A cultura, no seu sentido antropológico, significa “a maneira pela qual um grupo social se identifica como grupo, através de comportamentos, valores, costumes e tradições comuns e compartilhadas”. (Soares, 1992, P. 14).
Nesse sentido, somos partidários de que não existem culturas superiores e inferiores, ricas e pobres, úteis e inúteis. Existem, sim, culturas diferentes. Embora, a ideologia das diferenças culturais traga as possíveis explicações dos fracassos, da marginalização e da discriminação de certos grupos pela inferioridade de uns em relação a outros em nosso meio, o que justifica a privação dos direitos de participação social e apropriação da cultura historicamente acumulada aos “grupos inferiores”.
O termo ainda é confundido com conhecimento formal, ou utilizado de forma preconceituosa, quantificando-se o grau de cultura ou sinônimo de classe social mais elevada, ou ainda como indicador de bom gosto. A nossa sociedade ainda continua estruturada em classes. E cada classe produz uma cultura com características própriasTPF
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FPT, as classes dominantes, atribuem as suas práticas sociais.
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A cultura é aqui utilizada em um sentido mais amplo, entendendo-a como o conjunto de práticas sociais e os significados atribuídos a essas práticasTPF
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por cada grupo social, em cada lugar e em cada momento histórico.
Penso não ser possível falar em cultura, restringindo seu conceito às manifestações folclóricas, artísticas, religiosas, esportivas ou sociais de um dado grupo social. É preciso, antes de tudo, verificar o que representam essas práticas na vida das pessoas de tal grupo, como indivíduos e como coletividade.
Sendo assim, também não é possível falar de cultura definindo-a como o conjunto de conhecimentos que um indivíduo ou grupo acumula ao longo do tempo. Mais difícil, ainda, é aceitar cultura como a habilidade para apreciar as belas-artes. Até porque, essa habilidade passa pela oportunidade de tempo e espaço (entre outras) para acessar as artes.
É preciso avançar na busca dos significados, sob pena de só enumerarmos as práticas sociais sem compreendê-las no seu contexto histórico, o que, aliás, parece ter sido a prática da maioria dos nossos governantes. Ou seja, tratam as culturas como unidade, e é claro, sendo tudo parte de uma única cultura, a da classe que representam. Não que as manifestações práticas e significados por eles defendidos ou apresentados sejam originários das classes dominantes, mas são manifestações, práticas e significados que a elas interessam no momento considerado. Mesmo sendo o mercado o todo-poderoso, há possibilidades, sim; há espaço para a resistência.
É o caso das cidades que optaram por administrações comprometidas com a maioria da população, ampliaram os espaços de participação da cidadania, criaram novos canais de comunicação entre a população, ampliaram os espaços de participação da cidadania, criaram novos canais de comunicação entre a população e o poder público e onde a participação popular foi estimulada, novas relações foram estabelecidas. Novas possibilidades de tratamento da cultura e do lazer foram construídas.
Cidades como, por exemplo, Porto Alegre capital do Estado do Rio Grande do Sul, como Diadema e São José dos Campos estas pertencentes ao Estado de São Paulo, e Belo Horizonte capital do Estado de Minas Gerais, embora todas as dificuldades surgidas internas e externas às administrações,
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desenvolveram importantes experiências na elaboração e execução de políticas públicas de cultura, esportes e lazer.
Ao citarmos estas cidades não significa que estejamos aqui a apresentar a solução e o modelo de resistência a ser seguido e/ou copiado, nem querendo afirmar serem essas as únicas experiências que obtiveram sucesso no que tange ao ponto observado, nem foram as melhores. Significa tão somente que, quando há uma compreensão dos mecanismos de dominação sociocultural-ideológica, quando há uma manifesta vontade de mudança, e mais, quando há coragem suficiente para promover as transformações desejadas, estão assim reunidos os ingredientes necessários para o estabelecimento de um enfrentamento com as dinástias e/ou oligarquias locais. E esse enfrentamento significa o combate à especulação imobiliária, a inversão de prioridades e a radical ampliação da participação popular nas discussões, elaboração, execução e fiscalização das obras e empreendimentos levados a cabo pelo Estado.
Ressaltamos, ainda, a necessidade de identificarmos a intenção do poder público concernente às políticas públicas, pois perceber os elementos norteadores da ação do poder público, neste caso específico, significa também identificar as intenções de que se propõe a ser governo, ou no sentido da conservação, ou no sentido da mudança. Ou, ainda, na busca de um ideal utópico, emancipatório, ou na direção do treinamento de corpos que se tornem verdadeiras extensões das máquinas de produzir lucros. Qualquer uma das decisões é fruto de uma ação humana deliberada nos marcos da consciência filosófica, é uma opção de liberdade para todos, ou de liberdade apenas para alguns.
A verdade é que nunca se discutiu tanto sobre o lazer quanto hoje. Embora o tema não seja novo e tivesse permeado a maior parte do século XX, estamos diante de novas polêmicas e intrigantes abordagens. Nesse sentido parafraseamos o poeta Thiago de Melo. “Não, não tenho caminho novo. O que tenho novo é o jeito de caminhar”.
É com esse novo olhar que temos acompanhado as discussões envolvendo o lazer na medida em que o mesmo vem ocupando um espaço crescente no âmbito das discussões acadêmicas. Tomando o mesmo, descritivamente, como sendo um fenômeno tipicamente moderno resultante das tensões entre o capital e trabalho, que se materializa como um tempo e espaço de
vivências lúdicas, lugar de organização da cultura, perpassando por relações de hegemonia”. (MASCARENHAS, 2004, p. 10).
O lazer, visto pelo prisma da participação cultural, deve ser entendido como uma atividade não conformista, crítica desenvolvida por sujeitos historicamente emancipados que buscam a renovação democrática e humanista da cultura e da sociedade, tendo em vista, não só a instauração de uma nova ordem social, mas se possível de uma nova ordem cultural.
Isso não significa que deva haver um isolamento do plano cultural do social, mas tão somente que não cabe justificar o imobilismo pela existência de uma ordem social adversa. O lazer deve ser entendido enquanto “especificidade concreta”, e na sua especificidade, com possibilidades de gerar valores que ampliam o universo da manifestação do brinquedo, do jogo, da festa, da recreação para além do próprio lazer. A especificidade concreta do lazer deve levar em conta o seu entendimento amplo em termos de conteúdo, as atitudes que envolvem os valores, que propícia à consideração dos seus aspectos educativos, as suas possibilidades, enquanto instrumento de mobilização e participação cultural, e as barreiras sócio- culturais verificadas para seu efetivo exercício, tanto intraclasses como interclasses sociais.
Tomar a cultura de forma restrita como produção do ser humano, como no século XIX, permitiu a classificação dos vários grupos espalhados pelo mundo como mais ou menos civilizados, de acordo com a quantidade de produção cultural. É óbvio, que o critério para julgamento era a sociedade européia da época, cabendo aos povos que não se comportavam como os europeus ditos civilizados eram classificados como primitivos, selvagens ou bárbaros, como se fossem menos desenvolvidos. (LAPLANTINE, 1988).
Analisando o verbete loisir, conforme a grande Larousse Enciclopédique (1962) percebemos que enquanto para os sociólogos, o lazer representa o tempo disponível após o trabalho e as ocupações habituais, para os etnólogos o lazer é uma manifestação cultural que sempre existiu em nossa sociedadeTPF
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Não temos a pretensão de confrontar a sociologia com a etnologia, mas apenas perceber o tema sob visões diferenciadas.
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A etnologia é um ramo da antropologia que estuda a cultura das sociedades tradicionais. Dedica à discussão sobre as características culturais do homem (costumes, crenças, comportamentos, organização social, etc.).
Para os etnólogos segundo (Werneck, 2003, p. 34) nas sociedades tradicionais a vida constituía-se, basicamente, de três partes interligadas:
a) Satisfação das necessidades elementares ou viscerais (como nutrição, reprodução e repouso);
b) Ocupação de subsistência (sobretudo agricultura);
c) Atividades lúdicas (tais como jogos, danças e as festividades).
Segundo o ponto de vista dos etnólogos essas três possibilidades se misturavam a ponto de se confundirem na dinâmica da vida social e cultural das sociedades tradicionais, não se constituíam frações estanques como atualmente verificamos nas atuais sociedades capitalistas.
Diante ao exposto, necessário se faz procedermos a esclarecimento sobre o que entendemos por cultura, lúdico e lazer.
O termo cultura comporta inúmeras definições, que podem ser concebidas a partir de diversas correntes. Embora o mundo globalizado de hoje insista em reforçar a idéia errônea de que existe uma cultura “mais autêntica” ou “mais avançada” de que outras. Mas, sabemos que do ponto de vista etnocêntrico esta afirmação se constitui em um grande equívoco. Para os etnológicos não existe uma cultura superior, ou melhor, do que outra, as culturas são apenas diferentes entre si.
Nesse sentido, a diversidade cultural não passa somente pelo reconhecimento e valorização das diferentes culturas, mas, sobretudo, pela troca e interação entre as mesmas.
Para Laplantine (1994, p. 21), “presos a uma única cultura, somos não apenas cegos à dos outros, mas míopes quando se trata da nossa”. A cultura constitui um campo privilegiado de produção humana em varias perspectivas, e o lazer r representa uma delas. Neste sentido compreendemos que o lazer não é desta maneira, sinônimo de cultura, tampouco é caracterizado apenas pelos aspectos “tempo e atitude”.
Nessa perspectiva o lazer passa a ser um artefato cultural constituído pelos sujeitos a partir da inter-relação de quatro elementos: das ações, do tempo, do espaço/lugar e dos conteúdos culturais vivenciados, ludicamente, pelos sujeitos.
O lazer é um fenômeno autônomo gestado no seio da sociedade urbano- industrial do século XIX, mas que não se restringe apenas aos centros urbanos e/ou industriais desenvolvidos, mas também se faz presente nas chamadas sociedades
tradicionais cuja influência dos processos de industrialização, urbanização, desenvolvimento tecnológico e difusão dos meios de comunicação ainda não se constituem ainda em uma realidade.
Mesmo sabendo-se que o lazer se funda no lúdico, o mesmo também possui inserções culturais e sociais profundas na historia construída em nossa realidade, conforme demonstra os estudos precedentes. Antes do século XIX este objeto (entre outras dimensões da vida) não era considerado um fenômeno autônomo, organizado e normalizado. Dessa forma, o lazer foi formatado como tempo / espaço para vivencia de uma multiplicidade de experiências classificadas como não pertencentes ao mundo do trabalho, visão disseminada principalmente nas modernas sociedades urbano-industriais.
Embora saibamos que historicamente, lazer e tempo livres não sejam sinônimos, sua aproximação de seu contexto social, em decorrência de seus processos de direcionamento, controle e normatização empreendida pela burguesia, que acatando os preceitos do modo de produção capitalista, elegeram o trabalho como corolário e referência primordial da vida em sociedade.
É nesse contexto que o entendimento de tempo livre passa a ser amplamente assumido como lazer.
Para Dumazedier (1979, p. 28), “o lazer possui traços específicos, nascido da civilização, gerada com a Revolução Industrial, correspondendo uma liberação periódica do trabalho no fim do dia, da semana, do ano ou da vida de trabalho”. Por essa razão, o aspecto tempo é visto como determinante para a ocorrência do lazer na modernidade urbana e industrial, instigando a classe proletariada a lutar pela conquista do direito à limitação da jornada de trabalho em oito horas diárias, ao descanso remunerado nos fins de semana e às férias pagas, entre outras garantias sociais.
O progressivo aumento do tempo livre, que amplia e desenvolve as atividades de lazer, cada vez mais difundidas promove verdadeiras revoluções na existência humana, na ordem social e, sobretudo na cultura.
É o que nos mostra na maneira lúcida Dumazedier (1994) na obra A Revolução Cultural do Tempo Livre, tal revolução não foi surpresa para ele, visto que ele já havia profetizado a aproximadamente trinta e um anos a chegada desse momento no seu livro Filosofia Empírica do Lazer, no qual dava como certa o estabelecimento de uma civilização do lazer.
No livro a Revolução do Tempo Livre ele aborda outros pontos do tempo livre como o tempo inocupado, decorrente do desemprego ou do sub-emprego, por motivos da inexistência de trabalho para todos, e tempo liberado, em conseqüência da menor possibilidade de trabalho individual, graças às máquinas; e defende maior solidariedade econômica entre os que têm e os que não tem trabalho remunerado.
A revolução cultural derrubou a barreira entre as três principais fases da vida e por isso a infância já não se limita a folguedos, a idade adulta ao trabalho, a velhice à espera da morte. Com base nessa linha de raciocínio o autor em questão alvitra a curiosa idéia de uma aposentadoria distribuídas pelos anos de trabalho, em ocasiões escolhidas pelo trabalhador em síntese: tempo livre remunerado na mocidade e trabalho mais tarde.
Embora contestando o primado do trabalho como necessidade humana essencial, o autor lembra que sua importância objetiva não diminui e o que os setores secundários e terciários da atividade econômica continuam sendo importantes, apesar da preponderância crescente do setor terciário.
O autor observa também, como acerto, que sem a expansão do consumo não há como reduzir o desemprego. Este é um ponto da maior importância, porque sem consumidores a população perde o sentido e se inviabiliza; e daí o acerto desta conhecida observação ainda que, paradoxal, mas, irretorquível: o consumo é o principal fator de produção.
O que nos leva a dizer que não pode existir lazer se não tiver trabalho ou qualquer outra obrigação, ou seja, a libertação das obrigações é uma condição para que o lazer aconteça, o qual acaba por ser tomado por alguns autores como atividade residual.