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5.5 Etude des limites de ce couplage

5.5.1 Limites num´eriques

Retomando algumas reflexões no percurso dessa pesquisa, agora visamos focalizar nossa perspectiva de análise no tema do agenciamento do caso Bentinho no plano do cuidado em saúde mental. Em nossa construção, configurou-se, ao longo desse processo, um canal de orientação no enfrentamento da questão-chave do trabalho – Como se agencia um caso de intensa complexidade no plano do cuidado em saúde mental? – o que nos permitiu criar perspectivas estratégicas na composição das paisagens de cuidado, produzindo expressividade aos afetos, além de fornecer ferramentas do pesquisar na análise dos efeitos produzidos:

 O caso Bentinho irrompe no plano da saúde mental no/em acontecimento. Essa dimensão compõe um paradoxo: a partir de uma experiência de vida trágica e enigmática, Bentinho pôde acessar as ofertas de cuidado em saúde mental. Ao mesmo tempo, o cuidado em saúde mental (mas também podemos estender, de maneira geral, para a saúde coletiva) ocorre no “entre” dos encontros em ato das/nas múltiplas tecnologias relacionais.

 A produção do cuidado em saúde mental, em suas várias modalidades, se efetiva através das diversas redes de cuidado. Essas redes podem constituir-se como redes formais de ofertas de cuidado em saúde mental, que nomeamos como redes instituídas, macro, molares ou frias. Mas também, atrelada a estas redes, constatamos a intensidade marcante das redes ativadas pelos movimentos singulares de Bentinho em seu caminhar nômade, com suas conexões existenciais na formação dos territórios de vida. Para estas redes, escolhemos os nomes de redes micro, moleculares, quentes. Nelas, ficou muito real sua dimensão rizomática, pois transmutam-se em ampliação de lógicas não hierarquizadas, não lineares, transversais, locais em constante movimento

sem início e fim, mas no entre, no intermezzo. Ambas as redes se relacionam com conexão entre si, operacionalizadas através da diversidade de dispositivos em múltiplo agenciamento efetuado nos encontros em ato.

Retomando um pouco nossa escolha em relação ao caso Bentinho, esta foi realizada mediante a alta complexidade apresentada pelo caso desde a sua chegada à internação até desdobramentos posteriores no tratamento. A diversidade de demandas de cuidado integral, intensivo e contínuo agenciado no transcorrer do percurso em conexão aos movimentos do usuário foi produzindo algumas linhas de cuidado pulverizadas no tecido social, captando dimensões da intersetorialidade em jogo (saúde, habitação, justiça, lazer, trabalho, etc.). Alguns exemplos se mostraram muito vivos, se fazendo presentes nas entrevistas e, especialmente, nos trechos narrados. Nessa via, pensar no movimento em agenciamento de um “caso cabeludo”, de um “usuário louco muito louco” no plano do cuidado em saúde mental, nos forçou a habitar um território de multiplicidades e incertezas potenciais na busca de uma voz que narrasse essas paisagens de cuidado que ainda estavam por vir. Aos poucos, em nosso caminhar nômade, fomos compondo o fazer-pesquisa, nos fazendo pesquisadores.

Em nossa exploração reflexiva, intencionamos produzir maiores regimes de visibilidade e consistência de análise. As imagens-acontecimento e imagens-rede de cuidado entrelaçaram as paisagens de cuidado na intensividade das afecções do “corpo-aranha” Bentinho, conforme foi explicitado no convite ao grupo de rap feito ao pesquisador-nômade, o que produziu efeito de desterritorialização no pesquisador e nos rumos da pesquisa.

Em relação ao dispositivo-internação em saúde mental, o caso nos provocou intensa reflexão. De maneira alguma avaliamos que o desenrolar do caso só foi efetivo devido à internação psiquiátrica realizada no Núcleo de Retaguarda. Entretanto, reconhecemos que, embora a internação em saúde mental seja muito questionada por parte dos movimentos da Reforma Psiquiátrica e da Luta Antimanicomial, no caso Bentinho, ela se tornou, para nós, chave do processo de pesquisa. Estabeleceu resgate de sua história de vida, articulação da multiplicidade de conexões de suas redes de conexões existenciais e de cuidado, trazendo à cena os conflitos vigentes na disputa pelo cuidado. Dessa forma, construiu-se, também, enquanto analisador das práticas desenvolvidas, visibilizando dos seus pontos de captura.

Não nos coube julgar se a unidade de saúde mental Núcleo de Retaguarda foi boa ou ruim, mas sim reconhecer os vetores de sentido em sua racionalidade instrumental na conformação com o jogo das intencionalidades operacionalizadas no tratamento ofertado a

Bentinho. Perguntas como “Se tivéssemos uma rede de serviços de saúde mental atuando efetivamente conforme preconiza a legislação vigente, Bentinho seria ou estaria internado?” surgiram para nós. Contudo, verificamos, mais do que nunca, que a produção das redes é feita pelas pessoas envolvidas em certos contextos de realidades locais muito específicos, não traduzindo diretamente ou mesmo codificando o que preconizam as Políticas de Saúde Mental. Mais diretamente, o caso Bentinho nos ensinou a potência na micropolítica do trabalho vivo em ato como motor de produção das/nas Estratégias de Atenção Psicossocial.

