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Initiation à la lecture romanesque

1.1. Extraits Extrait 1 :

É evidente, então, que, até 1828, os acontecimentos do Mfecane não tinham ameaçado seriamente a estabilidade e o equilíbrio das relações entre brancos e negros do Cabo. Como já vimos, os refugiados tswana e sotho que afluíram na parte branca da colônia foram rapidamente integrados à sua vida econômica. No Nordeste, os mpondo de Faku tinham, quase por si mesmos, impedido os regimentos de Shaka de avançar além das terras mpondo.

Esta situação mudou, entretanto, em 1828. Um outro tipo de refugiado fez de repente a sua aparição nas regiões da colônia que se estendiam a Leste do Kei. Diferente dos sotho e dos tswana, estes refugiados semearam o terror entre os tembu e os xhosa de Hintsa. Eram igualmente diferentes, pois, ao contrário dos sotho e dos tswana, eles haviam mantido quase intacta a sua coesão política, sua lealdade pelos seus e suas capacidades militares. Tratava -se dos ngwane, comandados por Matiwane, um guerreiro experiente que já aterrorizara vários Estados – inclusive aquele dos sotho de Moshoeshoe.

Os ngwane, os quais naquele momento incluíam elementos hlubi, atravessa- ram o Orange vindo do Lesoto e penetraram as terras dos tembu entre janeiro e fevereiro de 1828. A sua chegada coincidiu com a dos regimentos de Shaka em terras mpondo, criando um sentimento de inquietude entre os colonos, os tembu e os xhosa. Deste modo, toda a zona desde os distritos orientais até o Umzimvubu no Nordeste estava cheia de rumores relativos ao “Fetcane”

30 Por exemplo, os filhos de Garbett e Sloman, as vítimas de Clay Pitt, o partido irlandês etc. encontravam- -se entre as vítimas da cólera xhosa.

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ou “Mfecane”31, como se chamavam os regimentos zulus32. Os regimentos de

Shaka em terras mpondo tentaram avançar mais ao Sul para abrir a via para o Cabo. Shaka queria, realmente, estabelecer relações diplomáticas com a colônia. Embora estivessem decididos a combater todos os Estados nguni do Sul que se encontrassem em seu caminho, os zulus receberam a ordem muito estrita de evitarem confrontos com os ingleses.

Voltemos aos ngwane. Desde que penetraram em terras tembu, encontraram- -se face a face com uma coluna avançada das forças da colônia que acreditou que estes fossem zulus. Seguiram -se escaramuças, cujas consequências eram incertas. Os colonos se prepararam para uma batalha maior e mais decisiva. O governador Somerset, Hintsa, o chefe dos gcaleka, e Vusani, o chefe tembu, cooperaram para este fim. Uma força composta por tropas britânicas, colonos, regimentos xhosa e tembu foi colocada em prontidão para a batalha final que aconteceu em Mbolompo. Os ngwane foram completamente derrotados e mui- tos dentre eles foram mortos. Alguns dos sobreviventes se juntaram aos tembu e aos xhosa, aumentando a população mfengu nesta zona. Outros recuaram em direção ao Lesoto com Matiwane e Moshoeshoe permitiu -lhes se estabelecerem. Entretanto, a saudade do país empurrou Matiwane e seus partidários de volta a Natal. É lá que foi morto por Dingane que havia sucedido a Shaka como chefe dos zulus.

A derrota decisiva dos ngwane em Mbolompo conduziu à eliminação de um dos agentes mais poderosos e mais destruidores do Mfecane. Assim, após Mbolompo, a colônia e as regiões tembu e xhosa não sofreram mais ameaças externas sérias. Esta ação orquestrada contra os ngwane de Matiwane significou a formação de uma aliança temporária entre os ingleses, os xhosa e os tembu. Isto exigira, naturalmente, a suspensão das hostilidades entre britânicos e os xhosa.

