“Coimbra é a minha cidade. A cidade do meu sucesso pessoal e profissional.”
Filipe tem 24 anos e é natural de Coimbra cidade onde cresceu e reside atualmente. Vive com os seus pais, ambos professores e é filho único. Economicamente a sua família apresenta uma situação financeira estável. Nas palavras de Filipe, a sua família “(…) não tem grandes luxos, mas temos uma vida boa. Vivemos os três numa vivenda em Coimbra”. Filipe relaciona-se bem com a família, nomeadamente com os primos. Mantém uma relação de proximidade com os pais, de resto, com quem ainda vive. Todavia, afirma que os pais não o influenciaram nas decisões que teve de tomar durante a sua vida, já que sempre lhe deram “total liberdade e independência para escolher o que quis”. Frequentou o ensino secundário na Escola Infanta D. Maria, na área de Ciências Tecnológicas. Segundo a sua opinião tinha uma grande apetência para a matemática. Por esse motivo, e após a conclusão do ensino secundário, entrou no curso de Economia na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, em setembro de 2008.
Em julho de 2011 Filipe realizou um estágio curricular de verão no departamento de contabilidade numa empresa em Coimbra. Filipe pretendia apenas conhecer “(…) uma realidade organizacional (…)” e considerou a experiência enriquecedora. Estudou noutro país europeu, “(…) durante este meu percurso que tive a felicidade (…) de conseguir estudar no estrangeiro (…)” ao abrigo do programa Erasmus numa universidade que considera de referência. (O entrevistado preferiu não revelar o nome do país e respetiva universidade, por salvaguarda da sua identidade). O facto de ter estudado noutra escola foi benéfico, não apenas do ponto de vista académico, mas igualmente pelo contacto com métodos de ensino mais práticos, outras culturas e outra língua, nomeadamente o inglês. Concluiu a licenciatura em economia em julho de 2012, demorando mais um ano do que o curricularmente previsto. O ano perdido foi o ano do deslumbramento proporcionado pela vida académica “(…) o
facto de não haver horários (…) os meus pais deram-me a liberdade que nunca me tinham dado na vida, então eu talvez ingénuo aproveitei.”
Concluída a licenciatura, Filipe foi trabalhar no departamento de recursos humanos numa seguradora multinacional, na cidade do Porto. Seis meses foi o tempo que conseguiu permanecer na empresa porque: “(…) de facto não foi a experiência que eu idealizava e decidi abandonar (…) não era aquilo que eu pensava que ia ser... não correspondeu às minhas expectativas.”. A cidade do Porto não era Coimbra e a falta da rede de amigos apenas agravou o desconforto de Filipe, que “(…) não estava habituado a sair de Coimbra tanto tempo, não conhecia ninguém (…) não me sentia bem lá e teve consequências diretas no trabalho e de facto senti que não fui tão produtivo como poderia ter sido e isso também me deixou relativamente frustrado.” Regressado a Coimbra, Filipe foi de novo viver com os pais e em setembro desse mesmo ano, 2013, iniciou o Mestrado em Gestão, na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. A escolha da área da gestão ficou a dever-se à vontade de obter uma especialização de âmbito mais prático, para contrabalançar o excesso de teoria que caracteriza a economia: “(…) decidi estudar gestão numa componente mais prática, mais virada para obra, (…) para as ferramentas práticas utilizadas no mercado de trabalho que de facto eu sentia que não dominava (…).” Aquando da entrevista, Filipe estava ainda a estudar e a viver em casa dos pais. Mas Filipe também é treinador de futebol. Adepto da Académica de Coimbra, assiste aos jogos com regularidade e também joga futebol com os amigos nos tempos livres. Ao mesmo tempo é treinador nas classes de formação de um clube local: “(…) ser treinador de futebol não é uma profissão, é uma coisa que me faz relaxar ao fim do dia quando tenho tempo (…)”. A atividade de treinador constitui uma forma de ocupar o tempo de lazer. Mas para além do futebol, o cinema e os amigos são constantes na vida de Filipe, que visita as salas de cinema com menos assiduidade do que no passado: “Agora não vamos tanto, mas ainda assim (…) vou com alguma regularidade.”. Após o primeiro ano de frequência do mestrado e com as disciplinas curriculares concluídas, Filipe optou por fazer a sua
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tese em simultâneo com um estágio profissional como gestor de projetos numa empresa de Informática, lugar que ocupa atualmente. A referida empresa desenvolve software e Filipe é responsável pela divulgação, contacto com clientes e organização da equipa, sendo responsável pelos clientes do Reino Unido. A tese de mestrado ocupa todo o seu tempo livre, o que se traduz no sacrifício das suas atividades de lazer.
