2.3 Simulations de microstructures
3.1.1 Pr´eparation de la surface de l’´echantillon
3) Cuidados com a alma, com o amor (conta sobre seu amor - no caso, o amor que sente por ele, seu mestre) – a erótica.
Portanto, narra o cuidado que tem com o corpo, com seus familiares e sua casa, e, ainda, com o amor: a dietética, a econômica e a erótica – os três grandes domínios em que se atualiza, nesta época, a prática de si, incluindo, como vemos, uma perpétua remissão de um ao outro.
O cuidado com o regime, a dietética, leva à prática agrícola, aos cuidados com a lavoura, às colheitas, etc., isso leva a comercialização de produtos, de subsídios alimentares, isso leva à economia, à econômica. A economia, por sua vez, é planejada, decidida, definida, no interior das relações familiares, onde se encontra o amor. Há um laço, uma forte e manifesta remissão de um ao outro – da dietética à econômica, da econômica à erótica.
Já havíamos encontrado essas relações em Alcibíades; que encontravam-se, no entanto, desvinculadas. Sócrates chega à conclusão de que cuidar de si é cuidar da alma, portanto, não há preocupação com o corpo, então, também não há com a dietética, e, ainda, também não há com o amor (pois o amor a que ele se refere é aquele dos pretendentes de Alcibíades).
Aqui, há uma integração desses três domínios: dietética, econômica e erótica. Integração como superfície de reflexão:
/.../ ocasião, de certo modo, para o próprio eu experimentar-se, exercer-se, desenvolver a prática de si mesmo que é sua regra de existência e seu objetivo. A dietética, a econômica e a erótica aparecem como domínios de aplicação da prática de si (FOUCAULT, 2004, p. 200).
Mas não devemos nos esquecer, no entanto, que ainda falta “descarregar” o fardo, as tribulações do dia que finda, pois antes de dormir Marco Aurélio descarrega seu “fardo” – trata-se, evidentemente, do exame de consciência, tal como foi prescrito por Sêneca (lembrando que esses textos são muito próximos). Marco Aurélio descarrega o livro de sua memória, do que tinha que ser feito no dia.
O essencial, por assim dizer, quer na ordem da memória, quer na ordem da leitura, é está revisão do dia que passou, revisão obrigatória no seu final, no momento em que se vai adormecer, e que permite fazer o balanço das coisas que se tinha a fazer, das que foram feitas e da maneira como foram feitas relativamente à maneira como deveriam ser feitas. E se dá explicação. A quem se dá explicação? Pois bem, àquele que é “seu dulcíssimo mestre”. Vemos ai a tradução exata do princípio fundamental do exame de consciência. Mas o que é está carta, afinal? A própria carta, escrita na manhã do dia seguinte, nada mais é senão o que fez Marco Aurélio à noite, quando deitou-se antes de adormecer. Ele descarregou o volumem de seu dia. Retomou seu dia e o descarregou. Fez isto à noite, para si mesmo, fez na manhã seguinte ao escrever para Frontão. Temos ai, portanto, um exemplo
bem interessante da maneira como a direção se tornava, estava em vias de tornar-se, havia já se tornado, desde algum tempo sem dúvida, uma experiência, uma experiência inteiramente normal e natural. Perante um amigo, um amigo que é caro, um amigo com quem se tem relações afetivas tão intensas, faz-se o exame de consciência. Toma-se-o como diretor de consciência e é totalmente normal tomá-lo como diretor, independente de sua qualificação de filósofo – e, no caso, não é um filósofo -, simplesmente porque é um amigo (FOUCAULT, 2004, p. 201-201, grifo do autor).
Inaugura-se essa relação de confessar-se a um outro, do exame de consciência. Um prestar contas que será feito ao mestre, ao diretor, ao inspetor, ao padre etc. O desenvolvimento da prática de si, através desse exame torna-se uma prática universal, tornar- se uma espécie de relação social, desenvolve-se uma nova ética, não tanto da linguagem ou do discurso em geral, mas da relação verbal com o outro.
Poderíamos nos perguntar, então, se o “cuidado de si” se constituí, agora, como uma espécie de lei ética universal? E Foucault nos responde de pronto que não. Nem mesmo na cultura helenística e romana o cuidado de si pode ser considerado uma lei universal. Primeiro por ser uma noção, algo fictício. Segundo, por se constituir naquela época, como um privilégio das elites, portanto, dado aos abastados. Como concebê-lo, então, como uma lei universal?
Não há um princípio geral do “cuidado de si”, uma lei universal, uma lei ética universal. O processo histórico, se seguido, nos levaria a uma juridicisação da cultura ocidental. Foi isso que nos fez “tomar a lei como o princípio geral de toda regra na ordem da
prática humana” (FOUCAULT, 2004, p. 138). A lei é um episódio de uma história muito
mais geral,
/.../ que é as das técnicas e tecnologias das práticas do sujeito relativamente a si mesmo, técnicas e tecnologias que são independentes da forma da lei e prioritárias em relação a ela (FOUCAULT, 2004, p. 138).
Mesmo sendo disseminado como princípio universal, o cuidado de si sempre se articulou com fenômenos sectários, sejam nas elites, nos meios aristocráticos, sejam nas classes menos favorecidas – evidentemente eram “cuidados de si” diferenciados. Não era, portanto, encontrado apenas junto àqueles que detinham o poder estatutário.
