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O presente estudo foi conduzido em função de duas questões de investigação principais:

1. Até que ponto as preocupações com questões decorrentes da conciliação entre vida de trabalho e vida pessoal e familiar influenciaram as opções de carreira no contexto da transição para o emprego?;

2. Admitindo que a conciliação possa influenciar as opções de carreira, que outros factores estiveram presentes nas escolhas possíveis na fase de transição para o emprego?

O estudo revelou que as questões da conciliação parecem não exercer grande influência nas opções de carreira profissional. Porém, a par da estabilidade económica, é um dos factores que justifica o adiamento de projetos familiares, especialmente quando estes incluem filhos, o que emergiu em todas as narrativas. Por outro lado, também expressaram a ideia de que as suas atividades de lazer, os seus interesses pessoais, são sacrificados com o início da vida ativa. A intensidade e as longas jornadas de trabalho não deixam energia para muito mais. Esta ideia emergiu tanto nos entrevistados já inseridos no mercado de trabalho como nos outros, ainda em fase de moratória. A pressão ou a vontade para conquistar a independência económica, depois de um período prolongado de dependência, justifica que a maior parte dos entrevistados tivesse optado pela entrada no mercado de trabalho após a conclusão da sua formação académica, isto é, em regra, um mestrado.

Apesar do adiamento na entrada na vida adulta, através da extensão da formação, para além da licenciatura, os participantes refletiram a pressão para entrar no mercado de trabalho. Quer dizer, mesmo que por vezes se tivessem revelado hesitantes, com projetos ainda mal definidos, todos se mostraram

disponíveis para começar a trabalhar e assegurar a sua independência económica. Na verdade, se esta tendência tiver fundamento, então estará em linha com a constatação de Mauritti, segundo a qual está socialmente enraizado em Portugal que o caminho natural após o término dos estudos é procurar emprego e iniciar a vida profissional (Mauritt, 2002). Estes jovens parecem ter interiorizado o trabalho como um dos valores morais que rege as suas vidas, tal como sugeriu Fevre (Fevre, 2003). Luísa terá sido a voz dissonante, quando afirmou que não queria viver para trabalhar. O conforto material é um valor dominante entre os participantes no presente estudo. Ainda que a amostra seja reduzida e o estudo exploratório, são visíveis as diferenças de atitudes e representações dos jovens portugueses e as que têm sido identificadas noutros países da União Europeia (e.g. Kugelberg, 1998, Lewis, 1999). Tais diferenças traduzem diferenças que caracterizam os países. Por exemplo, a alegada rigidez do mercado de trabalho nacional é fundamentada pelas estatísticas do IAPMEI (IAPMEI, 2008), segundo as quais, o tecido empresarial português é constituído, fundamentalmente, por micro e pequenas empresas (97,3%), sendo a proporção de médias empresas de 2,7% e as grandes empresas 0,6%. O emprego de licenciados é, no fundamental, assegurado por médias e grandes empresas. Estes dados asseguram a especificidade do mercado de trabalho nacional.

A conciliação entre vida de trabalho e vida pessoal e familiar assume um papel secundário nos projetos dos entrevistados. Por outras palavras, como se viu, a influência que os problemas de conciliação exercem nas decisões sobre a carreira profissional é marginal. Há como que uma antecipação naturalizada da impossibilidade de conciliar ambas as realidades até que a carreira profissional esteja consolidada. Todavia, a questão da conciliação parece relevante para muitas empresas, as quais implementaram políticas que promovem a conciliação, ainda que possam ter outros objetivos associados. Por exemplo, tais políticas podem servir para tornar as empresas mais atrativas e, desse modo, contribuir para a retenção de

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jovens talentos1. Mas Beauregard e Henry revelaram os resultados positivos de

empresas na sequência da implementação de políticas de conciliação como a flexibilidade do horário ou o trabalho a partir de casa (Beauregard, 2009). Tais políticas requerem baixo investimento, mas contribuem para o bem-estar dos trabalhadores e, desse modo, para elevar a sua produtividade. A retenção de jovens talentos é igualmente função do valor que as empresas conseguem acrescentar às formas de remuneração habituais, nomeadamente através de políticas de conciliação do trabalho com a vida pessoal (Evans, 2001).

Por outro lado, a União Europeia inclui as políticas de conciliação nas políticas mais abrangentes que visam a igualdade de género (Tovella & Masslot, 2009). Portanto, apesar do seu carácter exploratório, o presente estudo tem a pretensão de poder dar um contributo para a gestão. A vontade de ir para o estrangeiro parece popularizar-se entre os jovens com formação superior. Matilde é um exemplo, ao descobrir que o trabalho não tem, necessariamente, de ser uma fonte de pressão e de constrangimento. Matilde não quer trabalhar em Portugal. Se a tendência se generalizar, é provável que as empresas se venham a ressentir com a fuga de jovens talentos. Investir em políticas de conciliação parece razoável. Por um lado, transforma o ambiente de trabalho, tantas vezes fonte até de doenças. Facilitar a conciliação entre a vida de trabalho e a vida pessoal e familiar é uma forma de atrair e reter os jovens talentos. Por outro lado, antecipa eventuais medidas compulsivas que, com origem governamental, tendam a dar corpo às diretrizes da Comissão Europeia.

Finalmente, tendo este estudo um caráter exploratório, as suas limitações são inescapáveis. A amostra é reduzida, dados os imperativos de tempo e as dificuldades de conciliação entre o trabalho e a realização do projeto de investigação. Não obstante, o trabalho encontra algumas tendências entre jovens adultos de classe média em Portugal. Umas, alinhadas com as que caracterizam os

jovens de outros países, nomeadamente o adiamento da transição para a vida adulta. Também a vontade de viver a vida ou construir uma carreira profissional e, mais tarde, assentar (Lewis, 1999), constituindo família e, provavelmente, tendo filhos. Mas outras tendências parecem ainda distinguir os jovens adultos portugueses, muito mais pressionados para assumirem as suas responsabilidades profissionais e conquistarem a independência económica, do que os seus congéneres de outros países da União Europeia. Porém, é possível que as disposições aqui detetadas e que mereciam ser aprofundadas, em estudos subsequentes, sejam função da área formativa dos entrevistados. Assim, futuras investigações neste domínio beneficiariam se 1) alargassem a amostra, por forma a obter mais informação; 2) incluíssem na amostra jovens de classe média, mas de diversas áreas formativas e 3) assegurassem uma representação equitativa de ambos os géneros, a fim de possibilitarem análises comparativas.

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