Na feitura do trabalho, podemos afirmar que o caso nos ensinou que a produção de informações se encontra intimamente ligada na amplitude e complexidade das diversas conexões realizadas no campo de pesquisa (serviços de saúde mental e promotoria) em seus territórios específicos com suas lógicas singulares de produção de suas ofertas.

Nessa trilha, as entrevistas se tornaram ferramentas cruciais na forma de fabricar intercessores pela construção das narrativas do caso Bentinho. Os entrevistados participaram ativamente e de maneira colaborativa, atualizaram suas memórias-corpo sobre os efeitos do acontecimento Bentinho neles. Os mesmos contribuíram para nossa construção das narrativas, ampliaram a polifonia de sentidos e dispararam polivocidade coletiva, aumentando potencialmente as diagramações do intensivo na transversalização das falas, o que foi muito enriquecedor para nós.

Em sua singularidade existencial, Bentinho se compunha enquanto uma força forte.28 Assim, verificamos que em seus movimentos existenciais, o usuário-guia operacionalizava produção de desmarcação dos diversos poderes-saberes (do jornalismo, psiquiatria, psicanálise e da saúde mental) que incidiam sobre si, o que ficou mais evidente ao expormos a rede de acontecimentos manifesta na profusão discursiva sobre ele. Nesse processo, a pesquisa produziu visibilidade para a importância da estratégia de cuidado no exercício de força fraca (ver trecho IV), abrindo-se ao inusitado do encontro intercessor, favorecendo a potencialização das articulações das redes de cuidado na vida.

Ao falarmos dos planos de cuidado, Bentinho nos ensinou a importância de nós cuidadores acolhermos atentativamente29 o protagonismo do(s) usuário(s). Essa aposta se mostrou frutífera na medida em que, nos minuciosos detalhes expressados por Bentinho no

28 Utilizamos essa expressão para designar que, em seus processos de subjetivação, Bentinho apresentava

expressividade singular e intensa referente à potência manifesta nos encontros e agenciamentos no plano de imanência. O termo forte se articula aos registros e regimes de intensidade, portanto não o utilizamos para contrapor-se ao fraco, tal como numa dimensão binária. Nossa estratégia orienta o termo forte na perspectiva de uma força ativa.

seu circular pelos diversos pontos de cuidado, inclusive aqueles não necessariamente da saúde, produzia agenciamentos em multiplicidade e rearranjos com desvios em nossas instituídas (e às vezes contaminadas) propostas de tratamento. Em grande parte, ele tecia suas redes em exercício de autonomia compartilhada, nos mostrando aberturas nas encruzilhadas do cuidado. Sua recusa em utilizar prótese de membro superior direito, o redimensionamento do uso de SPAs na perspectiva estratégica da redução de danos no pós-alta e a gestão de seus recursos financeiros são exemplos vivos desse protagonismo.

Sintonicamente, ressaltamos a importância de sua implicação no transcorrer desse trabalho, produzindo efeito interventivo no pesquisador e na pesquisa, nomadizando-nos, conforme foi colocado no capítulo 5. Muito mais do que glorificar a posição e escolha do usuário-guia em seu tratamento, é preciso tomá-las enquanto analisadores processuais das redes de cuidado; sua implicação possibilitou dimensionar a temporalidade em jogo no bailar do dispositivos, provocando zonas de litoraneidade borradoras dos limites formais do campo da clínica. Encontrar, conectar, compartilhar nossa caixa de ferramentas aos territórios existenciais de Bentinho constituíram processos vitais de agenciamentos na formação e expressividade das paisagens de cuidado.

Aprendemos com o caso-guia que, mesmo em circunstâncias adversas, não existe realidade prévia que antecipe e realize plena previsibilidade na evolução dos fatos, encontros e acontecimentos da vida. O caso-guia nos conduziu a processos de desnaturalização do instituído em devir, implodindo premissas que se apresentem como universais e verdadeiras. As múltiplas paisagens de cuidado dentro da paisagem do trecho 5 (saída às compras) mostraram processos desnaturalizantes, como a relação inusitada de Bentinho com seu corpo na parada para comprar roupas. Nesse sentido, outro ponto de destaque se refere à temporalidade do aqui e agora do cuidado, pois só pudemos fundamentar nossas construções desnaturalizantes após encontros-atos de cuidado, onde as quedas do instituído ocorriam in loco, o que corroborou com nossa estratégia da produção do cuidado em agenciamento.

O papel da Justiça no caso Bentinho ganha posição de destaque. Há um tempo as Políticas de Saúde e de Saúde Mental ressaltam a dimensão da intersetorialidade como diretriz para efetivação do SUS e da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial). Nossa experiência nos ensinou que, em casos de alta complexidade como esse, o contato com a esfera jurídica pode proporcionar avanços consideráveis tanto na condução dos processos jurídicos, como na condução do tratamento, se esquivando da armadilha imposta pela pergunta “Matou ou não matou (sua mãe)?”

