4.3 Environnement de validation
5.1.2 Plan d’expérience
Cesariny foi um dos surrealistas portugueses que mais se preocupou em denunciar a realidade abjecta e as suas condicionantes, contrapondo-a à vida íntima, marginal e transgressivamente diferente do Poeta. Mas a recusa de Cesariny não é apenas de uma sociedade à qual procura fugir e na qual sempre se sentiu prisioneiro e alvo de constantes perseguições; é também de um determinado tipo de ideal poético que não se coaduna com a mis- são elevada que Cesariny atribui aos verdadeiros artistas. Como defende Ernesto Sampaio,
A poesia isola os poetas, reserva-lhes um sentido de separação e negação, e é esse o preço a pagar para manter o contacto interdito aos cérebros mortos. Não pagá-lo equivale a aceitar que a poesia se repercuta num plano que não é o seu, o da difusão fácil, da comunicação discursiva, dos prémios literários e da seriedade pomposa, da cultura” (Sampaio, 1988: 133).
Numa constante dualidade de discurso, que flutua entre a paródia cor- rosiva e caricatural da realidade que contempla com um olhar minucioso e atento, e o sentimento de uma posição particular que foi forçado a viver, com sofrimento, mágoa e individualidade sempre colocadas à prova, a poe- sia de Cesariny parece, conforme observado por Ramos Rosa, um grito:
mesmo que se saiba da inutilidade do grito, além da fatalidade liberta- dora que é para o sujeito que o emite, é colocar-se no seio das possibili- dades, é não aceitar o silêncio conivente das coisas, é provocar, é chamar a atenção para a existência absurda e paralisante da alienação, é mostrar descaradamente ao mundo e à irritação de quem se sinta representá-lo a existência do desequilíbrio e da dor que esse mesmo mundo continua- mente gera (Rosa, 1980: 99).
No poema “no país no país no país onde o homem é só até ao joelho” (Cuadrado, 1998: 69-70), Cesariny efectua, jogando com uma construção de associações aparentemente automáticas, uma crítica à moral vigente no Portugal seu contemporâneo, que impede o homem de poder dar a devida valorização e sentido a todas as dimensões do seu corpo. A castração a que os surrealistas se sentiam sujeitos é representada por uma efectiva redução do corpo humano às zonas não ligadas directamente à sexualidade. Mas não é só o corpo que sofre esta redução. Também o Poeta conhece uma natural subjugação, da qual se distingue claramente, apelando aos olhos como emblema da sua capacidade de percepcionar as coisas de outro modo:
e no país no país que engraçado no país onde o poeta o poeta é só até à plume e a plume que bom é só até ao fantasma ao passo que o fantasma – ora aí está –
não é outro senão a divina criança (prometida) uso os meus olhos grandes bons e abertos e vejo a noite (on ne passe pas)
Os olhos e o olhar são, na poesia surrealista portuguesa, uma presença constante, sendo-lhes atribuídas múltiplas significações e funcionalidades. Muitas vezes, são utilizados para representar todo o sujeito e a sua liberdade face ao real envolvente –muito por associação à imaginação resultante da combinação de dados observados no exterior e recombinados em imagens surrealistas – e como emblema da sua diferença, excepcionalidade e esclare- cimento únicos. Não será alheio a esta questão o tratamento dado por Fer- nando Lemos ao tópico da cegueira como reservatório de segredos motiva- dos por uma contemplação sensorial do mundo muito diferente.
Marginal por escolha própria, o sujeito tem plena consciência do que a sociedade pensa das suas escolhas, dos seus comportamentos e da sua postura. Fernando Martinho esclarece que “a única maneira eficaz de rejeitar a abjecção vigente parece ser, para o sujeito, a de abertamente assumir a marginalidade a que a «Ordem Moral» […] condena os que não se mostram dispostos a aceitá-la (Martinho, 1996: 49). A aceitação deste papel simultaneamente de vítima e de crítico activo é ironicamente tratada no poema “eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata (valiosa)” (Cuadrado, 1998: 75-76). Neste poema são colocados, entre parêntesis, comentários irónicos do sujeito que respondem à opinião que a sociedade tem acerca dos seus actos:
Esta, que não é brilhante, é que ninguém esperava ver num livro de versos. Pois é verdade. Denota a minha essencial falta de higiene (não de tabaco) e uma ausência de escrúpulo (não de dinheiro) notável.
