A ideia para esta tese remonta à dissertação de mestrado da investigadora. Embora a dissertação tenha correspondido a um trabalho de menor amplitude (e noutro nível de ensino), evidenciou as dificuldades que os jovens têm na gestão da informação acessível na Internet (localização, seleção e análise) para a sua aprendizagem, bem como a dificuldade em interagir e comunicar online em torno de tópicos científicos (Monteiro, 2007). Os jovens não estão familiarizados com este tipo de abordagens. Na generalidade, são pouco fluentes no uso de recursos digitais para comunicar, apesar de demonstrarem apetência para tal.
A presente investigação surgiu da vontade de compreender até que ponto abordagens centradas na interação e comunicação online entre estudantes, entre estes e professores ou outros especialistas, no domínio da Física e da Química, num contexto mais amplo e
3 Uma questão de participar na perseguição de empreendimentos valorizados pessoalmente, isto é, de envolvimento ativo no mundo (Wenger, 1998).
autêntico de uma comunidade de aprendizagem online (sem os constrangimentos inerentes à educação formal, tais como avaliação, obrigatoriedade, limites de tempo e espaço e currículo predefinido) poderia apoiar os jovens na sua vida escolar, melhorar a sua performance académica e aumentar as suas literacias científica e digital.
A pertinência de investigar sobre a dinâmica deste tipo de comunidades e a sua repercussão na vida escolar e na educação dos jovens encontra também suporte em relatórios internacionais e nacionais.
A nível internacional, o relatório do Departamento de Educação dos Estados Unidos da América, de janeiro de 2012, alerta para a importância de termos informação acerca da aprendizagem online, na educação básica e secundária, e do seu potencial impacto na produtividade educacional. Para tal, o documento suporta-se, sobretudo, numa análise em termos de custo-eficácia. Nas suas conclusões é identificada a necessidade de transformar e “redesign core educational processes. The purpose of the transformation is to sharpen focus on the needs and interests of students as individuals” (U.S. Department of Education, 2012, p. 34) e apontada a necessidade de investigação adicional em termos de como a aprendizagem online pode ser integrada, de forma benéfica e produtiva, nas escolas secundárias:
The complexity of implementations and the relative novelty of online learning generally, and particularly with children, calls for additional research designed to identify the conditions and practices in which online learning can be used effectively in secondary schools. Such research would help inform which combinations of technological affordances, subject domains, roles of adults and instructional and assessment approaches work best for particular types of students. (U.S. Department of Education, 2012, p. 35)
A nível nacional, estudos de âmbito vasto dão conta da escassez de utilização de recursos “potencialmente educativos” (GEPE, 2009, p. 101), tais como as comunidades de aprendizagem e, consequentemente, da falta de conhecimento sobre a forma como estas operam, se desenvolvem e sustentam: quais as suas possibilidades educativas, o seu papel na educação dos jovens, na formação e trabalho dos professores.
Em contexto educativo formal, nas nossas escolas domina a utilização de plataformas de gestão de aprendizagem, em particular da Moodle (98.1%), segundo o estudo “Utilização de Plataformas de Gestão de Aprendizagem em Contexto Escolar- Estudo Nacional”, realizado por Pedro, Soares, Matos e Santos (2008). O mesmo estudo identifica a recente utilização destes espaços em contexto escolar como temporalmente limitada (pouco mais de um ano), sendo que a familiarização e aquisição de hábitos e rotinas de utilização requer, segundo estudos internacionais, citados no mesmo documento, dois a cinco anos.
O estudo do GEPE (2009) menciona como salutar e enriquecedora a criação de diferentes espaços virtuais para corresponder a diferentes necessidades e objetivos pedagógicos. Alertando contudo para o perigo da dispersão de esforços e desorientação em termos daquilo que pode ser a integração das tecnologias na realidade escolar e o desenvolvimento de novos hábitos de comunicação, de organização de trabalho, de partilha e de colaboração. A este propósito, questionamo-nos se esta tendência para a gestão dos espaços de aprendizagem e tendência para controlar todo o processo não será uma herança histórica e cultural à qual, quer professores, quer alunos, tendem a escapar ao organizarem-se, espontaneamente, em espaço mais informais e alargados, dispersos em termos geográficos, por exemplo, em grupos no Facebook ou comunidades centradas num ou noutro domínio de interesse e atuação.
Mais, o mesmo estudo também dá conta que:
As plataformas das escolas são, sobretudo, utilizadas como meio de disponibilização da informação, sendo mais escassa a sua utilização para o desenvolvimento de atividades de colaboração/ interação entre os utilizadores. Na verdade, esta dimensão revelou sempre os valores mais reduzidos em todas as áreas de trabalho escolar apreciadas. (GEPE, 2009, p. 38)
O que denuncia, para além da já mencionada falta de familiaridade com este tipo de interação, a dificuldade em vislumbrar as novas potencialidades educativas inerentes a estas plataformas. O estudante usufrui na maior parte das vezes da distribuição eletrónica de documentos, informação complementar sobre determinados tópicos e pouco mais. O mesmo estudo alerta para a necessidade de investigar sobre a utilização de plataformas de gestão de aprendizagem e de outros espaços virtuais de aprendizagem e sobre os efeitos das mesmas em contexto escolar. Falta, pois, investigação e conhecimento sobre a implementação, dinamização e funcionamento de ambientes online, tais como comunidades com propósitos educativos, quer no contexto nacional, quer internacional. O nosso estudo é pertinente, justamente, por pretender responder a este desafio. Não nos focamos na utilização de Learning Manegement Systems (LMS). Antes num espaço mais aberto, na fronteira comunidade/rede social, formal/informal, tal como sugere o relatório GEPE (2009), procurando desvendar as práticas desenvolvidas por alunos e professores nestes ambientes digitais de aprendizagem, quer a nível macroanalítico (funcionamento da comunidade), quer a nível micro (daquilo que são as motivações e contradições dos sujeitos que ai operam). Esta investigação pretende dar um contributo importante em termos do conhecimento que temos acerca deste tipo de contextos virtuais, como são percecionados e utilizados pelos seus membros, quais as experiências de aprendizagem que se perspetivam e com que graus de sucesso, entre outros fatores em jogo.