III.5 Mod´ elisation stochastique du processus X
III.6.1 Identification de la loi de Y
Desde os tempos mais remotos, a divisão social do trabalho destinou espaços e atividades específicas às mulheres e aos homens. Cada qual estabeleceu, com o meio ambiente, relações que resultaram na ampliação das formas de estar no mundo e na construção de universos diferentes.
O masculino e o feminino foram estabelecendo, de geração para geração, relações particulares com o meio ambiente e entre si; cada um fez “sua própria estruturação psíquica, sua própria sociabilidade, sua própria cultura” (OLIVEIRA, 1993, p.33).
Duby e Perrot (1993) afirmam que a história das mulheres foi, em sua maioria, contada a partir de óticas masculinas e poucas vezes suas construções socioculturais foram reconhecidas.
Em muitas civilizações as diferenças entre homens e mulheres já eram marcantes. Na Grécia antiga, o papel das mulheres era restrito à manutenção do lar e ao cuidado para com os filhos. Somente os homens tinham acesso às atividades públicas, como a filosofia, a política e a arte. A mulher servia de suporte à vida do homem. No Império Romano, a discriminação era semelhante: a legislação garantia ao homem, através da instituição pater familias, poder absoluto sobre a mulher, filhos e escravos.
Curiosamente, na Idade Média as mulheres tinham acesso a grande parte das profissões, assim como direito à propriedade. Quando se tornavam viúvas assumiam a chefia da família e algumas estudaram nas universidades da época, embora em número bem inferior aos homens.
Muitas mulheres, ao longo da história, iniciaram algumas incursões, primeiramente através da literatura. Christine de Pisan (1364-1430), a primeira mulher francesa indicada como poeta oficial, na corte de Carlos VI, escreveu A
cidade de mulheres, um tratado feminista “onde afirma serem homens e mulheres
considerada, por alguns, como uma das primeiras feministas por apresentar um discurso a favor da igualdade entre homens e mulheres, defendendo, por exemplo, a educação idêntica para meninos e meninas.
As influências sociais, culturais e econômicas contribuem sobremaneira para a formulação dos discursos e, conseqüentemente, para as mudanças de comportamento dos indivíduos que a compõem, o que não poderia deixar de ser em relação à vida das mulheres e seu cotidiano.
Com a desestruturação do modo de produção feudal, o início do Renascimento marcado pelo mercantilismo, a formação dos Estados Nacionais e a retomada do Direito romano, surge uma série de retrocessos na condição da mulher na sociedade ocidental. As mulheres deixam de freqüentar as universidades, grande parte de seus direitos civis (como direito à propriedade e heranças) são confiscados. O universo do trabalho fecha-se às mulheres, passando a transitar por um número restrito de profissões, no exato momento em que o trabalho passa a ter valor de status social. É ainda nesse período que se inicia a caça às bruxas iniciada pela Igreja, no século XV (MOREIRA & PITANGUY, 1991).
É na Europa Ocidental do século XVIII que o feminismo tem sua origem. O fenômeno do iluminismo – com pensadoras como Mary Wotley Montagu e a Marquesa de Condorcet que lutaram pela educação feminina – criou uma perspectiva para que o movimento adquirisse força e organização (ALVES e PITANGUY, 1985).
Foram as grandes revoluções que deram ao feminismo seu cunho reivindicatório e, unindo-se a alguns partidos, ganhou força de expressão. O crescimento do capitalismo e a Revolução Francesa contribuíram para o surgimento dos partidos de esquerda nos quais as mulheres encontram espaço para suas manifestações. Os partidos precisavam de mais colaboradores e as mulheres, de um espaço que garantisse as manifestações. Dessa forma, o feminismo nasce como movimento social, com implicações culturais e políticas;
além de lutar pela superação das desigualdades, é uma teoria que busca analisar as relações entre os sexos na sociedade (MÉNDEZ, 1982).
