2. RECENSION DES ÉCRITS
2.2 Les outils visuels et les sciences sociales
A Europa do século XVII cedo se encontrou politicamente dividida entre dois modelos de governação: a monarquia absolutista de direito divino, esplendidamente simbolizada pelo rei francês Luís XIV, tinha por contraponto a Inglaterra parlamentarista saída da guerra civil (1643-1648) e da Revolução Gloriosa de 1688. As lutas de libertação e
independência faziam-se sentir em países como Portugal e Holanda, que reagiam contra a soberania espanhola. O Velho Continente estava, por outro lado, religiosamente dividido entre Católicos e Protestantes e mesmo entre estes últimos a divisão também reinava (calvinistas, luteranos, anglicanos, puritanos...). O processo colonial avançava. O comércio intensificava-se, agregando-se á volta das Bolsas de Valores. A alfabetização aumentava, até porque era obrigatória para o ingresso em determinadas corporações de ofícios. A sociedade, sujeita a transformações, instabilidade e
mudanças, necessitava de informação. Por isso, havia não só receptividade para as notícias, mas também matéria-prima informativa suficiente para sustentar o aparecimento dos primeiros jornais “eminentemente jornalísticos”,
correntemente denominados gazetas, nome que deriva da moeda veneziana “gazeta”, quantia paga para se ouvirem as notícias das folhas volantes e dos primeiros jornais em actos de leitura pública. Esses primeiros jornais, ou gazetas, na sua essência, correspondem a uma evolução do conceito de “livro noticioso” para uma publicação mais frequente, muito menos volumosa, de menor custo e com notícias mais actuais. É de realçar, todavia, que o aparecimento das gazetas não eliminou do mercado os livros noticiosos, amplas relações de notícias. Estes continuaram a ter sucesso nas primeiras décadas do século XVII e ainda hoje encontramos versões reformuladas desses livros nos anuários noticiosos que vários jornais editam (como acontece com o semanário português Expresso).
Se descontarmos as publicações noticiosas mensais que surgiram no final do século XVI, a verdadeira aparição das gazetas deu-se em França, com o lançamento da La Gazette Français, de Marcellin Allard e Pierre Chevalier, em 160435, mas a novidade espalhou-se rapidamente por toda a Europa. Apesar do pioneirismo francês, o formato de gazeta imitado pela generalidade das gazetas dos países europeus foi o da Nieuwe Antwersche Tijdinghe, surgida em 1605, em Anvers, pela mão do impressor flamengo Abraham Verhoeve e redigida em francês e flamengo, publicando notícias locais, nacionais e do estrangeiro (o que constituía uma novidade). Esta gazeta durou vários anos, estabilizando numa periodicidade semanal a partir de 1617 e trissemanal a partir de 1620. A primeira gazeta a incluir notícias do dia anterior terá sido a Deutsch Frankfurter (1615).
As principais características das gazetas eram:
1) Ao contrário das publicações ocasionais monotemáticas, que apenas ofereciam informação pontual, que muitas vezes enveredavam pela pregação moralista e que nem sempre apresentavam as narrativas sob a forma de textos escorreitos, antes preferindo formatá-los, por vezes, como poesias ou canções, e ao contrário, também, dos livros noticiosos, amplas compilações de notícias abarcando largos períodos de tempo, as gazetas, além de terem uma periodicidade definida e frequente, apresentavam textos simples (até porque, em parte, eram elaborados para a leitura pública, sendo que a maioria da população era analfabeta), escorreitos, normalmente datados e geograficamente localizados, por vezes com menção directa às fontes, geralmente desenvolvidos numa narrativa cronológica, sendo reveladores de uma atitude eminentemente informativa (embora paginados em sucessão, sem intervalos entre eles). Por exemplo, na primeira gazeta portuguesa, a Gazeta em Que se Relatam as Novas Todas, Que Ouve Nesta
Corte, e que Vieram de Várias Partes no Mês de Novembro de 1641(publicada um ano após a Restauração, por Manuel de Galhegos, num período de guerra entre Portugal e Espanha, pelo que é
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Não confundir com La Gazette, dirigida por Théophraste Renaudot, celebrado pelos franceses como o seu primeiro jornalista, editada a partir de 30 de Maio de 1631.
notório o enviusamento noticioso para engrandecer os feitos de armas portuguesas e a figura do novo Rei), escrevia-se:
“Pelejou a armada de Holanda com uma esquadra da armada Real de Castela, em que vinham muitas fragatas de Dunquerque. Durou a pendência mais de vinte e quatro horas. Foi-se a pique um galeão dos Castelhanos, e ficaram alguns destroçados, e todos com muita gente morta. O Holandês com algum dano se retirou a este porto donde está aguardando que el-Rei nosso Senhor lhe dê socorro para sair outra vez a atemorizar os portos da Andaluzia.
