Os cobradores de impostos eram pessoas de má reputação consideradas impuras e indignas de convivência. Eram muito desprezados, primeiro porque serviam aos dominadores romanos, depois porque tiravam o próprio lucro ao acrescentar as próprias taxas aos impostos. Por isso, eram classificados como indivíduos impuros com os quais os judeus piedosos não podiam associar-se. Os fariseus ficaram escandalizados porque Jesus foi jantar na casa de Mateus, na companhia de muitos cobradores de imposto (Mt 9, 10.13). Mateus era cobrador de impostos, os publicanos eram pessoas odiadas pelo povo devido à extorção de dinheiro, roubando por meio legais, viúvas e outras pessoas destituídas da época. Estes homens eram classificados entre as prostitutas como os pecadores da classe mais vil. Os fariseus consideravam os publicanos como homens sem esperança, sem direito ao arrependimento. Jesus passando pela coletoria de Mateus, disse-lhe: “Segue-me. Este, levantando-se, o seguiu” (Mt 9, 9). Em seguida se fala de Jesus à mesa com muitos pecadores: “Aconteceu que estando ele à mesa em casa de Mateus, vieram muitos publicanos e pecadores e se assentaram à mesa com Jesus e seus discípulos” (Mt 9, 10). Na cultura semítica a refeição tem um sentido antropológico que transcende o aspecto da nutrição; estar à mesa significa um momento por excelência de comunhão entre pessoas. Aceitar o convite de um pecador, considerado publicamente impuro e desonesto, na companhia de muitos outros pecadores, infligia preceitos rabínicos fundamentais que causava grande escândalo 449.
Os fariseus que haviam presenciado a cura do paralítico buscavam um motivo para acusar Jesus. Tomados pelo sentimento de inveja, hostilidade, agressividade e violência sentindo-se desmascarados por Jesus receosos de enfrentá-lo novamente, dirigiram uma pergunta cheia de maldade aos discípulos: “Por que come o vosso Mestre com os publicanos e
os pecadores?” (Mt 9, 11). Os fariseus querem contaminar os discípulos com a violência para
447 A atitude misericordiosa do pai, que revela a misericórdia divina, opõe-se, à do filho mais velho, à dos
fariseus e à dos escribas, que se gabam de serem justos porque não transgridem nenhum preceito da Lei. Cf. BÍBLIA: A Bíblia de Jerusalém. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2004. p. 1365.
448 Cf. JEREMIAS, Joachim. As Parábolas de Jesus. 3. ed. São Paulo: Paulinas, 1980. pp. 125-135. 449 Cf. BÍBLIA: La Bibbia di Gerusalemme. 11. ed. Bologna: Edizioni Dehoniane, 1998. p. 2104.
que se posicionem contra Jesus; há um esforço enorme deste grupo religioso para constituir uma maioria contra Jesus. Buscam inflamar os discípulos mostrando o quão escandalosa é a atitude de estar no meio desses pecadores impuros e desonestos. Para a literatura judaica estar no meio dessas pessoas equivalia a cometer os mesmos pecados delas. A Mishnah 450 ensinava a hospitalidade (aboth 1, 5): “Que a tua casa esteja escancarada, e que os pobres
sejam membros de tua família”. Entretanto, não encorajava essa atitude para com os que chamavam de “pecadores”. Até mesmo muito tempo depois Pedro continuava aderindo a esse conceito farisaico do exclusivismo, tendo-se separado dos irmãos gentios (Gal 2, 11-12).
A resposta de Jesus nos coloca no âmbito do Reino de Deus que significa objetivamente a rejeição do reino de Satanás, entendido como, o processo de violência que conduz ao sacrifício do bode expiatório, como projeção das violências internas sobre uma vítima. Na visão dos fariseus, tanto os cobradores de impostos, como Jesus são alvos diretos dessa violência destruidora. Os primeiros, por uma questão política com fundo religioso, estão a serviço do poder romano e oprimem o povo com altos impostos, levando visível vantagem à custa da opressão popular. Por isso, são considerados pecadores públicos; alvo da raiva popular. Jesus, por sua vez, é alvo da violência porque desmascara o poder político, religioso e social de Israel apresentando a proposta do Reino de Deus. Os fariseus sentem-se atacados nos seus preceitos e privilégios; Jesus traz à tona as contradições e sombras do judaísmo do primeiro século, realizando obras e sinais que mostram a chegada do Reino. Revela um novo rosto de Deus fundamentado no amor e na misericórdia por todos, especialmente pelos oprimidos e marginalizados, ou seja, pelos bodes expiatórios da sociedade da época..
“Misericórdia é o que eu quero, e não sacrifício” (Mt 9, 13). O termo hebraico
rehamîm (vísceras maternas) significa um sentimento íntimo, profundo e amoroso que se traduz em atos de compaixão e de perdão (Sl 106, 3; Dn 9, 9). Outro termo hebraico importante é “hesed”, que significa bondade, compaixão, benevolência.
“Não são os que têm saúde que precisam de médico, e sim os doentes” (Mt 9, 12). Jesus usou uma linguagem popular entendida por todos. Os que se consideram justos, como os fariseus, não precisam de perdão. Os pecadores que necessitam da misericórdia e do perdão divino. “Ide, pois e aprendei o que significa” (Mt 9, 13): frase comum da literatura judaica, usada pelos rabinos quando queriam frisar um conceito. Os fariseus se satisfaziam em retirar- se da presença daqueles que consideravam pecadores, julgando de forma preconceituosa que
450 Cf. CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo: Lucas, João.
qualquer contato com os pecadores lhes trouxesse a impureza, contaminando-os e impedindo- os de adorarem a Deus. No Antigo Testamento, a remissão dos pecados se dava mediante o sacrifício de um animal no templo e oferta do sangue para Deus. A prática sacrifical foi bastante presente no judaísmo do Antigo Testamento, a ponto que o livro do Levítico prescreve as normas do sacrifício verdadeiro.
Jesus apresenta uma nova lógica para o perdão dos pecadores, não mais fundamentada no sacrifício, mas na misericórdia. A tese da retribuição que é um modelo mitológico de justiça, bem na linha do mecanismo vitimário, pregava a condenação e o castigo do pecador. Os fariseus estão nessa dimensão em relação aos cobradores de impostos: não aproximar-se, não relacionar-se, discriminá-los, condená-los e castigá-los. Jesus pede misericórdia para aqueles que devem ser sacrificados, segundo a justiça da sociedade. Na visão de Jesus, o que cancela os seus pecados e os leva à conversão é o amor misericordioso. A frase de Jesus é importantíssima no contexto da tese de Girard. O antropólogo francês, ao estudar a Bíblia hebraica e principalmente os Evangelhos, grita aos quatro ventos, que o judaísmo é um processo progressivo de superação da religião violenta, mas essa é definitivamente superada no evento histórico Jesus de Nazaré, especificamente no sacrifício da cruz. A resposta de Jesus aos fariseus exigindo misericórdia é um momento significativo neste quadro, pois nos mostra que Deus não se deleita com a violência dos sacrifícios, mas sim, com a gratuidade do perdão, da misericórdia e do amor. A pedagogia do amor como fonte do perdão e da reconciliação funciona no trecho da mulher adúltera e do filho pródigo. Nessas situações Jesus assume a causa do bode expiatório e nunca dos perseguidores.