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Nas seções anteriores, apresentamos de maneira breve as diferentes formas de se conceber linguagem e língua. Dentre as propostas apresentadas, optamos, neste trabalho, pela concepção de linguagem como interação por tal concepção exigir uma noção de língua como uma atividade interativa, social e mental. A partir dessas noções, emana outra noção, a de texto, que, desde já, podemos dizer que é um dos conceitos

nucleares nos estudos de Linguística de Texto e, assim, por conta de sua importância, passou por várias mudanças ao longo dos estudos da Linguística de Texto.

Segundo Halliday e Hasan (1976), a palavra texto é usada em lingüística para se referir a qualquer passagem, falada ou escrita, de qualquer comprimento. Ele pode ser falado ou escrito, em prosa ou verso, diálogo ou monólogo. Pode ser qualquer coisa, desde um simples provérbio até múltiplas formas de atos comunicativos. Assim, o texto pode ser usado em várias situações de uso. Ele pode ser estudado em diversas modalidades, tais como na fala, na escrita, através de um diálogo, entre outros. Em outro momento, os autores deixam mais clara esta relação entre o texto e o uso, quando o consideram como sendo uma unidade de linguagem em uso. Dessa maneira, como

podemos perceber, “o texto não é uma unidade gramatical, como

uma cláusula ou sentença, uma vez que não é definida por seu tamanho”4 (HALLIDAY; HASAN, 1976, p. 2). Na verdade, os autores concebem o texto como uma unidade de uso que não é definida por sua extensão, podendo se configurar até como um enunciado simples, como uma frase ou uma palavra. Para eles, o texto seria uma unidade de sentido.

Na concepção teórica de Bernárdez (1982), “o texto é uma unidade linguística comunicativa fundamental, produto da atividade verbal humana, que possui caráter sempre social” (p. 85). Segundo o autor, há uma estreita relação entre o texto e a coerência, pois o primeiro “está caracterizado por seu fechamento semântico e comunicativo, assim como por sua coerência profunda e superficial, devido à intenção do falante de criar um texto íntegro” (BERNÁRDEZ, 1982, p. 85).

Costa Val (2006) compreende o texto a partir de três aspectos: o pragmático, o semântico-conceitual e o formal. Segundo tal pesquisadora, há uma série de fatores pragmáticos que exercem papel determinante na produção e na recepção dos textos. Tais fatores, então, são responsáveis pela construção do sentido no texto e possibilitam que ele seja reconhecido como um emprego normal da língua. Nesse sentido, um texto possui uma série de peculiaridades que cada ato comunicativo exige. O que faz com que um determinado texto seja pertinente em um dado contexto ou não é justamente a

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Texto original: “a text is a unit of language in use. It is not a grammatical unit, like a clause or sentence, as it‟s not defined by its size” (HALLIDAY, HASAN, 1976, p. 2).

adequação à situação em que ele foi produzido. Dá-se isso porque “o contexto sociocultural em que se insere o discurso também constitui elemento condicionante de seu sentido, na produção e na recepção” (COSTA VAL, 2006, p. 4).

Outro fator crucial na constituição do texto é o seu aspecto semântico- conceitual. A autora nos fala que uma das propriedades básicas de um texto é o fato de ele constituir uma unidade semântica. Para ela, “uma unidade linguística, para ser texto, precisa ser percebida pelo recebedor como um todo significativo” (COSTA VAL, 2006, p. 4).

Por último, a autora nos apresenta o texto como uma unidade formal, material. Segundo ela, para que um texto tenha uma unidade, os “seus constituintes linguísticos devem se mostrar reconhecivelmente integrados, de modo a permitir que ele seja percebido como um todo coeso” (COSTA VAL, 2006, p. 4).

Em um estudo anterior ao de Costa Val (2006), Beaugrande e Dressler (1981) definiram o texto como uma unidade linguística concreta, tomada pelos usuários da língua em uma situação comunicativa interacional. Para os autores, o texto deve ser portador de uma unidade de sentido que pode ser viabilizada pelo estabelecimento de relações entre os elementos que o compõem.

Esta última concepção de texto atraiu muitas pesquisas no Brasil e fez com que tivéssemos uma modificação na maneira de se pensar o texto nos estudos de Linguística de Texto. Seguindo esta mesma linha de raciocínio, Koch e Travaglia (2008) definem o texto como uma

unidade linguística concreta (perceptível pela visão ou audição) que é tomada pelos usuários da língua (falante, escritor/ouvinte, leitor), em uma situação de interação comunicativa, como uma unidade de sentido e preenchendo uma função comunicativa reconhecível e reconhecida, independentemente da sua extensão (KOCH; TRAVAGLIA, 2008, p. 09).

