Quando buscamos contribuições em diversas áreas do conhecimento para pensar as questões da importância do papel do pai na formação da família e, mais especificamente, na trajetória profissional de sua filha, deparamo-nos com aspectos importantes da história da formação dos grupos familiares desde a época neolítica até a constituição da família como conhecemos hoje.
Não é nossa intenção desenvolver um estudo antropológico sobre a paternidade; tomamos apenas esse ponto de vista, dentro do amplo campo da antropologia, como uma possibilidade que pareceu coerente com o desenvolvimento do tema aqui proposto.
Entender o patriarcado é - antes de tudo - conhecer o surgimento da paternidade e do materno como aspecto sempre incluído, não importa se em posição igualitária, subordinada ou superior. Na época neolítica, a figura da mãe era dominante, a maternidade era evidente, mas a paternidade fisiológica foi por muito tempo ignorada. A paternidade ainda não era evidente.
Depuis (1989) diz que o princípio da procriação no acasalamento não é um dado imediato à consciência, é uma descoberta experimental:
Há seis ou sete milênios, as sociedades humanas mais adiantadas descobriram a relação entre o ato sexual e a procriação. Isso as levou a tomar consciência da paternidade. Tal novidade acarretou de modo imperceptível uma revolução profunda, que transformou as estruturas sociais, as religiões e os comportamentos sexuais (DEPUIS, 1989).
Zoja (2002) afirma que a descoberta do papel do pai na concepção “poderia ser considerada a plataforma ideológica para a construção do patriarcado
em épocas muito mais recentes, na aurora da História: ainda no século XX esse fato permanecia desconhecido para muitos homens primitivos” (p. 65).
As mulheres não eram mais detentoras de poder do que os homens nas sociedades de caça e coleta, porém eram consideradas seres poderosos, fortes, verdadeiros seres mágicos, em virtude de sua capacidade de conceber e dar à luz, presumivelmente sozinhas.
No entanto, ao que tudo indica, dificilmente teria existido uma organização matriarcal, seja animal, humana ou proto-humana.
Muraro (1992) e outros autores como Engels (1987) mostram alguns estudos antropológicos que indicam que as primeiras sociedades humanas eram coletivistas, tribais, nômades e matrilineares. Essas sociedades – ditas primitivas – organizavam-se predominantemente em torno da figura da mãe, a partir da descendência feminina, uma vez que desconheciam o papel do homem na reprodução. A participação do homem era valorizada pela proteção e subsistência econômica, mas a continuidade do grupo era considerada pela sucessão das mulheres, mães e filhas, cuja responsabilidade na maternidade era evidente. Essa forma de organização social costuma ser chamada de matrilinear, em contraposição com as sociedades patrilineares, nas quais o parentesco é determinado pela sucessão entre pais e filhos.
Há indícios de que os papéis sexuais e sociais de homens e mulheres não eram definidos de forma rígida e as relações sexuais não eram monogâmicas, tendo sido encontradas tribos nas quais as relações entre homens e mulheres eram bastante igualitárias. Todos os membros estavam envolvidos com a coleta de frutas e raízes, alimentos dos quais sobreviviam, bem como cabia a todos os cuidados das crianças do grupo.
Macêdo (2004), seguindo a história, argumenta que, se um dia a caça e a coleta foram igualmente atribuídas aos homens e às mulheres, não foi assim desde o começo. A autora traz a idéia de que as modificações do corpo trouxeram significativas mudanças no exercício dos papéis sociais do homem e da mulher.
Beauvoir (1979) defende a idéia de que ao homem foi dada a possibilidade de escapar a seu destino biológico mais do que à mulher. Ao inventar as ferramentas, ele ampliou sua capacidade de utilização do próprio corpo e, portanto, sua produtividade, enquanto a mulher ficou presa à anatomia pela gestação e parto.
Lukàcs (1976)5 reforça essa idéia quando afirma que o ser social, dotado de consciência, é responsável pelas transformações da sociedade, continuando a ser um ser natural. Portanto, o autor conclui que a sociedade tem fundamento biológico. Nesse fundamento é que surgem as primeiras diferenciações.
