• Aucun résultat trouvé

III. 3Démonstrations et tests 195

I.2.5 Interface de l’outil d’annotation vidéo proposé par [SKC08]

No início do povoamento, o projecto da coroa portuguesa era o de povoar o arquipélago de Cabo Verde exclusivamente com brancos, o que não chegou a concretizar-se, devido a diversos factores, entre os quais se destaca a impossibilidade de cultivo das plantas de que provinham os alimentos que os europeus estavam habituados a consumir, devido ao clima árido e seco do arquipélago. A partir do momento em que os cabo-verdianos sentiram que era vital cultivar para poderem subsistir, num arquipélago quase sem recursos naturais e um clima desfavorável, recorreram à agricultura de sequeiro. O cabo-verdiano é, segundo José Maria

Semedo, “um povo descendente de aventureiros, de escravos e de degredados, que se ligou

às terras áridas e dispersas, e a todo o custo quer cultiva-las. Em cada geração, novos desafios se põem a esta gente para garantir a sua permanência neste arquipélago flagelado pela desertificação.”498

496MARIA CLARA SARAIVA, Rituais Funerários em Cabo Verde: Permanência e inovação, op. cit., p. 131. 497 ANTÓNIO PEDRO RIBEIRO DOS SANTOS, As Metamorfoses do Estado: Rumo à Mega-Confederação Europeia?

op. cit., p. 285.

498 JOSÉ MARIA SEMEDO,Um Arquipélago Do Sahel, in JOSÉ MARIA ALMEIDA, (DIR.), Descoberta das Ilhas de

124 Em Cabo Verde existe uma época específica para a agricultura de sequeiro, que decorre normalmente num período de três meses (Agosto a Outubro). Este período é denominado de azáguas499, em que se pratica a conhecida sementeira, de nove em nove meses. De facto, diz-

nos Manuel Veiga, referindo-se ao arquipélago “o seu clima é tropical seco. Sem recursos

naturais, é extremamente carente e pobre (…) a chuva é uma raridade e quando acontece é apenas de nove em nove meses, de forma insuficiente e irregular.”500 Os cabo-verdianos

semeiam a terra na expectativa da vinda da chuva, porém, a queda desta nem sempre acompanha os ciclos de crescimento das plantas, defraudando sucessivamente os anseios de uma boa colheita. As tradições também se reportam a muitas formas e hábitos de vida em Cabo Verde, desde uma relação muito próxima entre as pessoas, um espírito solidário, que muitas vezes se manifesta em momentos comemorativos e simbólicos, tais como nos

trabalhos agrícolas. 501

Praticar a sementeira em Cabo Verde, envolve um conjunto de rituais ligados a crenças e valores incorporados no quotidiano deste povo, principalmente das pessoas do meio rural. Desde a preparação do terreno até ao período da colheita, amigos, vizinhos e familiares, numa atitude de solidariedade, juntam-se para a prática da sementeira, sendo este acto denominado

entre os cabo-verdianos de djunta môn.502

A sementeira é constituída pelas seguintes etapas: preparação do terreno; abertura das covas e lançamento dos grãos; monda e, por último, a colheita. No decorrer destas tarefas, as famílias a quem o terreno pertence, oferecem, durante o período da sementeira, o café, o almoço e o jantar, sendo este último para trabalhadores de localidades mais distantes. Mas o importante é que, numa sementeira, as duas primeiras refeições não podem faltar, o que demonstra um sentimento de solidariedade para com o próximo.

A preparação do terreno inicia-se nos finais de Junho ou início de Julho, e consiste em limpar o terreno, retirando os arbustos e cascalhos, que porventura possam dificultar o manuseamento dos materiais utilizados na prática da sementeira. Depois de o terreno estar trabalhado e limpo, passa-se à segunda etapa que se caracteriza pela abertura de covas e lançamento de grãos. Abrir a cova pode ou não acontecer antes das primeiras chuvas, mas é habitual que isto aconteça na sequência destas.

