4 ETUDE DES CARACTERISTIQUES COGNITIVES DES ENFANTS A HAUT
4.4 Comparaisons sur l’ensemble de l’échantillon
Em seus esquemas sobre a circulação, a questão da defasagem foi situada por Verón como relações entre gramáticas de produção e gramáticas de reco- nhecimento. Articula o discursivo com o processo comunicacional midiático. Os dois níveis – produção e recepção – são analisados na perspectiva das defasagens, considerando-se espaços específicos de interação delimitados por técnicas e tecno- logias transformadas em meios. O esquema que sintetiza a hipótese da defasagem está apresentado em vários de seus escritos. Citamos formulação mais recente:
Figura 1: A circulação discursivo-midiática
Fonte: Boutaud e Verón (2007, p. 3).
O esquema é assim formulado por Boutaud e Verón (2007, p. 3):
Se partimos, no curso de uma investigação, de um conjunto de dis- cursos tomado como ‘corpus’ (D), este pode ser encarado como uma configuração de superfícies discursivas constituídas por operações que reenviam a uma gramática de produção (GP), a qual se explica, por sua vez, por um conjunto de condições de produção (CP). Se a reconstituição de uma GP pode ser considerada com um trabalho descritivo, de identificação de invariantes operatórias identificadas no conjunto D de superfícies discursivas, a GP, uma vez caracterizada, permite definir a D como uma classe de discurso: este é o caso de uma GP como um contrato de leitura de um meio de imprensa, por exemplo. O que nos interessa é sublinhar o fato de que se a análise nos permite articular a classe D de discurso a uma gramática de pro- dução dada, as propriedades de D assim descritas não nos autorizam a inferir os “efeitos” desta classe de discursos em recepção: a classe D de discursos está submetida, em recepção, a uma pluralidade de
‘leituras’ ou de interpretações, que designamos como gramáticas de reconhecimento (GR) de D, e que nos reenviam a sua vez a condi- ções de reconhecimento (CR) determinadas. Temos aí uma prova ca- pital sobre a não linearidade da comunicação, que resulta do estudo empírica da circulação discursiva.3
Empiricamente, há duas principais investigações (que chama de estudos de caso) onde começou a operacionalizar essa perspectiva. (VERÓN; FOUQUIER, 1985; VERÓN; LEVASSEUR, 1989) Em artigo mais recente (VERÓN, 2007), des- taca desses dois estudos como referências nos estudos empíricos sobre a circulação.4
Mas o que é gramática de produção? Um quadro que compare as duas investigações indica uma heterogeneidade metodológica. Se em Les spetacles scientifi-
ques télévisivés (1985), as gramáticas de produção (“documentário clássico”; “informe
periodístico” e “apresentador em estúdio”) parecem se referir a esquemas sobre técnicas de produção, em Ethnographie de l’exposition l’espace, le corps et le sens (1989) a produção é descrita, mas não inferida em diagramas, figuras, ícones.
Já as gramáticas de reconhecimento, em Les spetacles scientifiques télévisivés (1985), se referem às figuras que o pesquisador infere sobre as interações media- das (pelo “dispositivo de contato”) entre o conhecimento científico como objeto do discurso e a recepção (“beneficiário”; “beneficiário perturbado”; “excluído”; “espectador retraído” e “beneficiário retraído”), numa aproximação aos estudos de apropriação/recepção. Em Ethnographie de l’exposition l’espace, le corps et le sens (1989), 3 “Si partimos, en el curso de una investigación, de un conjunto de discursos tomado como 'corpus' (D), éste puede ser encarado como una configuración de superficies discursivas constituidas por operaciones que re- envían a una gramática de producción (GP), la cual se explica a su vez por un conjunto de condiciones de producción (CP). Si la reconstitución de una GP puede ser considerada como un trabajo descriptivo, de iden- tificación de invariantes operatorias identificadas en el conjunto D de superficies discursivas, la GP, una vez caracterizada, permite definir a D como uma clase de discurso: es el caso de una GP como contrato de lectura de un medio de prensa, por ejemplo. Lo que nos interesa aquí es subrayar el hecho de que si el análisis nos permite articular la clase D de discurso a una gramática de producción dada, las propiedades de D así des- critas no nos autorizan a inferir los 'efectos' de esta clase de discurso em recepción: la clase D de discurso está sometida, en recepción, a una pluralidad de 'lecturas' o de interpretaciones, que designamos como gramáticas de reconocimiento (GR) de D, y que reenvían a su vez a condiciones de reconocimiento (CR) determinadas. Tenemos allí una prueba capital sobre la no-linealidad de la comunicación, que resulta del estudio empírico de la circulación discursiva”.