Este é, também, um poema que reflecte o ambiente típico do grupo abjeccionista, centrando-se num espaço definido – o café – no qual o sujeito, acompanhado por pelo menos um amigo (“Armando”), vai com- pondo os seus poemas e sendo confrontado com os que o rodeiam e enca- ram com desdém, quer a sua atitude marginal, feita da recusa de um emprego estabelecido, quer a especificidade da sua poesia. O poema refere-se inclusive directamente aos verdadeiros motivos do condiciona- lismo em que vivem os poetas contemporâneos:
(que se saiba) é esta a primeira vez
que um poeta escreve tão baixo (ao nível das piriscas dos outros) aqui, e em parte mais nenhuma, é que cintila o tal condicionalismo de que há tanto se fala e se dispõe
discretamente (como quem as apanha).
As palavras que os poetas podem utilizar na sua actividade encon- tram-se, portanto, emparedadas, o que impede o poeta de escrever em condições menos precárias que aquelas de que está consciente mas que aceita por não querer deixar-se subjugar pelo poder. Não são apenas as condicionantes próprias da actividade literária e artística, conforme as refere Cesariny em “You are welcome to Elsinore” (Cuadrado, 1998: 89- -90) as que mais contaminam e dificultam o quotidiano dos que procuram apenas viver em liberdade. As amarras impedem, inclusive, o sujeito de usufruir espontaneamente do amor e da sexualidade. O poema “Corpo Visível” (Cesariny, 2004a: 61-67) é um dos que mais introduz a dura rea- lidade da opressão amorosa, permitindo, ao mesmo tempo, um contraste entre a noite – momento por excelência da liberdade surrealista conforme ela ainda era permitida no Portugal salazarista, numa aventura amorosa que não é vivida apenas pelo sujeito mas por outras pessoas com as quais se cruza – e a madrugada, quando a vigilância e a censura voltam a apertar e todas as possibilidades que tinham sido permitidas se diluem no dia-a- -dia quotidiano. A dimensão obscura e tacteante da noite é tida como indispensável ao alcançar da surrealidade:
o que só com as mãos pode ser soletrado só nos teus olhos nos teus olhos escrito
Noção que fica evidente em “poema” (Cesariny, 2004a: 44), mediante uma clara defesa da dimensão sombria do real como indispensável à per- cepção surrealista: “Por outro lado a sombra dita a luz/não ilumina real- mente os objectos/os objectos vivem às escuras/numa perpétua aurora surrealista/com a qual não podemos contactar/senão como os amantes/de olhos fechados/e lâmpadas nos dedos e na boa”. Novamente, a questão da visão e da cegueira é associada a diferentes possibilidades de conheci- mento do real.
