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EXPÉRIMENTATION D’UN TRAJET EN TANT QUE CHERCHEUR L’ORDRE DU SENSIBLE

HISTOIRE D’OBJET ET DE MÉTHODESHISTOIRE D’OBJET ET DE MÉTHODESHISTOIRE D’OBJET ET DE MÉTHODES

EXPÉRIMENTATION D’UN TRAJET EN TANT QUE CHERCHEUR L’ORDRE DU SENSIBLE

Observando-se as já expostas relações entre a política e os media, reconhecem-se mudanças significativas nos padrões de construçã o de discursos, de competiçã o pelo poder e, especialmente, de uma nova “engenharia” envolvida na fabricaçã o e manutençã o da imagem. Maria Helena Weber ( 1999) compara os exercícios de poder na Idade Mídia a jogos combinatórios, onde sã o disputadas visibilidade, legitimidade e promoçã o. E stã o na corrida por uma imagem pública que culmina na ressonância desejada instituições e sujeitos políticos. Wilson Gomes (2004) usa o termo “política de imagem” para qualificar “a prática política naquilo que nela está voltado para a competiçã o pela produçã o e controle de imagens públicas de personagens e instituições políticas” (GOME S , 2004, p. 209). Imagem pública,

por sua vez, é “o somatório de aparê ncias, opiniões e comportamentos políticos, [ sejam] institucionais” ou dos sujeitos (W E B E R , 2009, p. 12). C omo construto conceitual, a imagem pública é também alicerçada sobre instrumentos discursivo-linguísticos. Nã o se trata, portanto, de uma contraposiçã o dela à política do discurso, de uma polarizaçã o entre palavra e imagem:

...também a política de imagem é recurso que se conhece desde a antiguidade e em toda parte, convivendo com democracia ou com tirania, aparentemente apoiando-se em mecanismos ligados à mesma natureza da atividade política. Isso nã o exclui, certamente, que existam aspectos específicos dessa prática na era da comunicaçã o de massa ( GOME S, 2004, p. 209) .

D e fato, a estratégia de construçã o de uma imagem pública favorável para a

conquista de espaços de poder nã o é um fenômeno contemporâneo. J ean-Pierre V ernant cita o exemplo da sociedade helê nica, na qual, em período anterior à cidade-estado e à popularizaçã o dos templos (de caráter coletivo), a posse de ídolos ( em geral representações em estatuária do panteã o de deuses) conferia aos seus donos a exclusividade de determinados poderes e privilégios. E ra a sinalizaçã o de uma relaçã o de “intimidade” com o divino, a qual podia ser inclusive transmitida de maneira hereditária em círculos reais ou religiosos. “E sse aspecto de apropriaçã o do ídolo, complementar à sua mobilidade, se traduz pelo fato de ele morar, ao menos em sua origem, na parte mais secreta de uma casa humana: casa de rei, de chefe, de sacerdote [ … ] . E a responsabilidade pela imagem consagra o laço pessoal que o une doravante à divindade” ( V E R NA NT, 2009, p. 300).

Na F rança absolutista do século X V II, já se encontravam indícios de ritualizaçã o da vida cotidiana do rei L uís X IV . C onforme afirma Peter B urke, além de tornar atos corriqueiros como o levantar, o deitar e a hora das refeições, a rotina real passou a incluir momentos que demonstravam a “acessibilidade” do monarca à sua corte, através da promoçã o de “encontros de divertimento”, nos quais L uís X IV jogava cartas ou bilhar com membros da nobreza. Todo esse aparato era reforçado ainda por registros documentais das memórias reais e por representações em medalhas, pinturas, moedas, arcos e estátuas. E stas últimas, aliás, receberam especial atençã o em campanha que espalhou esculturas do monarca por diversas

províncias francesas, especialmente as mais rebeldes ou recentemente anexadas, como Normandia e B orgonha ( B UR K E , 1994, p. 104-108). E le explica:

...todos os atos do rei eram planejados 'até o mínimo gesto'. Os mesmos eventos se produziam todos os dias nas mesmas horas, a tal ponto que uma pessoa poderia

acertar seu relógio pelo rei. [ … ] A vida diária do rei compunha-se de ações que nã o eram simplesmente recorrentes, mas carregadas de sentido simbólico, porque eram desempenhadas em público por um ator cuja pessoa era sagrada ( B UR K E , 1994, p. 101) .

