Com a introdução das tecnologias na nossa vida e em particular na escola, apareceram e continuam a aparecer novas formas de trabalho e educação que seriam impossíveis sem computadores. Emerge uma tremenda variedade de interações e potenciais ligações a pessoas, atividades e recursos de referência. Simultaneamente, surgem novos tipos de atividades rotineiras e estereotipadas (Tikhomirov, 1999 citado por Engeström 1999, p. 355).
Neste contexto dual emerge um novo campo de estudo que visa desenvolver uma moldura de trabalho integrada que incorpore os seres humanos e a tecnologia do computador, o campo da Interação humano-computador - human-computer interaction (doravente, HCI) - que explica o contexto mais vasto da interação humana com os computadores e como é que a atividade humana muda quando se delegam na máquina certas funções humanas. O desenvolvimento dos seres humanos e dos computadores só pode ser compreendido num contexto mais vasto, em que estes surgem como mediadores para o desenvolvimento social e cognitivo do sujeito e como facilitadoras da interação entre os atores.
Activity theory considers computers as a special kind of tool mediating human interaction with the world. Meaningful, goal-directed activities constitute the context for both mental processes and external actions. Human beings usually use computers not because they want to interact with them but because they want to reach their goals beyond the situation of the ``dialogue'' with the computer. (Kaptelinin, 1996, p. 25)
Da citação anterior fica obvio que a teoria da atividade não atribui um estatuto igual a seres humanos e computadores. Estes são ferramentas que as pessoas usam para atingir objetivos importantes para elas, muito para além da situação de interação Homem- computador. A tecnologia é usada como meio intermédio para alcançar objetivos que apenas remotamente estão ligados ao uso da tecnologia. A tecnologia, em particular o uso de computadores e muitas vezes da Internet, está embebida numa sequência de interações com outros objetos e pessoas. O computador constitui-se desta perspetiva como ferramenta externa (pelo menos numa fase inicial de domínio do seu uso) que suporta e complementa as capacidades naturais humanas, para construir e desenvolver sistemas mais eficientes que conduzam a conquistas, realizações mais ambiciosas. Katptelinin (1996) ilustra esta ideia como se segue
For example, scissors elevate the human hand to an efficient cutting organ, eyeglasses improve human vision, and notebooks enhance memory. The external tools integrated into functional organs are experienced as a property of the individual, while the same things not integrated into the structure of a functional organ (for example, during the early phases of learning how to use the tool) are conceived of as belonging to the outer world. (p. 25)
Deste ponto de vista, as ferramentas não só mudam a tarefa, como também capacitam o individuo, mesmo que a ferramenta externa já não seja usada. Isto porque a atividade mediada pela ferramenta está tão internalizada que esta se tornou transparente. Este processo de assimilação das tecnologias (no caso, o computador) é um processo contínuo. Não só porque o próprio progresso tecnológico coloca novos desafios e exigências ao utilizador em termos de sistemas operativos, tecnologias que usa e funcionalidades de que dispõe, mas também porque as necessidades dos utilizadores evoluem e mudam com o
uso da tecnologia e das atividades que através dela desenvolvem, podendo resultar em novos objetivos a satisfazer. Esta perspetiva situa a teoria da atividade num quadro teórico em que os individuos não são apenas parte subordinadas do sistema de atividade, mas antes criadores do contexto da atividade. Porém, isso implica e requer uma condição essencial, a vontade do sujeito se envolver ativamente e se implicar de um ponto de vista total – cognitivo, social, pessoal e emocional. O sujeito como criador de contextos de uso das tecnologias, definidos pelas condições sociais e organizacionais do seu uso e pelas características da atividade humana. Ora isto traduz-se, ao nível do design de sistemas virtuais, na noção importante de que desenhar o sistema apenas do ponto de vista tecnológico e operacional é insuficiente para assegurar e sustentar a atividade: “designing the technical “core system” alone is insufficient, and that in order to design and implement a successful IS some kind of “context” has to be taken into account – a context that includes people and their relations.” (Kuutti, 1999, p. 360)
A interação no sistema de atividade deverá ser diferenciada consoante o nível a que se situam as mudanças necessárias. Se as mudanças necessárias se localizam ao nível das operações, então os problemas associados requerem apenas uma intervenção técnica (recursos necessários, tempo para automatizar certas rotinas, etc.). Se, no entanto, com a evolução do sistema os objetivos deixaram de ser significativos, é necessária uma análise cuidada ao nível das motivações que impulsionam o sujeito (individual ou coletivo), bem como conduzir modos alternativos de gerar esse motivo, nas circunstâncias atuais. (Kaptelinin, 1996). Esta dificuldade em abraçar os objetivos de um dado sistema de atividade condiciona a atividade nesse sistema e cria contradições internas e tensões no sistema. Em termos educativos, Lim e Chai (2008) dão conta desta realidade ao salientarem a estreita relação entre os motivos do sujeito e as características da atividade mediada pela tecnologia em certos contextos letivos:
For example, teachers under the pressure of producing good grades among students may conduct more remedial lessons and drill-and-practice classes; practices that they believe would produce good results in examinations. For these teachers, the most salient affordance of computer is the automated marking capability embedded in computer-assisted instruction or instructional games. Technology is then used to mediate the transmission and stimulus-response models of instruction to meet the objetives of the school system. (p. 6)
E mesmo que os professores estejam cientes das affordances da tecnologia, as que não se enquadrarem no sistema de ensino dominante dificilmente serão tidas em conta. As contradições podem ainda ser sentidas a nível técnico (falta de suporte técnico, a falta de tempo), estrutural (horários letivos inflexíveis, a falta de formação profissional) e cultural
(perceções dos professores quanto ao ensino e às tecnologias) no contexto sociocultural das escolas.
Por um lado, o objeto (instrução eficaz, por exemplo) molda o uso das ferramentas no sistema, isto é, o modo como o sujeito se apropria das affordances tecnológicas para atuar sobre o objeto do sistema e alcançar os seus objetivos. Por outro, a escolha das ferramentas através das quais o sujeito interage está relacionada e depende do objeto do sujeito no sistema. Isto implica que o professor examine o valor e o papel que a tecnologia tem no seu contexto de trabalho, constrangimentos e incertezas inerentes, no contexto letivo. Será necessário o uso das novas tecnologias? Que tecnologias? Com que benefícios? Que novas práticas? Com que resultados?