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Physically Installing the UC07/08 PCBA

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4.5 Installing the UC07/08 in the MicroVAX II and LSI-11

4.5.2 Physically Installing the UC07/08 PCBA

Ao paradigma interpretativista subjaz uma concepção dos sujeitos como actores que atribuem significados às suas experiências, bases da interacção entre indivíduo e meio envolvente. Esta abordagem é coerente com a escolha de histórias de vida para recolha dos dados porquanto podem constituir um método que reforça esse entendimento dos sujeitos como “actores sociais” (Digneffe 1997: 205). O envolvimento dos indivíduos inquiridos como participantes da pesquisa e a elaboração de um resumo de apresentação dos objectivos e metodologia do nosso estudo foram resultados práticos desta forma de conceber a investigação (vd. “Apresentação da pesquisa”, em anexo).

Estas opções derivam da necessária reflexão sobre os “como e porquê” da pesquisa25 e em tornar a prática da investigação coerente com a análise dos papéis da investigadora e dos sujeitos nela implicados, tendo em conta que

“tanto na investigação como na metodologia da investigação, é na verdade um sujeito, isto é uma pessoa, que está em causa na sua relação com o real. Desta interacção decorre um conhecimento” (Deshaies 1997: 26).

Com efeito, qualquer etapa da investigação consiste num acto de categorização que implica selecção e exclusão de alternativas protagonizado pelo/a investigador/a, donde

“a interferência entre o estudioso e o objecto de estudo é inevitável, manifestando-se até na própria escolha do tema, na selecção do método de investigação e das técnicas face aos resultados que irá produzir” (Rocha-Trindade et al. 1995: 124)26.

25 “To be reflexive, then, is to undertake an ongoing examination of what I know and how I know

it” (Patton 2002: 64).

26 Argumentação evidenciada pela reflexão de Weber sobre a objectividade do conhecimento nas ciências sociais: “Não há nenhuma análise científica absolutamente «objectiva» da vida cultural, ou (…) «dos fenómenos sociais», que seja independente de pontos de vista especiais e «unilaterais» segundo os quais – explícita ou implicitamente, consciente ou inconscientemente –

Não há, pois, como escapar à reflexão sobre o modo de fazer investigação, quer pela necessidade e pela exigência que resulta dos “avisos” feitos por vários autores, quer pela atenção ao esforço de reflexividade enquanto operação incontornável da investigação social e inerente ao pensamento da modernidade (Campenhoudt 2003: 286), ou ainda pela evidência e consenso da argumentação sobre a relatividade e a construção social do conhecimento (Berger, Luckman, 1999; Berthelot 2000: 115; Nunes 2001: 38).

Da constatação de que o conhecimento é “situado”27 não se deve, porém, retirar a ilação de que foi assumida uma postura relativista nem de recusa da validade do conhecimento, construído nesta mediação entre sujeitos socialmente determinados (Berthelot 2000: 127; Boudon 1998: 367). Também não significa que se adopte um ponto de vista subjectivista, porque o foco de interesse não é aceder aos esquemas de representação ou sistemas de valores dos indivíduos (Bertaux 2005: 12).

O que motivou o desenhar e o percorrer do caminho da investigação aqui apresentada foi o estudo de uma situação social concreta – a participação associativa – tendo utilizado vários recursos conceptuais e metodológicos, de modo a identificar conexões significativas (no sentido atribuído por Weber) e a tecer interpretações plausíveis, para chegar à compreensão das lógicas, dos mecanismos e dos processos que conduziram às trajectórias identificadas.

À medida que as várias etapas foram sendo percorridas, surgiam interrogações sobre a forma de abordar e estabelecer relação com os sujeitos, como desenvolver o trabalho de campo, enfim, como articular trabalho empírico e teoria para que a produção analítica fosse válida ao nível científico e pertinente ao nível social. Sendo a matéria-prima empírica condicionada pela experiência e pelas características dos indivíduos entrevistados e pela sua capacidade de produzir

esses fenómenos são seleccionados como objecto de investigação, analisados, organizados e apresentados.” (Weber 2004: 623)

27 Adoptando a terminologia resultante da reflexão epistemológica das abordagens feministas: cf. Lovell 2002: 342-344; Haraway 1991: 183-201.

relatos dessas mesmas vivências, não há como omitir que também a experiência e as características pessoais do/a investigador/a influenciam a pesquisa:

“é necessário considerar em que medida é que a experiência, a idade, o sexo, a etnia influenciam [o seu] papel, as relações estabelecidas e o próprio processo de pesquisa. Em que medida é que a biografia e a experiência pessoal influenciam o papel desempenhado? Qual é o significado de se ser homem ou mulher para os papéis desempenhados e para as relações de campo?” (Burgess 2001: 96).

