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2.3 Pr´ evision du signal exp´ erimental

3.1.1 Les lignes ` a retard

A agroecologia é, ao mesmo tempo, uma ciência, uma prática e um movimento social, afirmou Stephen R. Gliessman, durante o VII Congresso Brasileiro de Agroecologia19. Como um enfoque científico, Gliessman (2000, p. 13) ensina que a agroecologia estuda “a aplicação de principios ecológicos ao desenho e manejo de agoecossitemas sustentáveis”. Por sua vez, Altieri, acrescenta que ela articula “os princípios agronômicos, ecológicos, socioeconômicos à compreensão e avaliação do efeito das tecnologias sobre os sistemas agrícolas e a sociedade como um todo” (2004, p.23). Altieri, conforme explicam Petersen e Caporal (2012), introduziu em 1983, a ideia de agroecologia como “bases cientificas para agricultura alternativa” e, logo após, se estendeu para bases cientificas para uma agricultura sustentável. Dadas às evidencias dos fracassos socioambientais e econômicos provocados pela Revolução Verde, nasce como contraponto, à aproximação entre agronomia e ecologia (PETRESEN & CAPORAL, 2012).

A perspectiva agroecológica se destina a apoiar e dar sustentação à transição dos atuais modelos de desenvolvimento rural e de agricultura convencionais para estilos de desenvolvimento rural e de agriculturas sustentáveis (CAPORAL, COSTABEBER e PAULUS, 2006). Essa compreensão está fundamentada na afirmação de Altieri (2012, p. 16):

Como ciência, baseia-se na aplicação da Ecologia para o estudo, o desenho e o manejo de agroecossistemas sustentáveis. Isso conduz à diversificação agrícola projetada intencionalmente para promover interações biológicas e sinergias benéficas entre os componentes do agroecossistema, de modo a permitir a regeneração da fertilidade do solo e a manutenção da produtividade e da produção de culturas.

Caporal (2009, p. 292) afirma que as contribuições trazidas por essa disciplina científica, “[...] vão mais além de aspectos meramente tecnológicos ou agronômicos da produção, incorporando dimensões mais amplas e complexas que aquelas das ciências agrárias puras [...]”, incluindo, além das dimensões econômicas, sociais e ambientais, as dimensões culturais, políticas e éticas da sustentabilidade.

19 O VII Congresso Brasileiro de Agroecologia foi realizado na cidade de Fortaleza em 2011. Nessa ocasião,

Gliessman, ao discutir a agroecologia como um novo paradigma de mudança social para desenvolvimento rural sustentável, afirmou que “a agroecologia é uma ciência, uma prática e um movimento social” e, se esses três não estiverem acontecendo, não está se fazendo agroecologia (informação verbal).

Enquanto um conjunto de práticas, a agroecologia baseia-se em uma diversidade de conhecimentos e técnicas fortemente vinculadas ao processo de experimentação dos agricultores. Daí a ênfase dessa perspectiva, “na capacidade das comunidades locais para experimentar, avaliar e expandir seu poder de inovação por meio da pesquisa de agricultor a agricultor e utilizando ferramentas de extensão baseadas em relações mais horizontais entre os atores” (ALTIERI, 2012, p. 16). Nesse sentido, a dimensão local tem um papel central, acrescenta Caporal (2009, p. 293), “por ser portadora de um potencial endógeno, rico em recursos, conhecimentos e saberes que facilitam a implementação de estilos de agriculturas potencializadoras da biodiversidade ecológica e da diversidade sociocultural”.

Segundo Altieri20(2011, p. 7) a agroecologia:

[...] oferece conhecimentos e as metodologias necessárias para desenvolver uma agricultura que seja, por um lado, ambientalmente adequada e, por outro, altamente produtiva, socialmente equitativa e economicamente viável. Através da aplicação dos princípios agroecológicos, poderão ser superados os desafios básicos na construção de agriculturas sustentáveis, ou seja, fazer um melhor uso dos recursos internos; minimizar o uso dos recursos externos; reciclar e gerar recursos e insumos no interior dos agroecossistemas; usar com mais eficiências as estratégias de diversificação que aumentam o sinergismo entre os componentes – chave de cada agroecossistema.

