2. Variabilité dans la notion de personne raisonnable
2.2 La personne raisonnable et la Charte canadienne
2.2.2 La personne raisonnable et la justice fondamentale
O texto “Garimpeiros”244, publicado inicialmente em 21 de abril de 1903 no jornal O Estado de S. Paulo, sob o título de “Os batedores da Inconfidência”, está presente em Contrastes e Confrontos, obra em que Euclides da Cunha reúne alguns de seus mais notáveis artigos. Não é, portanto, uma obra como Os Sertões, com enredo, eixo temático e pensada em conjunto. No entanto, esses escritos são muito importantes, em especial para compreendermos
o pensamento do autor e seu ponto de vista sobre problemas políticos e sociais, do passado e do presente, relativos ao Brasil e a outros países.
Em “Garimpeiros”, Euclides da Cunha discorre acerca da situação nas minas de metais preciosos em Minas Gerais, no fim do século XVIII. Destacamos esse texto porque o autor define a localidade como “recantos sertanejos”, o que corrobora a nossa afirmação de que, para ele, o sertão não é apenas o semiárido nordestino, mas qualquer região isolada.
Euclides da Cunha descreve o vilarejo, sua geografia e os elementos frutos da ação do homem, como ruas, casas e igrejas. Em seguida, descreve os habitantes “daqueles recantos sertanejos”, que constituem uma “sociedade artificial, feita de elementos díspares transplantados de outros climas” e repelem-se “pelo contraste das posições e das raças”. São eles os “congos tatuados que mourejavam nas lavras” e os “contratadores ávidos e opulentos”. Passa-se, então, aos contrastes de suas vestimentas, cabelos, calçados e armas, que materializam as diferenças entre as camadas sociais, o contraste entre os escravos africanos maltrapilhos e os contratadores, em suas roupas luxuosas.
Na mineração legal, sujeita à cobrança abusiva de impostos, os escravos, seus contrabandistas e faiscadores pobres, estavam sempre na mira dos fiscais da Corte, cuja tarefa era fazer “justiça”, mas que, com esse argumento, excediam-se, torturando e condenando à prisão, à morte ou ao exílio.
Paralelo a isso, “estendera-se intangível, e livre, e criminosa” por toda a extensão dos rios e ribeirões “a faina revolucionária e atrevida dos garimpos”, nos quais “os garimpeiros, incorrigíveis devassadores das demarcações interditas, davam o único traço varonil que enobrece aquela quadra”. O autor caracteriza, então, a ação dos garimpeiros sobre o meio, modificando a natureza e expandindo-se, sem o conhecimento da metrópole, até então apenas preocupada em fechar as fronteiras externas e garantir o monopólio. Quando a metrópole toma ciência da expansão, o ouro já chegara, clandestinamente, ao litoral.
Armou-se, então, o exército contra os garimpeiros, que se espalhavam pelas serras. E numa explosão de tiros, “os anônimos conquistadores de uma pátria zombavam triunfalmente daqueles aparatos guerreiros, espetaculosos e inofensivos”.
O primeiro destaque do texto é a característica de narrativa de viagem. Quando se lê
“o forasteiro que no último quartel do século XVIII demandasse os povoados de Minas Gerais, ereto da noite para o dia na extensa zona do distrito Diamantino, sentia a breve trecho o mais completo contraste entre a aparência singela daqueles modestos vilarejos e as gentes que neles assistiam”245,
245 CUNHA, 1995, v. I, p. 146.
percebe-se um modo de narrar muito semelhante aos das narrativas de Saint-Hilaire. Ao falar de um local desconhecido, Euclides da Cunha emprega a figura do forasteiro, do viajante- itinerante, como em Os Sertões, uma vez que não apenas observa, como também se posiciona diante daquilo que vê.
A estrutura do texto, como em “A Nossa Vendeia”, também se assemelha à dos outros textos de Euclides da Cunha: apresenta-se o meio, seguido da caracterização do homem e, por fim, há um desfecho narrativo de cunho militar, preferência justificada pela formação do autor.