O homem caçador e tendo seus domínios fora da caverna, a mulher como coletora e cuidadora dos filhos, como aparece no Paleolítico, parece ter sido sempre a forma da raça humana. Essa divisão do trabalho, calcada no biológico, na força física maior do homem para as atividades brutas e na capacidade de gerar da mulher, posteriormente serviu como suporte para os padrões culturais e ideológicos do que é ser homem e do que é ser mulher (FARIA, 2003).
Ao longo do tempo, com o aumento da população, a caça tornou-se escassa e os homens ausentavam-se por vários dias em busca de alimentos, contribuindo para o início de certa diferenciação entre os papéis dos homens e das mulheres. Às mulheres atribuiu-se o papel de cuidar das crias, fixando-se, portanto, à terra e zelando também pela propriedade.
Esse processo de diferenciação é conhecido como divisão sexual do trabalho, ou seja, as sociedades constroem suas imagens de masculino e feminino (gênero), que correspondem a uma divisão social do trabalho que obedece ao critério sexo. Isso não quer dizer necessariamente que as atividades socialmente atribuídas às mulheres sejam de menor valor que aquelas atribuídas aos homens. Saffiotti (2004), reforçando o argumento de Macedo (2004), diz que a coleta era certa, acontecia cotidianamente; a caça, ao contrário, era incerta. Um grupo de homens podia voltar da caçada com um animal de grande ou médio porte, provendo as necessidades de seu grupo, como podia voltar sem nada. A
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Lukács, Georg. – Per una ontologia dell’essere sociale. Roma: E. Riunit, 1976-81 é citado por Helleith Saffioti quando fala sobre gênero, patriarcado, violência. (2004).
atividade de coleta, atribuída às mulheres, permitia sempre voltar com alguma provisão; raízes, folhas e frutos. A rigor, a sobrevivência da humanidade, considerando tempo e espaço e essa divisão sexual do trabalho, foi assegurada pelo trabalho das mulheres.6
Johnson (1997) atribui a dois fatos históricos a lenta transição da sociedade caça/coleta, considerada igualitária em relação às sociedades que se conhecem hoje: o primeiro está relacionado à produção de excedente econômico, cerca de 11 mil anos atrás, e o segundo, à descoberta de que o homem era imprescindível no ato da fecundação. Lerner (1986) parte deste último fato histórico e afirma que o conhecimento do homem sobre sua importância para o engendramento de uma nova vida conferiu-lhe maior poder, originando aí a implantação do regime de dominação-exploração das mulheres.
No mesmo contexto surge a noção de propriedade. A escassez da caça trouxe vários desdobramentos: os homens passaram a prender seus animais, trocá-los por outros alimentos e, assim, criou-se a propriedade privada e o direito de defesa sobre ela. Decorre a noção do patriarcado, fundada na questão de posse e na defesa contra o inimigo.
Inicia-se a disputa da terra pelos grupos e o início das guerras. Os “pais” adquirem um poder decisivo sobre os grupos sociais, o que lhes permite apropriar- se das mulheres, mesmo em grupos em que a paternidade biológica ainda é confusa. É uma paternidade sociológica, cuja evidência mais clara é dada pela valorização do filho homem. Este passa a ser indispensável à perenidade do grupo familiar visto que o grupo é patrilinear. O pai passa a ser uma instituição, é a entidade que garante a continuidade do grupo. Desse arranjo surge a autoridade do pai; autoridade absoluta, que chega ao direito de vida e morte sobre os filhos e pela qual a família obtém os meios de transmitir rigorosamente aos descendentes seus bens, poderes e tradições. Esta é a família patriarcal. (SETTON, 2004)
Com a propriedade surge a idéia de herança e de sucessão, passando o direito para a mulher e para os filhos. No decorrer dos tempos, essa noção primitiva foi tomando formas legais de acordo com a cultura e com a civilização.
No mesmo instante em que se conheceu o papel do homem na reprodução e, mais tarde, estabeleceu-se a noção de propriedade privada, as relações passaram a ser predominantemente monogâmicas, a fim de garantir herança aos filhos legítimos. Assim, o corpo e a sexualidade das mulheres passaram a ser controlados, instituindo-se o patriarcado – uma nova ordem social centrada na descendência patrilinear e no controle dos homens sobre as mulheres.