Nos sistemas de produção baseados na agroecologia, a aplicação dos conceitos e principios da ecologia ao manejo dos agoecossitemas extrapolam uma visão unidimensional, centrada em aspectos particulares, isto é, genética, edafológica entre outros. Nela prevalece uma visão holísticana, na qual os processos sociais, biológicos e ambientais estão em inter- relação, passando a ser analisados em seu conjunto (ALTIERI, 2012; CAPORAL & COSTABEBER, 2004).

Belarmino Neto (2006) nos fala da existência de diferentes tipos de sistemas sejam eles agrícolas, urbanos e orgânicos, todos passíveis de interações. Porém, a noção de agroecossistema anteriormente definido na lógica do capitalista fica restrita ao campo dos significados e conceitos científicos. Daí torna-se fundamental diferenciar um sistema agrícola de um agroecossistema. Interessa a agroecologia produzir alimentos, reduzir danos ambientais e melhorar as condições de vida da população. Enquanto que, no modo de produção e de vida capitalista, essas mesmas “preocupações” passam, necessariamente, pela lógica do mercado (abastecimento, preços, energia, uso de solo e insumos entre outros).

20 Esse texto foi traduzido e adaptado por Francisco Roberto Caporal, do artigo “Agroecológia: principios y

estratégias para una agricultura sustetentable em América Latina delsiglo XXI” de Miguel A . Altieri, publicado no livro O desenvolvimento rural como forma de aplicação dos direitos no campo: Principios de tecnologias( MOURA. E. G e AGUIAR, A . C. F. São Luís. UEMA, 2006.

Partindo de uma perspectiva mais ampla e complexa, Guzmán oferece à agroecologia a seguinte definição (2006,p. 202):

A agroecologia pode ser definida como manejo ecológico dos recursos naturais através de formas de ação social coletiva que apresentam alternativas a atual crise da modernidade, mediante propostas de desenvolvimento participativo desde os âmbitos da produção a da circulação alternativa de seus produtos, pretendendo estabelecer formas de produção e consumo que contribuam para enfrentar a crise ecológica e social, e com ele restaurar o curso alterado da coevolução social e ecológica.

Nessa passagem, observa-se a convergência entre os novos estilos de agricultura e formas de ação coletiva. Para o processo de transição agroecológica, a gestão produtiva dos recursos naturais passa, necessariamente, pela adesão dos atores coletivos, com seus interesses, projetos e valores comuns, podendo, em seu conjunto, representar, “uma alternativa para superar a crise socioambiental percebida pelos agricultores” (COSTABEBER & MOYANO, 2009).

Para Caporal e Costabeber (2004), a terminologia “agricultura de base agroecológica” explicita, de modo geral, a diferenciação entre os estilos de agricultura resultantes da aplicação dos princípios e conceitos da agroecologia na agricultura convencional21. Os autores chamam-nos atenção ao explicarem que a agricultura de base ecológica, fundamentada nos princípios da agroecologia, não pode ser confundida com outros estilos de agriculturas ecológicas. Segundo esses estudiosos, uma produção agroecológica não é simplesmente aquela que não utiliza agrotóxicos ou fertilizantes químicos em seus processos produtivos.

Nesse sentido, é preciso estar atento para o fato que tanto a agricultura ecológica, quanto a agricultura orgânica, podem resultar da aplicação de técnicas e métodos diferenciados de pacotes convencionais, cujo único objetivo é atender o mercado dos produtos ditos “ecológicos”, “orgânicos” ou” limpos” (CAPORAL & COSTABEBER, 2004). A esse respeito, Petersen e Caporal (2012) dizem que, no Brasil, a agroecologia distingue-se dos modelos convencionais dos econegócios orgânicos, ao defender o direito universal de acesso a alimentos sadios para todos, colocando, ainda, como prerrogativa a obrigação das atuais gerações assegurarem a base de recursos da qual as futuras gerações dependerão.

