II.2 Classification des trajectoires u
II.2.2 M´ ethodes de classification des trajectoires
A imigração japonesa para o Brasil iniciou-se em 1908, e nesse período, o Japão já passava pelas transformações políticas, sociais e econômicas ocasionadas pela Reforma
Meiji. Dessa forma, o modelo de família, a relação com o estado e os valores trazidos pelos
japoneses refletia o sistema de valores e de constituição social que nos ocupamos de discutir anteriormente. Além disso, lembramos o caráter temporário que caracterizou esse processo migratório. De posse dessas informações, iremos refletir, nesse momento, em que medida esses aspectos repercutiram na formação das famílias japonesas no estado de São Paulo que constitui o universo que buscamos contemplar nesse estudo.
Como nessa estrutura tradicional japonesa a família constituía uma unidade de produção e de consumo, as diferenciações e posições ocupadas pelos seus membros refletem a hierarquia familiar, podemos pensar que essa forma de organização trouxe algumas vantagens para a organização da vida dos imigrantes japoneses dentro das condições encontradas no Brasil. (Cardoso, 1998).
Inicialmente, podemos refletir que a possibilidade de atender à exigência da imigração em unidades domésticas só foi possível devido à existência de uma estrutura flexível de sucessão e de entrada de novos membros na família japonesa através do sistema
de adoção, responsável pela flexibilização do sistema familiar, o que facilitou a composição das “famílias compostas” que vieram para o Brasil. Pode soar estranho, mas atender a esse tipo de composição não trouxe grande mudança para a concepção de família nipônica.
Ao chegarem ao Brasil, as famílias imigrantes foram enviadas para as fazendas cafeeiras, nas quais mantiveram-se isoladas nas colônias desses locais. Isso facilitou a manutenção dos padrões de cooperação existentes nessas famílias, o que justifica uma maior facilidade apresentada pelos japoneses em aproveitar as oportunidades de sucesso que encontraram no Brasil, levando a uma considerável melhoria de vida num curto período de tempo, conforme os dados apresentados por Cardoso (1998), nos quais, do total de imigrantes (89.515) radicados no estado de São Paulo em 1930, apenas 25% eram colonos (a maioria deles ainda eram recém-chegados), enquanto 45 % deles já tinham superado a condição de assalariado, encontrando-se na posição de arrendatário ou pequeno proprietário. Segundo a autora, no prazo de 5 a 10 anos, 31% das famílias de imigrantes japoneses superaram a condição de colono.
O relato da história da fixação dessas famílias no estado de São Paulo tem uma trajetória em comum: ao chegar, dirigiram-se para as fazendas cafeeiras, onde trabalharam como colonos, passando, em seguida a arrendatários de terra, o que permitiu um maior ganho financeiro para, posteriormente, atingirem o nível de pequenos proprietários. Apesar de muitas famílias permanecerem na zona rural, aquelas que se mudaram para a cidade, normalmente o fizeram após atingirem a condição de pequenos proprietários agrícolas. Isso se deveu ao fato de que a tendência à urbanização só ocorreu quando a família conseguiu atingir um certo nível econômico, pois o trabalho agrícola exigia a participação de todo o
podia ser justificada principalmente pelas condições educacionais que poderia oferecer aos seus filhos.
Esses dados são confirmados através dos estudos de Saito e Vieira (1975), e embora não se possa afirmar que todas as famílias cumpriram todas essas etapas de mudança nas condições de vida citadas acima, pode-se afirmar que atingir o status de pequeno proprietário agrícola foi o principal objetivo das famílias.
Nesse sentido, a tradição familiar japonesa baseada na autoridade do chefe da casa como o centralizador das decisões e da coesão do grupo foi fundamental para que as famílias pudessem atingir o sucesso econômico. Os padrões de obediência, lealdade e dedicação aos mais velhos encontraram terreno fértil para a vida desses imigrantes no Brasil. Isso facilitou a união do grupo em torno dos objetivos de trabalho e busca pelo enriquecimento com a participação de todos os membros da família, além de facilitar a manutenção de padrões mínimos de sobrevivência, no quais todos na família buscavam colaborar, seja pelo trabalho ou pela economia para o sucesso do bem comum, sob a autoridade do pai.