O Conde da Castanheira, que estava preso numa torre de Setúbal pediu a el-Rei nosso Senhor que lhe mudasse a prisão por quanto estava indisposto e el-Rei nosso Senhor usando sua natural benignidade o mandou trazer para o Castelo de Lisboa.
Num lugar da Beira afirma-se que houve um homem, que ouvindo dizer numa conversação de amigos, que na feliz aclamação del Rei nosso Senhor fizera o Crucifixo da Sé o milagre, que a todos é notório, disse que [se] podia acaso a imagem do Senhor despregar o braço. E assim como acabou de dizer estas palavras caiu uma parede junto da qual estavam todos os da conversação e só a ele matou. Estando o galeão Santa Margarida para dar à vela disse o piloto que não se atrevia a sair sem lhe darem mais gente do mar, inquietando-se os soldados, e foi necessário acudir o General António Telles de Menezes, e alguns senhores que o acompanhavam na jornada de Cádis. E depois de tudo quieto prenderam três soldados, que foram os cabeças, e a todos eles os enforcarão.
Luís de Abreu que estava preso por cúmplice na conspiração que se fez contra a pessoa Real provou sua inocência e saiu livre.
O Conde de Alba e o Marquês de Alcaniles aos 19 de Outubro entraram pela vila de Sanes e
Malhadas com dois mil homens com ânimo de tomarem as munições e a artilharia, que desta corte se mandaram para a cidade de Miranda. Porém os nossos lhes prenderam junto à vila das duas Igrejas [um auxiliar] (...) que lhes vinha ensinando o caminho e com a sua prisão mudaram de intento e se foram logo. Chegou [a coluna militar] (...) ao lugar das duas Igrejas onde com grande pressa se recolheu e se pôs em cobro. Fizeram os inimigos, na retirada, algum dano. Porém Rui de Figueiredo de Alarcão, Fronteiro mor de Trás-os-Montes, e Pêro de Melo, capitão-mor e superintendente das armas na cidade de Miranda, juntaram 3000 infantes e com cavalos e com dois mil infantes mais que lhes mandou Francisco de Sampaio, Fronteiro mor da Torre de Moncorvo, de que era cabo Domingos de Andrade Correia, foram a Brandilanes, [a] cinco léguas de Miranda, onde o inimigo estava feito forte, e depois de duas horas de batalha ganharam a trincheira e mataram 70 homens e os demais retiraram a uma Igreja, onde resistiram até que os nossos puseram fogo a um barril de pólvora para que eles cuidassem que os queriam queimar e se entregassem, o que fizeram, mas ficaram mortos quatrocentos, entre os quais morreu Don Inigo de Baládria, governador da cavalaria. Saquearam os nossos o lugar e vieram vitoriosos com mais de 300 armas de fogo, muito gado, grande número de grão, e outros muitos despojos. Da nossa parte morreram sete ou oito homens.
Despachou el-Rei nosso Senhor ao Conde da Vidigueira para embaixador em França para assistir na corte de Paris.