Mas, enquanto a ação orquestrada dos xhosa e dos tembu pode ser explicada, o engajamento britânico não é tão fácil de compreender. Quais considerações os nor- tearam? O território inglês não corria o risco de ser invadido pelos ngwane. Além disso, mesmo se eles ainda tivessem a impressão de que os invasores das terras tembu fossem os zulus de Shaka, este último nunca dera o menor motivo para se acreditar numa invasão de sua parte. Temeriam eles, talvez, que os distúrbios contínuos em terras tembu chegassem à região xhosa, forçando -os a fugir em direção Oeste para

31 Ver nota 15 neste capítulo.

32 Os rumores relativos à presença dos zulus não eram desprovidos de fundamento, já que um regimento zulu avançava em direção ao Sul através das terras mpondo.

o distrito oriental, semeando deste modo a inquietude entre os fazendeiros? Ou, como já foi sugerido por outros, seria o engajamento britânico calculado e motivado por considerações diplomáticas, muito mais do que pela crença de uma invasão? Tal ponto de vista significaria que o governo e os círculos da colônia pensavam que a ajuda militar fornecida aos xhosa e ao tembus faria com que os primeiros se esquecessem do fato de que as suas terras ancestrais estavam nas mãos de europeus e contribuiria, assim, a desenvolver relações pacíficas entre brancos e negros.

Quaisquer que tenham sido as razões do engajamento britânico na campa- nha “Fetcane” de 1828, um ponto importante deve ser mencionado. O combate a Matiwane forneceu um exemplo de um caso onde brancos e negros enterraram o machado da guerra para enfrentarem um inimigo comum. Podemos somente con- cluir que, a despeito da tensão e dos conflitos abertos que caracterizavam as relações entre xhosa e colonos, reinava no Cabo uma certa estabilidade, um certo equilíbrio; brancos e negros se sentiram ameaçados em 1828 e se esforçaram em defender -se.

Os Mfengu

Um dos resultados mais importantes e mais duráveis do Mfecane foi o apa- recimento de novas unidades sociais, de novos Estados políticos, quando as vítimas dispersas e desalojadas pelos distúrbios se reagruparam, com frequência em novas regiões e em meios diferentes. Na maioria dos casos, os novos grupos eram constituídos de elementos diversos que, graças às qualidades de liderança de alguns indivíduos, foram reagrupados no seio de entidades políticas iden- tificáveis. Os swazi, os gaza e os ndebele são bons exemplos de tais entidades. Inúmeros sobreviventes das guerras juntaram -se a estes chefes para reforçar os quadros destes novos Estados ou foram absorvidos pelos grupos políticos já exis- tentes. Eis como Moshoeshoe, por exemplo, edificou uma grande nação sotho. Ainda mais numerosos foram os refugiados que restaram sem chefes, errantes e miseráveis; às vezes recebidos por alguns dirigentes, nunca foram totalmente assimilados pelas comunidades que os acolhiam33. Este foi o caso de vários

elementos originários de Natal que penetraram na região nguni do Cabo. Eles chegavam em grupos mais ou menos grandes ou, às vezes, isoladamente. Alguns vinham do Norte das terras nguni, outros da região do vale do Caledon. Como eram famintos e miseráveis, viviam da mendicância, ukufenguza, expressão da

33 Ver o testemunho ocular de um dos participantes, Bertram Bowker (1810 -1907), em G. Butler, 1974, p. 252 -254. E também R. H. Dugmore, 1958, p. 44; J. D. Omer -Cooper, 1966, p. 92.

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qual deriva aquela de amamfengu (Fingo). Parece que este nome lhes foi dado pelos seus anfitriões tembu, xhosa e mpondo. É, deste modo, aplicado coleti- vamente aos refugiados ou aos emigrantes da porção setentrional do território nguni e, essencialmente, mas não exclusivamente, aos hlubi, bhele, ngwane e zizi, aos quais deu -se asilo na região do Cabo após terem sido deslocados e dispersos pelo Mfecane34. Estes fugitivos começaram a refluir em direção ao Cabo quase

no início das guerras que se desenrolaram na porção setentrional do território nguni; o seu número não parou de crescer entre 1822 e 1828. A derrota dos ngwane de Matiwane, em 1828, forçou um grande número de sobreviventes a se juntarem à população mfengu da região nguni do Cabo.

A reação dos chefes tembu, xhosa e mpondo às solicitações dos refugiados foi positiva. Eles os receberam como pessoas, humanamente, e os proveram de terras, alimentos e gado. De acordo com o costume, os chefes que os recebiam conservavam a propriedade do gado, mas os mfengu podiam consumir o leite das vacas e utilizar os animais para as suas tarefas domésticas.