499 Nome denominado a um período de abundância de água ou de chuva constante.

500 MANUEL VEIGA, (COORD.), Cabo Verde: Insularidade e Literatura, Paris, Karthala, 1998, p. 47. 501 Entrevista a Lourenço Conceição Gomes (ver Relação das Entrevistas em anexo).

502 Acto em que as pessoas juntam-se para a prática da sementeira, já que normalmente é um trabalho muito duro

e que precisa de pessoas em quantidade para o praticar, ou seja, de forma resumida é a ajuda mútua entre as pessoas.

125

A cova, com 3 a 8 cm de profundidade é feita manualmente com uma enxada503 num

compasso de aproximadamente 70 cm. A tarefa de abrir as covas cabe normalmente aos homens, e o lançar dos grãos às mulheres. Após as covas estarem abertas, as mulheres lançam os grãos, quatro de milho e duas de cada tipo de feijão que houver disponível para a sementeira e, simultaneamente enterram-nos ficando devidamente semeados. Quando tudo está pronto, as famílias crentes rezam, pedindo a Deus protecção e bênção sobre a sementeira, pois tudo isto é feito com muita fé. Aliás, Manuel Veiga considera que, se não fosse desta

forma, o cabo-verdiano “se calhar não resistiria tanto à natureza madrasta, às agruras da

seca e da fome.”504

Para encerrar a etapa de abrir as covas e lançar os grãos, existe um ritual muito importante que marca o desfecho do ano agrícola e dos possíveis resultados a alcançar: é o período de proteger as sementes e as folhagens recém-nascidas, dos ataques dos corvos e das galinhas do mato. Este trabalho é feito principalmente pelas crianças da família que ficam, de manhã à noite, a entoar coros, fazendo barulhos para espantar os animais que se aproximam

das plantações. Para Manuel Lopes, quem faz este trabalho “geralmente é um rapazinho, com

meia dúzia de anos, levando um surrão ou sarraia com alguma batata-doce assada, camoca ou cachupa fria e uma vasilha de leite.”505 A criança responsável por esta tarefa deve ficar em

constante alerta, tocando numa lata com uma pedra, cantando e fazendo barulho, para alvoroçar estes animais.

Aproximadamente quinze a vinte dias antes de nascerem as plantas, tem lugar a terceira etapa da sementeira, que é designada por monda. Esta tarefa consiste em remover com uma enxada as ervas consideradas prejudiciais que crescem juntamente com estas plantas.

No espaço de um ano, esta tarefa pode repetir-se duas ou três vezes, até a planta do milho alcançar uma altura de aproximadamente 40 cm. Dependendo da pluviosidade e das pragas que atingem as plantas, o ano pode ou não ser considerado de boa sementeira. No entanto, qualquer que for o resultado da produção, no dia 1 de Novembro, dia de todos os santos, tem lugar um ritual de acção de graças a Deus e aos santos, que é acompanhado por uma refeição com feijão e milho, preparados de diferentes formas tradicionais.

A última etapa é a da colheita, feita quando os grãos atingem uma certa altura, a partir dos quais é possível confeccionar alguns pratos para o sustento da família. No caso de se

503 Material utiliza na abertura das covas, feita de ferro com ponta aguda, e a ponta é recta quando se utiliza na

monda, para que seja possível o seu manuseamento tanto para perfuração do terreno como para a monda é lhe colocada um cabo de madeira de pelo menos 150 cm.

504 MANUEL VEIGA, (COORD.), Cabo Verde: Insularidade e Literatura, op. cit., p. 52. 505 MANUEL LOPES, Os Flagelados do Vento Leste, São Paulo, Ática, 1979, p. 98.

126 verificar uma produção abundante, as famílias dependem exclusivamente dela para o sustento do ano todo, e mesmo os que não dependam em absoluto desta produção, recolhem os excedentes, guardando-os para os nove meses do ano em que não chove. Após recolher todos os excedentes, procede-se à poda, ou seja, ao corte das plantas, que vão servir de pasto para os animais.

127

Capítulo 5 – A Afirmação da Identidade Nacional pela Elite Cultural