CHAPITRE II : EXPLICATION ET ARGUMENTATION
2.1. I NCOMPATIBILITÉ OU COMPLÉMENTARITÉ ?
Em Itabuna:
Confirmei com a enfermeira a visita para uma quarta-feira à tarde, combinamos que chegaria às 14:00 horas, porém nesse dia houve um imprevisto e terminei minhas atividades, previstas para o horário da manhã, mais cedo e decidi chegar ao campo antes do horário. Entrei no CTA às 13:15 horas, e na minha chegada cumprimentei o segurança com um boa tarde e perguntei-lhe pela enfermeira. Poucos minutos antes esta tinha saído para almoçar e ele me convidou a esperá-la na sala de espera. Um grupo de pessoas aguardava nessa sala, onde uma TV exibia o jornal, percebi que entre elas algumas estavam acompanhadas e outras simplesmente esperavam pacientemente pelo início das atividades. Uma senhora, que usava guarda-pó que a identificava como membro da equipe, conversava ora com uma ora com outra das pessoas que ali estavam e passava, muito particularmente, algumas orientações enquanto aguardavam a chegada do médico. Aos poucos, quase todos foram contatados até que chegou a minha vez.
Funcionária: Posso lhe ajudar em alguma coisa? Perguntou-me com amabilidade. Eu: Espero a enfermeira, marquei com ela para às 14:00 horas, respondi.
F: Não se preocupe, ela foi almoçar aqui perto e deve chegar cedo. Fique aqui a aguardando. (reconstituição da fala a partir do diário de campo).
A enfermeira chegou cedo, antes das 14:00 horas. Cumprimentou-me amigavelmente, convidando-me para ir a sua sala. Já no corredor, em direção à sala de enfermagem, nos deparamos com a amável senhora que se aprontou em informar à enfermeira que eu estava desde cedo a aguardando.
A enfermeira me apresentou como médico e seguidamente explicou que a minha visita dera-se em ocasião da realização de um trabalho da universidade e que, por esse motivo, ficaria no serviço por uns meses.
A funcionária, acredito que pela sua resposta, ficou constrangida e me perguntou o por quê de não ter me identificado como profissional de saúde, já que poderia ter esperado a enfermeira em sua sala com ar condicionado tomando um cafezinho. Disse-lhe que não me importava com esses detalhes, que agradecia pela atenção, mas que estava bem ali assistindo o jornal na TV.
A funcionária me esclareceu:
Funcionaria: Imagina Dr, aqui sempre vêm “pacientes novatos”, eles chegam com medo, ficam dissimulando, perguntando uma coisa ali outra aqui. Às vezes vêm acompanhados, outros entram e saem, perguntam pelo médico e a enfermeira e retornam mais tarde. A gente tem que estar “antenado”, eu conheço todos os pacientes e quando vejo caras novas, procuro me aproximar para saber se eles estão precisando passar pelo médico ou marcar a consulta, porque até eles se “enturmarem” ficam pelos cantos (reconstituição da fala a partir do diário de campo).
Agradeci novamente pela atenção e convidei a funcionária para nos ajudar na pesquisa. Prestativa, ela logo aceitou.
Após a conversa com a enfermeira, fui apresentado à equipe. Fui muito bem recebido por todos, que logo se interessaram em cooperar com o meu trabalho. “Fique o tempo que quiser. Se precisar alguma coisa é só avisar”, gentilezas que me confortaram ajudando-me a me “enturmar” no campo.
Já conhecendo o lugar, andei pelos corredores e, com um olhar mais atento, reparei que existiam ali diferentes espaços onde se poderia aguardar por uma consulta. Logo na entrada havia uma pequena sala, onde eu estive aguardando,
minutos antes, pela enfermeira. Estavam ali algumas cadeiras dispostas frente ao televisor. Em um corredor lateral que dava acesso a sala da enfermeira, havia outra fileira de cadeiras, sendo um local um pouco mais reservado. Era uma daquelas cadeiras que a funcionária havia me indicado para que aguardasse pela enfermeira.
Frente à sala do médico existia outro conjunto de cadeiras, algumas logo no corredor principal e as pessoas que estavam ali sentadas podiam ser vistas por todos e de vários ângulos. Devido a um capricho estrutural existia ali uma entrada mais privativa onde um grupo pequeno de pacientes encontrava-se sentado. Eram umas poucas cadeiras e eles estavam pacientemente aguardando a chamada do médico. Por último, em um canto do corredor, nos fundos do Centro, próximos às dependências administrativas, encontravam-se dois pacientes aguardando sentados em cadeiras ali dispostas, mas que pareciam estar naquele lugar temporariamente, algo feito de improviso, pois atrapalhava o trânsito dos funcionários. Depois compreendi que os pacientes que revelam a sua condição de portador para a sociedade sentam-se na sala de espera junto ao televisor o no corredor da consulta médica. Aqueles que ainda por diversos motivos escondem a sua identidade de soro-portador do HIV/Aids procuram os cantos mais reservados. Lembro que na ocasião de entrevistar um deles, e que após vários membros da equipe me confirmaram que tinham o visto entrar na unidade foi necessário que circulasse por todos os corredores a sua procura. Acabei encontrando-lo junto à copa, sentado em uma pequena sala me aguardando, sendo este o local onde foi realizada a entrevista. Solicitei autorização do auxiliar administrativo para me permitir usar a sala, sendo que momentaneamente, ele teve que nos deixar a sós para poder realizá-la.
