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1.5. La violence dans les récits sansaliens

1.5.2. Evocation de la violence dans les romans sansaliens

O que seria uma educação dialética e revolucionária? Para começar, é preciso levar em conta que concepção de homem e de sociedade temos como pressuposto? Numa percepção dialética, o homem é considerado como uma série de relações ativas, ou seja, como um processo, dentro da concepção marxiana de que o homem não é, ele se faz, e se faz nas relações e principalmente se faz através do trabalho e nas relações produtivas. Segundo Gramsci, a individualidade apesar de ter a máxima importância não é o único elemento a ser considerado (Gramsci, 1981:39-47). Essa humanidade que se reflete em cada indivíduo é um entrelaçado de relações. Precisamos considerar o indivíduo, os outros homens e a natureza. A relação do indivíduo com os outros homens não é justaposição, trata-se mais bem de uma relação orgânica, ou seja, faz parte de organismos, dos mais simples aos mais complexos. Do mesmo modo, na relação do homem com a natureza, não é algo extemporâneo a ele. Faz parte dele, o homem é natureza. Mas isso não é tudo, não é uma relação passiva e mecânica, há uma relação ativa, realizada por meio do trabalho e da técnica. Essas relações são tanto mais ativa e conscientes quanto maior o grau de inteligibilidade que delas tenha o homem individual. “Daí ser possível dizer que cada um transforma a si mesmo, se modifica, na medida em

que transforma e modifica o conjunto de relações do qual ele é o ponto central”

(Gramsci, 1981: 39). Para Gramsci o homem deve ser concebido como um bloco histórico que conjuga elementos subjetivos e individuais e elementos de massa – objetivos ou materiais. Enquanto transforma o mundo exterior, as relações gerais, o indivíduo transforma a si mesmo, se fortalece, se desenvolve. O melhoramento ético individual está necessariamente vinculado à atividade transformadora das relações externas, nas relações do indivíduo com a natureza e com os outros homens.

“Por isso, é possível dizer que o homem é essencialmente ‘político’, já que a

atividade para transformar e dirigir conscientemente os homens realiza a sua ‘humanidade’, a sua ‘natureza humana’” (Gramsci, 1981: 47)

Quanto à concepção de sociedade, nosso enfoque será o de que nas condições próprias da estrutura de classes, a sociedade em que estamos inseridos se encontra

dividida em uma multiplicidade de grupos com interesses não somente diferentes, mas antagônicos. Dentro dessa estrutura de classes em luta compreendemos a “teoria ampliada do Estado”, segundo a qual o Estado é a somatória de sociedade política e sociedade civil. Ou seja, existem dois grandes planos superestruturais: a sociedade civil e a sociedade política. Por “sociedade política” entende-se o aparelho governamental propriamente dito, que detém o monopólio da coerção, aceita socialmente como legítima. Interessa para nós a sociedade civil, que abriga o conjunto dos aparelhos e organizações intelectuais, tais como a imprensa, as editoras, círculos, clubes, igrejas, associações culturais, profissionais ou comunitárias, entidades de benemerência, as escolas públicas e privadas de diferentes tipos e níveis, etc. É no seio da sociedade civil que ocorre a luta de hegemonias, ou seja, o enfrentamento entre a hegemonia dominante e a hegemonia dominada. Mas essa luta faz parte de um processo de luta de hegemonias políticas, de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política, para chegar a uma elaboração superior da própria concepção do real (cf. Gramsci, 1978:29). E, como diz Gramsci,

“toda relação de ‘hegemonia’ é necessariamente uma relação pedagógica,

que se verifica não apenas no interior de uma nação, entre as diversas forças que a compõem, mas em todo campo internacional e mundial, entre conjuntos de civilizações nacionais e continentais” (Gramsci, 1981:37).

Para realizar sua hegemonia a classe dominante recorre ao que Gramsci chama de “instituições privadas”, entre elas a escola. Por que a escola é importante? Porque as relações de explorações se sustentam através da relação de dominação e para esta é indispensável a dominação das consciências. Se uma classe pretende assegurar seu domínio pela hegemonia precisa imprimir às classes dominadas sua concepção de mundo. Essa concepção de mundo é transmitida sob forma de senso comum e interiorizada. Essa transformação da filosofia da classe dominante em senso comum se faz prioritariamente pelo sistema educacional, dirigido e controlado pelo Estado. Como toda relação de hegemonia é necessariamente uma relação pedagógica, toda educação é necessariamente uma estratégia política. Dessa forma o controle do sistema educacional constitui um momento decisivo na luta de classes. Gramsci avança em sua análise,

explicação e crítica da sociedade do capitalismo avançado, oferecendo também instrumentos para pensar e realizar, com o auxílio da escola e das demais instituições da sociedade civil, uma nova estrutura social. Para ele a escola é o instrumento para formar os intelectuais de diversos graus, e é de fundamental importância a formação de intelectuais orgânicos a serviço dos “simples”. Para elevá-los em sua condição, para a superação do seu modo de pensar, através da crítica da própria concepção do mundo. Por isso um movimento só pode ser considerado realmente filosófico quando,

“no trabalho de elaboração de um pensamento superior ao senso comum e

cientificamente coerente, não se esquece nunca de permanecer em contato com os ‘simples’ e, mais ainda, encontra neste contato a fonte dos problemas a estudar e resolver” (Gramsci, 1978:27).

É de fundamental importância que os “simples” tenham acesso ao patrimônio cultural da humanidade e progridam até a posse real e completa de uma concepção de mundo coerente e unitária.

Pelo dito acima, pode-se já perceber que a educação que se tenha por dialética e revolucionária procurará a transformação do homem e sua sociedade de forma dialética, o homem e a sociedade resultantes do processo educativo foram um transformado pelo outro. Como diz Gutierrez:

“homem e sociedade, como aspectos dialeticamente inseparáveis de uma

mesma realidade, dão forma às metas do projeto alternativo. O homem que se faz no ambiente que ele mesmo constrói e a sociedade que resulta da ação transformadora do homem” (1988:66).

Também advém claramente que a escola ocupa um lugar privilegiado no marco de possibilidades de transformações sociais. Ela tem duas funções contraditórias: conservar e minar as estruturas capitalistas. Outro elemento de fundamental importância é a prioridade na educação à transformação da consciência assim como à transmissão de

conteúdos, senão como a classe dominada poderá se apropriar do patrimônio cultural da humanidade?

Uma educação dialética deve ser um processo contraditório – pois a contradição é inerente à dialética. Uma relação entre ação e reflexão. Precisa partir da prática social, problematizá-la e retornar a ela. Mas antes deve passar pelo processo do que Gramsci chama “catarse”, que indica a

“passagem do momento puramente econômico (ou egoísta-passional) ao

momento ético-político, isto é, a elaboração superior da estrutura em superestrutura na consciência dos homens. Isto significa, também, a passagem do ‘objetivo ao subjetivo’ e da ‘necessidade à liberdade’. A estrutura da força exterior que subjuga o homem, assimilando-o e o tornando passivo, transforma-se em meio de liberdade, em instrumento para criar uma nova forma ético-política, em fonte de novas iniciativas. A fixação do momento ‘catártico’ torna-se assim, creio, o ponto de partida de toda a filosofia da praxis; o processo catártico coincide com a cadeia de sínteses que resultam do desenvolvimento dialético” (Gramsci, 1981:53).

A educação propicia uma efetiva incorporação de instrumentos culturais que se transformam em elementos ativos de transformação social. É assim como ela torna- se um poderoso instrumento de luta da classe dominada e o lugar de uma contra- hegemonia.