Como a maioria dos mfengu era muito trabalhadora, muitos puderam se estabelecer rapidamente e até mesmo adquirir bens. Eles produziam alimentos suficientes para a sua subsistência e até excedentes para o mercado. Os mfengu eram, entre outros, especializados na lavoura do tabaco, o qual trocavam por gado. Participaram também no comércio da fronteira com os colonos e se mos- traram excelentes negociantes35.

Se, de uma maneira geral, os mfengu que viviam em terras tembu e mpondo pareciam estar felizes e serem, em grande medida, integrados às comunidades que os acolhiam, os mfengu da região xhosa continuaram a sentirem -se exclu- ídos. É por isso que não puderam se integrar à comunidade xhosa. É verdade que aprenderam rapidamente a falar – ainda que com um sotaque – a língua dos seus anfitriões, mas, como continuavam a serem considerados, tanto por eles mesmos como pelos xhosa, um grupo separado e dominado, nenhuma integração total foi possível.

Esta falha provocou relações hostis entre as duas comunidades e contribuiu para tencionar as relações dos ingleses e dos xhosa, já difíceis. Como já disse- mos, no início, as relações dos xhosa e dos mfengu eram calorosas – o que teria permitido a integração destes últimos. Entretanto, começaram a se degradar e os mfengu se puseram a buscar outras soluções e uma situação mais favorável. O

34 Esta definição não inclui geralmente os imigrantes voluntários de Natal que se instalaram no território dos nguni do Cabo após o Mfecane. Ver também J. J. Van Warmelo, 1935, p. 65.

que provocou tal degradação? Não se sabe exatamente, mas é claro que a falha no processo de integração foi explorada por forças externas que buscaram exacerbar e perpetuar todas as diferenças culturais, políticas e econômicas existentes entre os dois povos. Os fatores externos mais importantes da divisão foram a Wesleyan

Methodist Missionary Society (Sociedade Missionária Metodista Wesleyana), os

colonos brancos e o governo da colônia do Cabo.

A Wesleyan Methodist Missionary Society trabalhava entre os xhosa de Gcaleka desde julho de 1827, quando Hintsa permitiu que William Shaw instalasse uma missão nesta zona. Após as negociações, uma missão foi estabelecida em But- terworth, perto da capital de Hintsa, por W. J. Shrewsbury. Ainda que a presença da missão não entusiasmasse Hintsa, este a protegeu e ajudou Shrewsbury e sua esposa. Ele autorizou também os mfengu a assistirem os serviços religiosos36.

O aparecimento dos missionários wesleyanos nesta época interferiria com o processo de assimilação e de integração dos mfengu em terras xhosa. As atitudes de vários missionários com relação às reclamações dos mfengu – reais ou imaginárias – se revelaram cruciais. Os mfengu sentiam -se excluídos, poli- ticamente oprimidos e economicamente explorados pelos seus anfitriões xhosa. É esta relação “chefe/súdito” entre os xhosa e os mfengu que foi transformada abusivamente em relação “senhor/escravo” por John Ayliff, o sucessor de Shrews- bury e, mais tarde, retomada pelos funcionários do governo do Cabo. O mito da escravidão – ligado àquele no qual o Mfecane tinha completamente aniquilado o poder militar dos mfengu – teve, segundo R. A. Moyer37, alguns efeitos sobre

as relações entre os dois grupos. Primeiro, apresentavam -se os mfengu como seres dignos de piedade que mereciam a simpatia do governo do Cabo, dos missionários e dos filantropos. Em seguida, na medida em que se exagerava a impotência militar dos mfengu e o fato de os xhosa os “oprimirem”, os dois mitos levaram os missionários e as autoridades do Cabo a pensar que eles eram obrigados a defender os direitos dos mfengu e de “livrá -los” da “tutela” xhosa. Enfim, os dois mitos parecem ter sido rapidamente assimilados pelos próprios mfengu que continuaram a se sentir muito diferentes dos xhosa. É a razão pela qual começaram a ver os missionários, os colonos e o governo do Cabo como libertadores e tiveram a tendência de identificar os seus próprios interesses, aspi- rações, esperanças, temores e ansiedades com aqueles destes grupos externos.

