CHAPITRE I : CADRE THÉORIQUE
1.1. P RODUCTIONS DISCURSIVES
Utilizou-se como recurso metodológico, duas técnicas de pesquisa social combinadas: a observação participante provida de um roteiro de observação e a entrevista utilizando-se de um roteiro a “entrevista semi-estruturada” que norteio o diálogo entre entrevistador – entrevistado. Para Marre (1991), é importante que o binômio entrevistador - entrevistado seja capaz de constituir um clima de confiança mútua, permitindo ao entrevistado o direito de falar de sua experiência vivida com toda plenitude, sem restrições, que possam comprometê-lo de expressar em profundidade suas vivências, no decorrer da entrevista.
Em pesquisa qualitativa é importante que o pesquisador realize uma imersão no campo que lhe permita desde uma perspectiva interpretativa, um olhar privilegiado sobre o objeto de estudo na condução da pesquisa (Kaplan e Duchon, 1988; Minayo, 1994; Cardoso, 1986; Velho, 2003).
Seguindo este pressuposto, esta pesquisa teve como proposta metodológica realizar a combinação de técnicas utilizadas na pesquisa social, aplicadas pelo pesquisador nos Centros de Referência em IST/HIV/Aids.
A partir de minha experiência prévia em pesquisa com pacientes que vivem com Aids, constatei que os Centros de referência de Ilhéus e Itabuna possuem salas adequadas para desenvolver entrevistas tranqüilas evitando interrupções de familiares ou estranhos. Os centros são vistos pelos pacientes como um lugar onde pode se conversar com confiança, os profissionais envolvidos na assistência são cuidadosos com o sigilo e onde existe uma prática cotidiana com atividades comunicativas – educativas conhecidas pelos pacientes.
A princípio, a coexistência no espaço físico dos CTA de outros serviços de assistências e dependências administrativas, identificaria os sujeitos, porém temos visto, na nossa experiência, que paradoxalmente esta miscelânea de cenários facilita o sigilo dos usuários que o visitam. No CTA de Ilhéus as dependências se misturam com salas administrativas do Centro de Assistência Especializada III, da 6ª Regional de Saúde, dos serviços de rede de frio do município e do Estado, salas de imunização, farmácia, laboratório de endemias, programas de controle da Tuberculose, Lepra, Leishmaniose e outras doenças endêmicas, serviços de odontologia dentre outros. No caso do CTA Julio Brito se abrigam praticamente no mesmo espaço, porém estruturalmente divididas o Centro de Referência Regional em Saúde do Trabalhador, CEREST, a Central de Regulação de Consultas e Procedimentos, um centro odontológico e por último e a sala de cadastramento do cartão SUS, muito visitada pela população local. Estas particularidades facilitaram a escolha destes cenários para a realização da pesquisa.
Não foi incomum, que se tratando de pacientes que vivem com HIV/Aids, que familiares, colegas, vizinhos e amigos próximos conheçam o estado de saúde dos doentes. Manter o anonimato no local onde residem atenta contra a realização das entrevistas nas residências dos sujeitos ou em outros espaços. Mesmo assim, como a maioria das entrevistas foram agendadas previamente, foi oferecido aos pacientes a liberdade de escolha pelo local onde se realizaria a entrevista. Muitos agendaram no CTA enquanto outros foram marcados no mesmo dia da consulta. Somente uma pequena parcela realizou a entrevista no domicílio, mas, cabe salientar, que estes pacientes moram sozinhos ou estavam sozinhos no momento da entrevista. Acreditamos que outros motivos pela
escolha majoritária pelo CTA estejam presentes como: o acesso ao domicilio, condições do local, co-habitação com familiares que, mesmo sabendo o estado de saúde, pudessem prejudicar a privacidade da entrevista. No caso dos médicos, durante o agendamento foi solicitada a escolha de um cenário propício onde fosse possível realizar uma entrevista tranqüila, sem interrupções ou necessidades de atender a outros pacientes. A maioria concordou em realizá-la no consultório em um dia de pouca movimentação de pacientes no final do expediente.
Vale salientar que tratamos aqui apenas de aspectos metodológicos- processuais das entrevistas, sendo que foi garantido, em todo momento, o sigilo dos entrevistados independentemente do uso do nome ou não durante a mesma. A observação participante é aqui entendida como uma co-participação na qual os médicos, os profissionais e o entrevistador compartilham o espaço sob circunstância que permitam a este último, a partir de um roteiro de observação em contatos direitos com os atores, obter dados sobre o comportamento dos indivíduos em situações especiais. Parte-se da premissa da familiarização que possibilita ao investigador penetrar no outro, uma vez que se acostumado com os atores envolvidos estes o aceitem cordialmente como um membro participante e assim possibilite apreensão de uma realidade com mínimo de distorções causadas pela sua inicial estranha presença (Nogueira, 1977).