Finalmente, a minha experiência em lidar com paciente que vivem com Aids e a vivência nesse novo espaço me fez despertar para estes cenários e para os sujeitos e seus motivos em ocupá-los. Com certeza a funcionária teria um importante papel nisto.
Por fim, chegou o momento de ser apresentado ao médico. Adentrei a sala junto com a enfermeira, aproveitando a saída do último paciente. Enquanto conversávamos, a funcionária, que ali estava, organizava as pastas e, por várias ocasiões, interrompeu a nossa conversa para lembrar ao médico e para a enfermeira sobre a ausência de tal e mais qual paciente, sobre a chegada do exame de Fulano e que um outro paciente precisava marcar algum procedimento. As minhas suspeitas logo se confirmaram, aquela amável senhora seria uma peça chave na alocação das entrevistas e observá-la me ajudaria a entender o cotidiano do campo. Propus-me chegar sempre cedo, antes dos profissionais, para observar como as pessoas se distribuíam pelos diferentes cenários.
No centro trabalha somente um médico que cuida diretamente dos pacientes que vivem com HIV/Aids, outros profissionais médicos, pela sua especialidade, debruçam-se mais nos casos de IST. Quando necessário uma avaliação com outro profissional os pacientes são encaminhados para a instituição onde este atende. De forma geral quem circula no centro vai interessado em fazer um teste de HIV, solicita informação sobre DST/HIV/Aids ou é usuário do programa. Entretanto o estacionamento é compartilhado com o centro de saúde do trabalhador que fica em uma dependência vizinha.
Não observei atividade de sala de espera, mas esta quase sempre é movimentada pelo bate-papo aberto e espontâneo dos pacientes e pelo papel de
orientação/aconselhamento dos pacientes vivendo com HIV/Aids que são reconhecidos como lideranças locais.
Na hora da partida, a enfermeira me solicitou uma carona e aproveitei a viagem para explorar algumas das rotinas do CTA. Isto se repetiu em quase todas as minhas visitas.
Em Ilhéus.
O CTA de Ilhéus fica no Centro de Assistência Especializada III, antigo SESP. Esta instituição tem tradição no cuidado de pacientes portadores de doenças endêmicas e contagiosas. Aqui radicam os serviços de Controle da Tuberculose, Hanseníase, Leishmaniose, Raiva, dentre outros. No segundo andar ficam as dependências administrativas da 6ª Diretoria Regional de Saúde. O Centro é totalmente aberto para um pátio interno onde também fica o estacionamento e circulam por ele um grande número de trabalhadores, pacientes e visitantes. Percebe-se que existe no prédio, uma circulação de profissionais de saúde, funcionários, pacientes e acompanhantes que se misturam em todos os espaços, sejam aqueles destinados à assistência de pacientes ou administrativos. As salas ocupadas pelo CTA estão marcadas com faixas na porta, cada uma de uma cor e, assim, são facilmente identificadas. Os pacientes são referenciados seguindo essas identificações: “vá à porta de faixa laranja ou verde”, por exemplo. Confesso que ainda não consegui entender o objetivo daquilo e vi, nessa alternativa, uma quebra do sigilo dos pacientes que utilizam estas dependências. Durante meu trabalho de campo, procurei estar em todos os lugares. A diferença do CTA de Itabuna precisa- se aqui circular mais devido ao espaço ser mais disperso. Por vezes, sentei-me frente ao consultório médico, outras, mais próximo da enfermagem ou do laboratório
e assim, procurei estar em todos os espaços. Precisei conhecer alguns dos pacientes e logo consegui identificá-los misturados aos outros que circulavam pelos corredores do prédio. O médico atende todos os dias pela manhã, porém a mesma sala é utilizada por outros profissionais que lidam com Infecções Sexualmente Transmissíveis e Hepatites Virais.
Uma prática deste Centro é utilizar o número do prontuário para identificar o paciente. Segundo a situação de saúde, cada paciente é cadastrado e confeccionado um prontuário com um cartão de identificação e este número é utilizado em todos os formulários do Centro. Os pacientes que aguardam pela consulta médica ficam em uma sala interna próximo ao consultório. Uma auxiliar é responsável por marcar a consulta e procurar o prontuário no arquivo, onde estão todos dispostos pela ordem numérica. Não é incomum que permaneçam na sala de espera pacientes que se conhecem e conversem sobre o seu cotidiano. Em nenhum momento observei atividade de sala de espera para estes pacientes, no entanto as atividades educativas sempre acontecem com aqueles que procuram o Centro para Testagem (exame de Elisa para o HIV) denominada por Aconselhamento, no auditório do local.
A maioria das entrevistas foi marcada no horário da tarde, período de pouca atividade no centro e menos circulação de pacientes, mesmo assim, utilizamos a sala da gerência do CAE III, não identificada como dependência do CTA, para realizá-las.
Igualmente ao CTA de Itabuna, é comum a presença de lideranças de ONG’s que trabalham com soropositivos e pacientes que participam em programas de promoção e prevenção procurando portadores para estabelecer um diálogo amistoso sobre a sua experiência com a doença. Algumas destas lideranças
participam ativamente junto à Coordenação em atividades educativas extra-muros com o objetivo de compartilhar com os outros as suas vivências com a Aids.