4 Os estudos posteriores de Verón focam no conceito de contrato de leitura, criado após debates sobre os primeiros estudos de circulação, conforme relata: “una primera presentación del concepto del contrato de lectura, fue una reacción en estos términos: ‘¿El estudio de los efectos es o no parte del campo de la semio- logía? No nos sorprenderemos si mi respuesta es resueltamente positiva. Si la duda era posible en el marco de la primera semiología, ya no lo es más para la semiología de tercera generación. Para esta última […] el verdadero objeto no es el mensaje mismo […] sino la producción-reconocimiento del sentido, sentido cuyo mensaje es sólo el punto de pasaje’. Se trataba, claramente, de no ‘dejar la cuestión de los efectos a los otros (psicólogos, sociólogos, psicoanalistas, etc.’.” (BOUTAUD; VERÓN, 2007, p. 9)
as gramáticas de reconhecimento se referem mais aos usos do que apropriações simbólico-discursivas (dos usuários de uma exposição, representados com figuras inferidas – visitações a exposição, acontecimento episódico, em percursos tipo for- miga, borboleta, peixes e gafanhotos).
O que é transversal nos dois estudos? O uso de figuras, diagramas e ícones na construção dos objetos de investigação e, depois, nas inferências sobre os pro- cessos analisados. Nesse sentido, nos dois artigos pode-se observar a construção icônica dos objetos. Mesmo que assim não seja nominado e conceituado, Verón, nos sucessivos esquemas de análise dos processos midiáticos que estuda enquanto casos, utiliza metáforas como referência central do que chama de gramáticas de produção e reconhecimento.
Isso é coerente com uma formulação no primeiro dos dois estudos. No pri- meiro desses estudos (VERÓN; FOUQUIER, 1985), o conceito de figuras (Barthes) é o que direciona metodologicamente a análise dos processos de produção. Cita:
As figuras se destacam conforme possam reconhecer, no discurso que passa, algo que tenha sido lido, ouvido, vivenciado. A figura é delimitada (como um signo) e memorável (com uma imagem ou um conto) Uma figura é fundada se pelo menos alguém puder dizer: ‘Como isso é verdade!’. ‘Reconheço essa cena de linguagem’. Para certas operações de arte, os linguistas se servem de uma coisa vaga: o sentimento linguístico. Para constituir figuras, não é preciso mais nada menos que este guia: o sentimento amoroso. (BARTHES, 1981, p. 2)
No segundo estudo, a análise ganha uma configuração peirceana (em que símbolo, ícone e índice são categorias metodológicas). Sem dúvida, um período de transição a ser estudado, seu trânsito da semiologia de Barthes à semiótica de Peirce. Essa é uma questão identificada na esfera conceitual-metodológica. Porém, nossa formulação é de concordância com Verón: a defasagem é uma categoria central para a análise da circulação. Ela é sígnica, em suas origens, mas se mani- festa na esfera discursiva.
Por outro lado, o problema também se situa na ruptura, nas redes digitais, dos modelos de comunicação linear em que um polo definido como condições de produção/gramáticas de produção resultava em discurso usado e apropriado por diversas “condições de produção/gramáticas de reconhecimento”. Utilizando nossa terminologia, as lógicas (FERREIRA; ROSA, 2015) de reconhecimento vêm se transformando em lógicas de produção e vice-versa. São constituídos novos ambientes, multilineares, multipolares, em que diversos atores e instituições se
colocam mutuamente na posição de produtores e receptores, alimentados pela disrupção semiótica, de um lado, e fortalecendo usos e práticos dos meios diver- sificados, ou seja, constituindo dispositivos que se constituem, também, em novos territórios – tempos e espaços de interações e conversação social.