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Como etapa prévia à recolha dos dados procedeu-se à identificação de indivíduos cujas características e experiências permitissem fornecer a resposta às questões formuladas na pesquisa, bem como comparar semelhanças e especificidades entre eles (Bertaux 2005: 27). Esta estratégia deu origem à constituição de uma amostra intencional, elaborada com recurso a várias fontes e por sistema bola de neve. A construção da amostra orientou-se pelo facto de nas histórias de vida se valorizar

“pessoas intencionalmente escolhidas pela relevância, pertinência e representatividade do seu percurso vivencial relativamente a determinado objecto de estudo” (Rocha-Trindade et

al. 1995: 121).

A questão central da pesquisa – compreender como se desenrolou a trajectória associativa de descendentes de imigrantes africanos lusófonos e seus efeitos em eventuais percursos de mobilidade – pressupunha o envolvimento de indivíduos que não tivessem uma experiência pontual, episódica ou irregular, mas antes que tivessem um percurso suficientemente longo no qual fossem adquirindo e

sedimentando experiências sobre as quais pudessem reflectir e avaliar do seu impacto para a vida pessoal. Por outro lado, tivémos em conta

“variáveis estratégicas [que] em função de reflexões teóricas e de estudos anteriores, se espera desempenhem um papel importante no campo do problema estudado” (Digneffe 1997: 213).

Estes princípios orientaram a elaboração de categorias de indivíduos a serem seleccionados na constituição da amostra. Definidos a priori, consideraram-se os aspectos a seguir enunciados:

- indivíduos do sexo feminino e do sexo masculino, de modo a identificar especificidades derivadas das relações de género, quer ao nível das razões para o envolvimento, quer dos significados e efeitos da participação, conforme sugerido pela literatura sobre o tema;

- filhos/filhas de imigrantes Africanos lusófonos nascidos em Portugal ou que residissem no país desde o início da escolaridade obrigatória, para abranger casos com trajectórias de socialização em Portugal e não confundir estas situações com a de descendentes que viveram uma experiência de imigração em jovens ou já em idade adulta (vd. ponto 3.2., Parte I);

- ligados a associações cuja intervenção seja dirigida a imigrantes e descendentes, o que se poderia traduzir em associações especificamente registadas como associações de imigrantes e descendentes, mas também associações juvenis ou associações culturais;

- dirigentes associativos, assumindo que ser-se dirigente resulta de uma participação regular e continuada no tempo e, em paralelo, expressa um empenhamento do indivíduo no associativismo, muito embora não excluíssemos eventuais casos de activistas com experiência prolongada numa associação (ou várias), mas sem terem assumido funções de gestão ou directivas.

Esta listagem funcionou como um guia, utilizado aquando dos contactos efectuados com pessoas ligadas ao associativismo, no sentido de obter informação que permitisse seleccionar indivíduos com o perfil adequado para integrarem a amostra. Permitiu, também, confirmar junto de pessoas que já conhecia se seriam, conforme intuía, casos a abranger pela pesquisa. Com alguma surpresa, apercebi- me que a grande parte dos contactos disponibilizados por associações não se enquadravam nos casos pretendidos, sobretudo porque correspondiam a jovens adultos imigrantes e não a descendentes, ou, em menor número, porque eram jovens que participavam nas actividades de uma associação mas não com uma durabilidade de experiência que pudesse assegurar a reflexão sobre o percurso vivido.

A preocupação subjacente à elaboração desta lista foi a de procurar um equilíbrio entre uma certa homogeneidade da amostra e uma diferenciação dos casos. Uma amostra homogénea possibilitaria comparar situações e identificar padrões de trajectórias; a diferenciação permitiria que a análise usufruísse do “capital de experiência biográfica”, que, segundo Bertaux, resulta de diferentes modos de interpretação de experiências semelhantes por parte de indivíduos que possam ter as mesmas funções e posições sociais (2005: 29).

A construção da amostra foi sendo feita de forma progressiva, com a aproximação sucessiva a diferentes indivíduos e a partir de várias fontes (vd. Figura 2, adiante). Nalguns casos, foi após a realização de algumas entrevistas que consegui obter outros contactos, dados pelo/a entrevistado/a. Daqui resultou que em algumas situações optei por entrevistar dois casos de dirigentes da mesma associação, mas que suscitavam a curiosidade de saber se daí poderia sobressair um “capital de experiência biográfica”, ou seja, se eram trajectórias que se confirmavam ou que se distinguiam. Após realização da entrevista ao segundo caso apercebia-me que, na verdade, cada trajecto tem singularidades próprias pela forma como a pessoa se envolveu no associativismo ou ainda pelos efeitos das dinâmicas associativas na sua vida. A participação em eventos organizados por associações de imigrantes e

descendentes também me permitiu abordar indivíduos de modo a averiguar se eventualmente se enquadravam nos perfis que procurava.

