• Aucun résultat trouvé

CHAPITRE VI Ŕ DE LA PATRIMONIALISATION À LA MUSÉALISATION (1930-

6.1. La relève d’une pratique patrimoniale (1935-1960)

O estudo sobre organização do programa de Ariosto Espinheira tem uma particularidade: não foram localizados nem os scripts, tão pouco as gravações que poderiam nos remeter ao formato desta atração. Diante deste fato, recorri as notas e desenhos de ouvintes publicados na coluna Livro aberto as crianças e a coleção de livros Viagem através do Brasil para recolhendo indícios, realizar um exercício de aproximação do formato desta programação.

Um dos indícios que fazem alusão ao formato da Viagem através do Brasil é a estruturação dos capítulos. O tamanho do texto apresenta uma regularidade, todos os capítulos seguem um padrão de número de páginas. A extensão do texto é compatível com o tamanho de um script de uma programação de 30 minutos. A redação também sugere o texto irradiado. No entanto,

o livro não tem as referências à irradiação que contém os scripts, o que impõe limites a análise do formato.

O início de capitulo, que ao meu olhar, corresponderia a um programa irradiado, o rádioeducador sempre faz a alusão ao avião que transportava o narrador. É possível perceber a utilização do recurso da dramatização:

Meus amigos, desçamos no campo de pouso de emergência, que fica aqui nos arredores da cidade, sede do município. Necessitamos de gasolina e aproveitaremos a parada para visitar a cidade.

Pronto! Aterrissamos...

Lá vai uma carrêta colonial puxada por três parelhas de cavalos, todos iguais. (ESPINHEIRA, 1938, p.141).

Neste aspecto, a organização da Viagem através do Brasil seguia as orientações divulgadas em Rádio e educação (1934), obra elaborada por Espinheira e dirigida aos professores, sendo composta por recomendações para a utilização do rádio na sala de aula. Como vimos no segundo capítulo, intitulado A radioddifusão escolar, são apresentados os possíveis formatos de programa sugeridos em estudos realizados pela União Internacional de Radiodifusão. São eles: a lição ordinária, a conferência, a palestra, o diálogo, dramatização, a narrativa e a reportagem educativa. A Viagem através do Brasil mistura a dramatização e a narrativa. O formato dramatizado é recomendado a toda apresentação, diante da necessidade do rádioeducador em apresentar a irradiação de maneira impressionante, que fale à imaginação do ouvinte e desperte sua actividade creadora (p.43). É sugerida a criação de um mundo para o qual o ouvinte seja sempre transportado: Este processo consiste essencialmente na evocação, sob uma imagem viva de certos episódios, seja grupando-os em torno de um facto central – o que constitui um radiograma – seja evocando-o successivamente, sob uma forma mais livre, uma série de cenas que se prendam a um mesmo assunto (p.43).

Já a narrativa é especialmente recomendada à disciplina de geografia, como forma de amenizar as limitações inerentes à oralidade nas apresentações desse tipo de conteúdo proposto pelo programa: Depois das experiências feitas na Inglaterra, a radiodiffusão ao serviço da geografia pode-se resumir às narrativas de viagens (ESPINHEIRA, 1934, p.56).

Os textos regularmente iniciavam expondo dados como a extensão da área visitada, os limites do estado, o número de habitantes, as atividades econômicas...

Vamos agora conhecer o Nordeste!

É esse o nome de toda uma região, que fica entre ao Norte e Leste das terras brasileiras.

O Nordeste compreende sete estados brasileiros e ainda um pequenino território, sobre uma ilha, o de Fernando de Noronha. Os estados, a começar do Norte, são estes: Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas.

Toda a região ocupa pouco mais de um décimo da superfície do país: 972 mil quilômetro quadrados.

A sequência de textos também obedece a um padrão, que provavelmente era adotado no programa. Uma vez apresentada uma região, o desenvolvimento do assunto, em um outro texto referente a outra apresentação, começava sempre com a recordação do que tinha sido tratado na etapa anterior da viagem: Como verificamos, nas viagens anteriores, o nordeste é formado pelos Estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, compreendendo também a parte norte de Goiás e Bahia (ESPINHEIRA, 1938, p.26). Desta forma, o ouvinte poderia compreender o conteúdo da irradiado, sem ter ouvido as edições anteriores. A coluna Livro aberto às crianças também publicava resumos dos programas regularmente.

Na escrita, a ausência da imagem é superada pela descrição física e pelos sentimentos. Esta estratégia possivelmente era adotada no rádio, que por ser estruturado na oralidade, também exige este tipo de recurso:

Assim, a Teresina vive a beira de um grande rio e não tem meios de transporte. De um lado fica o rio e do outro a chapada do Corisco; é, portanto, uma cidade à prova de fogo e de água, como disse gracejando um escritor.

Está sempre alegre, com ruas bem alinhadas, suas árvores tratadas, suas casas bonitas. Nos últimos anos, a capital piauiense tem-se renovado muito. A instrução há merecido a atenção do governo. Vêjam bem: os mais belos prédios da cidade são os grupos escolares (ESPINHEIRA, 1938, p.49).

O relato seguia cheio de detalhes:

É passado este rio, estamos em praias do Maranhão, estado mais distante da região nordeste, para quem parte do Rio de Janeiro, como nós...E vamos abandonar o litoral seguindo o curso do Gurupi, o rio vem lá embaixo e que marca a fronteira entre o Maranhão e o Pará.

Vem lá a Serra do Gurupi que está próxima de nós (ESPINHEIRA, 1938, p.18).