Segundo Ceres Gomes et al (2000), a observação participante como técnica possibilita estar perto e distante ao mesmo tempo no evento observado. Desta forma compartilhamos com Cicourel (1990) que o observador é parte do contexto que pretende ser observado, sendo uma peça que influencia na modificação, ao mesmo tempo, em que estaria sob os efeitos de ser modificado pelo contexto. É
neste sentido que a observação participante representa um desafio para o pesquisador uma vez que o provoca para saber medir os efeitos de sua presença na sua participação como observante.
A imagem do observador como uma “mosca de parede”, ou seja, como alguém com a capacidade de observar tudo sem ser observado e sem influenciar o ambiente onde ele se encontra está há muito tempo ultrapassada pela sua intrínseca impossibilidade. A maneira mais pertinente de observar é rendo claro que a presença do observador é parte do evento observado. Tornando-se necessário, portanto, avaliar os efeitos desta presença no próprio evento, tendo sempre mente que muitas ações observadas podem ter sido geradas pela própria presença do observador (Ceres Gomes et al, 2000:63).
A respeito das limitações que enfrentamos como observador-pesquisador devemos considerar que características como idade, sexo, profissão são vitais para a aceitabilidade do grupo. Estas características, segundo Nogueira (1977), dever ser levadas em consideração na hora de escolha nos papeis. O fato do pesquisador ser também médico facilitou marcar as entrevistas e ao paciente expor sua identidade, uma vez que o sigilo estaria preservado. A condição de médico-investigador também nos auxiliou no acesso aos colegas médicos. Como desvantagem deve-se colocar que, a nossa profissão, poderia ter desestimulado o paciente a comentar suas experiências com a medicina popular e, em relação ao médico sentir-se intimido para a necessidade de realizar uma consulta “padrão ouro” uma vez que poderia “emitir um juízo”, a respeito da sua prática clínica. Neste último aspecto como pesquisador deu-se a oportunidade de poder utilizar, como material de pesquisa, dos próprios conselhos que médicos de assistência nos ofereceram a partir das suas experiências em acompanhar pacientes que vivem com Aids colocando-se assim em uma posição modesta de quem deseja apreender habilidades na assistência e manejo de pacientes com Aids.
Embora já tenhamos comentado que, enquanto pesquisador mesmo familiarizado com o grupo, nossa posição sempre foi de um estranho, esta
identidade nos beneficiou pois membros do grupo sentiram-se estimulados a nos comentar aspectos de sua experiência com os outros e até com a instituição pelo fato mesmo de sermos, em parte observadores alheios ao cenário.
A proposta metodológica da pesquisa buscou a triangulação de métodos de pesquisa social. Esta nos permitiu a partir do uso de duas diferentes técnicas qualitativas - entrevistas e observação - e de múltiplos informantes, com diferentes vozes e múltiplos pontos de vista, no sentido de melhor entender os significados e prática na relação médico-paciente no contexto da tecnologia médica, como também uma alternativa para a sua validação interna. Finalmente, a entrevista e observação participante permitiriam uma maior aproximação com os discursos e as práticas dos sujeitos e ao acompanhar a rotina de trabalho dos médicos entrevistados procura-se confrontar a prática com o discurso do médico no seu local de trabalho.
Para tal realizaram-se as entrevistas com pacientes, alguns novamente contatados durante o trabalho de campo e outros logo após da consulta com o médico com a finalidade de contrapor o que as pessoas dizem com o que elas fazem, fato que também seria elucidado na observação participante.
O impacto da presença do pesquisador na sala/consultório, na interação social foi inicialmente, uma preocupação da pesquisa. A principio foi algo constrangedor para médicos e pacientes, mas com o decorrer da consulta as nossas pontuais e sucintas participações atenuaram o efeito de um ser estranho dentro do consultório. Ao poucos começou o desenrolar de uma participação como parte integrante da equipe, representando um desafio para manter a minha posição de pesquisador, porém sem transparecer a minha perspectiva. Durante a análise das experiências de campo refletimos sobre a nossa participação e
encontramos um ponto de equilibro que nos possibilitava uma participação mais ativa no sentido de algum comentário pontual sobre a conduta clínica e ou tratamento, porém evitando sempre emitir nossas opiniões a respeito da relação com o paciente e a significação dos médicos e pacientes sobre a tecnologia. Devo salientar que esta situação tomou-se de surpresa, embora algo previsto não esperava-mos ser solicitados para opinar. O fato de estarmos na consulta e ter experiências trabalhando com a assistência de pacientes vivendo com HIV/Aids noc colocou nessa posição, mas em todo momento estivemos atendo para respeitar nosso lado de pesquisador-observador estando .sempre nosso olhar focado na práticas e falas.
