1.2 Etat de l’art
2.1.1 Bornes de modulation de vitesse
A partir de 1953, a total desintegração do Grupo Dissidente não conhece caminho de regresso. António Maria Lisboa, um dos elementos fundamen- tais, responsável por grande parte do reduzido aparato teórico desenvolvido pelos surrealistas portugueses e que era seguido por companheiros como Risques Pereira ou Alves dos Santos7, morreu. De acordo com Cesariny, a sua morte foi típica de “um suicidado da sociedade” (Cesariny, 2004b: 25).
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Perfecto Cuadrado, no prefácio à obra de Henrique Risques Pereira, Transparência
do tempo, mostra claramente como a morte de António Maria Lisboa foi determi-
nante para o fim da aventura de Risques Pereira no universo do Surrealismo (Pereira, 2003: 8).
Cruzeiro Seixas, principal referência pictórica do grupo dissidente, partiu, nas suas próprias palavras, em busca “dessa transbordante dose do que não se sabe, do desconhecido, misterioso, profundo” (Almeida, 1984: 12) e encontrou-o em Angola, onde organizaria, em 1953 e 1957, duas polémicas exposições, de clara provocação e ataque ao regime, como recorda:
In un certo qual modo le nostre mostre a Lisbona nel 1949 e 1950 erano state provocatorie, ma non credo che nessuno di noi desse grande importanza al fattore provocazione. Ciò che in fin dei conti volevamo era stabilire un dialogo attivo e attuante, non rimanere spettatori passivi. Fu appunto con queste intenzioni che io organizzai le mie esposizioni di Luanda, dove la partecipazione della gente fu davvero sintomatica, come possono dimonstrarlo i documenti dell’epoca [...] (Picchio, 1978: 134). Regressaria apenas em 1964, a tempo de integrar a derradeira tenta- tiva de um projecto colectivo.
Mário Henrique Leiria e Carlos Eurico da Costa afastaram-se do movimento por, como o último explica numa entrevista publicada no Jor-
nal de Letras em 1999, já não o considerarem suficiente face ao desejo de
maior militância política. Pedro Oom “fechou-se em casa, como grande abjeccionista” levando a cabo, de acordo com Cesariny, “um suicídio se não pessoal em relação a tudo” (Faria, 2002: 17), ou seja, um encerra- mento em si próprio que lhe permitiria sobreviver face à situação envol- vente. Cesariny, a partir de finais da década de 50, integraria um novo agrupamento próximo dos ideais surrealistas e de uma concepção abjec- cionista, como afirma o próprio:
Em 1956-59 outra geração surgirá constituindo os chamados grupos do Café Royal e do Café Gelo. Estes grupos, com excepção do poeta Ernesto Sampaio, e de João Rodrigues, «surrealista em nós todos» como Vaché o poderá ter sido para Breton, votar-se-ão mais a um «abjeccionismo» conjuntural do que à proposta surrealista (Cesariny, 1985: 280).
Este grupo caracterizar-se-ia por uma marginalidade ainda mais acen- tuada que a dos surrealistas da primeira fase, já que eram na maioria vaga- bundos mal vistos pelo regime, que se reuniam no Café Gelo esperando encontrar, no convívio com companheiros com modos de vida semelhantes, um abrigo provisório face ao ambiente negro.
A década de 50, na qual começaram a sua actividade, caracteriza-se, de acordo com Fernando Martinho, pela ausência de uma “posição ine- quivocamente hegemónica” por parte de qualquer grupo literário. Vive-se “um clima mental não já dominado pela confiança e pela esperança, antes
marcado pelo cepticismo e pela descrença que se instalam no pós-guerra e se prolongam pelo período de guerra fria” (Martinho, 1993: 51-52). Algo que atingiria todos os escritores desta geração, mesmo aqueles que cons- tituíram uma segunda geração neo-realista. Como recorda David Mourão Ferreira, esta “geração bastante dividida” que passou por circunstâncias desfavoráveis à criação artística livre distinguiu-se pelos
modos de reagir a esse não-sentido […] – desde o entrincheiramento num non-sense, como fuga ou como protesto, até à procura humanística de um sentido que ao não-sentido se possa opor; desde a indiferença e da aceitação até à angústia e à revolta: desde o escamoteamento esteticista, com a ressurreição de diversas formas de maneirismo, até à objectividade do realismo crítico, expresso quase sempre em moldes de signo classicizante (269-272).
O Grupo do Gelo optaria por uma completa marginalidade, derivada de uma revolta absoluta e da recusa dos valores dominantes na sociedade burguesa, sobretudo os patrocinados pelo regime salazarista – Pátria, Família, Religião, Trabalho. Uma marginalidade que era infligida pela sociedade mas que eles também assumiam, seguidores de um espírito de vanguarda que depois da Segunda Guerra Mundial, e ao longo da segunda metade do século XX, perderia muito do seu sentido, mas que ainda lhes servia de mote:
O projecto é portanto o seguinte: através da novidade, contestar aquilo que se […] apresenta como fossilizado, velho, caduco, estereotipado; através da marginalidade, ou melhor, da recusa da marginalização, com- bater o poder oficial instituído; através da liberdade, combater a opres- são e a exploração […]. O discurso da vanguarda será portanto livre,
novo e marginal (Castro, 1987: 23).