Dom Antão de Almada (que foi embaixador extraordinário em Inglaterra) fica assistente para tratar dos negócios do Reino”36
Independentemente de todas as imprecisões informativas, da ausência de títulos ou de separação entre as notícias, da falta de referência a datas, da narração de rumores (“Num lugar da Beira afirma-se...”) e da narração cronológica, é visível, nas notícias anteriores, a ambição noticiosa e a capacidade de selecção de informação, o que também se nota, por exemplo, na Gazeta Primeira do Mês de Novembro de Novas Fora do
Reino (1642)37, em que uma das notícias era a seguinte:
“De Wittemberg, aos ditos 10 de Setembro de 1642 – Quinhentos cavaleiros suecos venceram a 13 de Agosto 200 soldados imperiais, junto a Torgau, tendo-os desbaratado e tendo-se assenhorado por astúcia do passo do Rio Elba, onde os soldados imperiais estavam com os barqueiros, até que 40 cavaleiros suecos deram sobre eles e se fizeram senhores da barca, depois de terem lançado os vilões ao rio e morto alguns dos que lhes quiseram impedir a passagem. E logo apareceram 1500 cavaleiros suecos ao redor de A Leuca. Leuca, onde se juntariam mais tropas, para passar a mesma ribeira. Afirmam-nos que o general Mayor Konigsmaic vai já pela outra margem do Elba com seis regimentos de cavalaria e quatro de infantaria, para se juntar aos suecos que estão em Esford e rumarem ao país de Saxa [Saxónia] e à Francónia.“38
2) Primeira página titulada e, por vezes, ilustrada, mencionando ainda a data e o local de impressão/edição e o nome do editor (o “director”);
3) Inclusão de várias notícias sobre diferentes assuntos (da política, das guerras e do comércio à ciência, passando pela sociedade e fenómenos maravilhosos ou insólitos) e de diferentes proveniências (algumas das quais das colónias ultramarinas dos países europeus), paginadas a uma coluna, por vezes sem qualquer ordem lógica, outras vezes com ordem cronológica, muitas vezes com indicação da data e local de proveniência das mesmas, obtidas por tradução de notícias de gazetas estrangeiras e por produção própria;
4) Periodicidade normalmente semanal e depois bi e tri-semanal, até chegar a diária, havendo alguma
discordância entre os historiadores sobre qual terá sido o primeiro jornal diário digno do nome: o Courante uyt
Italien, Duytsland, etc. (Amesterdão, 1618); o Einkommende Zeitung (Leipzig, 1635); o Neueinlauffende Nachricht von Kriegs-und Welt-Händeln (Leipzig, Alemanha, 1660), o Leipziger Post-Und Ordinari Zeitung
(Leipzig, Alemanha, 1662) ou o Daily Courant (Inglaterra, 1702). As divergências entre os autores incidem sobre o conceito de jornal diário. Para alguns autores, um jornal publicado quatro dias por semana já deve ser considerado diário (é a proposta da UNESCO, por exemplo), enquanto para outros essa regra não é válida. Do nosso ponto de vista, os jornais alemães devem ser considerados os primeiros diários, tendo primazia sobre o
Daily Courant, até porque dentre eles pelo menos dois foram publicados seis dias por semana em determinadas
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Grafia adaptada ao português contemporâneo. 37
Segundo Tengarrinha (1989: 39), em Agosto de 1642 as gazetas foram proibidas “em razão da pouca verdade e do mau estilo de todas elas”, mas por trás dessa decisão estaria também o medo de dar gratuitamente informações ao inimigo. No entanto, a partir de Outubro recomeçou a publicação da gazeta, mas apenas com notícias do estrangeiro, daí que no título tenha começado a aparecer a designação “de novas fora do reino”.
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fases da sua vida, tal e qual como o Daily Courant: o Einkommende Zeitung, de Leipzig, foi publicado seis dias por semana, entre 1650 e 1652, e o Neueinlauffende Nachricht von Kriegs-und Welt-Händeln terá mesmo saído sete dias por semana entre 1660 e 1667 (Schulze Scheneider, 1994: 107-109);
5) Publicação de notícias do dia anterior, o que reconstrói a noção de actualidade − muda o horizonte de
actualidade da humanidade;
6) Existência de profissionais (normalmente um ou dois) dedicados em exclusivo à redacção, paginação e impressão;
7) Inclusão de anúncios pagos (principalmente a partir de meados do século XVII, com o pioneirismo a pertencer, provavelmente, à Gazeta de Veneza). A inclusão de publicidade diminuirá o preço por exemplar, tornando as gazetas acessíveis a mais pessoas.
O aparecimento das gazetas permite afirmar que o jornalismo noticioso é uma invenção europeia dos séculos XVI e XVII, com raízes remotas na antiguidade clássica e antecedentes imediatos na Idade Média e no Renascimento. Não é, portanto, uma invenção norte-americana do século XIX, por muito importantes que tivessem sido, como veremos, as contribuições da imprensa popular norte-americana de Oitocentos ao jornalismo.
É de referir, porém, que algumas gazetas não se resumiam a um conteúdo unicamente noticioso neutral. Incluíam também notícias “orientadas” e “seleccionadas” para servirem determinadas causas, excertos argumentativos, opinativos e persuasivos, por vezes simplesmente propagandísticos, que prefiguraram a imprensa política de partido que haveria de animar os séculos XVIII e XIX. Como exemplos, temos as gazetas holandesas e mesmo as gazetas da
Restauração portuguesas, todas engajadas na luta contra a dominação espanhola (vimos acima, nas notícias da primeira
gazeta portuguesa, que é possível enviusar os assuntos através das notícias). Noutros casos ainda, as gazetas perseguiam objectivos religiosos e moralistas, sendo que, por vezes, numa única gazeta se misturavam textos com características noticiosas, propagandísticas, argumentativas e moralistas.