As forças externas, das quais falamos, tinham boas razões para incentivar o desenvolvimento destes mitos. Quanto mais os mfengu se consideravam opri-

36 Ibidem, p. 20. 37 R. A. Moyer, 1974.

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midos e explorados, mais eles dependiam dos missionários para a defesa da sua causa. Esperava -se que, em recompensa pela ajuda destes últimos, fossem mais receptivos aos ensinamentos cristãos. Quanto mais os mfengu se consideravam explorados economicamente pelos xhosa, mais fácil era recrutá -los como mão de obra agrícola barata.

Mais grave ainda: considerando -se diferentes dos xhosa e identificando seus temores e seus interesses com os dos colonos britânicos, os mfengu foram levados a se distanciarem dos xhosa e se juntarem à colônia na primeira oportunidade. Esta oportunidade foi finalmente fornecida pela sexta guerra fronteiriça (1834- -1835), quando os mfengu tiveram que decidir sobre a posição a ser adotada numa guerra que, para começar, eles consideravam como um conflito entre os ingleses e os xhosa. Na ocasião de uma reunião realizada logo após o início das hostilidades, eles decidiram, de um lado, que nenhum mfengu participaria da invasão da colônia e, de outro lado, que na medida do possível eles defenderiam e protegeriam os missionários e os comerciantes. Por fim, eles tiveram o papel de mensageiros britânicos ao encaminhar as mensagens que John Ayliff dirigia ao comandante do exército inglês para o manter informado dos movimentos e das intenções das forças xhosa.

De fato, do início da guerra em dezembro de 1834, até maio, de 1835 – quando deixaram as terras xhosa e foram se instalar nos territórios controlados pelos britânicos –, os mfengu realizaram uma tarefa de espionagem considerá- vel. Não somente encaminharam as mensagens de Ayliff e do comandante do exército, como também informaram o primeiro das atividades dos xhosa Gaika e Gcaleka. Ayliff, em Butterworth, transmitia estas informações ao juiz -comissário civil de Grahamstown. Os mensageiros mfengu percorriam regularmente os 250 kilometros que separavam Grahamstown do território xhosa38. Ainda que

a maioria destas missões de ligação fosse realizada à noite, Hintsa, o chefe dos Gcalekas, as descobriu muito rapidamente e decidiu acabar com esta traição.

Durante as semanas que se seguiram ao início das hostilidades, inúmeros centros brancos isolados foram destruídos pelos xhosa que mataram, igualmente, fazendeiros e comerciantes. O governador, Benjamin D’Urban, teve que ir até a zona de conflito para organizar a defesa da colônia. Foi, então, ao acampar perto de Butterworth que Ayliff e seus protegidos mfengu lhe solicitaram que fossem declarados como “súditos britânicos” para os “livrar” da “tutela” xhosa. Esta solici- tação recebeu uma resposta positiva em 3 de maio de 1835 e os mfengu – 16.000

homens, mulheres e crianças, com as suas 15.000 cabeças de gado e milhares de cabras, tudo pertencendo aos chefes xhosa – deixaram as terras xhosa escoltados por tropas britânicas39. O trajeto começou em 9 de maio e colocou efetivamente

um fim ao processo de assimilação e de integração que tinha se desenvolvido após a chegada dos mfengu no território xhosa. A viagem terminou em 14 de maio, quando o último homem e o último animal atravessaram o Keiskamma e tocaram a “terra prometida”, o distrito de Peddie, que o governador D’Urban havia reser- vado aos mfengu. Após a entrega oficial das terras aos oito chefes mfengu, cada homem teve que jurar ser fiel a Deus e leal ao rei da Inglaterra; que cooperaria com os missionários enviando -lhes seus filhos. Os mfengu não deveriam esquecer a “tutela” da qual o governo do Cabo e os missionários os haviam “livrado”.

A evacuação dos mfengu da região xhosa se deu em meio à sexta guerra fron- teiriça e, como já sublinhamos, ela se fez sob algumas condições. Por exemplo, os mfengu deveriam ajudar os ingleses contra os xhosa – o que fizeram ime- diatamente após a sua chegada em seu novo território. Quase 500 mfengu se juntaram ao exército britânico e contribuíram muito amplamente para expulsar os xhosa do vale do Búfalo. Eles se encarregaram igualmente de vigiar todas as passagens que levavam à colônia e de recuperar o gado roubado pelos xhosa.