Lerner (1986) mostra que o processo de instauração do patriarcado, concomitante à perda de poder das mulheres, teve início no ano 3100a.C e só se concretizou no ano 600 a.C. Segundo a autora, o patriarcado conta com a idade de 5.203 anos, se a contagem for realizada desde quando a mudança começou. Todavia, se a contagem for realizada a partir do fim do processo de transformação das relações homem-mulher, a idade dessa estrutura hierárquica é de tão- somente 2.603 anos.
Não é uma estrutura tão velha, considerando que a humanidade existe há 300 mil anos. O patriarcado não é um passado remoto; ao contrário, o patriarcado é jovem e pujante, sendo sucessor das sociedades igualitárias.
Segundo Millet (1979), o patriarcado é a principal filosofia de opressão de gênero. É um modo predominantemente geográfico e histórico, de relacionamento, no qual a política sexual implica o fato de que os homens estabelecem as regras de poder e de controle social.
Não se trata necessariamente do domínio do pai, mas, de modo geral, do domínio dos homens, lembram-nos Narvaz & Nardi (2007), domínio que tem assumido diferentes formas ao longo da história. O desejo de dominação parece ter sido um projeto antropológico em vigor desde o neolítico. Sujeitar a natureza, aproveitar-se de seus recursos, conquistar outros povos e submetê-los para
construir a prosperidade humana estão presentes desde os tempos bíblicos do velho Adão.
A leitura do Gênesis - o livro sobre a Criação - está repleta de assertivas sobre a relação entre homem e mulher e como, desde ali, foi outorgado ao homem o direito de gerir, cuidar e orientar a mulher, assumindo, assim, o poder na formação da família e da propriedade.
A visão misógina da tradição cristã, já vista no Livro do Gênesis desde Eva, retrata a figura feminina como fraca e suscetível, mas ao mesmo tempo, perversa, geradora das mais desejosas e profundas tentações, exaltando ainda mais o período de condenação eclesiástica à mulher.
Boff (1977) diz que a mulher foi identificada com a natureza e que o androcentrismo legitima a dominação das mulheres à medida que identifica a mulher com a natureza; ambas devem ser submetidas, controladas e dominadas.
Zoja (2002) traz uma idéia interessante sobre o patriarcado quando ressalta que a história nem sempre leva em consideração que sua origem provocou no homem sofrimento. Segundo o autor, a ascensão do patriarcado pode ter tornado o pai uma figura invisível: “Ele deverá construir em silêncio aquela presença pessoal que o código coletivo lhe subtrai” (p.71).
Afirma ainda que uma mãe consegue tornar-se matriarca, chefe da família, “de uma maneira mais harmoniosa, sem se dissolver na própria instituição: ela
mantém-se como mãe sem modificar a relação individual com o filho” (p. 71). Segundo Depuis (1989), a fundação da família patrilinear “... é um ato de
predação sexual... um ato de violência” que deslocou antigos clãs matrilineares e fez surgir pouco a pouco uma nova sociedade. Juntamente com as famílias, os conquistadores fundam reinos, apoiados no poderio militar organizado. “... a família nasce na chamada idade dos heróis, ou seja, uma idade de predadores e de senhores. A grande mudança na história social é, com efeito, o aparecimento da guerra” (p.97-98).
A família patrilinear surgiu entre o segundo e terceiro milênios a.C. Ao mesmo tempo surgem as monarquias guerreiras, a legitimação e sacralização da
união homem-mulher, a transmissão de poder ao filho e uma sociedade de classes altamente hierarquizada.
O patriarcado não é apenas uma forma de família baseada no parentesco masculino e no poder paterno; é principalmente toda estrutura social que nasce de um poder do pai (BADINTER, 1986).
É um equívoco considerar o patriarcado apenas quando se trata das relações homem e mulher. Ele significou o discurso do poder, da autoridade e da hierarquia. Suas conseqüências não incidiram apenas sobre as mulheres, mas também sobre as crianças e qualquer outro homem que não detivesse o poder.
Na família patriarcal, o pai, o patriarca detinha o poder de vida e de morte sobre os filhos, a mulher e sobre todos seus subordinados. A subjugação feminina originou um medo contínuo que se expressou na perseguição sistemática à mulher, à feminilidade e a seu poder procriativo, quer na caça às bruxas, quer em todas as relações conjugais (BADINTER, 1985).
