CADRE THEORIQUE DE LA RECHECHE
19. D ISCUSSIONS DES RESULTATS EN LIEN AVEC L ’H2
19.2. L A PERCEPTION DE LA COMPETENCE
“estabilidade do edifício social”. Para tanto, entedia que era preciso dispensar cuidados à decência dos templos, como condição para despertar nos sergipanos o necessário sentimento religioso291.
Um dos maiores símbolos de reação da Igreja ao controle de sua conduta de modo exógeno no Brasil foi o episódio que ficou conhecido como Questão Religiosa. Dois bispos, Dom Vital M. de Oliveira, de Olinda e Dom Macedo Costa, de Belém-PA, entraram em conflito aberto com o Império, em 1872, a ponto de serem presos e condenados dois anos depois.
Se por um lado a Igreja precisava dar conta de resolver sua relação com o Estado, por outro ela urgia dar continuidade ao processo de sua própria reforma, com a determinação de Roma. O fato é que os longos anos de intensa interferência e proeminência do Estado Português na Igreja Católica durante o Período Colonial e continuidade disso, durante o Império, em muito dificultaram qualquer tipo de estreitamento na relação de seus membros com Roma. Para Hoornaert: “Praticamente não houve comunicação entre Roma e a Igreja do Brasil” 292.
2.4. Devoções e cultos populares em Sergipe no Século XIX: São Benedito em Cena
Sílvio Romero, no início dos anos 70 do século XIX, esteve convencido de que não havia nada que merecesse nota da cultura produzida no Brasil, transcorridos mais de três séculos da conquista portuguesa em 1500. Entretanto, ao final daquela mesma década ele se rendeu ao contrário, sobretudo, no que tange ao que convencionou chamar de cultura brasileira. Assim, disse ele: “(...) Nós possuímos uma poesia popular
291 Cf. Falla com que of excell.mo sr. presidente da provincia abrio a terceira sessão ordinaria da primeira
legislativa da Assembléa Legislatura desta provincia. Sergipe, Typ. de Silveira, 1837.http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/1034/000004.html. Acessado em 18 de julho de 2013.
292
HOORNAERT, Eduardo. A Igreja no Brasil Colonial (1550-1800). 3 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 67.
especificamente brazileira, que, se não presta a borduras de sublimidades dos românticos, tem comtudo enorme interesse para a sciencia293”.
Foi com essa nova convicção que Sílvio percorreu alguns lugares do Brasil, entre eles Pernambuco, Rio de Janeiro e Sergipe (onde se demorou mais), à caça de exemplares da criatividade popular do brasileiro, que ajudaram a defini-lo enquanto povo. Ele levou, aproximadamente, quatro anos para reunir essa coleção. Nesse sentido, um dos primeiros trabalhos foi o livro Estudos sobre a Poesia Popular do Brasil, publicado em 1888 e que contempla o espaço temporal entre os anos 1879 e 1880.
Genial e genioso, Sílvio Romero, como pouquíssimos intelectuais brasileiros de sua geração e de posteriores, transitou com maestria pelos diversos ramos do saber, dedicando parte considerável de sua incalculável lavra livresca à tradição popular. Nesse sentido, nem mesmo ele escapou ao interesse por aquilo que antes era visto como exótico e selecionável. Esse interesse pela então chamada “ignorância criadora” fez dele um exímio conhecedor da alma brasileira, capaz de muni-lo de argumentos que ensejasse uma ideia de nação. Privilegiado em suas assertivas sobre a cultura popular, pode se dizer que, tomando emprestado a expressão de Gilberto Freyre, Sílvio Romero
Gigante294 esteve acima da média dos chamados folcloristas que praticavam uma pré- ciência295, pois não lhe faltou método, nem tão pouco análise, que o colocou acima de um mero catalogador de coisas do povo.
No afã de levar sua empreitada pelo Brasil, o famoso intelectual sergipano estabeleceu como critério para definir o tipo de cultura que gostaria de coligir. Para tanto, interessou-lhe, somente, a seu ver, elementos de uma cultura produzida pelo que chamou de “genuinamente nacional”, referindo-se aos descendentes do “portuguez nato”, do “negro da costa” (africanos) e do “índio selvagem”. Ou ainda, da mistura “racial” e cultural desses povos. Não interessou a ele, pelo menos naquele momento, a
293
ROMERO, Sílvio. Estudos sobre a Poesia Popular do Brasil (1879-1880). Rio de Janeiro: Laemmert, 1888.
294 FREYRE, Gilberto. O Gigante Sílvio Romero. Correio Popular. Campinas, 22 de abril de 1951. 295 Cf. ORTIZ, Renato. Românticos e Folcloristas: cultura popular. São Paulo: Ed. Olho D’Água,
influência de franceses, holandeses, alemães e italianos, por entender que naquelas circunstâncias elas ainda eram mínimas e que muitas das vezes escapavam aos olhos dos historiadores296.
O foco de sua pesquisa foi, notadamente, a zona rural, mas sem deixar de perceber suas reverberações na zona urbana. Nunca é demais lembrar que as vilas brasileiras daquela época em pouco se diferenciavam dos povoados atuais. Interessa- nos, sobretudo, perceber a contribuição dele para a compreensão do quadro religioso popular de Sergipe da segunda metade do século XIX.