A “neutralidade” esteve em todo momento perpassada pela nossa presença na sala, porém foi considerada ao analisar os dados obtidos e confrontá-los com as narrativas advindas das entrevistas.
Em média, a duração das entrevistas, foi de 30 a 90 minutos, totalizando aproximadamente 1.300 minutos de entrevista com pacientes e 220 minutos com os médicos. Os médicos foram abordados somente com uma entrevista que aconteceu antes da observação participante. Posteriormente criou-se, através de pequenos debates, um confronto de idéias sobre alguns aspectos que necessitaram um maior aprofundamento. Embora somente dois médicos foram acompanhados durante as consultas são houve observação participante sistemática nos Centros pesquisados. Nos outros dois somente foi realizada a entrevista com os profissionais, que embora realizada no consultório particular de um deles e no CTA onde trabalha o outro médico, não houve uma observação sistemática da consulta. Tivemos a oportunidade de conversar durante um seminário que ocorrera meses depois com um dos médicos entrevistados não
observados. Nesse encontro o profissional encontrava-se motivado para dar novos depoimentos advindos após sua reflexão sobre a entrevista. A mesma revelandou-se um momento singular para o debate. Como não portava o gravador, impossível gravá-lo, atentei prontamente para anotar algumas considerações que logo complementaram o diário de campo.
Visando estabelecer a confiança mútua entre entrevistador–entrevistado, que permita adentrar no campo, as entrevistas foram inciadas com uma fala informal abordando questões sobre o entrevistado, tempo que freqüenta o serviço, ocupação, desenrolando-se na forma de um diálogo espontâneo que o estimulou a participar na pesquisa. Propus-me, nesse primeiro momento da entrevista, não utilizar o roteiro a fim de contribuir com um clima de confiança e auxiliá-lo a esquecer a presença do gravador. Entretanto pretendeu-se um roteiro de entrevista com perguntas claras, necessárias e que se desenvolveu de forma espontânea, o que fez em muitos casos que o entrevistado sentisse a progressão das perguntas como algo natural, facilitando a transição de um assunto para outro aparentando que, naquele momento, ele não estava sendo interrogado, e sim expressando-se ativamente dentro de um processo interessante e útil. A experiência foi confortante, pois ao contrário de minha experiência no mestrado, desta vez alcançou-se uma harmonia maior entrevistado–entrevistador. Porém, em algumas entrevistas senti-me refém das falas, a cada momento abriam-se tópicos que não faziam parte da pesquisa, mas denotavam uma experiência interessante. Optei por dar “cordas” e retomar o tema proposto mais na frente. A minha agonia de principiante logo foi confortada com a emergência de questões limítrofes que viram enriquecer o presente trabalho.
Vale salientar a necessidade de alcançar uma empatia, visto que esta veio contribuir com uma melhor cooperação do entrevistado assim como um estímulo para superar o cansaço natural da entrevista. A partir dessa relação acredito ter podido alcançar quase que espontaneamente grande parte dos temas desejados. Finalizadas as entrevistas, fiz anotações no classificador e diário de campo, que logo foram repassadas, como comentários, para a versão digital. Em alguns casos, devido a riqueza da entrevista e em outros pela questão de intervalo curto entre as entrevistas, optou-se por gravar a minha fala (monólogo) relatando a experiência com a entrevista, suas interpretações e o desenvolvimento das expectativas.
Difícil foi a escolha do momento de parar o trabalho de campo, achar que tinha-se material suficiente para uma análise hermenêutica que desse conta dos nossos objetivos e propósitos. A escolha representa um desafio e me surpreendi em alguns momentos na interjeição entre a necessidade de parar e a de continuar a fala querendo ir além com as narrativas desses sujeitos.
Como recurso teórico-metodológico, nos ancoramos em Marré (1991) quando afirma:
A noção matemática e estatística da amostra não parece ser a mais apropriada (.,.) Na prática, deseja-se cobrir e alcançar, com um grau suficiente de evidência qualitativa, a totalidade dos temas, fatos, estratégias e juízos vividos pelos indivíduos pertencentes ao grupo social investigado, do qual se pretende reconstruir a trajetória e, sobretudo seu movimento no contexto social de outros grupos (Marre, 1991).
Finalmente, na apresentação desta tese acreditamos que conseguimos poder observar/ entrevistar 27 indivíduos, sendo deles 4 médicos. Considerou-se que foi um número suficiente enquanto grupo representativo da trajetória histórico, social, econômica e cultural.