Observa-se a influência do meio, quando o autor informa que os elementos dessa sociedade foram “transplantados de outros climas”, formando nos sertões uma sociedade artificial. No entanto, o que os afasta é, primeiramente, o “contraste das posições” que ocupam e, em segundo lugar, suas raças. O meio determinante parece perder força diante das questões sociais e econômicas que se impõem: os negros trabalham sem descanso nas minas, ao passo que os brancos são os contratadores. Somente após essa exposição é que o autor diferencia suas roupas, cabelos, sapatos e armas, voltando à questão social, ao afirmar que, observando o branco e o negro, “ia-se de um salto de uma camada social a outra”, em vez de “ia-se de salto de uma raça a outra”, o que poderia ter sido dito caso o autor se apegasse mais à questão da raça.
A “simbiose da Escravidão com o Ouro” era a situação na mineração legal, pagadora de altos impostos, fiscalizada a todo tempo por funcionários da corte, que, “em busca do escravo”, seguiam as “pernas ágeis dos contrabandistas”, o “rastro dos contraventores” e “os faiscadores pobres”, cometendo contra eles abusos, “inquirindo, indagando, prendendo, intimando e, quase sempre, matando”, pois “tinham a tarefa fácil de uma justiça que por seu turno se exercitava entre extremos, monstruosa e simples”.
O local de ação, essa “terra farta, desentranhando-se nos minérios anelados, não era um lar, senão um campo de exploração predestinado a próximo abandono”, seja por ser amplamente explorada, que acarretaria em seu esgotamento, seja pelo fim da escravidão ou pela expansão do garimpo, organização que se estendia “intangível, e livre, e criminosa”, e cujos trabalhadores, “os garimpeiros, incorrigíveis devassadores das demarcações interditas, davam o único traço varonil que enobrece aquela quadra”. Euclides da Cunha aponta que esses trabalhadores, originários das minerações, eram os “únicos elementos fixos numa sociedade móvel, de imigrantes”, e que iam, assim, “capitalizando as energias despendidas naqueles assaltos ferocíssimos contra a Terra”.
Observamos um paralelo entre os garimpeiros, habitantes daqueles “recantos sertanejos” e que são, como os sertanejos nordestinos, fortes: “eles percorreram todas as escalas da escola formidável da força e da coragem”246. Durante a ação do exército, os garimpeiros são descritos como “adversários invisíveis”, tal como em Os Sertões.
Se em Os Sertões o meio natural é o eixo central que norteia o curso da obra, em “Garimpeiros” as atividades humanas parecem ser o foco. Aqui, os garimpeiros, “iam capitalizando as energias despendidas naqueles assaltos ferocíssimos contra a Terra”, e vibravam “contra a natureza recursos estupendos”.
A terra descrita é modificada pela ação humana: os garimpeiros “abriam canais”, provocavam uma “avalanche artificial” desencadeada pela inclinação do local e “desviavam os rios”. Assim, a terra está presente de forma incisiva, como em Os Sertões, porém, a ação do elemento humano é muito mais evidente. Euclides da Cunha enfoca as atividades dos garimpeiros, as relações com os contratantes, a tecnologia empregada e as modificações que operam na paisagem, ocupando as descrições dos garimpeiros e suas atividades uma porção maior do que a descrição da terra onde atuam e da batalha travada contra eles.
No entanto, quando se trava a batalha entre os garimpeiros e o exército, a terra volta ao protagonismo, tornando-se um empecilho ao avanço das tropas, como em Os Sertões. O exército arrasta “penosamente pelos desfrequentados desvios” seu armamento, “ronceando, inutilmente, pelos ermos”, sendo desafiados pelos picos perpendiculares. As descrições do episódio são bastante semelhantes às de Canudos, mas o desfecho é diferente: “os ‘desaforados escaladores da terra’, os anônimos conquistadores de uma pátria, zombavam triunfalmente daqueles aparatos guerreiros, espetaculosos e inofensivos”247.
Em “Garimpeiros”, o trabalho escravo dos sertanejos explorados pela mineração está desde o início em destaque e a questão econômica é o que desencadeia a revolta da Coroa. Observamos que o autor se preocupa com as questões econômicas que afetam o Brasil e o sertão, com o trabalho realizado pelos sertanejos e como isso se reflete em outros aspectos da vida, como nas relações entre os habitantes, na exploração da terra e em sua ocupação, nas vestimentas e os calçados e nos abusos que se cometem em nome de impostos e da obediência à Corte.
246 CUNHA, 1995, v. I, p. 146. 247 CUNHA, 1995, v. I, p. 149.