A participação das mulheres na Revolução Francesa trouxe a instauração do casamento civil e a legislação do divórcio. Mulheres revolucionárias francesas (século XVIII) apresentaram à Assembléia Nacional documento reivindicando mudança na legislação sobre casamento, que outorgava ao marido direitos absolutos sobre o corpo e os bens da esposa. Na Inglaterra do século XVIII, Wollstonecraft, (1792), em seu livro Defesa dos direitos da mulher contestou a existência de diferenças “naturais” no caráter e na inteligência entre os homens e as mulheres, afirmando ser a inferioridade da mulher exclusivamente resultante da educação (ALVES e PITANGUY, 1991). A mesma autora, entretanto, acreditava que ambos os sexos contribuíam para a degradação da mulher e tomou como verdade que as mulheres tinham um poder considerável sobre os homens.
Foi precisamente a Revolução Francesa, ainda no século XVIII, que tornou possível identificar mulheres que, de forma mais ou menos organizada, lutaram pelo direito à cidadania, a uma existência legal fora de casa, único lugar em que tinham algum reconhecimento como esposas e mães. Fora desses limites restavam-lhes a vida religiosa ou a acusação de bruxarias (PINTO JARDIM, 2003). Entende-se o feminismo por movimentos políticos, intelectuais e teóricos que buscam a “desnaturalização”, o reconhecimento e a superação das relações assimétricas entre os gêneros feminino e masculino. Procura desfazer uma estrutura binária por meio da qual os sujeitos são socialmente classificados, buscando identificar tratamentos não-equânimes entre os gêneros nas práticas rotineiras que, no dizer de Butler (2003), por terem sido naturalizadas, tornam-se difíceis e, às vezes, quase impossíveis de ser identificadas como violências.
A considerar essas incursões, a construção da história das mulheres, segundo Duby e Perrot (1990, p.11-13), constituiu um caminho importante para o estudo das “minorias, dos silenciados e das culturas oprimidas”.
Inicia-se, então, a primeira fase do feminismo, o clássico, pautado pela reivindicação da igualdade, que postula uma sociedade sem classes, projetando
um mundo sem distinções sexuais, ao menos funcionais. A partir da denúncia da opressão à mulher imposta pelo patriarcado, o movimento feminista pretende a luta pela igualdade de direitos civis, políticos, sociais e educativos, direitos que até então reservados aos homens.
A idéia principal defendida pelo movimento feminista, nesse período, diz respeito à naturalização e à hegemonia que uma perspectiva masculina obteve em quase todas as culturas humanas: naturalização dos homens nos espaços públicos de destaque e na produção do discurso científico e autorizado, bem como a adaptação das mulheres em ambientes domésticos ou de menos poder relativo.
Curimbaba (2000) ressalta a importância do movimento feminista não só por denunciar uma narrativa hegemônica que gera suas próprias normas em relação à mulher, mas também por trazer à discussão a inclusão de outros grupos como gays, lésbicas, transexuais, transgêneros e travestis nos cargos e nas posições de poder e deliberação. Há uma luta não só pela superação das formas machistas, mas principalmente pela pluralização das perspectivas de mundo.
Os fatos mostram que, mundialmente, foi na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX que as lutas e manifestações esparsas deram lugar a uma campanha mais organizada, facilitando o ingresso das mulheres nas esferas anteriormente reservadas aos homens, reivindicando o reconhecimento de sua igualdade e de sua autonomia. Desenvolveram um contraponto aos saberes científicos e filosóficos que justificavam a dita inferioridade feminina e a suposta inaptidão para assuntos públicos, como a política.19
Méndez (1982) mostra que o discurso feminista ganhou força e corpo na Europa e nos Estados Unidos, ainda no século XIX. Inicialmente, surgiu como discurso político intimamente associado às mudanças ocorridas a partir da Segunda Revolução Industrial, que trouxe modificações profundas na história da trajetória feminina, no que se refere ao aspecto da inclusão da mulher no trabalho considerado produtivo e, conseqüentemente, às transformações na divisão sexual.
19
Vale ressaltar aqui que os padrões científicos vigentes no século XIX entendiam a existência de duas espécies: o homem, dotado de cérebro e razão, e a mulher, ser irracional e sentimental.