No A ntigo R egime, com uma experiê ncia de vida pública intimamente ligada à criaçã o e à preservaçã o da ordem social por meio de uma identidade monárquica coesa, também a imprensa era cooptada para este fim. A s províncias eram abastecidas regularmente com informações sobre o rei através de periódicos como a oficial Gazette de F rance e o Mercure Galant. C hegava-se ao cúmulo de pagar pensões reais aos seus editores (B UR K E , 1994). Georges B alandier (1982) sintetiza o trunfo dos grandes atores políticos em uma palavra: o imaginário. C om um pé no entretenimento, os governantes podem se fazer representar em cena, liderar exércitos e fazer de seus reinados um espetáculo. “C omo L uís X IV e seus divertissements, o R ei se torna comediante. A ópera francesa se edifica sobre um terreno político. [ … ] A ópera do século X V II [ … ] é concebida como uma expressã o estética perfeita, uma arte mimética da natureza física e da sociedade monárquica” ( B A L A ND IE R , 1982, p. 6-7).

C onforme a cronologia avançava, novas relações foram se configurando. R ichard S ennett (1998) caracteriza como principal ruptura na lógica da vida pública herdada do regime absolutista o impacto do capitalismo industrial, da visã o secular, da cultura urbana e de um deslocamento da experiê ncia pública para a experiê ncia privada na formaçã o da personalidade. O foco na aparê ncia do sujeito na construçã o da imagem pública ganhou lugar de destaque na Inglaterra vitoriana. Na política que ora se instalava, nã o importavam somente as habilidades legislativas e de gestã o de alguém que se propunha a ocupar tal funçã o. O

conjunto de subjetividades que compunham a credibilidade política de um indivíduo incluiria, a partir daí, o imaginário sobre a vida privada, a busca por carisma e a capacidade de atraçã o

de grupos alheios ou que nã o compartilhassem necessariamente das mesmas ideologias (S E NNE T T, 1998, p. 41) .

S egundo S ennett, a intrusã o da personalidade no domínio público, cuja principal característica era ser controlada. “Uma pessoa conhecia verdadeiramente uma outra entendendo-a em seu nível mais concreto, que consistia em detalhes da roupa, do discurso, do comportamento” (S E NE NT T, 1998, p. 194). Uma consequê ncia imediata desse contexto da valorizaçã o da personalidade foi a criaçã o de uma nova identidade, a do espectador. T ratava- se do sujeito que se sentia mais confortável na posiçã o de testemunha da expressã o de outrem que de condutor da autoexpressã o. S egue em seu raciocínio:

Os espectadores silenciosos precisavam ver no ator público certos traços de sua personalidade, quer ele a possuísse, quer nã o. [ … ] Movimentam-se em silê ncio, na proteçã o que os isola uns dos outros, desafogando-se através da fantasia e do devaneio, observando a vida passar pelas ruas. [ … ] E aqui se encontra em germe a cena moderna da visibilidade em público, apesar do isolamento interpessoal ( SE NNE T T, 1998, p. 244-245) .

Pensando contemporaneamente a imagem pública, Weber afirma nã o ser possível controlar totalmente sua produçã o. Quanto mais um indivíduo é detentor de poder político, financeiro, midiático, mais intervençã o e controle terá sobre a própria imagem. C ontudo, é o espectador, cujo “nascimento” fora documentado anteriormente por S ennett, que em seu processo de recepçã o se apropria e constrói/desconstrói as imagens fabricadas (W E B E R , 2009, p. 12). A ssim sendo, toda açã o política reproduzida pelos media naturalmente teria uma imagem pública resultante junto ao público e poderia ser mensurada por meio de mecanismos de sondagem de opiniã o.

O repertório de imagens públicas cristalizado no imaginário coletivo é multifacetado e composto por tipos bastante diversos: há o herói salvador, o líder charmoso, a prima dona (liderança feminina), o pai da pátria e até o common man, coadjuvante promovido ao primeiro plano (SC HWA RT Z E NB E R G, 1978, p.17-18). S egundo este teórico, é preciso que, antes de lançar-se no terreno do poder, o futuro dirigente incorpore seu papel. E le aponta exemplos interessantes com base na observaçã o de rotinas política específicas: pode acontecer de o “elenco” variar, e o público se deparar com atores que se revezam entre si.