Há, então, uma busca de ter o texto como um processo que se constrói no ato de interação entre os sujeitos envolvidos na comunicação. Em outro trabalho, Koch (2009b) nos diz que à concepção de texto com a qual trabalha “subjaz o postulado

básico de que o sentido não está no texto, mas se constrói a partir dele, no curso de uma interação” (KOCH, 2009b, p. 30 [grifos da autora]).

Defendemos, um conceito de texto como uma unidade funcional de natureza discursiva que opera basicamente em determinados contextos comunicativos, sendo, pois, um determinado ato comunicativo unificado em um complexo universo de ações humanas interativas e, por que não dizer, colaborativas, no qual convergem ações linguísticas, cognitivas e sociais.

É salutar falar que essa concepção de texto como um ato comunicativo interativo, que será usada em nosso trabalho, foi propiciada com o desenvolvimento de novas perspectivas teóricas na Linguística de Texto, principalmente no final da década de setenta do século XX, quando o foco da LT, que estava centrada nos estudos acerca da competência textual dos falantes (MARCUSCHI, 1998), passa para uma nova fase teórico-metodológica, cujo enfoque passa a ser na noção de textualidade, estabelecida por Beaugrande e Dressler (1981)5.

Neste capítulo, vimos os conceitos de linguagem, de língua e de texto são basilares para qualquer tipo de trabalho que tenha como objetivo analisar algum fenômeno da linguagem. Vimos, também, que esses conceitos são definidos variando conforme a perspectiva teórica na qual o pesquisador se insere. Preferimos entender a linguagem como uma forma de interação. Essa preferência teórica se dá por a vermos como um trabalho coletivo, uma ação orientada com determinada finalidade específica, que pode ser realizada em diversificadas práticas sociais existentes nos vários momentos da história, ou seja, ela seria um local onde ocorrem as práticas sociais em que os falantes atuam como sujeitos, e estes ocupam um papel primordial, pois são ativos. A opção de considerar a linguagem como um lugar de interação nos fez entender

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Com a proposta de Beaugrande e Dressler (1981) acerca dos mecanismos de textualidade, exigiu-se que os conceitos de contexto e de interação, que eram recentes nos estudos da época, passassem a ser cruciais para LT. Entendamos contexto como sendo uma série de condições exteriores à língua e que são necessárias para a produção, a recepção e a interpretação textual. Corroborando este pensamento, Costa Val explica que “o contexto, pode (...) definir o sentido do discurso e, normalmente, orienta tanto a produção quanto a recepção” (2006, p. 120). Dessa forma, os diversos textos só possuem sentido, nesta nova visão, quando estão em um processo de interação, haja vista que os sentidos só se dão a partir de um momento de interação existente entre o coenunciador e o texto propriamente dito.

a língua uma atividade interativa, social e mental, que estrutura nosso comportamento e permite que nosso conhecimento seja estruturado.

No próximo capítulo, apresentaremos as principais perspectivas teóricas acerca dos fenômenos da coerência e da coesão que se tem notícia, destacando-se os vários teóricos que lidaram com estas noções.

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AS VÁRIAS VISÕES ACERCA DA COERÊNCIA E DA COESÃO

Neste capítulo, apresentaremos as várias concepções acerca dos fenômenos da coerência e da coesão. Sabendo-se que um dos pontos-chave nos estudos recentes em Linguística de Texto está sendo as várias discussões acerca do que faz com que um texto seja um texto, analisaremos as discussões encetadas por estudiosos da Linguística de Texto que se debruçaram sobre os fatores de textualidade, destacando os conceitos de carência e de coesão defendidos em cada uma das propostas. Inicialmente, apresentaremos a visão de Beaugrade e Dressler (1981), que viam a coerência como uma continuidade de sentidos. Depois, passaremos para a visão de Halliday e Hasan (1976), que viam a coesão a partir de uma série de critérios semântico-discursivos e acreditavam que ela se estabelecia sempre que se buscasse entender um elemento do discurso a partir de outro elemento. Em seguida, apresentaremos a visão de Koch e Travaglia (2008), que viam o fenômeno da coerência como um princípio de interpretabilidade textual. Também mencionaremos outro importante trabalho, o de Charroles (1978), que propôs que a coerência se constituiria a partir de quatro “meta- regras”. Essa concepção também foi seguida por Costa Val (2006), que adaptou as “meta-regras” de propostas por Charroles (1978).