Outros autores alertam para o facto de

“os procedimentos de recolha de informação nas ciências sociais [serem] quase sempre medidos pelo depoimento dos agentes sociais acerca das suas condições de existência, [pelo que] uma atenção muito particular deve ser concedida às dimensões simbólico-ideológicas daquele mesmo complexo de relações” (Almeida, Pinto 1986: 75; cf. também Pinto 2004: 20).

Considerando a argumentação científica de que os vários elementos implicados na investigação ocupam diferentes posições de sujeito associadas a papéis, poder e estatutos assimétricos28, assumiu-se que é da responsabilidade da investigadora confrontar os dilemas colocados por esta situação e desenvolver uma prática de pesquisa coerente com os pressupostos teóricos adoptados e os princípios éticos enunciados. Daqui resultou a orientação da pesquisa para um (re)conhecimento do “outro” como sujeito da investigação29.

Enraizada numa perspectiva dos sujeitos inquiridos como elementos activos da investigação, contrapôs-se a designação de parceiros à de objectos de estudo. Os indivíduos são participantes da pesquisa pois detêm a informação que constitui a matéria-prima de qualquer construção analítica por parte da investigadora e

28 Vd. ponto 3.1., Parte I.

29 Neste sentido, a reflexão de Boaventura Sousa Santos sobre a transição de paradigmas no conhecimento vem trazer uma proposta de conhecimento-emancipação: “Nesta forma de conhecimento, a ignorância é o colonialismo e o colonialismo é a concepção do outro como objecto e, consequentemente, do outro como sujeito. Nesta forma de conhecimento, conhecer é reconhecer (…). Esse conhecimento-reconhecimento é o que designo por solidariedade.” (Santos 2000: 29; cf. também Santos, Meneses, Nunes 2004)

procedem à organização, (re)elaboração, interpretação e partilha voluntária dessa informação, o que exige uma relação assente no respeito pelo “outro”, apoiada pela recusa da hierarquização de papéis entre a investigadora e sujeitos participantes da investigação (Stanfield II 1993: 9). Considerá-los como participantes e não como alvo ou objecto da pesquisa pode justificar-se como estratégia metodológica que procura construir uma relação de confiança fundamental ao desenvolvimento do trabalho empírico (Burgess 2001: 114), o que tem origem, sobretudo, em questões éticas e na reflexão sobre as condições e os modos de fazer investigação.

No entanto, mesmo estando receptiva à reflexão dos próprios sujeitos, assumindo a centralidade do seu papel no processo de investigação e consciente das assimetrias de condição entre o “eu” e “o outro”, subsiste a interrogação de saber se a informação fornecida aos nossos parceiros e o esforço de com eles construir uma relação com base na confiança e respeito mútuos são suficientes para transpor as posições de cada uma das partes30. Certamente que as questões da diferenciação étnica e de classe não podem ser omitidas no caso concreto desta pesquisa, onde uma investigadora portuguesa branca com uma profissão científica, se relaciona com sujeitos negros, na sua maior parte Portugueses mas negros, o que condiciona assimetrias de poder simbólico, social e político entre investigadora e parceiros de investigação. Esta interrogação coloca-se de forma mais determinante quanto maior é a distância das experiências relacionais, sociais e culturais entre os indivíduos implicados na pesquisa, ou seja, o que poderíamos

30 Reflexão idêntica foi feita por Horta, que salientou no seu trabalho de campo de cariz etnográfico a recusa por parte dos indivíduos com quem trabalhou de serem considerados como um “objecto de estudo” por não aceitarem as assimetrias de poder associadas a essa posição, apesar de existir abertura e colaboração (Horta 2004: 316). Também Andersen reflecte sobre as relações sociais da investigação a partir de pesquisa por ela realizada junto de mulheres negras pobres, salientando que apesar do seu baixo estatuto social essas mulheres tinham clara consciência de que eram um alvo potencial de exploração pela investigação académica; algumas delas recusavam a gravação das entrevistas, embora tivessem confiança na investigadora pois partilhavam experiências significativas quando as conversas não eram gravadas (1993: 47-48).

designar por “contraste social” recorrendo à teorização elaborada por Machado (2002).31

Esta reflexão não pressupôs o estabelecimento de relações de amizade da investigadora com os indivíduos participantes na pesquisa, mas sim a tentativa de equilíbrio entre a proximidade e o distanciamento na pesquisa empírica (Costa 1986: 146-148), questão relacionada com a da objectividade, que constitui a crítica mais frequentemente apontada aos métodos qualitativos (Carmo, Ferreira 1998: 181).

