Para a construção da pesquisa empírica foram feitas entrevistas com leitoras mulheres, pelo fato de os manuais se dirigirem principalmente para esse público e também por considerar que é possível abordar, em tal contexto, questões relacionadas a gênero, inclusive priorizando um grupo de mulheres. Além da afirmação de Connell (2009) de que gênero é uma relação não necessariamente ocorrida entre homens e mulheres, há uma passagem de Illouz (2012, p. 239) bastante pertinente para justificar a opção de trabalhar aqui com o público de mulheres: há um contexto em que as mulheres são alvo de toda uma indústria de aconselhamento, que concentra as causas do sofrimento amoroso em elementos da psique feminina e reforça um sentimento de culpa nas mulheres pelos insucessos afetivos. Interessa, nesse sentido, observar as experiências das mulheres em tal contexto. Não se desconsidera que também é relevante um olhar analítico sobre como se constituem as experiências masculinas, mas essa tarefa seria objeto de um outro estudo. É possível afirmar que as entrevistas proporcionaram não somente as informações necessárias para articular o conjunto de questões que dizem respeito ao tema, mas foi preciso priorizar alguns eixos de análise, considerando o volume de informações obtidos das entrevistas.
Para selecionar as entrevistadas, o primeiro critério foi de que tivessem lido pelo menos um dentre os quatro manuais analisados na pesquisa. A partir de então, foram utilizados os seguintes meios para se chegar ao público leitor: a) busca em redes sociais nas quais as leitoras partilhavam suas experiências de leitura (esse foi um meio que permitiu diversificar as regiões geográficas das entrevistadas); b) emissão de uma carta convite, que circulou via e-mail, descrevendo a pesquisa e convidando possíveis leitoras (a divulgação da carta foi auxiliada por uma rede de contatos da pesquisadora, de modo que algumas leitoras se propuseram a participar da pesquisa após terem acesso à carta); c) solicitação de indicações de outras leitoras para as entrevistadas. No total, foram realizadas 23 entrevistas.
Em todas as tentativas de convidar as entrevistadas, era feita uma breve exposição sobre a pesquisa, incluída de uma explanação de como seria a entrevista, bem como foi assumido o compromisso da utilização de codinomes, preservando as identidades delas. As
46 entrevistas foram realizadas pessoalmente ou via conferência de vídeo na internet. A princípio, era preferível que todas as entrevistas fossem presenciais. Porém, para equacionar a demanda do tempo, considerando que algumas entrevistadas tinham menos disponibilidade de horários, as interlocuções por videoconferência se tornaram uma opção viável.
Estabeleceu-se um limite de tentativas para efetivar as entrevistas, de modo que as leitoras não se sentissem pressionadas, mas, ao mesmo tempo, não ficasse muito aleatória a decisão sobre quando realizar a entrevista. A pesquisadora sugeria possíveis datas e enviava mensagens reforçando o convite, de modo a não perder a interlocução. Ao perceber certa indisposição ou dificuldade de conciliação de horários, optou-se por deixar a leitora à vontade para decidir sobre uma data para a entrevista. Entre as leitoras que se dispuseram a participar da pesquisa, a maioria se expressava com bastante facilidade, o que contribuiu bastante para a viabilidade das entrevistas. Houve situações em que o roteiro foi adaptado, de modo a acompanhar o relato espontâneo da entrevistada. Esse tipo de situação também proporcionara um aprendizado, em termos de utilização dos instrumentos de pesquisa, isso porque o processo de pesquisa, ao mesmo tempo em que é executado mediante a estruturação de uma metodologia, compreende a flexibilidade da pesquisadora para adaptar e modificar as perguntas, quando necessário, aproveitando, assim, informações que chegam na forma de um relato não previsto no roteiro de entrevista.
Um dos aspectos que chamou a atenção e superou as expectativas iniciais de execução da pesquisa foi a disponibilidade das leitoras em participarem das entrevistas. Quando se optou por incluir o público leitor na análise, havia dúvidas sobre a viabilidade e as dificuldades de conseguir os relatos. Surpreendentemente, várias leitoras se dispuseram a colaborar, mesmo quando tinham dificuldade de conciliar o tempo das entrevistas com suas demais tarefas cotidianas. Esse é um elemento importante não só enquanto cumprimento de uma etapa da pesquisa, mas também pela relação de colaboração que se estabeleceu entre leitoras e pesquisadora. Por se tratar de um público com hábito de leitura frequente, as leitoras se mostraram ativas não somente por contribuirem com seus relatos à pesquisa, mas inclusive ao revelarem interesse em ler o texto da tese, não raro fazendo questões sobre os objetivos da pesquisa. Ademais, a motivação das leitoras em contribuírem com seus relatos também pode ser um indicador da relevância do tema na atualidade.
Embora tenham sido realizadas 23 entrevistas, o contato foi estabelecido com um número maior de leitoras. Porém, foi necessário delimitar uma quantidade que permitisse o
47 caráter de pesquisa qualitativa e, simultaneamente, viabilizasse a relação com o tempo necessário para o cumprimento de prazos no programa de pós-graduação.
Em todos os casos, as entrevistadas demonstravam interesse em colaborarem com a pesquisa, e esse foi um aspecto que permitiu reflexões interessantes no decorrer do desenvolvimento do trabalho. Ao longo das entrevistas, os depoimentos eram ouvidos, procurando conduzir o questionário sem induzir as respostas. Dispor de uma abertura para ouvir os relatos das entrevistadas, muitas vezes bastante distintos dos pressupostos que norteiam essa pesquisa, foi um exercício importante em termos de construção da interlocução. Avaliando esse processo, considera-se que a afinidade construída no processo das entrevistas decorreu em uma sensibilidade para compreender a dimensão da recepção do público leitor. Sem a execução dessa etapa da pesquisa, as análises poderiam caminhar para uma falsa dedução sobre as concepções e experiências do público leitor a respeito dos livros e de outros aspectos de gênero. Em alguns casos, houve depoimentos que destoavam das concepções dos manuais. No caso das entrevistadas que leram, mas hoje não mais se identificam com esse segmento literário, foi importante perceber o olhar processual delas em relação às suas próprias ideias: elas falavam sobre seu passado e o comparavam às suas concepções no presente. Eram depoimentos indicando fases diferentes de experiências de gênero, o que revela a processualidade que o indivíduo carrega e como ela se manifesta em termos de visões construídas/desconstruídas ao longo da vida.