As newsletters das casas comerciais europeias contribuíram, por seu turno, para formatar gazetas mais “sérias” e contaminaram positivamente as restantes gazetas. A primeira newsletter comercial transfigurada em gazeta terá sido a
Relation, publicada em Estrasburgo.
Embora o formato estrutural das gazetas tivesse sido fixado pela Nieuwe Antwersche Tijdinghe, a Europa viu surgir dois modelos normativos e funcionais de jornalismo: o inglês e o francês. O primeiro consagra a liberdade de imprensa; o segundo, impõe o controlo sobre a imprensa. O primeiro propõe o paradigma em que se fundará o jornalismo ocidental
contemporâneo (Modelo Ocidental de Jornalismo); o segundo alicerça a forma de fazer jornalismo em ditadura (Modelo
Autoritário de Jornalismo, influenciando também os modelos Socialista e Desenvolvimentista de jornalismo). No entanto, o jornalismo, em ambos os modelos (britânico e francês), alimentar-se-á, essencialmente, de notícias, embora no modelo inglês da “imprensa de partido” o artigo de cariz opinativo tenha tido uma importância relevante, tendência que, de resto, alastrou à imprensa de todo o continente.
No final do século, em 1690, o jornalismo chegou às colónias britânicas na América, fundadas por colonos
profundamente religiosos e bastante alfabetizados, e que se vieram a converter, no século XVIII, nos Estados Unidos da América. Nesse ano, é fundado o jornal Public Occurences Both Foreign and Domestic, em Boston, por um jornalista inglês perseguido pela justiça, Benjamim Harris, logo encerrado pelas autoridades coloniais. Nesse mesmo ano, foi apresentada, em Leipzig, na Alemanha, a primeira tese doutoral sobre jornalismo, por Tobias Peucer.
Há que dizer que as gazetas tinham uma circulação relativamente restrita, quer por causa dos baixos índices de alfabetização, quer por causa do preço (por exemplo, segundo Tengarrinha, 1989: 39, as Gazetas da Restauração portuguesas, denominação por que ficaram conhecidas as gazetas publicadas em Portugal a partir de 1641 e que se engajaram na luta independentista contra Espanha, custavam seis réis, em média, quantia bastante elevada para a época, variando o preço em função do número de páginas). Entre os leitores directos das gazetas contar-se-iam, assim, os burgueses endinheirados, a aristocracia rica e o clero instruído, embora, como se saiba, as gazetas tivessem também muitos “leitores indirectos”, pois eram lidas publicamente em feiras e noutros ajuntamentos, por vezes a troco de um pequeno pagamento por parte de quem escutava.
4.1 O modelo francês normativo e funcional de jornalismo no século XVII
No modelo francês, as gazetas estavam ao serviço do absolutismo régio, intolerante para com os “estados dentro do estado”, as heterodoxias, as críticas, os protestos e as rebeliões. Por isso, os governos absolutistas promulgaram leis que instituíam a censura prévia (por funcionários da Coroa), reforçavam as proibições de publicar determinados conteúdos, estabeleciam um regime compulsório de licenças de impressão e instituíam formas de repressão contra os
prevaricadores (multa, prisão, desterro e serviço nas galés). Por outro lado, pela primeira vez o próprio estado financiou gazetas ao seu serviço, empregando redactores (“jornalistas”) convertidos em funcionários leais, a quem eram dadas instruções sobre o que redigir e como redigir, como aconteceu no Mercure Français39, a partir de 1624, pela mão do padre Joseph, e, principalmente, na La Gazette, dirigida por Théophraste Renaudot, celebrado pelos franceses como o seu primeiro jornalista, a partir de 30 de Maio de 1631. A denominação desta última gazeta será alterada, em 1762, para
La Gazette de France, para melhor vender a marca da França na competição com as restantes gazetas europeias.
O semanário La Gazette, publicado sob os auspícios do cardeal Richelieu, homem-forte de França durante o reinado de Luís XIII, tinha, normalmente, quatro páginas, de 23 x 15 cm, e difundia, essencialmente, notícias da corte, de Paris, das províncias francesas e do estrangeiro. Foi concebido para poder ser encadernado, sendo também vendido sob a forma de colecção anual. Era subscrito pelas repartições oficiais e por particulares, o que assegurava a sua estabilidade financeira, passando também a ser vendido nas ruas a partir de 1650. Esporadicamente, incluía suplementos. Em 1642 alcançava uma tiragem de 800 exemplares e aumentou para oito o número de páginas. Foi atravessando os tempos, sofrendo várias transformações (tamanho, design, periodicidade, conteúdo), tendo perdurado até 1917. Em 1650, os herdeiros de Renaudot fundaram o jornal Courrier Français, o primeiro jornal francês a ter edições locais nas províncias, a inserir publicidade e a ser amplamente vendido nas ruas.