Nas classes menos favorecidas, as práticas de si eram ligadas à existência de grupos religiosos, grupos claramente institucionalizados, organizados em torno de cultos definidos, com procedimentos freqüentemente ritualizados, o que lhes dava um caráter cultual e ritual que tornava menos necessárias as formas mais sofisticadas e mais eruditas da cultura pessoal e da investigação teórica. Entretanto, mesmo tomando-a como uma prática coletiva, muitas
vezes, exigiam-se dos participantes abstinências alimentares e sexuais, práticas penitenciais, etc.
De outro lado, havia práticas de si mais elaboradas, sofisticadas, estas ligadas a escolhas individuais, pessoais, à vida de ócio cultivada, à investigação teórica. Mas essas práticas não eram isoladas, eram parte da “cultura” da época, cuidar de si estava na “moda”. Se não tinham o apoio de instituições, se mantinham nas redes de amizade27.
Havia dois grandes pólos (mas não somente estes, afinal vários níveis existiam entre eles): um popular, mais cultual e religioso; e outro erudito, mais cultivado e amistoso. No último, mas talvez também no primeiro em menor escala, uma maior articulação individual, apoiada, muitas vezes, em redes de amizade.
Assim, é preciso dizer que o cuidado de si sempre toma forma no interior de redes ou de grupos determinados e distintos uns dos outros, com combinação entre o cultural, o terapêutico – no sentido que expusemos – e o saber, a teoria, mas [trata-se] de relações variáveis conforme os grupos, conforme os meios e conforme os casos. De todo modo, porém, é nesta separação, ou melhor, neste pertencimento a uma seita ou a um grupo, que o cuidado de si se manifesta e se afirma. Não se pode cuidar de si, por assim dizer, na ordem e na forma do universal. /.../ Somente no interior do grupo e na distinção do grupo, pode ele ser praticado (FOUCAULT, 2004, p. 145).
No interior desses grupos não se considera o status, todos podem cuidar de si próprios. Contudo, um paradoxo se coloca: agora que se pode, não se exerce. É o eixo da partilha, tão importante a toda cultura antiga que tinha o status como determinante de quem poderia cuidar de si. Hoje, o que difere o eu da massa é a capacidade de se aperceber da necessidade de ocupar-se consigo. É isso que será tomado pelo Cristianismo – “Muitos serão chamados, mas
poucos serão escolhidos”.
Vista dessa forma, a prática de si não mais se impõe como condição estatutária – apesar de estar intimamente atrelada a ela – e muito menos como premissa de governar a cidade, governar os outros, cabe a ela a salvação.
É interessante ressaltar que em Alcibíades o eu que se devia cuidar estava muito bem definido e, portanto, poderia se interrogar sobre sua natureza – o objeto era o eu, e a finalidade era bem governar a cidade, objeto e finalidade estavam separados. Agora, no cuidado de si, na forma como foi desenvolvido pela cultura neoclássica, o objeto e a finalidade são um só, inseparáveis – o eu é o objeto que se cuida, algo com que se deve
27 Foucault apresenta como exemplo o texto de Sêneca, quando este aconselha Serenus, sobrinho de Nero, para
preocupar, e a finalidade é ocupar-se de si, cuidar de si mesmo. Não se cuida de si para que se possa cuidar da cidade, dos outros, mas para cuidar de si mesmo, para salvar-se.
No que tange à noção de epiméleia, é importante lembrar que ela não significa apenas uma atitude de espírito, mas uma série de exercícios, de práticas, de atividades – está, portanto, circunscrita a atividades outras além daquelas do conhecimento.
Foucault demarca quatro grandes famílias de expressões:
1ª– Àquelas que remetem a atos de conhecimento e se referem à atenção, ao olhar (estar atento a si, examinar a si mesmo etc), ao retorno a si mesmo – sugerem um movimento global de existência (retirar-se a si, recolher-se a si etc.);
2ª– Àquelas que se referem a atividades: refluir sobre si mesmo, retrair-se, instalar-se em si mesmo;
3ª– São aquelas que se referem a atividades, condutas particulares em relação a si (tratar-se, curar-se, amputar-se, reinvidicar-se a si mesmo, liberar-se, desobrigar-se, cultuar- se, honrar-se, respeitar-se, envergonhar-se etc.);
4ª– São as expressões que designam certo tipo de relação permanente consigo, quer se trate de relação de domínio e soberania (ser mestre de si), quer de sensações (sentir prazer consigo, alegrar-se consigo, ser feliz em presença de si, satisfazer-se consigo mesmo etc.).
Assim, o cuidado de si ultrapassa a simples atividade de conhecimento e concerne, de fato, a uma prática de si, ou como o próprio Foucault chamaria, Tecnologias de si.
Em Tecnologías Del yo, Michel Foucault trata especificamente dessas práticas de si, dessas tecnologias:
A mode de contextualización, debemos comprender que existen cuatro principales de estas “tecnologías”, y que cada una de ellas representa una matriz de la razón práctica:
1) tecnologías de producción, que nos permiten producir, transformar o manipular cosas;
2) tecnologías de sistemas de signos, que nos permiten utilizar signos, sentidos, símbolos o significaciones;
3) tecnologías de poder, que determinan la conducta de los indivíduos, los someten a cierto tipo de fines ou de dominación, y consisten em una objetivación del sujeito;
4) tecnologías del yo que permiten a los indivíduos efectuar, por