Chapitre 5 : Les postes non tenus : enjeux et contours de la demande
1. Analyse de la construction de l’indicateur des postes non tenus
1.2 Limites de l’analyse centrée sur l’indicateur des postes non tenus et perspectives : Des
“(...) para ter filhos tínhamos de abdicar da nossa vidinha relaxada e sem responsabilidades extratrabalho e é cedo demais para isso.”
Sara tem 23 anos, é natural do Porto, onde viveu com os pais e um irmão três anos mais velho, até se licenciar em economia no final do ano letivo de 2012. Filha de médicos, relaciona-se mal com os pais, mas muito bem com o irmão mais velho: “(…) nunca tivemos as típicas quezílias entre irmãos, nem quando éramos miúdos.”. Com os pais, a relação parece ser notoriamente má “(…) atribulada é pouco… é mesmo relação de amor/ódio (…)” e, provavelmente ficam a dever-se às idades avançadas dos progenitores. O pai de Sara tem 67 anos e a mãe 61: “(…) acabávamos sempre por entrar um bocadinho em conflito, especialmente com o meu pai, que a minha mãe foi ficando um bocado mais liberal com a idade.”. O grande problema com os pais foi o facto de interferirem excessivamente na sua vida académica: ”(…) principalmente a nível de estudos claro, todas as notas eram más. Ter 15 ou 16 era uma nota má para o meu pai. Para ele, eu tinha de seguir Medicina à força e ter uma média suficientemente boa para entrar no S. João.” As interferências também se faziam sentir na sua vida privada: “(…) o meu namorado tinha… e tem ainda… uma grande paixão pelo surf, e ensinou-me a surfar, e o meu pai dizia que eu perdia muito tempo a surfar, que me devia concentrar mais nos estudos e que ele me levava por maus caminhos.”. Os pais de Sara não aprovavam o seu gosto pelo surf e nem que participasse na vida académica, apesar de Sara não ser muito dada a noitadas: ”(…) ir beber um copo era sempre um filme. Eu olhava para os meus colegas da faculdade e o que mais invejava não era a falta de regras que tinham por viverem sozinhos, era mesmo ter a minha casa onde pudesse estar descansada”. Em suma, Sara desejava ser independente.
Quando terminou a Licenciatura na Faculdade de Economia do Porto, dentro do tempo esperado, “fez tudo certinho”, com uma boa média, não teve grandes
dificuldades em encontrar trabalho. Candidatou-se a estágios na área de auditoria para a cidade de Lisboa, foi selecionada para três empresas e acabou por optar por uma multinacional de renome, que oferecia melhor remuneração, apesar de não ser a sua preferida. O objetivo de Sara era, todavia, afastar-se do controlo dos pais e assegurar a sua independência financeira. Esta oportunidade permitiu-lhe concretizar as suas duas grandes prioridades: ”(…) uma era sair do Porto, a outra era entrar em auditoria. E atirei-me para Lisboa para não emigrar logo sem nunca ter vivido sozinha.”. Integrou-se bem na empresa “(…) e as oportunidades foram aparecendo. A empresa tem-me envolvido em projetos e em clientes cada vez maiores e mais aliciantes e isso é bom para o meu crescimento profissional e aprendizagem também (…)”. Também se adaptou à vida em Lisboa. Inicialmente partilhou alojamento com amigas “(…) porque arrendar ao quarto é muito mais barato do que arrendar à casa”. Porém, há aproximadamente um ano que reside com o namorado, uma experiência de que está a gostar: “(…) estamos a adorar ter a nossa casa, sempre nos demos bem, temos quase todos os amigos em comum e interesses parecidos.”. Continuam a praticar surf, sempre que têm tempo e vão conseguindo organizar-se “(…) vemos filmes e séries, passeamos por Lisboa que é uma cidade muito rica culturalmente. Há sempre eventos a acontecer, ainda mais que no Porto.” Sara visita o Porto uma vez por mês, mas nas férias escolhe outros destinos. A distância terá contribuído para uma melhoria do relacionamento com os pais: “Curiosamente, ou talvez não, agora dou-me muito melhor com os meus pais. Como tenho a minha vida e já não dependo deles há três anos damo-nos muito melhor e dão-me mais dinheiro do que alguma vez deram antes”.
