Chapitre 5. Intégration au milieu
5.1 Migrer dans un « petit milieu » : une insertion difficile
Deixei o leito para escrever. Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes. Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as flores de todas as qualidades. (...) É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela. As horas que sou feliz é quando estou residindo nos castelos imaginários. (JESUS, 2001, p. 52)
Retoma-se esse trecho do Quarto de despejo de Carolina Maria de Jesus, nas considerações finais desta pesquisa, numa tentativa de retomar algumas questões do estudo, pois, em verdade ele acompanhou todo o processo da pesquisa, principalmente nos momentos de reflexão sobre o que seria a prática cultural da escrita entre essas mulheres.
Ao ler trechos como esse, para mim, tão fortes e carregados de significados e, ao mesmo tempo, tão belos, perguntava-me, o que teria feito Carolina escrever e de onde teria saído esse movimento gerador de palavras, frases, textos. Pensava, também, em quem seriam essas outras mulheres escritoras, que passavam para o papel sentimentos, reflexões, angústias, ou apenas desabafos...
Tais questionamentos e outros, postos como norteadores, foram delineando o estudo durante o percurso da pesquisa, no qual destaco a pesquisa de campo e as fontes materiais. Sair a campo para a realização dos questionários constituiu-se um deslocamento do lugar, fazendo deixar por alguns momentos os textos literários de Carolina de Jesus e de Marguerite Duras, para mergulhar em busca dos sujeitos pouco escolarizados que também escrevem. Esse deslocar-se permitiu, mesmo antes de ler os questionários, tomar contato com pessoas escritoras que ali, ao responderem o questionário, já se manifestaram sobre suas práticas.
Ao manusear com cuidado os questionários, percebi serem muitas as pessoas que afirmavam ter uma prática de escrita, e também de leitura para além da escola, motivo pelo qual ressalto a necessidade da continuação e do aprofundamento de estudos sobre as práticas da escrita de indivíduos pouco escolarizados e isso porque os questionários relatam, de forma significativa, que as
alunas da Educação de Jovens e Adultos escrevem para além do ambiente escolar por diversos motivos que, absolutamente, não incluem a obrigação de tal.
As entrevistas com as quatro mulheres foram momentos em busca de compreensão de suas práticas. Nesses eventos, estabeleceu-se uma relação de confiança entre pesquisadora e entrevistadas, o que contribuiu para que as entrevistas se transformassem em conversas informais e, com isso, os cadernos e escritos em folhas soltas fossem disponibilizados, sem maiores dificuldades.
As fontes materiais, cadernos e escritos, geraram, no primeiro contato e ao realizar a leitura, uma sensação de surpresa, pela força e beleza do material, da palavra ali escrita. A surpresa por não imaginar inicialmente o que estaria ali escrito e, percebi que, a cada leitura, o sentido de cada texto, cada verso e mesmo cada caderno tomava forma mais e mais definida. E, quanto mais eu lia essas fontes, mais beleza encontrava e mais possibilidades de construir sentidos eu percebia.
Antes de ser a pesquisadora em busca de compreensões para essas fontes, eu fui leitora dos textos. E, como leitora, os escritos me causaram emoção, inquietação, questionamentos. No debruçar-se da pesquisadora, a leitura dessas fontes apresentava relação com questões escritas por Carolina de Jesus e por Marguerite Duras. Em outros momentos, os trechos lidos remetiam aos referencias sobre a história das mulheres, em questões sobre ser mulher e na condição feminina.
A leitura do material das mulheres trouxe muito mais elementos do que esperava encontrar, são escritos sobre a própria vida nas diversas possibilidades da vida de cada uma, sobre aspectos da vida humana que envolve tanto a si mesmo como o outro. Esse universo escrito me fascinava, principalmente pela singularidade existente em tais materiais, assim como acontecia nas entrevistas. De certa forma, no início da pesquisa, imaginei encontrar escritos relacionados a questões do gênero mulher, relatados na História; percebi, no entanto, que essa questão é apenas uma entre tantas outras que esses escritos nos apresentam.
Diante da riqueza das fontes materiais e dos referenciais teóricos os eixos de análise foram construídos – práticas da escrita, escrita de mulheres (o que escrevem) e escrita de si –; três grandes eixos que possibilitassem a compreensão de diversos aspectos dessas práticas no interior de cada um.
Na construção de cada eixo de análise há a leitura e a escrita da pesquisadora, a minha leitura e escrita, que para elaborar tais análises debrucei-me
nas fontes e em idas e vindas destas para os referenciais e para o meu texto fazendo “recortes” de trechos significativos, encontrando pontos de contatos entre os materiais e as singularidades, buscando não perder o foco dos objetivos da pesquisa. Por isso, ressalto que a análise apresentada nesta pesquisa é decorrente da minha leitura e compreensão desse material, sendo possível que outras pessoas realizem diferentes leituras a partir das mesmas fontes.
Mesmo havendo uma dedicação ao trabalho com as fontes, elas não estão esgotadas, pois os escritos dessas mulheres dizem muito mais do que este trabalho pôde dar a ver, são fontes inesgotáveis de leitura.
A escrita dessas mulheres, acredita-se, tem importância por mostrar o contexto histórico, social e cultural nos quais elas estão inseridas. E, também, porque através desses escritos, essas mulheres conseguem escrever a sua própria história e se escrevem pela / na escrita que produzem.
Nesse sentido, Chartier (1990, p. 27) coloca:
As estruturas do mundo social não são um dado objectivo, tal como o não são as categorias intelectuais e psicológicas: todas elas são historicamente produzidas pelas práticas articuladas (políticas, sociais, discursivas) que as modelam, que constituem o objecto de uma história cultural levada a repensar completamente a relação tradicionalmente postulada entre o social, identificado com um real bem real, existindo por si próprio, e as representações, supostas como reflectindo-o ou dele se desviando.
A escrita de si, entendida por Foucault (2006) como uma prática na qual os indivíduos relatam seus movimentos interiores, pensamentos, emoções, sentimentos, é o que mulheres pouco escolarizadas realizam, registram e, mais que isso, se constituem pela / na escrita que realizam.
O papel da escrita é constituir, com tudo o que a leitura constituiu, um “corpo”. E é preciso compreender esse corpo não como um corpo de doutrina, mas sim como o próprio corpo daquele que, transcrevendo suas leituras, delas se apropriou e fez sua a verdade delas. (FOUCAULT, 2006, p. 152)
Sendo assim, acredita-se que as práticas da escrita das alunas, são escritas de si na medida em que as mulheres se fazem, se constituem nesse processo.
Afirmo que descobrir sujeitos pouco escolarizados que escrevem em sua vida cotidiana revelando práticas culturais ainda escondidas e que podem contribuir para uma história das práticas da escrita no âmbito estudos culturais.
Este estudo traz apenas algumas mulheres que escrevem, no entanto, muitas outras devem existir.
E como um castelo construído, não com cartas como fez Calvino, mas com escritos que se cruzaram numa pesquisa, termino a construção deste texto castelo com uma citação do próprio Ítalo Calvino (1991, p. 156):
O castelo: os “narradores” não procedem em linha reta nem segundo um percurso regular; há cartas que voltam a se apresentar em todas as narrativas e mais de uma vez na mesma história. Da mesma forma, o texto escrito pode ser considerado um arquivo dos materiais acumulados pouco a pouco, ao longo de estratificações sucessivas de interpretações iconológicas, de humores temperamentais, de intenções ideológicas, de escolhas estilísticas.