As datas eram usadas como forma de orientação do ouvinte ao longo da irradiação. Eram apresentadas em sequência, de forma que o espectador não se perdesse nas várias informações transmitidas em um curto espaço de tempo:

A 26 de março de 1835, a Vila Real da Praia Grande foi escolhida para capital da província, passando a chamar-se Niterói. Dois dias depois foi elevada à categoria de cidade. Por ocasião da revolta da esquadra, em 1893, Niterói deixou de ser capital do Estado Rio, sendo transferida para Petrópolis, onde se estabeleceu em 20 de fevereiro de 1894. Só em 1902, por lei de 4 de agosto, voltou o governo fluminense para Niterói (ESPINHEIRA, 1938, p.101).

Outro recurso, usado pelo autor para a orientação dos ouvintes, era a publicação do mapa da região que estava sendo estudada no programa. Publicado no Jornal do Brasil, o mapa exibia detalhes da geografia dos estados, e em um plano menor, indicava a localização destes no território nacional. Ainda havia dados sobre a população e a extensão da região, assim como uma escala.

(Jornal do Brasil, 25/10/1936, p.20)

A legenda era aproveitada para divulgar e exaltar o programa: O presente mapa é segundo que esta pa os,à à efe e teà áàViage àat av sàdoàB asil ,à ueàve àse doà ealizada,à sà ui tasàeà domingos, pelo consagrado Programa Infantil da PRF4 (Jornal do Brasil, 25/10/1936, p.20). Na obra de Ariosto de Espinheira não existem personagens, apenas a sua narração. Ao analisar o narrador, Benjamin (1994) salienta a distância que este impõe a quem o ouve. Sob esse aspecto, é possível caracterizar apenas pelo ângulo imposto, que é sempre favorável a quem narra. Ao interagir com o ouvinte, não há uma simples difusão da informação:

O extraordinário e o miraculoso são narrados com a maior exatidão, mas o contexto psicológico da ação não é imposto ao leitor. Ele é livre para interpretar a história como quiser, e sem isso o episódio atinge uma amplitude que não existe na informação (p.203).

A figura do viajante, como narrador, é muito valorizada: traz informações de terras distantes. Tal aspecto também foi analisado por Benjamim (1994). Sob seu prisma, tanto aquele que detém o conhecimento das tradições do grupo, como aquele desconhecido que traz histórias de lugares diferentes, por onde passou, exercem fascínio sobre os ouvintes com a narração de suas histórias. O principal personagem é o narrador, aquele que sabe dar conselhos:

Desçamos para melhor apreciar o Atol das Rocas. Chama-se de atol uma ilha de coral.

O Atol das Rocas é um perigoso recife de coral, em forma de anel, com uma abertura que comunica o mar com a lagoa interior.

Antes da construção do farol, a ilha das Rocas era o pavor dos navegantes, pois só é visível de muito perto por baixo e por serem os navios arrastados em sua direção pela Corrente Equatorial, que é verdadeiro rio que corre dentro do mar (ESPINHEIRA, 1938, p.61).

Contrariando a alegação de muitos diretores de emissoras comerciais, segundo os quais radioeducadores não se preocupavam com a audiência, é possível identificar estratégias destinadas a assegurar um maior número de ouvintes. Uma das medidas tomadas com esse propósito consistia na realização de concursos para ouvintes, que já eram promovidos na PRD5:

Realizou-se ontem na Rádio Escola Municipal, PRD5, o julgamento das provas do concurso comemorativo do Dia da Pátria, organizado pela professora Marina de Padua (Tia Lúcia) entre os ouvintes daquela estação. Foram apresentados numerosos e interessantes trabalhos todos eles denunciando agilidade de espírito e senso artísitico. Crianças de 9 a 12 anos concorreram, esforçando-se por interpretar as lições da professora, tratando o assunto que era a independência do Brasil com bastante entusiasmo.

O concurso deste ano foi patrocinado pelo Correio da Manhã e pela Liga de Defesa Nacional. A comissão julgadora composta de D. Estália Santos Tavares, diretora da Escola Cócio Barcelos, professora Augusta de Queiroz, da Radio Escola e os Srs Carlos Cavalcanti, Ernani Fornari e Carlos Maul, examinou todos os trabalhos.

Categorias: honra, arte, esforço e aplicação, desenho e originalidade (Jornal do Brasil, 2/10/1936, p.12).

Na PRF4, Ariosto Espinheira continuou promovendo concursos: A Viagem através do Brasil é um concurso inédito entre nós! Realiza-se às quintas e domingos: haverá ótimos prêmios para os melhores trabalhos. Concorra! (Jornal do Brasil, 18/10/1936, p.22). A proposta residia no

envio de fossem resumos dos programas e desenhos, que eram publicados na coluna Livro aberto as crianças no Jornal do Brasil. Abaixo da ilustração publicada era registrado o nome do autor. Os desenhos e resumos eram uma forma do rádioeducador atestar a forma como as informações irradiadas estavam sendo recebidas. O desenho de Nilton Barrados publicado em 20/03/1937 no Jornal do Brasil, sugere que o avião estimulava a imaginação dos ouvintes. Outros espectadores fizeram a mesma opção para ilustrar as cartas enviadas ao periódico.

(Jornal do Brasil, 20/03/1937, p.12)

Os ouvintes deveriam acompanhar vários programas para ter acesso às informações que lhes permitissem participar do concurso. Outro aspecto importante consistia no fato de as respostas possibilitavam ao autor a avaliação do retorno do que estava sendo irradiado: a compreensão, os aspectos que chamavam mais atenção, que suscitavam dúvidas, ou que não eram lembrados. O oferecimento de prêmios, que variavam de brinquedos a medalhas e troféus, incentivava a audiência.