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Séance : Expression orale

Texte 2 Ma grande peur

A reação inicial do governo colonial do Cabo e dos colonos em relação ao afluxo de refugiados deve ser compreendida e analisada à luz das duas necessi- dades mais prementes da colônia às vésperas do Mfecane: garantir a segurança da fronteira e obter mão de obra a baixo custo. A escassez de mão de obra, em particular, tinha forçado inúmeros fazendeiros a escolherem outras formas de trabalho e a abandonar a agricultura.

Tornou -se evidente muito rapidamente para os fazendeiros inquietos e um pouco assustados dos distritos de Graaff -Reinet e de Albany que as centenas de mantatees e de bechuana (tswana) que atravessaram o Orange não iriam sequer criar problemas de segurança. Os seus portes amáveis e quase tímidos, o fato de que a maioria dentre eles perdera todo elo e toda coesão de grupo, levaram os colonos a pensarem que os refugiados sotho e tswana poderiam se tornar “serventes dóceis e devotados”16, satisfazendo, assim, uma das necessidades mais

urgentes da colônia. Este juízo se revelou acertado já que a colônia do Cabo lucrou finalmente com os efeitos destruidores do Mfecane. De fato, o gover- nador decidiu, em 1823, que os refugiados deveriam servir como trabalhadores agrícolas para os colonos que os solicitassem, durante um período de, pelo menos, sete anos17. Os fazendeiros dos distritos de Graaff -Reinet e de Albany

aprovaram esta decisão na medida em que lhes faltava mão de obra.

As opiniões da época quanto à qualidade dos trabalhadores sotho e tswana não são unânimes. Em 1834, um naturalista e explorador sul -africano, o Dr.

16 Ver, por exemplo, as representações (e as legendas que as acompanham) dos dois supostos “Mantatees”, em G. Butler, 1974, p. 228 e também p. 181 -182.

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O impacto do Mfecane sobre a colônia do Cabo

Andrew Smith, constatou que alguns fazendeiros achavam os seus empregados “lentos” e muitos dentre eles “extremamente ávidos, até mesmo desonestos e todos muito preguiçosos”18. Por outro lado, um outro explorador, George Thompson,

observou que “a repartição de algumas centenas de refugiados mantatees nas famílias mais honradas, como domésticos e pastores” revelou -se “uma grande vantagem”19. O ponto de vista de Thompson não difere, contudo, das opiniões

e observações de Andrew Smith, segundo as quais, apesar do que diziam os fazendeiros a respeito dos seus empregados, a presença dos sotho e dos tswana na colônia era “desejável na medida em que eles [...] supriam a falta de pessoal, devido ao fato que os hotentotes tinham preferido, nos anos anteriores, outras vocações do que o serviço dos fazendeiros”20. De fato, a maioria dos khoi do

Cabo mudou -se para os centros urbanos onde vivia sob a proteção das missões cristãs a fim de evitar a humilhação de trabalhar para aqueles que lhes haviam tomado as suas terras ancestrais.

É impossível dar o número exato de refugiados tswana e sotho que encon- traram asilo na colônia do Cabo. Poderia tratar -se de várias centenas, talvez de milhares de homens. Além disso, este afluxo durou enquanto persistiram os distúrbios no interior, e só no fim de 1828, alguns refugiados tswana e sotho começaram a retornar para casa. O número dos que retornaram cresceu na metade da década de 1830, uma vez que a paz e a estabilidade estavam resta- belecidas por chefes como Moshoeshoe, o fundador da nação sotho21. Durante

os primeiros cinco anos do Mfecane, parece que outros refugiados penetraram o território da colônia. George Thompson teria estimado em mais de mil o número de refugiados tswana e sotho na colônia em 182622. Isto aconteceu três

anos após a chegada da primeira onda dos desterrados.

Qualquer que tenha sido o número destes refugiados, vários pontos são indiscutíveis. Em primeiro lugar, como já sublinhamos, os problemas dos povos de Natal, do vale do Caledon, do Orange e do Highveld foram – ironicamente – uma benção para a colônia do Cabo. Isto forneceu mão de obra barata a uma comunidade agrícola que a falta de pessoal ameaçava arruinar. A chegada desta força de trabalho deu um novo impulso na agricultura nos setores orientais da colônia. Em segundo lugar, pode -se dizer que, em Albany e Graaff -Reinet, o

18 W. F. Lye (org.), 1975, p. 21. 19 Citado em G. Butler, 1974, p. 182. 20 W. F. Lye (org.), 1975, p. 21. 21 W. F. Lye, 1969, p. 203.

período “inteiramente branco” da colonização – durante o qual os fazendeiros europeus, suas mulheres e seus filhos deviam executar as tarefas as mais “baixas” – acabou com a chegada dos trabalhadores africanos. Diz -se que esta mudança, ocorreu antes do fim da década de 182023. Contribuiu para minar um dos prin-

cípios fundamentais que tinham presidido a criação do “Anglostão” ou Albany, e segundo o qual os colonos brancos apenas podiam contar com suas próprias forças para sobreviverem. A partir deste momento, a importância da mão de obra negra no desenvolvimento econômico da colônia destacou -se nitidamente.

