Résistance thérapeutique
B. LA COMPOSANTE EXTRINSEQUE DE LA RESISTANCE THERAPEUTIQUE : L’EMDR, UN CONCEPT INDISPENSABL E DANS L’APPREHENSION DU MELANOME.
Se, em meados do século XX, Simone de Beauvoir empreendeu esforços no sentido de demonstrar que a condição biológica, em si, não cria correlações necessárias que justifiquem relações desiguais de poder – analisando a lógica do mundo natural que reproduz as espécies apenas enquanto existência natural, portanto, ausentes de valoração –, o argumento de Pease & Pease caminha em sentido oposto: busca explicar que tanto o comportamento contemporâneo quanto o mais longínquo da existência humana, denominado ―época das cavernas‖, são fundados pelas mesmas bases biológicas. Se o comportamento humano atualmente encontra-se em desarmonia é porque ―a ordem natural das coisas‖ vem sendo modificada indevidamente.
Aqui, se denomina a concepção dos autores como sendo equivalente às origens míticas das diferenças, uma vez que a justificativa à qual eles se referem, em diversas passagens, remete a um passado que conteria o protótipo do comportamento contemporâneo, se valendo do pressuposto das diferenças biológicas como fonte de explicação para o fundamento das diferenças; na medida em que as fontes históricas não são utilizadas pelos autores, o mito acaba por ocupar o lugar da narração histórica que explica as relações entre homens e mulheres.
Ao descrever o passado onde essas diferenças estavam presentes e preservadas, declaram:
[h]omens e mulheres evoluíram de modos diferentes porque tinha de ser assim. Os homens caçavam, as mulheres ficavam com o grupo. Os homens protegiam, as mulheres cuidavam. Como resultado, seus corpos e cérebros tomaram rumos diversos no processo de evolução e se transformaram para se adaptarem melhor às suas funções específicas. Os homens se tornaram mais altos e mais fortes que a maioria das mulheres, e seus cérebros se desenvolveram para cumprir as tarefas que lhes cabiam. As mulheres ficavam satisfeitas de ver seus homens saírem para trabalhar enquanto elas mantinham o fogo aceso na caverna. Seus cérebros, então, evoluíram para atender às funções que precisavam desempenhar.
Assim, por milhões de anos, as estruturas dos cérebros de homens e mulheres foram se formando de maneiras diferentes. Hoje em dia, sabemos que homens e mulheres processam a informação de modos distintos. Pensam diferente. Têm crenças, percepções, prioridades e comportamentos diversos. Desconhecer este fato é uma receita certa de confusão, sofrimento e desilusão para toda a vida (PEASE & PEASE, 2000, p. 12).
O que os autores apontam como referencial das diferenças produz alguns tipos de generalizações: a) todos os homens e todas as mulheres ―são assim‖ porque a biologia é
107 agente determinante; b) embora esses dois segmentos fixos sejam considerados diferentes entre si, suas diferenças ―evoluem‖ para reforçar os mesmos lugares sociais; c) há um pressuposto implícito, que sustenta as relações de gênero ilustradas, que é o modelo de família nuclear urbana. O olhar que se lança ao presente ou ao passado localiza esse mesmo modelo, com atribuições claramente definidas e fixadas. Um dado modelo de estrutura familiar é universalizado como se pertencesse a todos os tipos de sociedade, independente de contexto histórico. Para efeito de comparação, pode-se associar tais aspectos às criações de desenho animado da empresa Hanna-Barbera, na década de 1960, os Flintstones e os Jetsons, em que o mesmo modelo de família nuclear é encontrado, mudando apenas a época em que se encontram: os primeiros na época ―pré-histórica‖ e os segundos ―no futuro‖.
Em outra passagem, os autores reafirmam a condição biológica enquanto instância supra-histórica que determina comportamentos humanos:
[a]té recentemente, acreditava-se que quando uma criança nasce sua mente é uma página em branco, onde os educadores imprimem suas escolhas e preferências. Recentes estudos de biologia mostram, porém, um panorama completamente novo e apontam os hormônios e o cérebro como os principais responsáveis por nossas atitudes, preferências e comportamento. Isso quer dizer que, ainda que criados em uma ilha deserta, sem uma sociedade organizada ou pais que os influenciassem, meninos competiriam física e mentalmente entre eles, formando grupos com uma nítida hierarquia, e meninas trocariam toques e carinhos, se tornariam amigas e brincariam com bonecas. Os circuitos cerebrais e os hormônios determinam nosso
comportamento e modo de pensar (PEASE & PEASE, 2000, p. 13, grifos no original).