Filipe vive com os pais o que lhe permite tolerar o salário que aufere e que considera insuficiente. Ou que o seria, se tivesse de assegurar as despesas da casa. O salário destina-se aos seus gastos pessoais. Todavia, não seria compatível com qualquer projeto de autonomia. Também não lhe permite pensar em constituir família. Porém, Filipe contenta-se com o facto de o estágio que está a fazer ser em Coimbra, de onde Filipe não quer sair “(…) na minha cidade, da qual eu sou natural e não quero sair mesmo. Gosto muito de estar aqui. Os meus amigos vivem aqui, a minha família vive aqui.”. É onde considera que se vive melhor e desenvolve: “(…) eu quero imenso trabalhar em Coimbra no futuro e acho que começar agora tão cedo já a desenvolver uma network, por exemplo, acho que é importante também.”
Apesar de desejar mais tempo livre para a sua vida pessoal, Filipe entende que nesta altura tem de pensar no trabalho e na construção de uma carreira profissional. Considera que tem as capacidades e a formação necessárias para o mercado de trabalho e pensa mesmo que o seu currículo lhe assegura alguma vantagem. Espera poder ficar na empresa onde realiza o estágio, embora não esteja certo. Por isso, define como objetivos fundamentais:
(…) agradar no estágio que estou a fazer e ser contratado (…) como colaborador efetivo da organização e possivelmente estar lá uns anos, porque de facto é uma boa organização onde eu gosto de estar e, de facto, pode ser muito bom para a minha aprendizagem.
Considera que os seus projetos refletem a influência dos seus amigos, cuja trajetória académica é semelhante à sua. Admite, não obstante, que a influência foi recíproca:
(…) ou seja eu acabei por ser influenciado e por influenciar (…) amigos mais velhos (…) em quem tenho confiança tiveram o mesmo caminho e acabaram por ter sucesso, são felizes com a vida que têm e também é um bocado isso que eu procuro, o que pode também ter motivado estas minhas escolhas
Os filhos fazem parte dos projetos de Filipe, que diz: “(…) aos cinquenta anos espero ter dois filhos (…)”.
Ter uma situação financeira estável como os meus pais sempre me deram, não ambiciono grandes luxos sinceramente. Quero trabalhar durante o ano e no verão fazer uma viagem por ano. Quero que eles tenham uma formação igual à minha (…). Se não fosse essa formação se calhar não seria o que sou hoje e quero que eles sigam mais ou menos as minhas pisadas, dentro do que eles querem. A liberdade que os meus pais me deram, eu também quero dar aos meus filhos.
A lógica de reprodução da situação familiar que Filipe expressa, aproxima-se das constatações efetuadas por Fiona Devine (Devine, 2004). No seu estudo, a autora revelou como famílias de classe média se esforçam por assegurar que os filhos tenham condições para assegurar as condições materiais de existência da família. Os investimentos culturais são, nesse sentido, considerados fundamentais, mas requerem recursos materiais. Filipe quer ter filhos, mas não num futuro próximo. A sua prioridade vai para a consolidação da sua carreira profissional e, desse modo, para o trabalho. As questões da conciliação entre vida de trabalho e vida pessoal e familiar não aparecem na narrativa de Filipe. O modo como leu o problema da conciliação foi a partir da estabilidade financeira, indispensável para dar aos filhos o que os pais lhe deram a si. Também Filipe beneficia da ajuda dos pais, com quem continua a viver, apesar de se sentir financeiramente independente. O facto mais notável da história de Filipe será, porventura, o seu apego a Coimbra e de eleger a permanência na cidade como o valor determinante mesmo quando se tratem de escolhas profissionais.
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