INTRODUCTION À UNE ESCHATOLOGIE INTERMÉDIAIRE
P RÉAMBULE : LES LIEUX SCRIPTURAIRES DU MILLÉNARISME
D. P OSITION DU MAGISTÈRE
A Companhia de Jesus ergueu capelas e igrejas, geralmente às proximidades dos cursos d’água, em fazendas e aldeamentos catequéticos (missões). Costumeiramente ensinavam doutrina, letras e ofícios diversos, em consonância com o projeto político da Coroa Portuguesa de ocupação do território na região Norte, o que gerou conflitos com os colonos.
55
Sobre a continuidade da devoção nazarena, Heraldo Maués (1995) diz que se trata de um “santo vivo” e, como tal, figura como o mais importante do local, sendo a imagem levada em procissão de Círio, em setembro, precedida pela devoção a Nossa Senhora das Neves, padroeira da cidade, cuja festa acontece em 5 de agosto, conforme calendário litúrgico oficial. Ver MAUÉS, Raymundo Heraldo. Padres, pajés e festas: catolicismo popular e controle eclesiástico. Editora CEJUP: Belém-PA, 1995. 517p.
106 Para que os religiosos da Companhia pudessem se instalar na região, tiveram que assinar acordo, assim que chegaram, nos Livros de Termos de Acordãos do Conselho
Municipal, conforme o registro nas crônicas dos padres João Bettendorf (1990), João Daniel
(1994) e José de Moraes (1860) se comprometendo a não interferir na mão de obra escrava da “gente da terra” utilizada por colonos.
Em descumprimento ao acordo, a Companhia de Jesus saiu em prol de “índios livres” e foram expulsos por duas vezes, em 1661 e 1684. No retorno da Companhia ao Grão-Pará e Maranhão, os jesuítas foram beneficiados pela sanção do documento dos Regimentos das
Missões, em 1686, e pela Lei da Repartição das Aldeias de 1693, que entregava o poder
espiritual e temporal aos missionários, autorizando-os ao acesso à mão de obra nativa livre, em toda a extensão territorial; privilégio concedido também as demais ordens religiosas.
Sobre o assunto, Hugo Fragoso assinala que:
A história da Igreja na Amazônia, durante quase todo o período colonial, girou, de modo ordinário, em torno de dois pólos: a política de ocupação da corte portuguesa, e a ação cristianizadora dos missionários religiosos (FRAGOSO, Hugo. 1992, p. 139).
Eduardo Hoonaert (2008) também segue essa linha e defende que mesmo considerando os grandes conflitos com a administração, a expansão portuguesa não teria sido bem sucedida sem a atuação da missionação.
Mediante os instrumentos normativos que fortaleceram a associação Estado/Igreja, a circulação de religiosos pela floresta Amazônica foi intensa e de certa maneira autônoma, favorecendo a cristianização dos povos indígenas, rapidamente seduzidos pelos religiosos.
Antes dos instrumentos legais de 1686 e 1693, a situação nos estabelecimentos jesuíticos foi de condições materiais precárias. Mesmo com o apoio régio em missões, João Bettendorf (1990) afirma que, para a subsistência da Ordem no Grão-Pará, houve a comercialização de gado, de peixe salgado e das drogas do sertão, provindos de fazendas; estes recursos auxiliaram no custeio das construções dos templos e casas56 e na extensa atividade de evangelização57.
56
Não se tem por objetivo discorrer detalhadamente sobre os caminhos políticos e administrativos da Companhia de Jesus; para este fim, consultar a farta literatura disponível. Sugerimos CHAMBOULEYRON, Rafael Ivan.
Portuguese colonization of the Amazon region: 1640-1706. University of Cambridge, Faculty of History,
junho 2005 (Tese de doutoramento); CHAMBOULEYRON, Rafael Ivan. Duplicados clamores: queixas e rebeliões na Amazônia colonial. In: Projeto História, São Paulo, dezembro 2006, n.33, pp.159-178; CHAMBOULEYRON, Rafael Ivan. Justificativas e repetidas queixas: o Maranhão em Revolta (século XVII). In: Biblioteca Digital do Instituto Camões (http://www.instituto-camoes.pt/cvc/conhecer/biblioteca- digitalcamoes). Acesso em: 13/04/2011.
57
Ver: ASSUNÇÃO, Paulo de. Negócios jesuíticos: o cotidiano da administração dos bens divinos. São Paulo, EDUSC: 2004.
107 Renata Martins, citando Antônio Porro (2009), afirma que em fins de século XVII existiam cerca de 90 tribos e, entre eles, grupos linguísticos distintos, como os Aruak, Karib, Tupi, Jê, Pano, Tukano, Tikuna e outros, cuja população era estimada, na época da entrada dos europeus na Amazônia, em dois milhões de habitantes.