É nesse contexto que o número de mulheres empregadas aumenta significativamente, sem com isso diminuir a diferença salarial entre os sexos, que tinha como pressuposto que as mulheres teriam quem as sustentasse. Parte-se, assim, do princípio de que o avanço do capitalismo e o conseqüente ingresso da mulher no mundo do trabalho colaboraram para desestabilizar a divisão entre o mundo público (dos homens) e o privado (das mulheres).
No século XIX, no contexto da Revolução Industrial, a presença do socialismo era muito forte, facilitando a discussão da situação da mulher como mais uma relação de exploração na sociedade de classes. O movimento feminista coloca-se como um aliado do movimento operário. Como movimento organizado data da primeira convenção dos direitos da mulher em Seneca Falls, Nova York, 1848.
Nesse cenário assistimos a diversas experiências de organização que questionaram o papel social das mulheres e exigiram direitos civis, como o acesso à formação superior, ao voto e à participação política. É conhecido o papel das sufragistas e suas manifestações ouvidas em todo o mundo, Velho e Novo Continente. França, Estados Unidos e mesmo o Brasil registraram a experiência de mulheres contrárias aos padrões de feminilidade da época. (MÉNDEZ, 1982; PERROT, 1998).
Esses autores destacam que a consciência feminista manifestava-se lado a lado com o engajamento das mulheres em outras causas libertárias. Foi assim nos Estados Unidos, por exemplo, onde muitas se opunham ao regime escravista. Perrot enfatiza que, ao contrário, da imagem que é muitas vezes disseminada, boa parte das feministas do século XIX não pretendia ser como os homens ou ocupar seus espaços, almejava acesso aos mesmos direitos, ou seja, desejava o reconhecimento de sua liberdade.
A mulher precisa não de agir ou dominar como mulher e sim de uma natureza para evoluir, um intelecto para discernir, uma alma para viver
livremente, e a possibilidade de desenvolver suas potencialidade (M. FULLER, 1845).20
A propagação do feminismo no século XIX acontece num cenário de consolidação e implementação do capitalismo. Alguns fatores contribuíram para sua disseminação: o incremento da instrução escolar para a população feminina foi uma demanda da sociedade capitalista. As mulheres da classe operária precisavam ser capacitadas minimamente para o desempenho das atividades laborais. Mesmo aquelas que pertenciam às classes mais elevadas passaram a ter acesso à leitura e à escrita, pois ser letrada constituía um atributo necessário à boa esposa e mãe de família.
Os graus de instrução variavam conforme a classe social, mas, em meados do século XIX e princípios do século XX, até mesmo as operárias tinham acesso à alfabetização. É possível afirmar que, nesse período, um número significativo da população feminina dos Estados Unidos e da Europa sabia ler e escrever. É indubitável que o acesso à instrução facilitou sobremaneira a proliferação das idéias de emancipação entre as mulheres.
O acesso à educação e a inserção de um contingente cada vez maior de mulheres no mundo do trabalho produtivo criaram a oportunidade de mulheres e homens estarem, lado a lado, na geração de riqueza. Entretanto, esse fato não alterava - de imediato - a relação subordinada das operárias na sociedade: continuavam ocupando as piores funções no trabalho produtivo e seriam aquelas de remuneração inferior.
O trabalho feminino, numa ótica patriarcal, não era visto como algo natural, mas decorrente da perda de poder econômico da família que já não podia abrir mão da renda trazida pela mulher.
Hobsbawn (1996) fornece um exemplo dessa situação: em 1951, na cidade inglesa de Preston, 52% de todas as famílias operárias, com crianças que ainda não tinham idade para trabalhar, viviam abaixo da linha da miséria. O
20 Sara Margareth Fuller (1810-1850), escritora, jornalista e feminista americana. Em sua obra Woman in The
Nineteen Century (1845) descreve os aspectos políticos, sociais, culturais e sexuais da mulher americana no
trabalho das mulheres, assim como o infantil, era uma espécie de “mal necessário”, um recurso usado para engrossar o orçamento doméstico.
É inegável que a chegada de um número expressivo de mulheres ao mercado de trabalho suscitou alguns problemas no seio da sociedade. As mulheres seriam verdadeiramente menos competentes do que os homens para o trabalho? E o que se poderia dizer do sexo frágil, capaz de acumular jornadas extenuantes no trabalho assalariado e no doméstico?