Julien (1997) afirma que, durante séculos, o poder do pai, como senhor, era mantido para compensar e contrabalançar outro: o da mulher como mãe. Já vimos que ao longo da história a figura do pai foi revestida por cores obscuras e ameaçadoras. Para esse autor, no entanto, é fato que à mulher é atribuída uma influência decisiva sobre as crianças, influência que permanece nelas e determina seu futuro.
Sabendo disso, as sociedades humanas tradicionais buscam equilibrar tal poder com o dos homens, poder de ordem política ou religiosa. A autoridade patriarcal era reclamada para que o poder materno sobre os filhos e filhas encontrasse, enfim, seu limite. Por aí se fundou o campo do privado e o campo do público, um reservado à mãe e outro ao pai, configurando um equilíbrio que foi mantido por séculos.
A figura do senhor patriarcal passou a ser o mediador entre o privado e o público e, assim, introduz a criança na condição de adulto, tornando-o capaz de desembaraçar-se da mãe.
Therborn (2006), sociólogo sueco, enfatiza em sua importante obra Sexo
e Poder que, embora o patriarcado adquira várias formas, modelando também de
maneira assimétrica as relações pai e filho, assim como outras relações (por exemplo: sogra e nora), o núcleo do poder patriarcal consistiu - acima de tudo - no poder do pai sobre a filha e no do marido sobre a mulher 7. Como resultado do patriarcado e para dar-lhe alicerce, a família aparece como principal locus de sua existência.
No dizer de Therborn (idem, p. 29):
A família não é algo biológico, algo natural ou dado, mas produto de formas históricas de organização entre os humanos. Agraciados pelas necessidades materiais de sobrevivência e reprodução da espécie, os humanos inventaram diferentes formas de relação com a natureza e entre si. As diferentes formas de organização familiar foram, portanto, inventadas ao longo da história.
Esse autor sublinha, ao longo de sua obra, que as mudanças ocorridas na estrutura patriarcal em quase todo o mundo não se deram apenas por uma mudança na forma como as pessoas encaram as relações íntimas, mas também, e principalmente, por uma pressão do curso da história, assim como pelas influências sociais e econômicas.
O declínio do patriarcado ocorreu e, de maneira lenta, vem ocorrendo em países muçulmanos8 e na Índia. Sua principal causa no passado e no presente tem sido o aumento do número de mulheres recebendo educação superior, o que, por sua vez, resultou em mais mulheres trabalhando como professoras universitárias, mais pesquisadoras, mais estudos femininos. Segundo constata Therborn (2006), o processo de declínio do patriarcado tem início na “desindustrialização” de vários países que coincide com a passagem de uma economia baseada na indústria para uma economia de serviços.
7 THERBORN, Göran, Sexo e poder, 2006, p. 30.
8 No Egito, na Líbia e na Tunísia já há mais mulheres do que homens estudando nas universidades. Vemos os
efeitos desse fenômeno no aumento da idade média de casamento. Na Líbia, hoje, é de 28 anos para as mulheres, repetindo o padrão europeu. No Irã, a idade média vem subindo desde a Revolução Islâmica (Jornal O ESTADO DE SÃO PAULO, 06/01/08 – CADERNO ALIÁS (J3).
O processo de consolidação da Revolução industrial enrijeceu a família patriarcal clássica de camponeses. A família patriarcal burguesa manteve o homem como ganhador do sustento. Esse processo foi fragilizado pela onda de educação superior, após a Segunda Guerra Mundial, para jovens mulheres. É quando acontece a mudança crucial.
Para falarmos dos desafios inerentes ao processo de sucessão de pai para filha na empresa brasileira, é necessário lançar luz sobre as questões que estão na base da formação sócio-histórica da mulher nos diversos cenários, desde o descobrimento do Brasil até os dias de hoje, identificando as circunstâncias econômicas e sociais que propiciaram ou não seu reconhecimento como agente ativo na família, na manutenção da propriedade e, por fim, nas mais diversas modalidades de trabalho que integram a complexa rede de profissões das sociedades modernas. Comecemos conhecendo as raízes do patriarcado no Brasil.