, ocupando o 32º lugar no ranking das 36 pesquisadas.

O foco dessa categoria é a carreira em vez da tarefa. Nesse quesito, a maior parte dos relatos aponta para a influência política como propulsora dos ganhos e das perdas na carreira: vários entrevistados afirmam que as promoções foram alcançadas por indicação. Um deles declara nunca ter se envolvido com política, mas que aprendeu a fazer isso com a atual administração e tem apoiado o atual prefeito. Ao longo da carreira no serviço público, sempre trabalhou no que gosta, nunca no que mandavam. Sempre recusou propostas que não o agradavam, nunca foi obrigado a aceitá- las. Acredita que de certo modo teve liberdade de construir sua trajetória. “Se você estiver satisfeito tem condições de criar sua trajetória”. Outro relata que há cerca de 15 anos chegou a ser transferido de secretaria por conta de um desentendimento pessoal com o prefeito. Não há evidências da existência de uma forma instituída de concorrer a posições superiores que não seja por influência política; aliás, ela é apontada pela maioria dos entrevistados como o pior aspecto do trabalho no serviço público.

Talvez, por essas questões, a escolaridade pareça não ser tão determinante no nível de QVT dos funcionários públicos de carreira da SMS de Barra Mansa, conforme mencionado anteriormente e demonstrado na Figura 4.20. Outra evidência aparece no seguinte relato: “Tem gente quase analfabeto que um belo dia aparece como chefe por causa da política”.

Quanto a proporcionar ao trabalhador o incentivo necessário para que ele mantenha a atualização e o aprimoramento profissionais continuamente, percebe-se também a necessidade da construção de políticas públicas integradas. Relatos indicam que não há um sistema de treinamento organizado. A falta de investimento em aperfeiçoamento profissional por parte da

SMS foi apontada como razão de insatisfação com a QVT: “Teve um curso que eu queria fazer e que eu só fiz porque um amigo me emprestou o dinheiro”. Esse aspecto também foi apontado como uma das diferenças entre os setores privado e público: “[...] no governo do PT (Partido dos Trabalhadores) a gente fazia mais treinamento. Hoje não temos um programa de treinamento. O setor privado tem. Ele investe no aperfeiçoamento do funcionário”. Os números mostram que 35% dos respondentes avaliam o sistema de treinamento da SMS como ‘ruim’ ou ‘péssimo’, e 33% acham que ele é ‘razoável’.

Outro aspecto que integra a categoria é a estabilidade profissional. Sessenta e três por cento dos respondentes declaram ‘sempre’ ou ‘quase sempre’ sentir-se satisfeitos com a estabilidade do funcionário público no emprego. Ela é também a opção mais selecionada dentre as oferecidas para indicar o motivo principal de terem se tornado funcionários públicos. No ranking das 36 variáveis pesquisadas ocupa o nono lugar em pontuação.

Nos relatos obtidos nas entrevistas abertas, a maioria das pessoas mostrou-se favorável à estabilidade, apontando-a como um dos melhores aspectos do trabalho como funcionário público. A constatação remete a tudo o que nesta pesquisa já foi mencionado acerca da precarização do trabalho com que se vive nos dias de hoje, em que a ausência de estabilidade é fator marcante. Vários respondentes manifestaram sua crítica àqueles que têm na estabilidade um motivo para não se dedicarem tanto ao trabalho quanto deveriam: “[...] Acho que o funcionário público não deve abusar da estabilidade para ficar de moleza”; “[...] o funcionário público é mais manhoso. Encosta mais na estabilidade”; “a questão da estabilidade do servidor público é prejudicial; torna o servidor mais relaxado no trabalho; ele passa a abusar. Não sou contra a estabilidade, só contra o abuso”; “[...] incomoda quando você vê que o colega faz corpo mole e você tem que trabalhar por ele; e a chefia não faz nada.

Eles se acham ‘funcionários públicos’, não vão ser mandados embora”. Um entrevistado afirma que o trabalho no serviço público “é um trabalho como outro qualquer, a não ser pela estabilidade”. Ele acredita que o trabalhador vagabundo existe, mas que há esforços para acabar com isso. Contudo, para ele, parece que muita gente faz concurso público com a intenção de não trabalhar, e relata uma experiência vivida no seu setor de trabalho em que a administração afastou vários colegas por mau desempenho e isso melhorou o trabalho de todos, pois só ficaram aqueles dispostos a trabalhar bem: “O fato de termos excluído os colegas que não gostavam de trabalhar melhorou a QVT”.

Há, porém, quem entenda que o fato de o funcionário abusar da estabilidade pode significar uma forma de protesto contra o sistema: “Quando o sujeito tira licença uma atrás da outra, ele sabe que não vai acontecer nada com ele. Mas, no fundo, isso afeta a auto-estima porque ele não queria ser assim”.

Foi também possível perceber que a estabilidade é fator claro de diferenciação entre os segmentos público e privado: “Acho que tem muita gente que quer sair do privado para o público por causa da estabilidade. O setor privado não tem estabilidade, mas tem melhores salários”. Um dos entrevistados, que pediu demissão de um emprego no setor privado para trabalhar como funcionário público há pouco mais de um ano, ao ser questionado sobre a razão que o levou a escolher o setor público para trabalhar, disse: “A ilusão da estabilidade. É trabalho até morrer! [...] achava que ia ganhar mais, mas não foi verdade”. Essa afirmação denota que a estabilidade por si só parece não ser sinônimo de satisfação, como muitos podem pensar. O peso de outras questões como a remuneração pode ser tão significativo quanto o da estabilidade.

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