Nos E stados Unidos, o “herói” R oosevelt precede o “common man” T ruman ou o “homem ordinário” E isenhower, que antecede o “líder charmoso” K ennedy, que precede o “pai” J ohnson. D urante a V R epública, o “herói” D e gaulle precede o “homem ordinário” Pompidou, que antecede o “líder charmoso” Giscard d'E staing, que precede o “pai” B arre ( S C HWA RT Z E NB E R G, 1978, p. 18).

Outro ponto-chave envolvido na complexidade das imagens públicas é o carisma. Um líder carismático, consegue eliminar o distanciamento entre seus sentimentos e o de seu público, criando uma intercessã o entre as próprias motivações e as dos espectadores. A autora cita Max Weber (1999) para fazer uma oposiçã o entre estrutura de dominaçã o burocrática e carismática (W E B E R apud W E B E R , 2009). E m sintonia com o exposto, sob a ótica de B alandier (1982), o exercício do poder que se dá através da força apresenta evidente debilidade. Para que este se exerça de forma legítima e duradoura, é preciso que conte com reconhecimento dos dominados, sacralizaçã o dos símbolos, dramaticidade nas cerimônias,

enfim, uma constante representaçã o de adesã o emocional.

A força do sujeito político na luta para construir e consolidar a própria imagem é fundamentada na confiança socialmente atribuída a ele por seus representados. S endo assim, detém em caráter “fiduciário” seu capital político; a visibilidade nele investida pelo público nada mais é que um empréstimo (BOUR D IE U, 2011). Por isso, faz parte desse image-making nã o só tornar o indivíduo ou organizaçã o em questã o presente nos meios de massa, mas assegurá-lo uma posiçã o dominante na esfera de visibilidade pública, com vistas à conquista de uma determinada imagem junto a uma esfera de exposiçã o. C omo se deduz, nã o é objetivo construir qualquer imagem, mas sim aquela que serve à conveniê ncia e aos propósitos do indivíduo ou instituiçã o (GOME S , 2004, p. 236).

A lém dos arquétipos aos quais as personalidades políticas recorrem, há uma sequê ncia minimamente orquestrada para a formaçã o da imagem pública. A primeira das fases seria a produçã o de informaçã o e a facilitaçã o do acesso aos fatos, mensagens e sinais que dizem respeito ao sujeito da imagem a ser formada. E sse conteúdo, verbal ou nã o, seria inserido na esfera de visibilidade pública, selecionado de acordo com a rotina de produçã o dos media. A fase seguinte ocorre quando, já de posse do material produzido pelos atores políticos e suas equipes, os agentes da esfera midiática – principalmente jornalistas – recodificam as informações para torná-las inteligíveis à sua audiê ncia, de acordo com seus critérios profissionais e sua "hierarquia expositiva". A terceira fase compreende a recepçã o e o consumo por parte do público, levando-se em consideraçã o sua cultura, suas experiê ncias de mediaçã o. É nessa etapa que se dá a formaçã o da imagem pública propriamente dita. E mbora

seja um momento onde os agentes das fases anteriores tendem a interferir, com vistas a direcionar a opiniã o para aceitaçã o ou rejeiçã o, é do espectador o veredito. S em ele nã o há construçã o de imagem ( Idem, 2004, p. 237). C laro que nã o se trata apenas de agradar o público. Há mais em jogo:

...a configuraçã o da imagem ideal depende, em grande parte, de fatores ligados a contextos discursivos midiáticos, como a agenda da comunicaçã o de massa ou a produçã o de molduras de prioridades. E m outros termos, esta funçã o da política de imagem se realiza tendo como cenário a pauta dominante ou a disputa pela imposiçã o de pauta ( agenda setting) . A questã o, para o ator político, nesse caso, é impor a imagem de si que parece de algum modo responder à demanda do público eleitor no contexto de uma conjuntura ( pauta, prioridade) específica ( Idem, p.238) .

Maria Helena Weber (1999) e Wilson Gomes (2004) compartilham a visã o de que, no processo de construçã o das imagens públicas, a produçã o e difusã o da chamada “imagem

conceitual” seria o estágio mais importante. Primeiro, assinala-se o termo para diferenciar o conceito aqui trabalhado da imagem no sentido da representaçã o visual ou estética. T rata-se de uma construçã o cognitiva, social, uma síntese da expressã o ideológica, política, dos projetos contidos na identidade do ator político. “A identidade visual, portanto, integra a identidade conceitual, ampliando o espectro de veracidade do sujeito ou da instituiçã o” (W E B E R , 1999, p. 76).