Um dos poemas que me parece mais abrangente na configuração da postura poética de Cesariny face à hipocrisia da sociedade abjecta é “a carta em 1957” (Cesariny, 2004a: 139-143), que retrata o procedimento do poder face aos artistas que o contrariam, combinando uma profunda ironia com uma crua reflexão sobre a situação de um poeta que se propõe
viver livremente. Num primeiro momento, é-nos descrita a preocupação de todos face à dificuldade de localizar o “poeta”, já que, apesar de neces- sitarem dele, mantêm uma atitude de desconfiança:
Quando assentaram em que era urgente o poeta apesar dos olhares que ele lançava a tudo e daqueles casacos de trazer pelos mapas
todos se viram a braços com mil dificuldades em primeiro lugar a da morada
O poder patrocina uma busca do artista, que envolve jornalistas, interrogatórios a “mulheres de porte sexual” (uma possível referência aos meios marginais em que este tipo de poeta procurado se movimenta) e, como último recurso, um informador que o procurara no estrangeiro e fornece mais que uma localização possível. Percebe-se, ao mesmo tempo, qual o interesse por tal poeta:
Bem
havia outros poetas mas esses já estavam de acordo até pela apresentação a tempo e horas
de valorosos trabalhos eleitorais
simples fortes de resultado à vista – nada de metafísicas – como se tivesse visto nas também grandiosas
eleições anteriores
esses porém estavam certos mais que certos o que convinha agora era que o outro aparecesse não fossem lá os bandalhos julgar
que o poeta estava co’s outros ou que se calava
Num segundo momento, o sujeito, que até ali narrara a busca empreen- dida, resolve apresentar-se e às condições difíceis e abjectas em que se encontra para sobreviver à postura comprometida que dele esperavam – o que, parece-me, pode jogar também com a noção de absoluta dissidência face a todos os tipos de comprometimento, sejam eles os do regime ditato- rial, sejam os de outras possibilidades doutrinárias. Esta descrição faz coincidir facilmente o sujeito do poema com alguns aspectos conhecidos da biografia do autor, Cesariny:
na rua amália kandinsky o poeta premia os intestinos tinha acabado de traduzir Rimbaud e preparava atmosfera para mais
alguns trabalhos decentes em prosa rítmica a literatura propriamente saia-lhe
a barriga é que estava cada vez pior a um febrão sucedia-se outro.
Assinale-se, nesta descrição, o tom escatológico que Cesariny atribui à criação poética, algo que pode ser visto como um comentário irónico à excessiva transcendência e empenhamento de algumas correntes estéticas, à semelhança do que O’Neill faz no poema “«Alberina» ou «O insecto insulto» ou «O quotidiano recebido como mosca»” (O’Neill, 2007: 76- -77), ou como identificação entre a criação e o próprio poeta representado pelas suas entranhas e pelo desregramento a que, tal como elas, as condi- ções precárias o conduziram. São vários os poemas em que Cesariny se ocupa de assuntos normalmente considerados obscenos ou, pelo menos, desagradáveis e pouco adequados ao universo lírico. No poema “a um rato morto encontrado num parque” (Cesariny, 2004a: 23-24), por exemplo, além de fazer daquele aparentemente irrisório e nojento ser morto o pre- texto para uma reflexão acerca da existência e dos padrões pelos quais valorizamos ou não os outros seres que nos rodeiam e os próprios desti- nos que teriam a cumprir, preocupa-se ainda em definir uma leitura acerca da natureza amoral dos comportamentos humanos e depois acerca da própria poesia e das habituais gavetas em que se costumam arrumar as correntes estéticas mas que parecem tão insuficientes quando se trata de narrar os “pequenos nadas” quotidianos, expressão utilizada para definir a obra de outros autores que trataram os temas aparentemente banais, como Irene Lisboa:
Como brincar ao bem e ao mal se estes nos faltam? Algum rapazola entendeu sua esta vida tão ímpar e passou nela a roda com que se amam
olhos nos olhos – vítima e carrasco Não tinha amigos? Enganava os pais? Ia por ali fora, minúsculo corpo divertido e agora parado, aquoso, cheira mal. Sem abuso
que final há-de dar-se a este poema? Romântico? Clássico? Regionalista?
Como acabar com um corpo corajoso e humílimo morto em pleno exercício da sua lira?