Nesse sentido, dentro de uma perspectiva que pretendeu localizar e entender o catolicismo popular em Sergipe, praticado naquele período, também se levou em consideração outras três obras que, de alguma forma, se complementam, ao tempo em que se diferenciam pelos níveis de abordagem dos autores aqui em questão. Da seara de Sílvio Romero, mais duas: Cantos Populares do Brasil (1883) e Contos Populares do Brasil (1885); de Alexandre José de Melo Moraes Filho, destaque para, e Festas e tradições populares do Brasil (1895).
O contexto das obras coincide com um momento da história cultural do Brasil, onde a partir de 1870 ocorre uma intensa mobilização intelectual no sentido de engendrar uma feição brasileira, com ênfase na cultura popular. Essa busca de uma
alma nacional estava incrustada numa discussão em torno do folk-lore, expressão que
virou conceito nas mãos do arqueólogo inglês William John Thoms (1803-1885). Em artigo publicado na revista The Athenaeum, em 22 de agosto de 1846, sob o título de Folk-lore, o termo ficou consagrado como sendo “sabedoria” ou a “ciência” do povo, distinto de certo modo dos gostos e práticas culturais das elites europeias de então, que as do Brasil insistiam em imitar.
Nesse sentido, vale lembrar o que diz Renato Ortiz:
296 ROMERO, Sílvio. Estudos sobre a Poesia Popular do Brasil (1879-1880). Rio de Janeiro:
A cultura popular surge somente com o movimento romântico, cristalizando-se com os folcloristas - portanto é criação de intelectuais, com intenções variadas. Folcloristas e românticos cunham um tipo de entendimento da cultura das classes subalternas. Nos séc. XVII e XVIII vão separando de forma crescente a cultura de elite e a cultura popular – uma atitude da aristocracia que exclui, acentua diferenças entre os plebeus e os nobres, num contexto com poucas escolas, dificuldades de comunicação e transporte precário297.
O ambiente daqueles tempos logo foi tomado pelas ideias cientificistas. Avessos ao idealismo romântico prefigurado num indianismo quase místico e irreal, intelectuais, a exemplo de Sílvio Romero e Melo Moraes Filho, tornam-se adeptos de uma visão mais naturalista de temas como raça, meio e evolução298. Debruçaram-se, desse modo, a investigarem as chamadas raças que formaram o Brasil (branco, índio e negro) e os reflexos de suas práticas culturais na formação da cultura popular.
Para Sílvio Romero, em especial, foi uma espécie de amálgama daquelas três “raças” que teria gerado a cultura popular brasileira, particularmente suas canções, seus causos e sua poesia. Foi no tecido histórico que seres humanos de diversas ordens fomentaram suas crenças, seus modos, seus saberes e seus fazeres.
O portuguez lutava, vencia e escravizava; o índio defendia-se, era vencido, fugia ou ficava captivo; o africano trabalhava, trabalhava... Todos deviam cantar, porque todos tinham saudades; o portuguez de seus lares d´além mar, o índio de suas selvas, que ia perdendo, e o negro de suas palhoças que nunca mais havia de vêr299
Diferentemente de Moraes Filho, Romero foca sua produção nesse campo de análise na valorização da figura do mestiço, representante, por excelência, daquela
297
ORTIZ, Renato. Românticos e Folcloristas: cultura popular. São Paulo: Ed. Olho D’Água,1992. p. 62.
298
Cf. VENTURA, Roberto. Estilo Tropical: história cultural e polêmicas literárias no Brasil, 1870- 1914. São Paulo, Companhia das Letras, 1991.
299 ROMERO, Sílvio. Estudos sobre a Poesia Popular do Brasil (1879-1880). Rio de Janeiro:
miscelânea de práticas culturais envolvendo cada uma das raças em questão, que seria a feição do povo brasileiro e sua nacionalidade, em sua concepção.
No que se refere à religiosidade, campo de nosso interesse, denuncia os missionários e a ciência. Os primeiros, por terem sido incapazes de compreender as crenças e mitos dos africanos e dos índios, sobretudo “(...) pelo aferro fanático á sua própria religião e pelo obscurantismo de seu tempo para a questão de tal ordem300. Aos cientistas deu um recado claro, particularmente aos que não dedicaram uma linha às religiões africanas, afirmando: “(...) o negro não é só machina economica, elle é antes de tudo, e não grado sua ignorância, um objeto de sciencia301”.
Sílvio Romero
Litografia da Primeira Edição de “O Folclore Brasileiro”
300 Idem. p. 14. 301
Ibidem. p. 11.
Alexandre Melo Moraes Filho
Litografia da Primeira Edição de “Festa e Tradições Populares do Brasil (1895)
Nesse rico manancial de informações da criatividade do povo brasileiro, registrada por esses dois intelectuais, que se sobressai o imaginário católico popular sergipano, frente aos inúmeros exemplos verificados na análise das obras dos mesmos. Fruto de um jeito particular de encarar e de manifestar o sagrado em suas diversas facetas, Sergipe produziu nessa época um quadro digno de nota capaz de apontar elementos de sua religiosidade popular, sejam em festas, ritos, rituais, causos, cantos, contos, crenças, procissões e numa infinidade de celebrações do divino, do santo, da entidade, enfim, em promessas, rezas, oblações, quadras, poesia, crônicas.
Nesse universo, é possível perceber como na Província de Sergipe, no século XIX, se apresentava uma religiosidade em sua faceta popular e como isso estava inserido numa ideia de identidade social302. Ao se debruçarem sobre as inúmeras