4 ETUDE DES CARACTERISTIQUES COGNITIVES DES ENFANTS A HAUT
4.2 Méthodologie
positivos midiáticos constituídos
Compreendemos os meios como conceito abstrato, simples, pertencente ao senso comum, de instrumento a serviço de uma ação, e dispositivos como
o conceito concreto, que questiona as relações complexas entre usos e práticas comunicacionais consolidadas, que indicam modalidades de interações diferen- ciais nas tentativas de apropriações sociais dos meios (a montante e a jusante). Essa opção é epistemológica. Situa nossa formulação na herança da teoria crítica, de Marx à Escola de Frankfurt, chegando a Foucault como ponto de desloca- mento epistemológico das Ciências Sociais para a problemática da comunica- ção. É dessa linhagem que emergem novas formulações sobre discurso, ideologia, indústria, indústria cultural, aparelho, intelectual orgânico, modo de produção, formação social, campo – espaço reflexivo em que o conceito de dispositivos se in- sere como um novo epistemológico. Entendemos, ao contrário, o meio como um operador que nasceu nas investigações que valorizam o uso dos meios para fins estratégicos (consenso perante espaços de conflitos).1 Faz-se necessário, em outro
espaço, analisar como McLuhan qualificou o conceito de meio.
A diferenciação entre usos e práticas parte de Lahire (2002). É dele o corte entre as práticas (esquemas de longo prazo identificáveis nas condutas) e os usos (onde são visíveis os esquemas de curto prazo), na análise das interações. Já tínha- mos formulado a partir da perspectiva de Lahire (2002) para pensarmos as práticas sociais incorporadas na formação social midiatizada no Brasil. Mas nessa primeira tentativa ficamos restritos à questão socioantropológica. Neste artigo, atualizamos a formulação. Os casos de “desvio e desajustamento” (LAHIRE, 2002) do mundo social são inerentes à inovação dos meios, objeto de transformações incessantes na esfera técnica e tecnológica, com incidências sobre os signos, as linguagens e discur- sos potencialmente disponibilizados cujos usos vêm oferecendo uma gama também diferenciada de ambientes, circuitos e circulação possíveis nas interações.
Permanece, nessa formulação, a proposta de que nesta sociedade, singular, as perspectivas que analisam as práticas perdem valor perante aquelas que acen- tuam as mediações, as interações, ou, na perspectiva aqui formulada, a circulação. Essas situações acentuam a importância do presente sobre o passado, das intera- ções relativamente aos contextos, dos usos em relação às práticas. Configura-se aí uma base no real (ontológica), que fortalece ângulos interacionistas na análise dos processos de comunicação. Porém, ao mesmo tempo, há um processo social codi- ficado, incorporado, sobre os meios (das tecnologias às técnicas ao signos, língua, 1 “A invasão alemã da Polônia em setembro de 1939 – depois da assinatura em agosto de 1939 do pacto de não agressão entre russos e alemães – conturba a agenda do seminário. Teme-se o envolvimento mundial no conflito e uma eventual implicação direta dos Estados Unidos nessa guerra. A questão torna-se prioritária: ‘Como o governo americano poderá utilizar-se dos meios de comunicação para lidar com a nova conjuntura geopolítica e o eventual ingresso dos Estados Unidos numa guerra mundial?’.” (PROULX, 2014, p. 59)
linguagens e discursos) que nos permitem concluir que há dispositivos nos processos de comunicação, em especial os midiáticos.
Os usos dos meios é um processo que implica em relações complexas, na medida em que os meios são tecnologias, técnicas, signos, linguagens e discur- sos, ou seja, um conjunto de instrumentos internos ao dispositivo tentativo, mas também são os meios sociais onde são acionados. Muitos desses meios já estão constituídos em dispositivos, isto é, já estão histórica e socialmente apropriados e, reversamente, constituídos como habitus. Assim, muitos signos, a língua, a lin- guagem e muitos discursos já pertencem à ordem social. O mesmo vale para a técnica e a tecnologia. O uso de tecnologias como meio de comunicação já está incorporado socialmente – independente da tecnologia especificada. Mais ainda quando se fala em meios de comunicação simbólicos (o amor, o desejo, a guerra, o totem, o tabu etc.).
Entretanto, há conjunto de inovações de meios, inclusive derivados de novas tecnologias e técnicas, que remetem a usos nem sempre consolidados. São inúmeros os exemplos. Um dos exemplos é a plataforma Second Life. O seu uso não se con- solidou em termos específicos. Mas um dos esquemas que propõe – avatar, segunda vida – permanece em outros meios (tipo game Haboo). Aqui, a tensão é a que emerge entre usos possíveis, em curso, de novos meios disponibilizados por processos de inovação, afetando, inclusive, as possibilidades de deslocamentos de circuitos sociais de interação.
Essa diferenciação é pertinente não só com a reflexão que diferencia “so- ciedade dos meios” (sociedade onde os usos dos meios ainda estão subordinados a determinações e contextos sociais) e “sociedade midiatizada” (onde há práticas sociais hegemônicas de uso e apropriações dos meios constituídas em habitus, o que permite falar em dispositivos midiáticos).
Nesse sentido, a midiatização é um processo de ruptura com os usos e interações informados pelas conjunturas contextuais. Esses passam a ser regulados por habitus próprio, esquemas de sensibilidade, percepção e operações constituídos e incorporados socialmente sobre como usá-los. Quando isso ocorre, pode-se afir- mar que os meios são socialmente incorporados, sendo isso manifesto em práticas (habitus). Essa tensão está relacionada à proposição de que usos e apropriação dos meios – por atores, instituições midiatizadas e instituições midiáticas –, quando constituídos em dispositivos midiáticos reconhecidos, como ponto de contato, de vínculo social, passam a acionar processos de interações sociais, como argumen- tamos a seguir.
Ao mesmo tempo, ao usarem os meios, atores e instituições são usados, pois que inscritos em dispositivos midiáticos constituídos enquanto apropriação social instituída. Os dispositivos se fortalecem ao constituir-se em novo território para os dilemas da cultura que estavam territorializados e regulados por outros dis- positivos de comunicação (o que significa, regulados por relações de poder social- mente instituídas em outros territórios). O deslocamento para esse novo território instala rupturas com os habitus (sistemas de inteligibilidade) desenvolvidos nesses territórios anteriores.