São também recorrentes os poemas em que recorre a um registo lin- guístico considerado rasteiro e chocante, como em o “regresso de ulisses” (Cesariny, 2004a: 206-207), ou na recriação paródica do poema De Tarde de Cesário Verde (Cesariny, 2004a: 13), introduzindo no intertexto do
poeta oitocentista evidentes conotações sexuais. No primeiro caso, a defi- nição do feminino é desenvolvida a partir de um enquadramento obsceno e, penso que poderemos assim considerá-lo, deliberadamente provocató- rio. A questão do género é reduzida a uma glosa irónica e aparentemente demasiado chã do imaginário da androginia platónica, do mesmo modo que a própria mancha gráfica, com as palavras todas maiusculadas, sugere o tom agressivo e nitidamente desviante do conjunto:
O HOMEM É UMA MULHER QUE EM VEZ DE TER UMA CONA TEM UMA PIÇA, O QUE EM NADA PREJUDICA O NORMAL ANDAMENTO DAS COISAS E ACRESCENTA UM TIC DELICIOSO Á DIVERSIDADE DA ESPÈCIE. MAS O HOMEM È UMA MULHER QUE NUNCA SE COMPORTOU COMO MULHER, E QUIS DIFERENCIAR-SE, FAZER CHIC, NÃO CONSEGUINDO COM ISSO SENÃO PRODUZIR MONS- TRUOSIDADES COMO ESTA FAMOSA “CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL” SOB A QUAL SUFOCAMOS MAS QUE, FELIZMEMTE VAI DESAPA- RECER EM BREVE.
PELO CONTRÁRIO, A MULHER, QUE É UM HOMEM, SOUBE SEMPRE GUARDAR AS DISTÂNCIAS E NUNCA PRETENDEU SUBSTITUIR-SE À VIDA SISTEMATIZANDO PUERILIDADES, COMO FILOSOFIA, AVIA- ÇÃO, CIÊNCIA, MÚSICA (SINFÓNICA), GUERRAS, ETC. ALGUNS PEDANTES QUE SE TOMAM POR LIBERTADORES DIZEM-NA “ESCRAVA DO HOMEM” E ELA RI ÀS ESCÂNCARAS, COM A SUA CONA, QUE É UM HOMEM.
DESDE O ÍNICIO DOS TEMPOS, ANTES DA ROBOTSTÓNICA GREGA, OS ÚNICOS HOMENS-HOMENS QUE APARECERAM FORAM OS HOMENS-MEDICINA, OS HOMENS-XAMAS (HOMOSSEXUAIS ARQUI- -MULHERES).
ESSES E AS AMAZONAS (SUPER-MULHERES-HOMENS). MAS UNS E OUTROS ERAM DEMAIS. E DESDE O ÍNICIO DOS TEMPOS QUE PENÉLOPE ESPERA O REGRESSO DE ULISSES. MAS O REGRESSO DE ULISSES É O HOMEM QUE É UMA MULHER E A MULHER QUE É UMA MULHER QUE É UM HOMEM.
É absolutamente demolidora a perspectiva desenvolvida acerca da civilização ocidental e da sua tão longamente referida vertente de domina- ção masculina. Neste sentido, Mário Cesariny, reconhecidamente homos- sexual e, portanto, exemplar de uma sexualidade desviante, assume-se radicalmente num sentido semelhante ao de outros discursos contempo- râneos tendentes ao desmontar de ideais marialvas, como os de José Car- doso Pires ou do Alves Redol de O Muro Branco, e também ao das posições feministas defendidas, por exemplo, pela sua companheira de geração
Natália Correia e, mais tarde, pelas autoras das Novas Cartas Portuguesas. O tratamento agudamente livre da linguagem ligada ao corpo e aos terre- nos da sexualidade e do desejo é, neste caso, um mecanismo contestatário tanto como um gesto vanguardista em termos artísticos.
Nestas condições, retomando o poema a “carta em 1957”, um plano que permitisse manter a sua constatação de que “um poeta nem sempre é tal e qual uma pátria” e, portanto, deve resistir às pressões igualitárias a que o convidam, é tornado público, embora também seja, no final, colo- cado em dúvida pelo próprio sujeito marginal em revolta, num espelho perfeito das armas, das utopias e das dificuldades dos surrealistas-abjec- cionistas:
louvar o ser amado ter amigos leais
escrever todos os dias ou dia sim dia não publicar (o possível)
e protestar com lhanesa com simplicidade quer pessoalmente quer por telegramas contra toda e qualquer prepotência man- dona