Ao mesmo tempo, amplia os olhares acerca do contexto, abrindo zonas de problematização compartilhada e tomadas de decisões coletivizadas como produção do comum. Em Bentinho, verificamos que a relação com a Justiça, através do compartilhamento do caso entre nossa equipe e a Promotoria Pública e, principalmente, na audiência com a promotora (a pedido da mesma), mediante a presença do usuário, provocou desdobramentos cruciais no desenrolar do tratamento e na efetivação da alta hospitalar. Não foi somente uma intervenção que pudesse solidificar a proteção e os direitos ao usuário, embora também o fizesse. Sobretudo, esse ato-intervenção da promotora, por sua iniciativa pessoal, diga-se de passagem, gerou efeitos terapêuticos importantes nos processos de cuidado, uma vez que Bentinho reconfigurou seu tratamento agenciado a um reposicionamento de sua posição subjetiva disparadora de outros processos de subjetivação, intimamente relacionados na rearticulação de outras redes de cuidado, como por exemplo, interessar-se por seu tratamento e construir outros projetos de vida.

Também podemos dizer que a potência do encontro do usuário com a Justiça ressignifica um pedido reverberado por um bom tempo pelo usuário-guia, pois, para ele, o que se delineava não era também um processo de adoecimento mental gerador de cuidado integral, mas sim de que ele havia somente cometido um suposto crime e necessitava responder por isso judicialmente. Quem disse que clínica e cidadania não podem caminhar juntas?

Recolhemos positivamente o trabalho da direção institucional no favorecimento da evolução do caso Bentinho de acordo com algumas narrativas das entrevistas. Foi pautando-se nos processos construídos na micropolítica do cuidado que a direção do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira acompanhou as linhas de tratamento na perspectiva da integralidade e equidade, considerando de maneira concreta a importância desse processo se manter em continuidade no CAPS, partindo de uma transição cuidadosa com corresponsabilização. Isso nos demonstrou a importância de uma esfera de gestão mais próxima aos processos da macropolítica se afinar aos processos micropolíticos de cuidado. Foi no estreitamento de sua relação com as unidades de referência dessa rede que a direção institucional contribuiu inexoravelmente para a qualificação desse processo, sem lançar mão do uso da soberania que lhe é imputado, ao passo da valorização da missão maior em jogo que foi/é a defesa incondicional da vida.

Localizamos que um ponto importante de aprendizado com o caso-guia foram as problematizações em torno da questão diagnóstica, que apareceram no capítulo 3 e nas

entrevistas. Infelizmente, não é fato incomum que o uso do diagnóstico em alguns estabelecimentos de saúde mental gera processos de engessamento, clausura, aprisionamento subjetivo ou mesmo até a morte da singularidade de usuários. Bentinho nos ensinou muito em seus movimentos de atualização existencial manifestados via força forte. Aprendemos que, muito além de nos capturarmos nas mazelas e querelas das produções de matrizes discursivas diagnósticas, o mais importante, fundamental e vital no plano do cuidado é o como o fizemos diante das dificuldades, impasses e desafios colocados por Bentinho, mas também podemos estender essa lição a outros casos de intensa complexidade nos atos dos encontros. O diagnóstico se constitui enquanto um orientador de prática clínica e não como uma verdade absoluta, ou uma “sentença de morte”.

Rumo à finalização provisória do nosso aprendizado com Bentinho nesse processo- pesquisar, é importante deixarmos reflexões sobre a construção do lugar social da loucura. Atravessados nessa perspectiva, aprendemos arduamente com esse trabalho guiado pelo usuário a dignidade da loucura como produção de vida em obra. Aqui, não se trata de vangloriar a dimensão da loucura como ideal de vida, mas sim reconhecer suas linhas de força desejantes em constante agenciamento na imanência dos processos vitais, produzindo transformações permanentes e relevantes em nossa cultura e sociedade.

O Bentinho que, no início de seu percurso na saúde mental, nos assustou com sua trágica história, também nos mostrou potência de vida, transformando sua internação psiquiátrica em processos de externação nos agenciamentos do cuidado. Os territórios de sua singularidade inacabada visibilizaram algumas passagens de outros modos e seus usos no universo cotidiano, como o morar e o tratar no/com o CAPS, sem pasteurizar-se na assepsia conservadora e muitas vezes homogeneizante do “politicamente correto” (um exemplo disso é a manutenção do uso de SPAs, no qual ele construiu para si estratégias de redução de danos). Em seu estado de arte, nos ensinou a fazer rap, esculturas e afins sem nomear-se artista (seria um devir Bispo do Rosário em linha de fuga?). As marcas dessa experiência-pesquisa Bentinho nos ensinaram a relacionar-se com a loucura do outro sem interditá-lo soberanamente em seu existir, mas na produção compartilhada de redes vivas rizomáticas e nomadizantes em suas paisagens de cuidado.

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