F igur a 3. D iagr ama da fabr icaçã o da imagem-conceito

F onte: W E B E R , 1999

E ssa imagem conceitual segue diretrizes de planejamento estratégico, cuja gê nese está na identificaçã o conceitual, unida à definiçã o dos objetivos de um projeto partidário ou

pessoal. É a hora de pensar quem é esse ator político, em que acredita, quais suas qualidades e diferenças em relaçã o aos demais. A partir daí, é iniciada a concepçã o estratégica de sua

comunicaçã o, formulando planos que traduzam e promovam seu projeto político e contribuam qualitativamente para sua repercussã o positiva junto ao público. E m seguida, vem a ocupaçã o de espaços no circuito de visibilidade pública, pensando simultaneamente em mecanismos de aferiçã o e manutençã o de imagem. “Todo este processo só é exequível com uma estrutura de manutençã o que inclui recursos técnicos e financeiros e a administraçã o da engenharia de fabricaçã o das imagens que integre especialistas na operacionalizaçã o do processo” (W E B E R ,

1999, p 78).

Imagem-conceito é explorada também por B aldissera (2006), que a trabalha como algo que só se concretiza pela alteridade ( recepçã o). T rata-se de um construto simbólico de caráter complexo que caracteriza um sujeito ou entidade. “A imagem-conceito nã o é da qualidade do verdadeiro, mas do que parece ser, do que é reconhecido como tal” (B A L D IS S E R A , 2006, p. 2). S ua elaboraçã o se dá sob o jugo de “tensões dialógicas, dialéticas e discursivas, intra e entre uma diversidade de elementos-força” (Idem, p. 1). E le também acrescenta que o público nã o tem seu repertório cultural (construído historicamente) eliminado pelas estratégias de construçã o da imagem, embora tais “artimanhas” do marketing possam confundir ou neutralizar seus pontos de vista.

A imagem-conceito já se construía perenemente na esfera do imaginário e da cultura. A diferença é que a mesma passou a ter também seu processo de fabricaçã o potencializado pela dinâmica da política como “mercado”. Nesse ínterim, os profissionais de comunicaçã o envolvidos nas campanhas e assessorias políticas, investidos do poder de image- makers, articulam ações tais como: 1) uma definiçã o da imagem que se deseja construir (portanto ideal) mais próxima da expectativa de imagem do público; 2) traquejo (ou domínio) junto à esfera dos códigos socioculturais do público; 3) investigaçã o do potencial identificatório do segmento almejado com o referido ator político e 4) estratégias de comunicaçã o e “geraçã o” de fatos eficientes ( B A L D IS S E R A , 2006, p. 11-12).

Obter vantagem competitiva faz parte da essê ncia da manobra política, cujo savoir faire inclui incutir nos eleitores significados sobre ideologias, eventos, líderes, problemas e

crises existentes. Para Murray E delman (1988), o ator político necessita de um pensamento estratégico que permita enfraquecer a oposiçã o ( e consequentemente os possíveis arranhões na própria imagem pública que a mesma promove) e mobilizar apoio. “A tática-chave deve ser sempre a evocaçã o de interpretações que legitimem percursos que favoreçam a açã o e tranquilizem as pessoas, de modo a incentivá-las a declarar apoio ou, no máximo, permanecer quietas” (Idem, p. 103-104).

E delman cita a liderança como outro componente importante da imagem pública. E mbora reconheça que, semanticamente, o termo guarda conotações diversas ( em contextos democráticos ou nã o), aponta: “L íderes políticos tornam-se signos de competê ncia, mal, nacionalismo, promessas de futuro e outras virtudes e vícios, ajudando a introduzir sentido a um mundo político confuso. Na atribuiçã o de significados aos líderes, os espectadores definem suas próprias posturas políticas” (E DE L MA N, 1988, p. 37).

A inda sobre a questã o da liderança, Poyares (1998) lembra que a mesma é um pressuposto da história humana desde que o homem passou a viver em comunidade. O cuidado com a imagem do líder, resultante natural da autoestima e da interaçã o, é igualmente antigo. A diferença está na interferê ncia dos media, que tornaram essa imagem “universal, instantânea, contínua, onipresente e provocadora” (POY A R E S , 1998, p. 54). “Imagem, mídia e marketing constituem hoje as palavras-força que mobilizam dirigentes de toda espécie e instituições públicas ou particulares, fascinam políticos de todas as idades, apaixonam os iniciantes e conduzem uns a glória e outros à ruína em sua carreira ou até na vida privada” (Idem, p. 17).