Essa postura vai ter um duplo impacto, já que, se por um lado a jul- gam capaz de servir como arma de combate a uma sociedade na qual não se sentem confortáveis, também lhes serve como “exigência imediata perante a cidade da liberdade de viver, da liberdade de criar, da liberdade de se ser quem se é” (Castro, 1987: p. 22). Este aspecto é determinante para a caracterização que homens como Cesariny, Luiz Pacheco, Manuel de Lima ou António José Forte fazem do grupo. Um grupo heterogéneo, conflituoso, pouco dado a actuações colectivas profícuas, mas no qual dominava o espírito de camaradagem e de apoio mútuo.
Penso que pode ser estabelecido um certo paralelismo entre a situa- ção dos membros do Grupo do Gelo e o modo como Octávio Paz, em Los
hijos del limo, descreve a manifestação dos escritores sul-americanos do
pós-Segunda Guerra Mundial. Paz unifica-os através da expressão de Camus «solitários solidários» e define a sua acção como “clandestina, casi invisible y que muy pocos tomaron en cuenta”, descrevendo ainda as suas características mais salientes: eram filhos de uma sociedade que se con- frontara com os horrores da Segunda Guerra Mundial e que portanto se fechava num individualismo pessimista; não mantinham contactos com a base espanhola, do mesmo modo que em Portugal o contacto com o sur- realismo internacional, incluindo as vertentes dissidentes, era quase nulo; eram atraídos pelo surrealismo, apesar de terem chegado tarde ao seu conhecimento; optavam, na maioria, por uma independência estética e ideológica que os conduzia a concepções próximas do anarquismo; tinham em comum um profundo horror pela civilização do Ocidente e uma atrac- ção pela cultura oriental e primitiva; buscavam “una erótica más que de una poética”. Resumindo, Paz descreve-os como “una generación que aceptó la marginalidad y que hizo de ella su verdadera patria” (Paz, 1974: 192-193).
Sobressaía, no âmbito da criação artística, a influência do Surrealismo conforme o haviam concebido os dissidentes – distante do academismo em que lhes parecia terem caído os membros do Grupo Surrealista de Lisboa, respeitando sempre a liberdade individual de cada um, recusando qualquer tipo de ortodoxia rígida e voltado para uma transformação do homem e da sociedade que não fosse apenas levada a cabo no plano estético. Mas, tal como ocorrera com os primeiros surrealistas, não eram considerados pelo regime uma verdadeira ameaça, conforme recorda Cesariny:
Metíamo-nos ali abrigados do fascismo a fumar e a conversar anos intei- ros. Não fazíamos nada, nada. Não foi bom? A polícia aturava-nos, na verdade também não deitávamos bombas, éramos poetas e estávamos a fazer coisas, coisas nossas […] (Galhós, 2002: 19).
Prosseguiam a sua actividade sem nenhuma organização, sem nenhum tipo de liderança – apesar de Cesariny continuar a ser encarado pelos companheiros como um exemplo de resistência e de rebeldia –, sem quaisquer princípios doutrinários comuns, e obtendo poucos resultados práticos. Era “um cadinho de talentos, de publicações, de disparates, de sonhos” (Pacheco, 2004: 23) e “um espaço de convívio em liberdade plena, feroz e mútua crítica, nenhuma contemplação pelo arrivismo, a vida prática, as etiquetas sociais […]” (p. 99), no qual, apesar do respeito mútuo, o convívio não duraria muito porque, como também recorda
Pacheco, “éramos muito maus uns para os outros. Dizíamos nas caras uns dos outros, escrevíamos uns contra os outros…” (Pacheco, 2008: 53-54).
António José Forte, um dos mais activos desta segunda geração sur- realista, foi dos que mais procuraram lembrar o impacto do Café Gelo na cultura da época e na vida dos que nele conviveram, mesmo depois da dissidência que também caracterizou este grupo:
Jovens, alguns adolescentes, todos rebeldes, a crítica à cultura vigente era a actividade quase constante. E a exaltação de «Orpheu», do surrealismo, uma prática quase Dada, os valores por que orientavam os ataques à lite- ratura, às artes, à política, incluía nesta a oposição progressista. São estes valores o núcleo de atracção e repulsão que definirá personalidades, que as ligará por laços de camaradagem e amizade, que unirá personalidades em projectos literários falhados a maior parte deles, em projectos revolucioná- rios também falhados quase todos, mas que afinal, desaparecidos do Café Gelo, continuam ao longo dos anos a manter uma idêntica atitude incon- formista. (Forte, 2003: 142).
Percebem-se os lamentos que, na década de 60, farão os que fre- quentavam o Café Gelo, quando confrontados com o apagamento a que se votaram muitos dos companheiros, com o consequente aburguesamento e desinteresse pela luta activa e com as cisões e desavenças que acabaram com o espírito de unidade. Lamentavam, essencialmente, o fim e a pouca acção concreta deste “grupo de franco atiradores […], um grupo de poe- tas, sem dúvida. Que disparava ao acaso sobre a multidão, que inventava os seus infernos e paraísos, que usava a liberdade de expressão ora voando ora morrendo, desaparecendo, escrevendo às vezes” (Forte, 2003: 145). O fim do ambiente que, como recorda Manuel de Lima em “Interfácio”, terá contribuído para a concretização das duas versões do seu O clube dos
antropófagos. Os membros do grupo acabariam, novamente, “desorganiza-
dos, desunidos, afastados” e a sua acção seria sempre algo “catita, mas pouco eficiente”, como lamenta Luiz Pacheco em carta a Virgílio Marti- nho, um dos membros do grupo (Pacheco, 1974: 275).