Foi também a França a ver surgir o primeiro jornal cultural: o Journal des Savants. Tratava-se de um semanário de doze páginas e com um formato um pouco maior do que o de La Gazette, que difundia resenhas e comentários de livros bem como artigos sobre temas científicos, históricos e artísticos. É um dos melhores exemplos de como o jornalismo emergente procurava já não apenas uma segmentação dos públicos mas também corresponder ao novo espírito
iluminista da Ilustração.
O sistema jornalístico francês do século XVII era ainda complementado com um livro noticioso, um mensário de 200 páginas, intitulado Mercure Galant, surgido em 1672 por iniciativa de Donneau de Vizé, cujos conteúdos incluíam aquilo de que os restantes periódicos pouco falavam: notícias mundanas, curiosidades, fenómenos insólitos, maravilhas da natureza, gentes e lugares, textos laudatórios, etc.
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O Mercure Français surgiu em 1611, inserindo uma cronologia noticiosa dos principais acontecimentos ocorridos em França e no estrangeiro desde 1605 até 1611.
Os jornais e o modelo normativo e funcional de jornalismo francês do século XVII triunfaram na maior parte da Europa, mas os constrangimentos legais constrangeram a actividade jornalística emergente. Todavia, apesar do controlo régio e da censura, as gazetas alcançaram enorme sucesso, em particular no seio das minorias cultas. É de salientar, além disso, que muitas publicações que se afastavam da norma foram publicadas na clandestinidade.
4.2 O modelo inglês normativo e funcional de jornalismo no século XVII
Durante o século XVI, a censura prévia e o sistema de licenças de impressão limitaram os conteúdos das folhas noticiosas inglesas a assuntos inócuos para o regime (curiosidades, notícias sobre os monarcas, crimes e criminosos, etc.). Porém, o Reino Unido entrou no século XVII sob a tentativa monárquica de instituir o absolutismo régio, enquanto os adeptos do parlamentarismo (essencialmente a burguesia comercial rica e puritana) se lhe opunham. Os confrontos civis ensanguentaram a Grã-Bretanha entre 1643 e 1648, tendo a república (Commonwealth) sido
implantada, em 1649, por Oliver Cromwell, durando até 1660, ano da Restauração Monárquica. Após a Restauração da Monarquia, a governação passou a ser repartida entre o Rei e o Parlamento. Esta opção política foi definitivamente consolidada com a destituição de James II e a oferta da coroa a Guilherme de Orange, em 1688 (Revolução Gloriosa). Um ano depois, em 1689, foi aprovada a Declaração de Direitos (Bill of Rights), segundo a qual haveria tolerância política e religiosa e o Parlamento era a sede de governo. Por isso, enquanto na maioria dos países europeus o absolutismo régio imperava, favorecendo um apertado controlo da imprensa, em Inglaterra a revolta contra o absolutismo régio e pelo parlamentarismo, sobretudo após o triunfo da Revolução Gloriosa de 1688, propiciava uma acolhedora atmosfera de liberdade de pensamento e expressão bem como de confronto político. Porém, o percurso não foi rápido e muito menos simples. A Inglaterra também passou por períodos de controlo da imprensa, sob o regime das licenças (até mesmo do monopólio) e da censura, antes de chegar a um modelo normativo e funcional de jornalismo acalentador da liberdade de pensamento e de expressão e da argumentação jornalística persuasiva que haveria de contribuir para fundar os valores do jornalismo ocidental e dos seus profissionais. Há, portanto, que considerar duas fases na implantação do modelo inglês de imprensa, pois foram várias as tentativas de controlo do jornalismo incipiente antes de se chegar ao paradigma da liberdade de imprensa.
O primeiro periódico em língua inglesa difundido em Inglaterra foi publicado em Amesterdão por George Veseler, em 1620, em grande medida provocado pela avidez de informação suscitada pela deflagração da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), sendo intitulado Current [Corrant] Out of Italy, France, Germany, the Palatinate... Era enviado por barco para o Reino Unido.
O primeiro jornal genuinamente inglês (publicado e difundido em Inglaterra) foi o Corrant or Weekly News [Newes]
from Italy, Germany, Bohemia, the Palatinate, France and the Low Countries, vulgarmente conhecido por A Current of General News, editado por Nathaniel Butter, Nicholas Bourne e Thomas Archer a partir de 1622, com periodicidade