Esses dados são confirmados pelo estudo realizado por Hashimoto (1998) a respeito das vivências da fase de maturidade nos nisseis (filhos dos imigrantes japoneses), que segundo o autor, percebiam a atitude de provisoriedade na perspectiva de vida de seus pais, o que dificultou muito as suas experiências de vida no Brasil, uma vez que esse caráter provisório de vida levou-os a viver aqui, sem que pudessem sentir a possibilidade de continuidade e permanência e a desenvolverem a vontade do “eterno regresso” que percebiam nos seus pais.
Como a vida nas fazendas era difícil e o trabalho árduo, a união da família foi um fato importante para fortalecê-los na luta pela sobrevivência e pelo sucesso.
“No convívio familiar experienciavam situações agradáveis de solidariedade, exemplos e lições de vida. Isso tudo os fortalecia, incentivando neles a vontade de aceitar, envolver-se e participar dos costumes da cultura japonesa.” (HASHIMOTO, 1998, p. 101)
Podemos notar, de uma forma geral, que os princípios da educação dos nisseis basearam-se nos padrões de educação nipônica firmada na honestidade, perseverança, respeito aos mais velhos, paciência , busca de aperfeiçoamento e sabedoria. (Hashimoto, op. cit.)
Como a maioria das famílias nipônicas vivia isolada na área rural e distante do contexto social, seus contatos restringiam-se aos vizinhos (também imigrantes, inclusive os de outras nacionalidades) e às associações que eles mesmo fundaram. HANDA (1987, p. 517), ao se referir à formação dos nisseis afirma que
nos primeiros dez ou quinze anos após a fundação dos núcleos de colonização, o fato é que ficaram muito afastados do resto da sociedade. Nesse sentido, pode-se afirmar que a formação da personalidade da maioria dos nisseis se deu sob forte influência dos seus próprios pais. Ou melhor, sob influência do ambiente social reinante nos núcleos de colonização.
É interessante notar o quanto esses padrões culturais e educacionais influenciaram a vida dos nisseis, chegando a constituir a expressão do seu pensamento. Segundo o mesmo autor, ao indagar aos nisseis em qual língua pensavam, alguns respondiam que pensavam ora em japonês, ora em português. Aqueles que foram mais fortemente influenciados pela cultura japonesa, diziam pensar basicamente em japonês.Essa foi a realidade vivida pela maioria dos nisseis, principalmente daqueles educados até 1941, antes do final da II Guerra Mundial.
Esse isolamento que caracterizou a vida das famílias nipônicas permitiu que os imigrantes japoneses fundassem as associações culturais que constituiu a base da união das
estrutura encontrada nos núcleos de colonização japonesa e nessas associações aproxima-se dos dôzoku que caracterizavam a estrutura familiar tradicional japonesa, funcionando como aglutinadores e mediadores entre a comunidade e o mercado mais amplo, além da existência da hierarquia e de um chefe que representava e defendia os interesses do grupo.
De qualquer forma, a educação dos filhos dos imigrantes foi marcada pela coexistência dos dois padrões culturais, o japonês e o brasileiro. Embora na maioria das famílias desse período relatado a língua predominante fosse o japonês, assim como os hábitos alimentares, culturais, de recreação e principalmente de valores, com a permanência das famílias ao Brasil, os nisseis passaram a freqüentar também o circuito social brasileiro, inicialmente através da escola. Os momentos de lazer e recreação eram mínimos, normalmente após o cumprimento das obrigações e do trabalho e restringiam-se às associações japonesas fundadas nos núcleos de colonização.
O que prevalecia era o trabalho e as obrigações, característica marcante das famílias nipônicas no Brasil que não mediram esforços para buscar melhorias nas condições de vida. Portanto, a vida dos nisseis foi marcada por conflitos no que diz respeito aos costumes e à cultura. Como participavam de momentos compartilhados com a cultura local, sentiam-se discriminados e inferiores, o que pode ser entendido como conseqüência das diferenças culturais e dos costumes entre o Brasil e o Japão. Porém, pode-se notar também nesse aspecto, a influência da educação japonesa.