Considerando os argumentos de Woodward (2008) a respeito da essencialização, ou seja, a tentativa de naturalizar determinadas concepções a partir de justificativas que podem ser biológicas ou mesmo culturais, podem ser observadas aqui várias formas de essencialização, seja pelo argumento que justifica as diferenças a partir da biologia, seja pela naturalização de diferenças construídas historicamente que marcam as relações de gênero (bonecas, uso da força física, estabelecimento masculino de hierarquias, esfera sentimental feminina). Determinadas configurações de gênero são associadas a concepções de masculino ou feminino, entendidas como conteúdos com sentidos fixos. As indicações de Connell também podem ser pensadas ao se visualizar como os corpos se inscrevem socialmente em uma ordem de gênero, que cria sentidos não somente no plano da vida pessoal e cultural, mas se articulam também com as dimensões institucionais de maneira sistemática.
108 pode ser associada a posições de gênero que aqui caracterizam o que se denomina de passado mítico. Por ocuparem algumas páginas do livro, serão selecionados alguns fragmentos para fins de demonstração:
[e]ra uma vez, há muito, muito tempo, homens e mulheres vivendo juntos, felizes e trabalhando em harmonia. O homem, cada dia arriscava sua vida em um mundo perigoso e hostil, caçando para levar o alimento à sua mulher e filhos e enfrentando inimigos e animais selvagens. […] A mulher, por seu lado, se sentia valorizada ao ver o homem expor sua vida pela família. Homem de sucesso era aquele que conseguia bastante comida, e sua autoestima dependia do reconhecimento da mulher aos seus esforços. […] Não era preciso ―repensar o relacionamento‖ e ninguém lhe pedia para levar o lixo para fora nem trocar as fraldas do bebê. […] O papel da mulher era também muito claro. A necessidade de ser uma perpetuadora da espécie apontou a direção em que devia evoluir e as habilidades a desenvolver para cumprir suas funções. […] A mulher passava o dia cuidando das crianças, colhendo frutos e sementes e se relacionando com as outras mulheres do grupo. […] A sobrevivência era difícil, mas o relacionamento era fácil. Assim foi por centenas de milhares de anos. […] Cada um apreciava o que o outro fazia – eles não eram considerados preguiçosos nem elas se sentiam como criadas oprimidas. […] Mas, para quem vive nos modernos países civilizados, essas regras antigas foram abandonadas. O caos, a confusão e a infelicidade tomaram seu lugar (PEASE & PEASE, 2000, pp. 15-17).
Há vários aspectos a serem observados. O mito, enquanto tentativa de justificar origens, remete-se a um passado tão longínquo (―muito, muito tempo‖), que quase se confunde com a própria história da humanidade da maneira como é narrada pelos autores. A noção de tempo aparece com um peso valorativo, porque reconstruir a ―época‖ na narrativa significa trazer à tona os valores constituintes daquele modelo de sociabilidade. Fixam-se lugares que guardam, na verdade, muita relação com concepções de gênero bastante fortes em décadas passadas. A figura do homem aparece não somente enquanto provedor do lar, mas como aquele que circula nos lugares públicos, diferentemente da mulher: ele sai, ela cuida do espaço doméstico. A ―harmonia‖ das funções distribuídas entre homens e mulheres resulta de uma associação entre o que é compreendido enquanto tarefa masculina ou feminina: ninguém pedia para o homem levar lixo para fora (tarefa doméstica feminina), nem para trocar fraldas (cuidado dos filhos é responsabilidade da mãe); a mulher não se sentia uma criada oprimida (correspondia satisfatoriamente às funções que lhe eram esperadas). ―Cada um se orgulhava pelo outro‖, de modo que a construção relacional das diferenças se expressa no que cada um representa ao outro: eu admiro o outro porque ele cumpre exatamente suas funções. A fixação de lugares sociais se coloca de maneira tão enfática na narrativa que a ―ausência de conflitos‖ é a exata medida do êxito social do modelo de relações. Sua contraface contemporânea seria o abandono desses valores. Verifica-se que a divisão de tarefas carrega sentidos que falam sobre
109 posições de gênero. A sociedade contemporânea se desestruturaria em função do abandono desses valores.
Do ponto de vista da construção relacional de gênero, há pelo menos dois referenciais visualizados: a) o que cria parâmetros de distinção entre homens e mulheres; b) o que se coloca como o oposto do modelo considerado harmônico (e, portanto, ideal enquanto forma de sociabilidade). Após sucessivas observações da narrativa de Pease & Pease, notou-se que o conteúdo do manual aborda um interlocutor indireto ao longo do livro. O modelo sugerido pelos autores apontava um responsável pela ―desordem‖ nas posições de gênero fundadas na biologia. Uma vez identificado que havia nesse livro uma contraposição aos questionamentos oriundos do feminismo, denominou-se essa de eixo antifeminista da narrativa.