Assim, admitimos que a familiaridade com o tema de estudo pode ser um factor facilitador

“nomeadamente no estudo de domínios empíricos com um défice de investigação, [da] reconstrução ideacional, na acepção compreensiva do termo, do sentido atribuído pelos actores à acção” (Pires 2003: 332).

Em contrapartida, pode também dificultar a distinção entre o que se consegue “ver” e o que a realidade nos mostra e potenciar uma incapacidade de nos desligarmos dos significados que anteriormente atribuímos a experiências pessoais consideradas equivalentes. Neste sentido, poderá ser invocada a reflexão de Harding (1998), para quem a neutralidade, entendida como condição prévia da objectividade no trabalho científico, é consequência de uma identificação sistemática dos interesses, discursos culturais e modos de organizar a produção de conhecimento por parte do sujeito investigador. Para tal propõe o conceito de

31 Burgess, a partir da sua reflexão sobre a metodologia da pesquisa de terreno, coloca interrogação semelhante: “em situações em que brancos fazem investigação sobre negros, as pessoas podem tornar-se amigas, mas amigas que sempre permanecem de alguma forma estranhas umas às outras” (2001: 99).

32 Esta análise é justificada pelo autor a partir da sua própria experiência pessoal no estudo realizado sobre os retornados (Pires 2003).

“objectividade forte”, em substituição de uma objectividade não problematizada (Santos 2000: 31)33.

Conceito complementar ao de objectividade forte constitui o de “reflexividade estratégica”, avançado pela mesma autora, que consiste na análise da localização histórica e cultural da produção de conhecimento, isto é, das relações de poder inerentes à construção do conhecimento científico (Harding 1998: 193). Objectividade forte e reflexividade estratégica complementam-se para tornar a produção de conhecimento mais modesta, porque têm em conta a multiplicidade dos recursos locais e a sua potencialidade de criar conhecimento, o que permite desenvolver relações mais democráticas tanto na esfera social como na esfera mais restrita da ciência (idem: 194).

Estes aspectos foram devidamente ponderados e aplicados na concepção adoptada de parceiros activos da pesquisa, bem como nos procedimentos operatórios do trabalho de campo, já explicitados em momentos anteriores. De forma complementar, reconhecer e atribuir relevância às experiências e aos significados elaborados pelos indivíduos, apela à confrontação e ao controlo do trabalho analítico efectuado.34

33 “What we do enables and limits what we can know. (...) cultures’ distinctive locations in heterogeneous nature, interests, discursive traditions, and ways of organizing the production of knowledge enable them to accumulate valuably different repositories of continuously revised empirical knowledge about nature and social relations. (...) different locations in the political order – in gender or imperial relations, for example – generate different resources for the production of knowledge” (Harding 1998: 141).

34 Partilhando da reflexão de Stanfield II, embora este autor se reporte especificamente aos resultados da investigação em questões raciais ou étnicas: “researchers need to rethink their mundane acceptance of the autocratic power relations of the research process. Sharing knowledge and professional rewards with subjects (...), beyond symbolic gestures, should be viewed as enhancing rather than tarnishing the relevance of studying the institutions and communities of peole of color. The more researchers (…) view cross-cultural and cross-class research as a shared human experience rooted in mutual respect and empowerment, the more knowledge for the good of all will advance well beyond the usual rhetoric regarding the enlightened virtues of science” (Stanfield II 1993: 15).

Síntese Parte II

A estratégia metodológica adoptada nesta investigação caracterizou-se pela abordagem qualitativa e a primazia do paradigma interpretativo. Assumiu-se um equilíbrio entre o objectivo de descrever e o desafio de interpretar para concretizar os objectivos da pesquisa e a resposta às suas questões centrais. A matéria-prima empírica foi recolhida com base em histórias de vida, a partir de múltiplas entrevistas focalizadas nas trajectórias de dirigentes associativos, descendentes de imigrantes africanos lusófonos.

A operacionalização de princípios éticos da investigação resultou numa concepção dos sujeitos entrevistados como participantes da pesquisa. Assumiu-se como estratégia metodológica o confronto dos dados pelos actores, por forma a reforçar a sua validade e a plausibilidade das interpretações.

Evidencia-se que às trajectórias associativas subjaz a pluralidade de significados e interpretações, fruto da complexidade e da não linearidade das histórias de vida relatadas e (re)elaboradas pelos seus protagonistas.

A Figura “O Vê epistemológico”, elaborada com base na proposta de Novak e Gowin (1999), apresenta de forma sintética os vários componentes da pesquisa e as opções tomadas (vd. Anexo 1).

PARTE III

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