O terceiro ponto indiscutível relaciona -se ao afluxo dos tswana e dos sotho na colônia. Este afluxo permitiu encontrar uma mão de obra barata, o que minou um dos princípios dos colonos de Albany e de Graaff -Reinet, o da agricultura intensiva. Em parte devido aos fazendeiros que exigiam mais terras, em parte devido à disponibilidade de uma mão de obra barata, as fazendas de 40 hectares se transformaram em propriedades mais vastas por volta de 182524.

Por seu lado, os tswana e os sotho lucraram igualmente com a sua estadia temporária na colônia. De um lado, lhes foi permitido estabelecerem moradias nas terras de seus empregadores. De outro, segundo os termos do seu “aprendi- zado”, eles eram pagos em cabeças de gado e em outros produtos25. Deste modo,

muitos puderam adquirir bens pessoais que podiam levar para seu país.

A presença dos sotho e dos tswana na colônia não resolveu, contudo, a outra necessidade dos colonos. Ela não mudou em nada a natureza das relações entre estes e os seus vizinhos, os nguni do Sul. Tensões, conflitos fronteiriços, roubos de gado, e represálias: tudo continuou como o fora no passado.

Este quadro das relações entre brancos e negros na colônia deve, contudo, ser equilibrado para que o leitor não tenha a impressão de uma ausência total do intercâmbio pacífico. Apesar das disputas e escaramuças relacionadas aos direitos de caça e de pastagens, existia um desejo mútuo de promoção das relações comerciais, pois cada grupo possuía produtos que o outro não tinha. Por exemplo, os xhosa dispunham de marfim, chifres, couros, bois e borra- cha, produtos muito procurados pelos comerciantes coloniais. Por sua vez, eles tinham necessidade de cobre, contas, botões, pólvora e álcool – em particular, a aguardente –, coisas que só os comerciantes poderiam lhes fornecer. Assim, apesar das hostilidades entre africanos e colonos, existia um sistema de troca. Nenhuma forma de controle militar ou jurídico poderia acabar com ele. De

23 G. Butler, 1974, p. 181.

24 As fazendas foram aumentadas em 1825, de acordo com G. M. Theal, 1981, p. 239. 25 W. F. Lye (org.), 1975.

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fato, apesar dos embates entre brancos e negros na fronteira oriental, as trocas comerciais prosseguiram a despeito da política oficial do governo. O controle estrito exercido na fronteira pelas autoridades só incentivava a cooperação entre brancos e negros em um sistema de contrabando.

E foi por que este contrabando prosperou que o governador, sir Rufane Donkin, decidiu em 1821 regularizar as trocas entre a colônia e os xhosa26.

Tratava -se de instituir uma feira regular – até mesmo várias – à beira do Keiskamma. De início oposto a este projeto, o governador aceitou em seguida a realidade da situação e uma feira foi criada em Fort Willshire. Ela acontecia, de início, anualmente, e desenvolvendo -se rapidamente, chegou a quatro vezes ao ano, depois se tornou mensal e, em 1824, semanal27. Os comerciantes da colô-

nia e os comerciantes xhosa iam aos milhares para trocar os seus produtos. Os negociantes africanos – homens e mulheres - chegavam a Willshire de regiões tão longínquas quanto aquela situada entre o Keiskamma e o Kei28. Traziam

chifres, marfim, couros, borracha e bois e levavam contas, botões, fios de cobre, aguardente e toda uma gama de produtos europeus.

A feira de Willshire era também um local de encontro. O dia da feira era a ocasião para brancos e negros tentarem se comunicar. Ao comerciar, cada um tentava se fazer entender pelo outro falando em sua língua. Como diz Dug- more, “falava -se um cafre bizarro [...] e um inglês e um holandês não menos bizarros”29.

Todavia, o mercado de Willshire permaneceu uma fachada – talvez neces- sária. Ele não podia esconder a realidade profunda das relações entre brancos e negros. Com efeito, é preciso sublinhar que Willshire era antes de tudo um posto de defesa fronteiriço, localizado numa frente violenta onde tudo testemunhava a existência do conflito. O dia da feira era realizado em uma atmosfera militar: a multidão matizada, branca, morena e negra, era atravessada pelos uniformes vermelhos, verdes e azuis dos regimentos de linha, de fuzileiros e artilheiros, como observou Dugmore.

O comércio florescente que se estabelecera entre negros e brancos não podia fazer que os xhosas se esquecessem que as suas terras ancestrais encontravam -se no momento nas mãos dos colonos brancos. Assim, mesmo que negros e bran-

26 G. Butler, 1974, p. 197. 27 G. M. Theal, 1891, p. 237. 28 R. H. Dugmore, 1958.

29 Quando das duras negociações comerciais, os comerciantes ingleses e holandeses tentavam se expressar em xhosa, enquanto que os comerciantes xhosa tentavam se expressar nas duas línguas europeias.

cos comerciassem em Willshire sob o olhar atento das autoridades, em terras xhosa o tráfico de armas de fogo entre contrabandistas brancos e compradores xhosa era florescente. Estes últimos compravam fuzis para se preparar para o grande confronto que, segundo eles, não tardaria a acontecer. A guerra explodiu efetivamente em 1834 -1835; esta não foi a última e nem a primeira. Outros fatos lembram a realidade violenta das relações entre os xhosa e os colonos: ao mesmo tempo em que as transações comerciais se realizavam em Willshire e no país xhosa, viajantes brancos solitários e jovens pastores europeus vigiando o rebanho de seus pais foram assassinados por xhosa descontentes30.

A ameaça externa e a reação orquestrada