Sara continua na mesma empresa e na mesma atividade de auditoria, considerando que aufere um salário adequado ao seu estilo de vida: “(…) ganho mais do que a média dos meus amigos e do que a média nacional que, na minha opinião, é muito baixa. Dá para viver de forma confortável (…) mas considerando que temos dois salários que em Portugal têm de ser considerados bons, tenho de considerar que vivemos bem. Abrimos uma conta em nome dos dois quando
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mudámos de casa e cada um transfere para lá todos os meses metade da renda mais um “x” para despesas comuns, tipo água, luz, internet, compras de comida (…)”. Entre os seus projetos para o futuro está um mestrado que poderá vir a ser relevante para “(…) outros voos na minha carreira no futuro, mas ando a adiar porque não tenho tempo.” O problema está na impossibilidade de conciliação entre a vida de trabalho, muito exigente, e o tempo de que necessitaria para dar corpo aos seus projetos pessoais: “(…) às vezes chego a casa às oito da noite e ainda tenho de mandar mails ou fazer qualquer coisa que me lembro ou assim. E depois quando tenho tempo livre dá-me sempre a preguiça e penso “(…) como é que eu ia estar agora numa aula?”. Ter filhos está dentro dos seus projetos “(…) como toda a gente acho que imagina, quero ter uma vida dita normal, não é? Dois ou três filhos e ganhar bem para ter uma vida desafogada e dois ou três luxos (…) aqui ou no estrangeiro, que já várias vezes pensei, ou pensámos, em ir embora (…)”. No que respeita aos projetos familiares, Sara dá conta da pressão que a família e os amigos exercem: “Como já namoro há muitos anos as pessoas perguntam quando casamos, se não queremos casar, quando temos filhos (…)”. Mas a questão material parece determinante: “E depois até casar é caríssimo, quanto mais ter filhos. Se bem que para casar talvez os pais pagassem e as prendas rendessem alguma coisa (…) mas para ter filhos tínhamos de abdicar da nossa vidinha relaxada e sem responsabilidades extratrabalho e é cedo demais para isso. Lá mais para os 30 vê-se isso”.
A história de vida de Sara é, no conjunto das que aqui se apresentam, a mais dissonante. Isto porque se trata de uma jovem adulta que não contou com a complacência dos pais, nem mesmo quando Sara procurou corresponder às suas expetativas e ao seu nível de exigência. As opções de Sara parecem ter sido tomadas por oposição aos pais. Não seguiu medicina, mas economia e não quis prolongar a situação de dependência económica, optando por entrar no mercado de trabalho assim que concluiu a licenciatura. Por outro lado, prescindiu das economias que a permanência em casa dos pais lhe poderia proporcionar, preferindo migrar para
Lisboa, onde reside com o namorado. A vida de trabalho numa empresa de auditoria é exigente e deixa-lhe pouco tempo livre. Apesar de considerar que um mestrado a poderia ajudar a avançar na carreira, Sara tem pouco tempo e nenhuma disponibilidade psicológica para dar corpo ao projeto. Depois de uma jornada de trabalho, o tempo livre é para descansar, pelo que Sara não antevê forma de conciliar o mestrado, as aulas, com a intensidade da vida profissional atual.
Os projetos para o futuro incluem igualmente filhos, mas tanto o casamento como os filhos requerem, segundo pensa, uma base material significativa. Será talvez por isso, que, apesar de considerar que tem uma vida confortável, dividindo despesas com o namorado e auferindo um bom salário, para o contexto nacional, Sara não descarte a possibilidade de emigrar. De resto, se não o fez logo após a licenciatura foi, como explicou, por se sentir insegura. Agora, admite que poderia ir com o namorado. Muito provavelmente, Sara estaria ainda sob influência do clima de crise que se vivia em Portugal na altura. Em todo o caso, se a emigração continua nos seus horizontes, a independência económica que conquistou, a par da distância que colocou entre si e os pais, contribuíram para melhorar um relacionamento aparentemente difícil. Os pais são agora mais generosos do que quando Sara fazia parte do agregado familiar. Sara manifesta uma concepção utilitária da existência, o que se ficará talvez a dever à sua área de formação.
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