A princípio, os nisseis sentiram-se tristes e desanimados, mas essa discriminação os estimulou a se esforçarem para superá-la, procurando se tornar os melhores nos estudos. E conseguiram o intento, fortalecidos pelos ensinamentos de seus pais. Esse modo de enfrentar a situação estendeu-se também, ao campo do trabalho. Desse modo, os nisseis assumiram a tarefa de ‘serem os melhores’ no estudo e no trabalho. (HASHIMOTO, 1998, p. 103).
O trabalho tornou-se o aspecto central da vida familiar japonesa e o pai (chefe de família), através de seu papel de autoridade agregava todos os seus membros para a busca
dos objetivos pelo bem comum, estimulado a vencer os desafios. Os filhos, por sua vez, respeitavam-no e eram submissos e leais à sua autoridade, reproduzindo as relações da família tradicional japonesa.
O ideal da “alma japonesa” sempre esteve presente na educação dessas pessoas movidas pela busca incessante de melhores condições de vida através do esforço e dedicação ao trabalho, que como já foi dito, sempre foi prioritário, enquanto o lazer e a diversão ficavam em segundo plano.
Os próprios nisseis avaliam e valorizam a educação japonesa que receberam e sentem orgulho ao perceber que o “povo japonês” é considerado esforçado, trabalhador e honesto e diante dessa situação, buscam passar esses ensinamentos a seus filhos, mas integrando as duas culturas.
Podemos notar que os ideais da cultura e da educação nipônica ainda permanecem presentes nas vidas das famílias japonesas que se constituíram no Brasil, e no nosso caso, no estado de São Paulo.
Partindo do contexto inicial da imigração japonesa, notamos que a vida dessas famílias foi marcada por uma forte resistência à assimilação cultural, principalmente pelo fato de que esses imigrantes tinham como objetivo o retorno ao Japão. Como a imigração japonesa no Brasil foi um processo de longa duração notamos uma ambigüidade em relação à integração cultural: notamos a presença de descendentes pouco integrados e assimilados à cultura local e aqueles que puderam viver uma experiência de vida mais diversificada e integrada à sociedade brasileira.
Dessa forma, o tipo de nissei comumente visto nos núcleos de colonização de antes da segunda guerra mundial era um produto resultante do processo de assimilação dos próprios imigrantes japoneses no Brasil. Um tipo que nascera do cotidiano dos velhos imigrantes isseis que, embora incorporando aspectos de um “macaco velho brasileiro”, estava
virgem foi desaparecendo, a aragem manual e a enxada cedendo lugar à aragem mecânica, e aumentando o número de cursos superiores até mesmo nessas cidades do interior, aquele nissei caboclo tão comum no período anterior à guerra foi dando lugar ao nissei, digamos, ‘moderno’. Aquele, no entanto, pelo fato de ter vivido os anos mais difíceis do início da imigração junto dos isseis, possui ainda hoje a postura daquele que desde jovem estava diretamente ligado à produção, ao mesmo tempo em que conseguiu incorporar o espírito, a nível mais refinado, do “macaco velho”. Novamente, aqui, não podemos generalizar e dizer que hoje todos aqueles nisseis daquela geração sejam assim, mas podemos dizer que a sua maioria constitui hoje o núcleo mais ativo da colônia japonesa, como “nisseis de fibra”. Ainda, como viveram sua juventude em tempos de guerra e, conseqüentemente, não puderam estudar em escolas brasileiras a contento, são educadores entusiasmados com relação a seus filhos,no sentido de que estes freqüentem as escolas brasileiras. Mesmo entre as nisseis há – principalmente entre aquelas que hoje são donas-de-casa – as que ainda dominam melhor o japonês do que o próprio português. Elas se dedicam, hoje, à educação dos nisseis e sanseis de modo a se adequarem aos novos tempos. (HANDA, 1987, p. 521). Portanto, os nisseis que viveram o período inicial da imigração, antes da II Guerra Mundial foram fortemente marcados pela educação tradicional da família japonesa e apresentaram pouca integração à sociedade local.