A relação com os nativos esteve presente desde o início nas aventuras pelo Norte; sem o domínio e a exploração da mão índia, a concretização da expansão da fé e o próprio desenvolvimento da Vice-Província não teria sido possível.
A abundante mão de obra indígena propiciou a escravidão do nativo, já que Portugal não tinha gente suficiente para a colonização de suas imensas posses; havia até um decreto proibindo a realização de serviços braçais por reinóis. Além disso, o Estado não gerava renda suficiente para a significativa aquisição de negros.
O impasse foi amenizado, conforme o autor, com a Lei de Repartição dos Índios, na qual os religiosos tiravam os nativos dos matos, desciam com eles para as missões e eram obrigados a reparti-los com o governo e colonos.
A partir de 1693 as aldeias da Companhia passaram a dividir o trabalho com as demais ordens. Assim, os inacianos praticaram o seu apostolado preferencialmente na área ao sul do Rio Amazonas e seus afluentes na margem direita, constituindo trinta aldeias até a data de expulsão, ao passo que as demais instituições religiosas ocupavam a área à margem esquerda.
Sobre a redistribuição desses lugares, Serafim Leite no livro Artes e Ofícios dos
Jesuítas no Brasil publicado em 1953, registra:
AMAZÔNIA
- Belém do Pará: Colégio de S. Alexandre e Igreja de S. Francisco Xavier (hoje Seminário).
- Margem esquerda do Amazonas: No Rio Negro (Tarumás) e Residência na Casa Forte (Manaus); Aldeias de Abacaxis (depois da mudança: Serpa – Itacoatiara), de S. Cruz do Jamundá (Faro), de Gurupatuba (Monte Alegre), de Urubucuara (Outeiro – Prainha), de Jacuacuara), etc. E também no atual território do Amapá).
- Margem direita do Amazonas:
- No Rio Javari: Aldeia de São Francisco Xavier, fronteira das terras de Portugal com as da Espanha.
- No Rio Madeira: Aldeias de Santo Antônio das Cachoeiras, Trocano (Borba), Abacaxis e Tupinambaranas.
- No Rio Tapajós: Aldeias de Tapajós (Santarém), Iburari (Alter do Chão), Arapiuns ou Cumaru (Vila Franca), S. Inácio (Boim), S. José de Maitapus (Pinhel), Santa Cruz e Aveiro.
- No Rio Xingu: Aldeias de Muturu (Porto de Mós), Itacuruçá (Veiros), Piraviri (Pombal), Aricari (Sousel).
- No Rio Tocantins: Aldeias de Camutá, Inhauba, Parijó e Itaboca.
- Na Região dos Furos (entre a foz do Xingu e Belém do Pará): Aldeias de Mortigura (Vila do Conde), do Guamá, de Sumauma (Beja), Aricaru ou Nheengaíbas (Melgaço), Arucará (Portel), dos Bocas e Araticum (Oeiras) e Fazenda Jibirié e Jaguarari.
108
- Na Região de Baixo até o Salgado ou Costa-Mar: Casa-Colégio e Igreja Madre de Deus, da Vigia; Aldeias do Cabu ou dos Tupinambás (Colares), Maguari, Murubira, Mocajuba, Tabapará, Maracanã, Caeté (Bragança), e Gurupi; Fazendas de São Caetano, Mamaiacu (Porto Salvo) e Curuçá.
MARANHÃO
- Na Ilha de São Luís: Colégio e Igreja Nossa Senhora da Luz (hoje Sé-Catedral), Casa Madre de Deus, Aldeias ou Fazendas de Anindiba (Paço do Lumiar), S. Francisco, S. Marcos, São Brás, Amandijuí, Igaraú, S. Gonçalo e São José.
Em frente da Ilha de S. Luís: Casa-Colégio de Tapuitapera (Alcântara).
- No Rio Itapicuru: Seminário do Guanaré, Aldeias Altas (Trendizela-Caxias), aldeias dos Barbados (Grande e Pequena), aldeia de S. Miguel.
- Outras Aldeias e Fazendas: S. Jacob do Icatu, Tutoia, Gamelas (Lapela), Maracu (Viana), Engenho de S. Bonifácio, Aldeia do Carará (Monção), S. João (Cortes), S. Cristovão (LEITE, Serafim, 1953, p.p. 32-33).
Para melhor visualização, apresentamos na página seguinte um mapa organizado pelo padre Serafim Leite, publicado pela primeira vez em 1938, com a localização das fazendas e missões da Companhia de Jesus no Norte do Brasil Colônia (FIG. 74).
109
Em
term
os de localização geral os pontos estu
dados estão situados na
os outros locais são:
LEITE. História da Companhia de Jesus no Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943. t. 3 . Norte. I Fundações e Entradas, séculos XVII e XVIII.
110 Em termos de localização geral os pontos estudados estão situados na região nordeste do Pará. Além de Belém, os outros locais são58: