7. Démarche méthodologique de la recherche
7.3 Présentation de la méthode utilisée
7.3.4 Entretiens
O Cine Mais Cultura foi lançado em 2009 pelo Ministério da Cultura através da Secretaria do Audiovisual em parceria com a Secretaria de Articulação Institucional dentro do programa Mais Cultura, ação integrante da agenda social do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal. O Cine teve como objetivo apoiar a formação de um circuito alternativo de exibição de obras audiovisuais, a partir da disponibilização de equipamento de projeção, de conteúdo para ser programado e capacitação dos gestores (BRASIL, 2010, p. 27).
Criado durante o período de Sílvio Da-Rin na Secretaria do Audiovisual, o Cine Mais
Cultura se inseriu dentro de uma demanda pelo aumento do público de filmes brasileiros e
pela democratização do acesso aos bens culturais. Este diagnóstico foi apresentado no Seminário Nacional do Audiovisual (SEMINÀRIO, 2002) e reforçado por Orlando Senna que em entrevista reconheceu não ser suficiente a realização de programas públicos de fomento à produção sem mecanismos que garantissem sua difusão (SENNA, 2003). O número de espectadores durante o início dos anos 2000 estava em queda, e encontrava-se com um perfil cada vez mais elitizado devido ao aumento no preço dos ingressos e a concentração do circuito exibidor em multiplex, nos shoppings centers e nos grandes centros urbanos. Em conformidade com propostas apresentadas no III CBC e no Seminário Nacional de Cinema, Orlando Senna defendeu a criação de um “Circuito Popular de Exibição Cinematográfica”, ou “Circuito Exibidor Popular”41, para aumentar e democratizar o acesso ao cinema e aos filmes
brasileiros. Desse modo, houve a construção de estratégias próprias de exibição em editais de produção de obras audiovisuais, como nos projetos mencionados anteriormente DocTv e o
Revelando os Brasis, assim como outras iniciativas buscaram ampliar a difusão do
audiovisual independente brasileiro, como a tentativa de formar a Ancinav e a criação da TV Brasil.
41Essas ideias também se aplicam, inclusive de forma mais direta, ao Programa Cinema Perto de Você do Fundo
Setorial do Audiovisual, executado pela Ancine e instituições financeiras a partir de 2012. Nesse caso, o seu objetivo era modernizar e ampliar o parque exibidor brasileiro, através de crédito, desonerações e implementação de salas de cinema em cidades entre 20 e 100 mil habitantes.
Alguns movimentos que ocorreram na gestão de Orlando Senna foram fundamentais para o desenvolvimento do Cine Mais Cultura. Lançada em 2003, a Programadora Brasil funcionou como um catálogo de filmes brasileiros, escolhidos por uma curadoria composta de críticos, realizadores e pesquisadores de diferentes regiões, disponíveis para exibição em espaços alternativos (CARDOSO, 2007d apud SILVA, Eduardo Lima, 2014, p. 181). Outro programa foi o Pontos de Difusão Digital, lançado em 2006, com o objetivo de criar 100 pontos de exibição não comercial, através de fornecimento de infraestrutura em parceria com organizações públicas ou privadas.
Com o Plano de Aceleração de Crescimento e sua agenda social houve a oportunidade de trabalhar esta demanda, através do Cine Mais Cultura. A Sociedade Amigos da Cinemateca, em convênio com a Secretaria do Audiovisual, realizou uma seleção pública destinada a comunidades sem salas de exibição, especialmente municípios pequenos e periferias das grandes cidades. O edital era aberto para cooperativas, Pontos de Culturas, órgãos públicos de cultura de cidades com até 20 mil habitantes, organizações da sociedade civil, que junto com os cineclubes mapeados pelo Conselho Nacional de Cineclubes (CNC) e os 100 Pontos de Difusão Digital já instalados formariam um circuito “não comercial, equivalente em número, às salas comerciais brasileiras, com (...) capilaridade em todo território nacional e sua dedicação quase exclusiva à difusão de conteúdos brasileiros” (BRASIL, 2010, p. 27).
A participação do Conselho Nacional de Cineclube só foi possível devido a uma reorganização do movimento cineclubista ocorrida a partir dos anos 2000, conforme relatam Juliana Baldini (2012) e Eduardo Lima Silva (2014). O CNC, formado na década de 1960, esteve desde a redemocratização desmobilizado e fragmentado. A posse do governo Lula, trouxe ao governo agentes políticos com trânsito e formação no movimento cineclubista, que foram nomeados para altos cargos do Ministério da Cultura, como Leopoldo Nunes e Orlando Senna. A partir de uma série de entrevistas e análises feitas em sua dissertação, Eduardo Lima Silva (2014) afirma que a rearticulação do movimento cineclubista teve grande influência das ações do governo federal neste momento42, quando o Estado rompeu a tradição de
enfrentamento e passou a auxiliar na sua reorganização e fomentá-lo (SILVA, Eduardo Lima, 2014, p. 16).
42O autor descreve que a reorganização do movimento cineclubista se iniciou em 2003, com o apoio do
Ministério da Cultura, com os preparativos da 24ª Jornada Nacional de Cineclubes, idealizada por Leopoldo Nunes e realizada em novembro 2003. Ver LIMA, Eduardo Silva (2014).
O plano de incentivar o cineclubismo converge com a política cultural que vinha sendo executada no momento. A época, projetos como o Cultura Viva já apoiavam atividades culturais autogeridas, que assim como os cineclubes que operam sob práticas de autonomia e independência. Para o professor Luís Fernando Angerami, os cineclubes tomam seu público como sujeito ativo e por isso se tornam uma iniciativa estratégica para aproximação do cinema brasileiro com a sociedade (ANGERAMI, 2010). Leopoldo Nunes, em entrevista a Eduardo Lima Silva (2014, p. 190-191), relatou acreditar no potencial do circuito não comercial, pois para ele se tornaria a principal janela de exibições de filmes no futuro, enquanto as salas de cinema dominadas pelo mercado estrangeiro, se transformariam em espetáculos e uma exceção no acesso aos filmes.
O funcionamento do projeto abrangia a entrega de equipamentos e formação dos gestores de cada cineclubes participante da Rede Cine Mais Cultura. Os cineclubes recebiam kit com aparelho de projeção, reprodução de filmes em DVD (tecnologia da época), som, microfone para realização das exibições, além dos filmes disponibilizados pelo catálogo da
Programadora Brasil.
O programa contava com uma coordenação geral, uma equipe pedagógica, responsável pela formulação de material didático de apoio nos processos de capacitação, e uma equipe de campo para, em parceria com o Conselho Nacional de Cineclubes, guiar e acompanhar os
Cines (ANGERAMI, 2010, p. 81). Os contemplados passavam por oficinas de orientação e
capacitação, nas quais se apresentavam, eram aconselhados sobre práticas necessárias para o bom funcionamento do cineclube, como pesquisa, programação, divulgação, cuidado com os aparelhos, organização das sessões e debates, e da necessidade de realizar relatórios de atividades para prestar contas. Também aprendiam sobre a história do cinema brasileiro, sobre a história do cineclubismo, direitos autorais, com objetivo de “fornecer subsídios para que o gestor possa exercer um papel de mediador do processo cultural que se dará no exercício cotidiano do Cine” (ANGERAMI, 2010, p. 83). O acompanhamento se estendia para os três primeiros meses, como forma do projeto não se encerrar na entrega do equipamento, mas funcionar como um processo de difusão de bens culturais. Nesse período, os Cines contaram com apoio de monitores responsáveis por auxiliar, realizar visitas e redigir relatórios de avaliação entregues para coordenação do programa (ANGERAMI, 2010, p. 83).
Eduardo Lima Silva (2014) relata algumas das críticas levantadas durante a realização do Cine Mais Cultura. Dentre os cineclubistas organizados no Conselho Nacional de Cineclubes entrevistados pelo autor, por exemplo, era possível perceber insatisfações quanto à
qualidade dos equipamentos disponibilizados pelo governo, considerados defasados tecnicamente; críticas à intervenção excessiva, como na necessidade do cineclube se moldar em um modelo de empresa, com CNPJ, em vez de um “sentido real do associativismo, que é a responsabilização e o empoderamento” (MACEDO, 2011 apud SILVA, Eduardo Lima, 2014, p. 72). Outra posição contrária era sobre a perda de autonomia e da liberdade de programação, que era limitada pela legislação dos direitos autorais, pelo catálogo oferecido pela
Programadora Brasil (SILVA, Eduardo Lima, 2014, p. 183) e pela obrigatoriedade de 80% da
programação do cineclube ser nacional (BALDINI, 2012, p. 113). Nesse sentido, o cineclubista Diogo Gomes acredita que essas limitações eram uma intenção deliberada do
Cine Mais Cultura para sua rede não entrar em conflito com os empresários do circuito
exibidor (apud LIMA, Eduardo Lima, 2014, p. 183).
Juliana Baldini (2012, p. 141) defende que uma flexibilização do governo às demandas cineclubistas poderia contribuir com a efetividade dos objetivos do projeto. De fato, algumas mudanças que seriam importantes para o cineclubismo no Brasil estavam sendo encaminhadas até 2010, pela Secretaria do Audiovisual ou outros órgãos do governo. Um exemplo é a reforma da lei de direitos autorais, que esteve sob coordenação de Marcos de Souza da Diretoria de Direitos Autorais do MinC. A reforma previa uma legislação mais flexível para exibição de filmes em espaços não comerciais e sem fins lucrativos, como cineclubes, hospitais, clínicas, unidades prisionais, como ele informa (SOUZA, 2010, p. 59), porém com as mudanças na gestão do Ministério da Cultura, não chegou a ser enviada para o congresso.
As instabilidades no MinC a partir de 2011 afetaram a realização de ajustes assim como a continuidade do Cine Mais Cultura. Em 2013, após alcançar um total de 104343 Cines,
abaixo da meta inicial de equivaler ao número de salas do circuito comercial, o projeto foi paralisado, sob alegação de estar em avaliação quantitativa e qualitativa. Além das mudanças na equipe do Ministério da Cultura, a Sociedade Amigos da Cinemateca, em 2012 passou a ser alvo de investigações que impediu que ela recebesse repasses do governo prejudicando a continuidade da Programadora Brasil e do Cine Mais Cultura.
A gestão de Leopoldo Nunes à SAv de 2012 a 2013, e o retorno de parte da equipe responsável pela Programadora Brasil e pelo Cine Mais Cultura não foram suficientes para contornar um ambiente de descontinuidades em que estava o ministério (KELLY, 2014, p. 55-
43Número retirado do site <http://www.cultura.gov.br/cine-mais-cultura> que encontra-se atualmente fora do ar,
mas com seu registro disponível através do site Web Archive, em <http://web.archive.org/web/20130615005855/http://www.cultura.gov.br/cine-mais-cultura>, acesso em 09 de jul. de 2019.
56). Conforme apresentado nos boletins eletrônicos e nos relatórios de gestão da secretaria (BRASIL, 2012, 2013), Nunes planejava uma “reconstrução” da história da SAv enquanto espaço de formulação, articulação e execução de políticas para o audiovisual, que são essenciais para a garantia da cidadania (BRASIL, 2012). Para o então Secretário, era prioritário retomar e expandir os projetos executados pela secretaria nas gestões de Orlando Senna e Silvio Da-Rin; com a proposta de incluir as estruturas dos CÉU das Artes no Cine
Mais Cultura, ampliar e modernizar o funcionamento da Programadora Brasil; lançar novas
edições dos programas DocTv, novos Núcleos de Produção Digital, e lançar os editais afirmativos pautados pelo “princípio da inclusão social, na promoção do acesso tanto à fruição quanto à produção audiovisual” (BRASIL, 2014, p. 129). Mas sua gestão ficou marcada pelo agravamento do imbróglio com a Cinemateca Brasileira que culminou na demissão do diretor executivo Carlos Magalhães, e mais de metade do seu corpo de funcionários 44.
3.3 EDITAL CURTA-AFIRMATIVO E PRÊMIO CARMEN SANTOS DE CINEMA DE