O capitalismo, por efeito secundário, evidencia para o âmbito do mundo público a discriminação que as mulheres enfrentavam no mundo privado. A entrada das mulheres no mercado de trabalho possibilitou a muitas delas se organizarem para a luta por direitos iguais e para a ruptura com um sistema que as oprimia, por sua condição de mulher e de trabalhadora. Juntaram-se aos homens da classe operária e lutaram em parceria, na busca da superação da situação de opressão trazida pelo capitalismo. Entretanto, o empenho das mulheres, neste momento, era buscar o reconhecimento de seus direitos trabalhistas, o que constituía uma batalha muito maior que aquela empreendida pelo movimento operário, visto que estavam iniciando-se como trabalhadoras reconhecidas no processo produtivo e precisavam lutar contra o regime capitalista e contra suas regras.
Em 1864, a Associação Internacional dos Trabalhadores aprovou, como uma das principais reivindicações, o fim do trabalho feminino e infantil. No fim do século XIX, a participação das mulheres em sindicatos e em associações de trabalhadores chegava a 10%. Suas ações políticas eram marcadas por uma espontaneidade que incomodava e constrangia os colegas do sexo masculino, como veremos neste episódio ocorrido numa manifestação na Europa, no final do século XIX, relatado por Francisco Martinho (2003, p.204):21
Em dado momento, num curso de uma greve, as mulheres, irreverentes, chegaram a mostrar o traseiro a uma autoridade local, que se recusou a recebê-las. Tal atitude era vista com maus olhos por parte das lideranças
21
MARTINHO, F.C.P. – Resistência ao capitalismo: plebeus, operários e mulheres. In: O Século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, v. 1.
sindicais, que se esforçavam para que não se comentasse o assunto (...) Pretendiam organizá-las (...) que se adequassem às formas tradicionais de organização. E, se possível, que fossem dirigidas por homens.
A exemplo da citação acima, pode-se aquilatar a repercussão, no cenário social e econômico, da presença das mulheres na produção, exigindo uma nova estruturação das relações de gênero. A mulher passou a viver uma situação ambivalente em que ora continuava a ser vista como uma vítima, ora demonstrava uma capacidade produtiva igual à dos homens. As mulheres do século XIX são retratadas de forma difusa, oscilando entre fragilidade e força. Ao mesmo tempo em que são consideradas vulneráveis e incapazes, estão ao lado dos homens, garantindo a sobrevivência da família (MÉNDEZ,1982).
Méndez (1982) também destaca a importância de se compreender a moral proletária que se estabeleceu no século XIX, contextualizando o cenário no qual as mulheres estavam inseridas anteriormente na consagração do capitalismo. A autora aponta para os três paradigmas norteadores da moral proletária: primeiro, o saudosismo pela vida do campo, ligada à terra, uma sensação de que o mundo rural representava a liberdade do homem e da família. Não existia um patrão personificado em uma fábrica e um relógio que controlasse a hora de chegar e partir. A mulher, encarregada de cuidar dos filhos e do marido, protetora do lar e dos costumes, representava uma memória daquele mundo rural que ficava para trás. Na cidade, essa imagem feminina era violentada, pois tinha que se submeter ao trabalho das fábricas, das minas, nas piores condições. O segundo paradigma diz respeito ao fato da moral operária ter sido fortemente influenciada pela cultura burguesa, vitoriana, em que a mulher ideal era aquela que se preparava para o casamento enquanto tocava Chopin ao piano. Esse ideal burguês estava muito distante da realidade operária, mas contribuía para associar o trabalho braçal feminino a um processo de desagregação e bestialização do sexo frágil. O trabalho feminino era provavelmente visto como uma forma de prostituição e vulgarização da mulher, uma vez que muitas recebiam em seus locais de trabalho investidas de seus patrões.
O terceiro paradigma diz respeito à solução que o proletariado encontrava para solucionar os problemas criados pelo capitalismo. A alternativa passava pela luta para fazer o socialismo ascender, acabando, dessa maneira, com o sistema capitalista, conseqüentemente com o modelo da família burguesa e com a prostituição pública e privada. As mulheres proletárias seriam, portanto, libertadas junto com o socialismo.