Uma outra condição de sua “libertação” foi que fornecessem a mão de obra barata para a colônia: ideia muito bem acolhida no Cabo, tendo em vista que nesta época inúmeros tswana e sotho retornavam para casa após terem con- cluído seu “aprendizado” – e por que a paz regressava às suas próprias terras40.

No tocante a cooperação com os missionários, os mfengu desejavam que estes educassem os seus filhos e vários adultos assistiam aos serviços religiosos.

Sobretudo, a evacuação dos mfengu foi calculada de modo a enfraquecer os xhosa quando dos futuros conflitos com os brancos. A região onde os mfengu foram instalados tinha sido escolhida por que ela constituía uma zona tampão entre os xhosa e a colônia britânica.

Conclusão

O Mfecane trouxe mudanças militares, políticas, sociais, econômicas e até mesmo, culturais entre os povos de diversas partes da África que ele afetou. A amplidão de sua influência dependia muito de fatores como, por exemplo, a

39 Ibid., p. 28 -29.

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natureza dos agentes do movimento e seus objetivos, bem como de fatores locais, tais como as condições militares, políticas e sociais.

Como já vimos, três tipos de agentes do Mfecane penetraram na zona defi- nida como a colônia do Cabo. Trata -se, primeiramente, dos refugiados mise- ráveis e esfomeados – sotho, tswana e nguni do Norte – que vinha procurar alimento, ajuda e proteção. A maioria dos tswana e dos sotho foi empregada pelos fazendeiros europeus; quanto aos nguni do Norte, os quais vinham de Natal, foram acolhidos pelos chefes xhosa, tembu e mpondo. Houve em seguida os regimentos zulus de Shaka, que invadiram o território mpondo, mas não puderam ir além devido à resistência mpondo. Enfim, havia povos tão fortes e destruidores quanto os zulus, como os tembu setentrionais de Ngoza e os ngwane de Matiwane. Os tembu de Ngoza penetraram as terras mpondo em 1822 -1823, mas, como os zulus que os seguiram, eles não ultrapassaram o Umzi- mkulu devido à resistência mpondo.

As únicas forças realmente perigosas que parecem ter avançado mais ao Sul foram os ngwane de Matiwane, os quais provocaram uma grande inquietação na região situada entre o Umzimvubu e o Gamtoos quando invadiram as terras tembu a partir do Lesoto. Por serem confundidos com os zulus de Shaka e porque pareciam ameaçar a estabilidade e o equilíbrio da colônia – apesar dos embates fronteiriços entre xhosa e europeus –, eles foram combatidos por uma força conjunta inglesa, xhosa e tembu. O impacto militar da invasão ngwane foi, de todos os modos, muito limitado, já que tal invasão foi rápida e eficaz- mente impedida por esta força conjunta. Quanto à aliança entre ingleses, xhosa e tembu, destinada a defender interesses comuns contra uma ameaça externa, foi igualmente muito breve já que acabou com o desaparecimento da ameaça ngwane.

Parece, entretanto, que a influência econômica, social e cultural do Mfecane fora maior e mais duradoura do que suas consequências militares ou políticas. Isto é ainda mais interessante porque os grupos que exerceram mais impacto nestes campos foram os mais fracos: os grupos de miseráveis e mendigos for- mados pelos tswana, sotho e mfengu, os quais eram militarmente inofensivos. Como já visto, é graças à chegada dos refugiados tswana e sotho, em 1823, que as comunidades agrícolas de Graaff -Reinet e Albany escaparam da catástrofe provocada pela carência de mão de obra barata. A presença desta força de tra- balho minou igualmente os princípios nos quais a agricultura colonial havia sido originalmente baseada: a autossubsistência e a lavoura intensiva. A chegada dos mfengu no distrito de Peddie, em 1835, iria assegurar aos fazendeiros uma fonte inesgotável de mão de obra barata.

Devido à sua origem – as terras nguni do Norte – e do mesmo modo pelo seu número, os mfengu constituíam potencialmente uma força política, social e cultural. Mas a sua influência política sobre os seus anfitriões nguni foi enfra- quecida pela sua partida, em 1835, da região xhosa. Como súditos britânicos, eles participaram das guerras que os ingleses travavam contras os xhosa. Todos