A agroecologia aparece com diferentes significados, tanto no discurso dos protagonistas das ações, quanto na literatura que trata do tema. De modo geral, está

21 Baseados em Canuto utilizamos o termo agricultura convencional ao nos referirmos a agricultura introduzida

pelos complexos industriais. O mesmo equivale à expressão agricultura moderna ou agricultura baseada na revolução verde (1998).

comumente associada a um estilo de vida mais saudável, à produção baseada nas leis da natureza, que se concretiza de forma mais justa, uma vez que preserva e não destrói o meio ambiente e que estabelece em seus processos maior equilíbrio entre homem e natureza. Há também quem a compreenda como um conjunto de técnicas e/ou procedimentos. Entretanto, de acordo com Caporal e Costabeber (2004), tais interpretações são imprecisas, pois obscurecem o entendimento da agroecologia como ciência que estabelece as bases para a construção de estilos de agriculturas sustentáveis. Os autores ainda esclarecem que a agroecologia não oferece nenhuma teoria sobre desenvolvimento rural sustentável ou sobre metodologias participativas, mas busca nutrir-se de métodos e formas de investigação que partam das experiências concretas e de conhecimentos já acumulados.

A proposição agroecológica confere de modo especial aos camponeses e às comunidades tradicionais, como legítimos sujeitos do processo de desenvolvimento rural, dando destaque ao conhecimento local, considerado ponto de partida para o processo de dialogo entre conhecimento técnico - cientifico com diferentes saberes, para a construção de novos conhecimentos (CAPORAL & COSATBEBER, 2004). Abre-se, assim, um espaço para a valorização do saber/fazer dos agricultores. Essa perspectiva distancia-se dos procedimentos adotados pela ciência convencional ao negar o papel dos camponeses “como agentes da produção e de disseminação de novidades, com isso procurando deslegitimar todo e qualquer conhecimento não cientifico e reservando à comunidade acadêmica o monopólio da geração e da difusão de tecnologia” (PETERSENet al., 2009, p 87).

Sobre o sistema de conhecimento tradicional na agroecologia, Altieri e Nicholls (2004) destacam quatro aspectos que consideram importantes, são eles: o conhecimento sobre o meio ambiente, a diversidade biológica local, o conhecimento de práticas agrícolas e a natureza experimental do conhecimento tradicional. Esses aspectos são reveladores da complexa natureza do saber camponês, forjado a partir das necessidades do cotidiano, especialmente sobre solo, climas, vegetação, animais e ecossistemas. Com isso, podemos afirmar que o desenvolvimento da agricultura não é um campo restrito ao progresso cientifico como querem fazer crer a ciência burguesa (PETERSEN et al., 2009).

A construção do campo agroecológico no Brasil nasce por dentro do movimento de critica em reação aos impactos sociais e ambientais provocados pela modernização da agricultura baseada na Revolução verde. Nesse contexto, destacam-se a reorganização dos movimentos sociais no campo, o movimento ambientalista a partir da segunda metade da década de 1970, a realização dos encontros da Rede Projeto Tecnologias Alternativas (Rede

PTA) e o surgimento em diferentes regiões do país, de experiências baseadas na disseminação de práticas alternativas (SCHMITT, 2009).

Dessa rica trajetória de resistência formou-se o campo agroecológico, movimento informal criado a partir da diversidade de sujeitos e de contextos socioeconômicos. Caracteriza-se, de modo geral, como um espaço social de expressão nacional que articula redes e mobiliza um conjunto heterogêneo de dinâmicas sociais, seja no âmbito local e/ou regional (ALMEIDA, 2009). Nesse caminho, destacam-se as redes de agricultores experimentadores, as casas de sementes, os fundos rotativos, as feiras agroecológicas, as associações de consumidores, grupos de consumo consciente, os grupos produtivos, entre outros exemplos espalhados em todo o território brasileiro.

Esse movimento ainda envolve um conjunto de entidades de assessorias a organizações de agricultores familiares, instituições oficiais de ensino, pesquisa e extensão, bem como diferentes categorias de profissionais na área do desenvolvimento rural.