É curioso notar que, mesmo no sistema socialista, em seus segmentos mais avançados, o trabalho feminino parecia não ser bem visto e, talvez, as manifestações específicas das mulheres fossem, até certo ponto, consideradas desnecessárias; o socialismo, de uma só vez, daria conta de libertá-las do jugo do capitalismo. Tanto o sentimento saudosista de um mundo rural distante como a ideologia burguesa e as concepções socialistas formavam uma moral proletária, de certo modo tão conservadora em relação ao trabalho e à participação feminina na política quanto a moral burguesa.
Os papéis exercidos pelas mulheres no espaço doméstico foram desestabilizados em função de um progressivo engajamento na vida pública em que reivindicavam maiores espaços e conquistas de direitos. As operárias organizaram-se especialmente pela demanda da redução da jornada de trabalho e pelo reconhecimento profissional, visto que, na maioria dos países europeus, as mulheres precisavam da permissão do pai ou do marido para trabalhar.
Perrot (1998) destaca que na Inglaterra e na França foi necessária a aprovação de leis, respectivamente, em 1857 e 1907, para que as mulheres pudessem receber diretamente seus salários. A autora sublinha que as conquistas – no caso francês – tinham o interesse patronal nessa mão-de-obra. Novamente a economia interfere de maneira incisiva na história.
As mulheres das camadas médias assumiam cada vez mais profissões que outrora eram exclusivas dos homens: profissionais liberais, jornalistas, professoras. Nesse caso não se tratava da necessidade de mão-de-obra, mas, como afirma Méndez (1982, p.54), “a formulação de novos paradigmas culturais
que passaram a exercer um tensionamento nas relações de gênero ao ampliar a atuação feminina para além do mundo doméstico”.
É inegável que o acesso à instrução foi fundamental para que, através da leitura e da escrita, se iniciasse um processo de propagação dos ideários feministas. Em meados do século XIX, aparecem diversos jornais dirigidos por mulheres ou para elas, que já não se limitavam à divulgação de contos, romances e receitas de bolo. Havia nessas publicações, sobretudo, discussões sobre o papel feminino na sociedade, reivindicações dos direitos civis e divulgação das idéias emancipatórias. As leitoras desses periódicos eram professoras, artistas, profissionais liberais ou simplesmente donas de casa com algum grau de instrução.
Contudo, foi apenas no final do século XIX e princípio do século XX que começou a surgir uma produção teórica que procurava discutir as origens da pressão feminina sob a ótica das próprias oprimidas. Se as mulheres das camadas baixas encontravam resistência a sua inserção no mundo público, pode- se imaginar a força que se opunha à entrada das mulheres de camadas médias. A luta travada por essas mulheres pela emancipação causou uma importante ruptura na antiga divisão entre as esferas do público e do privado. Propostas como direito ao voto e acesso à educação soavam distantes para a maioria das mulheres das camadas populares. Entretanto, as trajetórias – das mulheres proletárias e das camadas médias – no mundo do trabalho contribuíram, ainda que distintas, para a rediscussão dos papéis femininos na sociedade.
O resultado que verificamos na história é que, a partir do século XIX, havia dois movimentos paralelos: de um lado, a discussão sobre a situação da mulher proletária, centrada nas questões da desigualdade de direitos trabalhistas e na exploração da mão-de-obra; de outro, a organização de mulheres pertencentes principalmente aos segmentos médios, intelectualizadas, com o objetivo específico de lutar pela emancipação feminina e pela conquista de direitos civis.
Pouco a pouco, os Estados viram-se obrigados a reconhecer muitas das reivindicações. Assim, na primeira metade do século XX, a maioria dos países
aprovou o sufrágio universal, luta encabeçada pelas feministas desde o século XIX.
Poderíamos supor uma ligação direta entre o feminismo e as organizações de mulheres do século XIX com o feminismo que irrompeu no mundo a partir da década de 1960? Hanner (1997) e Teles (1993) mostram que há uma tentação entre muitos historiadores em compreender esse processo como uma linha progressiva. As feministas do século XX seriam “herdeiras” das sufragistas, das