Figura 2. Redes de contactos

1 2 3 4

♀ + ♀ → ♀ ♀ + ♂ ♀ + ♂→ ♀ ♂ + ♀

A rede 1 corresponde a contactos pessoais, por via de experiência de trabalho com associações anterior a esta pesquisa (cf. WFM 2003); a rede 2 corresponde a contactos obtidos junto da associação SOS Racismo e como resultado de colaboração para o “mapear” das associações de imigrantes em Portugal (cf. Albuquerque 2002); a rede 3 refere-se a contactos resultantes da colaboração com uma organização não governamental de desenvolvimento num projecto sobre imigração (cf. Cavaco 2001); por último, a rede 4 indica contactos estabelecidos em conferências. A seta (→) corresponde a contactos que foram dados aquando

das entrevistas e reportam-se aos casos em que o/a entrevistado/a sugeriu o envolvimento de outro dirigente da mesma associação. Refira-se que vários vezes os/as entrevistados sugeriram nomes de pessoas que já eram do meu conhecimento, constituindo um indicador de que a pesquisa estava a abranger os dirigentes associativos mais activos e, digamos, os nomes “incontornáveis”. Do grupo que constituiu a amostra final, seis pessoas nasceram em Portugal, tendo as outras quatro vindo para o país antes da idade dos seis anos, acompanhando a mãe e como forma de reunir a família pois o pai já aqui se encontrava a residir (vd. “Perfil dos/as entrevistados/as”, em anexo).

Por razões deontológicas e com o objectivo de se tentar garantir o anonimato dos/as participantes (vd. ponto 2.3. deste Capítulo), optou-se por não identificar as

associações a que estes pertencem. Mas importa dizer que, no que respeita o tipo de associações abrangidas, oito dos sujeitos entrevistados participam em associações de imigrantes e descendentes, dois deles em associações juvenis legalmente constituídas e a situação restante corresponde à participação numa organização não governamental internacional. A inclusão deste caso no estudo justifica-se pelo facto da entrevistada já ter pertencido a uma associação de jovens descendentes de imigrantes, a qual ajudou a fundar e onde desempenhou funções dirigentes, muito embora esteja paralisada há vários anos. A passagem do seu activismo dessa associação para uma organização não governamental internacional, direccionada especificamente para os jovens descendentes de imigrantes na Europa, torna a sua experiência de grande valor heurístico para o estudo da participação associativa. É ainda de mencionar que, à data da realização do trabalho de campo, um dos entrevistados se encontrava de saída da direcção da associação, onde concluiu dois mandatos durante os 10 anos em que foi sócio e participante activo, prosseguindo o seu activismo numa organização não governamental. Todos desempenham funções de direcção nas associações a que pertencem.

Lembrando que em duas situações foram entrevistados dois dirigentes da mesma associação, a amostra abrange, assim, oito associações diferentes, formalmente constituídas e desempenhando uma intervenção regular junto dos jovens descendentes:

- cinco associações de imigrantes e descendentes, com estatuto reconhecido pelo Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural e algumas tendo, em simultâneo, o estatuto de associação juvenil;

- duas associações juvenis;

À medida que se foi avançando na realização das entrevistas, e tendo partido da intenção de identificar indivíduos cujas vivências são representativas e pertinentes para a exploração desta temática, não foi do mesmo modo descurada a procura de um “princípio de saturação”. Este acontece quando a informação recolhida é redundante, o que implica a procura de “casos negativos” que contrariem os dados recolhidos e as interpretações elaboradas (Bertaux 2005: 31; Digneffe 1997: 213). No entanto, ao longo deste percurso, fomo-nos apercebendo das dificuldades em encontrar “casos negativos”. Isso não se devia ao facto das histórias de vida recolhidas serem espelho umas das outras e não proporcionarem o confronto de situações, mas antes porque cada relato acrescentava informação aos anteriores e continha um olhar específico face à experiência do associativismo. Assim, não obstante a existência de pontos de união que permitiram identificar alguns percursos-tipo, o que sobressai são as singularidades das trajectórias analisadas (conforme explorado ao longo da Parte V).

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