D esponta com certa obviedade a estreita relaçã o entre os atores políticos, a política de imagem e a opiniã o pública, explorada por uma variedade de teóricos (B OUR D IE U, 1983; C HA MPA GNE , 1998; G LY NN et al., 1999; K R IPPE NDOR F F, 2005; C E RV I, 2006; S HA PIR O & B L OC H-E L K ON, 2006). D iz Patrick C hampagne que a gê nese desta última é contemporânea da emergê ncia da própria esfera pública. T ratava-se entã o de uma “máquina de guerra ideológica improvisada, durante o século X V III, pelas elites intelectuais e pela burguesia de toga a fim de legiti mar suas próprias reivindicações no campo político e enfraquecer o absolutismo régio” (C HA MPA GNE , 1998, p. 48). Nota-se no campo teórico adentrado por C hampagne uma visã o pessimista, compartilhada com Pierre B ourdieu. Para este, a opiniã o pública é carente em formulaçã o discursiva e coerê ncia, além de extremamente frágil a manipulações de fundo emocional. “[ O que se conhece por opiniã o pública] É simplesmente uma explicitaçã o da definiçã o revelada através das próprias

pesquisas de opiniã o, ao pedirem à s pessoas para tomarem posiçã o sobre opiniões formuladas, e a o produzirem, através de simples agregaçã o estatística as opiniões assim produzidas, este artefato que é a opiniã o pública” ( B OUR D IE U, 1983, p. 12).

K rippendorff (2005) admite nã o ser fácil para a sociedade identificar o que é a opiniã o pública ou onde encontrá-la, pois nã o se trata de “um fato natural que pode ser achado em um lugar qualquer” ( K R IPPE ND OR F F, 2005, p. 130). Porém, declarar sua inexistê ncia – como faz B ourdieu – ou fantasmagoria tampouco ajuda a compreendê -la como fenômeno. O público nã o é uma entidade viva, nã o consegue literalmente falar, pensar ou agir. Mas a opiniã o pública é a personificaçã o do público em sua volatilidade, expressando sua vontade independente e coletiva, fazendo chegar aos governantes uma mensagem poderosa: a de que é preciso temer e se preocupar com a opiniã o pública (K R IPPE ND OR F F, 2005, p. 130).

informações de que dispõe permitem que ele seja – informaçã o essa em grande parte proveniente de líderes e círculos de elite comunicadas através da mídia de massa” (p. 4). E acrescentam categóricos: nã o é porque estásujeita à manipulaçã o emocional e nã o é absolutamente estável que a opiniã o pública é irracional. E la se remodela porque as relações sociais também o fazem. “Por isso as preferê ncias políticas coletivas sã o previsíveis, pois trata-se do resultado de avaliações públicas”, diz C ervi (2006, p. 20).

Nunca abandonando seu caráter mutável, a opiniã o pública formar-se-ia entã o quando o indivíduo pesa prós e contras de suas escolhas e faz um julgamento avaliativo com interferê ncia mínima ou limitada do restante do público e dos políticos. Nã o é, portanto, “um objeto estático e imóvel que tenha sempre a mesma forma e volume. Pelo contrário, é um processo extremamente dinâmico e fluido que reflete o que as pessoas pensam, as interações entre uns e outros, e lida com as forças políticas de acordo com a sua própria forma de organizaçã o” (GLY NN et al., 1999, p. 381).

Nã o se pode ignorar um dos aspectos significativos da imagem pública: o benefício da dúvida. O ato de consumir as imagens sociais e visuais pode provocar, embora até inconscientemente, um processo de avaliaçã o e questionamento sobre a validade e a veracidade do que é mostrado. F az parte do savoir faire da política na era da comunicaçã o de massa trabalhar propostas de realidade. “E nquanto nã o se pode ensinar à multidã o a doutrina da verdade, pode-se, por outro lado, persuadi-la a acreditar em uma opiniã o, como se essa opiniã o fosse a verdade” (A R E ND T apud W E B E R , 2000a, p. 14). Muito dessa verdade subjetiva é fundado na construçã o mítica do ator político, a ser explorada no próximo tópico.

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