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Mario Quintana parece não considerar importante falar a respeito da temática das produções poéticas. Em “Texto & Pretexto”, ele afirma que o tema não passa de um “ponto de partida para um poema”, mas não é o seu objetivo. Observe-se: “O tema é um ponto de partida para um poema e não um ponto de chegada, da mesma forma que a bem-amada é um

pretexto para o amor” (CH, p. 282). O tema seria, portanto, qualquer aspecto da vida que leva o poeta a escrever. Mas isso não significa que ele deva se prender só nessa temática, porque o tema não deve ser uma limitação para o poema, não deve ser o “ponto de chegada”, mas o “de partida”. Quintana elucida essa concepção, ao comparar o tema de um poema a uma “bem- amada”, que deve ser apenas o pretexto, ou seja, o motivo, o começo de um amor.

Entretanto, ainda que subvalorize a importância de um tema para a poesia, quando o poeta gaúcho escreve acerca das razões que o levam a poetizar, dos assuntos que escolhe e que merecem sua atenção, fica claro que ele defende a poetização das coisas simples do cotidiano, como ressaltava Baudelaire (1993). Veja-se: “Subnutrido de beleza, meu cachorro- poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí... Quanto filhotinho de estrela atirado ao lixo!” (CH, p. 288).

No texto “Época”, acima, Quintana cria a imagem de um cão farejando poesia em tudo, inclusive em meio ao lixo. Essa analogia serve para mostrar que a poesia, o tema de um poema, pode ser encontrado em qualquer lugar, coisa ou circunstância, por mais comum que pareça ser. Essa ideia assemelha-se um pouco, portanto, à teoria de Baudelaire (1993), segundo o qual, os aspectos a serem poetizados pela arte são a beleza da circunstância e dos costumes, a multidão, a cidade, a modernidade. A imagem de filhotinhos de estrela no lixo também lembra o “belo feio”, do poeta francês, pois, para a poesia modernista e pós- modernista, o lixo, o feio e o desagradável também podem ser materiais poéticos. Esse conceito da poesia das coisas corriqueiras do cotidiano está ainda mais presente no texto que leva o título muito adequado de “Da simplicidade”: “O verdadeiro epicurista embriaga-se com um copo d’água. O verdadeiro poeta faz poesia com as coisas mais simples e corriqueiras deste e dos outros mundos” (CH, p. 352).

Quintana afirma, mais uma vez, que o verdadeiro poeta é capaz de fazer poesia com quaisquer coisas, por mais “simples e corriqueiras” que sejam, com a mesma facilidade com que um epicurista poderia se embriagar com um copo d’água. Enquanto se aproxima de Baudelaire (1993), Quintana se afasta da concepção de Longino, para quem a poesia deveria ater-se ao raro, que sempre “suscita admiração” (LONGINO, 2007, p. 105), enquanto, segundo o teórico, as coisas úteis e simples são comuns e desinteressantes e, assim, não prendem a atenção do leitor, logo, não atingem o sublime. Mas o poeta gaúcho não parece se interessar por coisas raras. Com o sugestivo título de “Coisas”, há um poema justapondo cinco versos que descrevem elementos extremamente comuns do cotidiano:

Uma rãzinha verde no gris da manhã... Um sorriso na face de um ceguinho...

Uma nota aguda como uma pergunta de criança... Um cheiro agradecido de terra molhada...

Um olhar que nos enche subitamente de azul (CH, p. 351).

Além de Longino (2007), que valoriza o raro admirável, o poema acima também desagradaria Platão (Livro III). Uma rã, um cheiro ou uma pergunta não são objetos importantes, que mereçam ser abordadas em poemas. Os temas para poesia, segundo o filósofo grego, têm de ser ações grandiosas, como liberdade, pureza, coragem, sensatez. Além disso, “Coisas” trata da emoção, pois valoriza um sorriso e um olhar, fugindo do ideal platônico da Razão. Para o filósofo, a emoção desestabiliza os homens, enfraquecendo os “guardiões do Estado”. Um texto de Quintana que provocaria a ira do filósofo seria “Diálogo inútil” que segue: “- Mas por que tu não fazes um poema de amor? / - Todos os poemas são de amor” (CH, p. 250).

Nesse texto, o poeta gaúcho classifica todos os poemas como poemas de amor. Independentemente do assunto, todos eles estariam impregnados de sentimento. Tanto que considera um “diálogo inútil”, como mostra o título, perguntar por que não fazer um poema de amor, já que todos eles o são. Como foi mencionado acima, Platão (Livro III) desaprovaria esse “diálogo”, pois se, em sua ótica, a emoção desestabiliza os guardiões do Estado, o amor seria um dos seus maiores “inimigos internos”, como denominou o filósofo. Pound, mais recentemente, vai concordar com essa ideia, defendendo uma poesia “austera, direta, livre de deslizes emocionais” (POUND, 1976, p. 20). Já Poe (1991), anterior a Pound, pode ser lembrado nesse texto, reiterando a opinião de Quintana, porque o poeta norte-americano considera a emoção como elemento e parte essencial da poesia. Além disso, segundo ele, todos os poemas são de amor sim – de amor ao próprio poema. Recorde-se:

[...] o fato puro e simples é que, se nos permitíssemos olhar para dentro de nossos próprios corações, iríamos descobrir imediatamente que não existe, nem pode existir, em nenhum lugar do mundo, obra mais digna ou mais nobre que este mesmo poema – este poema per se – este poema que é um poema e nada mais – este poema escrito tão-somente por amor ao poema (POE, 1991, p. 70).

Pode-se observar, então, que, mais uma vez, Quintana discorda da teoria platônica. Enquanto esta defende temas grandiosos e a razão, aquele poetiza sobre as coisas simples com muita emoção. Além de Platão, outros que divergiriam de Quintana são Longino (2007), pois associa o sublime à poetização das coisas raras e admiráveis, e Pound (1976), que exige uma austeridade poética. Em contrapartida, o poeta gaúcho lembra Baudelaire (1993), no que se

refere à temática, que pode surgir da simplicidade das coisas corriqueiras do presente, do efêmero e até do feio, e, ainda, Poe, que, ao contrário de Platão e Pound, classifica a emoção como um dos elementos essenciais da poesia, já que o poema é fruto do amor do poeta por sua arte.