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COMITE D’AUDIT :

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COMITE D’AUDIT :

O primeiro assunto, abordado já no início da obra Arte Poética, do filósofo e poeta romano Horácio (65 a.C – 8 a.C), é a questão da linguagem com a criação de novas expressões e neologismos. O autor defende que, se ideias nunca antes vistas exigem a criação de novas expressões, será o caso de “forjá-las”. Na sua ótica, a renovação do vocabulário é algo positivo: “Como, à veloz passagem dos anos, os bosques mudam de folhas, que as antigas vão caindo, assim perece a geração velha de palavras e, tal como a juventude, florejam, viçosas, as nascediças” (HORÁCIO, 2007, p. 57).

A seguir, o filósofo destaca que os gêneros literários devem ser respeitados, não se podendo escrever uma comédia em versos trágicos, por exemplo, visto que cada gênero tem sua estrutura e lugar. Não é poeta quem não for capaz de atentar para essa questão, ou seja: “Se não posso nem sei respeitar o domínio e o tom de cada gênero literário, por que saudar em mim um poeta?” (Idem, p. 57).

No que se refere à criação de personagens, Horácio (2007) esclarece que, ou se deve seguir a tradição, reeditando caracteres já celebrados, ou desenvolver personagens coerentes. Ao optar-se por criar uma nova personagem, a fim de responder por um assunto que nunca fora tema de poema antes, ela deve ser “fiel a si mesma”, conservando as mesmas características até o final do poema. Para tanto, devem ser observados “os hábitos de cada idade, dar a caracteres e anos mudáveis o aspecto que lhes convém” (HORÁCIO, 2007, p. 59- 60). Pode-se, nesse processo, misturar verdade e mentira, desde que não destoem início, meio e fim. Veja-se que, como Aristóteles, ele retoma a questão da verossimilhança.

Nesse sentido, o teórico afirma que a ligação com a realidade é mais importante do que a beleza formal de um poema. Segundo ele, um poema que advém da observação da vida agrada mais ao ouvinte do que um poema belo, porém sem conteúdo. Observe-se o fragmento abaixo:

Quem aprendeu os seus deveres para com a pátria e para com os amigos, com que amor devemos amar o pai, o irmão, o hóspede, qual a obrigação dum senador, qual a dum juiz, qual o papel do general mandado à guerra, esse sabe com segurança dar a cada personagem a conveniente caracterização. Eu o aconselharei a, como imitador ensinado, observar o modelo da vida e dos caracteres e daí colher uma linguagem viva. Uma peça abrilhantada pelas verdades gerais e pela correta descrição dos caracteres, porém de nenhuma beleza, sem peso nem arte, por vezes deleita mais fortemente o público e o retém melhor do que versos pobres de assunto e bagatelas maviosas (HORÁCIO, 2007, p. 64).

No que concerne à gênese da poesia, Horácio (2007) defende a importância da técnica. Na sua visão, é equivocado escrever sem regras, como pode-se ver no trecho a seguir: “Já se perguntou se o que faz digno de louvor um poema é a natureza ou a arte. Eu por mim não vejo o que adianta, sem uma veia rica, o esforço, nem, sem cultivo, o gênio; assim, um pede ajuda ao outro, numa conspiração amistosa” (2007, p. 67).

Observa-se que o filósofo não negligencia a inspiração. No entanto, ele não acredita na inspiração sem o apoio da técnica. Ainda dentro dessa perspectiva, o estudioso valoriza a crítica, que é capaz de melhorar a produção poética. Primeiro, ele diz que qualquer um que resolva escrever, deve oferecer seu texto a um crítico e esperar, porque “a palavra lançada não sabe voltar atrás” e não deve aventurar-se a poetizar quem não souber fazê-lo. Seus argumentos mais fortes em favor da crítica podem ser observados na citação que segue:

Um homem honesto e entendido criticará os versos sem arte, condenará os duros, traçará, com o cálamo, de través, um sinal negro junto aos desgrenhados, cortará os ornatos pretensiosos, obrigará a dar luz aos poucos claros, apontará as ambiguidades, marcará o que deve ser mudado, virará um Aristarco e não dirá: "Por que hei eu de magoar um amigo por causa duma ninharia?" Tais ninharias levarão o autor a sérios dissabores, uma vez achincalhado e recebido desfavoravelmente (HORÁCIO, 2007, p. 68).

Percebe-se que, conforme Horácio (2007), a crítica é sempre positiva. É melhor, inclusive, apontar os erros de um amigo que opte por escrever. Porque, ao evitar fazê-lo para não magoá-lo, poder-se-á estar expondo tal amigo ao ridículo mais adiante.

Um último tema importante é tratado na sua obra: a preocupação com a recepção. Segundo o autor, o poeta deve buscar “arrebatar” o ouvinte. Para tanto, a poesia deve ser útil e agradável ao mesmo tempo, conforme pode-se ver: “Os poetas desejam ou ser úteis, ou

deleitar, ou dizer coisas ao mesmo tempo agradáveis e proveitosas para a vida. [...] Não se distanciem da realidade as ficções que visam ao prazer [...] Arrebata todos os sufrágios quem mistura o útil e o agradável, deleitando ao mesmo tempo instruindo o leitor [...]” (HORÁCIO, 2007, p. 65). A função da poesia, pois, na sua posição, é a de agradar e instruir ao mesmo tempo, sem esquecer, como já foi dito, que o remetimento à realidade está acima da beleza formal.

Percebe-se, então, que Horácio tem posição semelhante à de Aristóteles no que se refere ao estilo, pois ele defende a criação de novas palavras ou expressões se as novas ideias assim exigirem, valorizando a renovação da língua. Ele também retoma a questão da verossimilhança, pois acredita que a ligação com o real e a coerência dos personagens agregam mais valor ao poema do que a beleza formal. Em se tratando da gênese poética, Horácio é o primeiro a ressaltar a técnica, pois não crê na inspiração sem esse apoio. Além disso, considera a crítica muito positiva, porque promove a melhoria da produção poética. Ele também é pioneiro ao preocupar-se com a recepção, dizendo que o poeta deve arrebatar o ouvinte. E, em sua opinião, isso só é possível se a poesia deleitar e instruir o leitor. Ou seja, ela não pode ser apenas agradável, mas ser útil.