Primeiro bloco: compreendido entre a primeira cena até o momento em que Hari
chaga ao bar. Cena 1: concurso e Hilda1012, inicia após o B.O., consecutivo ao terceiro sinal, e
finaliza no momento em que Samuel interrompe a leitura dos gibis se dirigindo ao colega para apresentar-lhe a postura correta de um dançarino. Do início ao final desta cena, a luz semelhante à composição do pre-set, preenchia o espaço em etapas organizadas em quatro movimentos préprogramados. Conforme orientação do Iluminador, a operação deveria tornar os movimentos imperceptíveis para os espectadores.
Tendo seu epicentro na esquerda baixa, onde se localizavam os personagens inicialmente, e estendendo-se a todas as regiões do bar, os movimentos (ou trocas de luz)
10
As siglas são abreviaturas de Narrow spot (NSP) e Medium flood (MFL), palavras em língua inglesa. Referem-se ao ângulo de abertura proporcionado pelas lentes. No Brasil, ambos os focos são popularmente conhecidos como: foco 2 e foco 5, respectivamente.
11 Barn door também é conhecido como bandeira de quatro folhas, e assim como o blackfoil são utilizados para
impedir o vazamento luminoso indesejado quando se afinam os refletores.
12 Os nomes para cenas e suas delimitações foram apresentadas pelo diretor nos ensaios de mesa e discutidas
com o grupo, principalmente com os assistentes de direção. Em alguns casos, nós, enquanto assistentes, sugeríamos títulos para as mesmas e quando coerentes, foram acatadas pelo diretor.
acompanhavam o tempo da cena, que pouco a pouco aumentava sua velocidade, no momento em que os personagens intensificavam o diálogo. Não só observado na expressão vocal, como nas ações físicas, a cena adquiria andamento mais acelerado no seu desenvolvimento.
Cabia à luz, assim como aconteceu com a cenografia, fornecer subsídios visuais coerentes que contribuíssem com a direção. Para isso as quatro composições elaboradas pelo Iluminador, neste curto espaço de tempo compreendido pela cena, caracterizavam-se pelo aumento de suas intensidades. Inicialmente, nas primeiras fontes luminosas que atingiam diretamente os atores e em seguida se irradiava para as demais, até então apagadas, preenchendo o espaço em harmonia com o desenrolar da cena.
O ápice, com todas as fontes de luz, especiais e artificiais acesas, em equilíbrio de intensidade no espaço, se dava no momento em que Hari chegava ao bar e aplaudia a
brincadeira dos meninos 13.11
Segundo bloco: este abarcava cerca de 30 minutos seguintes ao anterior. Mantendo o cuidado com a imagem construída, eu ou o colega, durante a realização da operação da luz, deveríamos evitar a sobreposição brusca das composições, sobretudo para não desestabilizar a atenção dos espectadores. Este bloco não acompanhava as movimentações do elenco, exceto ao acenderem a luz do outro cômodo, o sanitário.
Efetuando-se como um elemento do espetáculo, além de revelar o espaço, as composições de luz cumpriam uma de suas funções, senão a mais importante: a visibilidade. Os extensos diálogos que alicerçam o sentido das últimas cenas exigiram da Iluminação a manutenção na atenção do espectador, sobretudo, sem perder de vista a atmosfera que tanto caracterizava o ambiente, o bar, quanto um clima ou a atmosfera “[...] um ambiente mais
denso que o cenário proposto”.1412
Para as cenas compreendidas entre os 30 minutos, as composições da luz apenas aumentavam suas intensidades - cerca de 20%, totalizando 100% de todas as fontes luminosas ao fim do tempo estabelecido - esta alteração atuava fisicamente nas células foto-receptoras dos olhos do público. O que acontecia de fato pode ser caracterizado como um estímulo visual.
As células presentes nos olhos processam quimicamente a luz (estímulo físico) e transmitem ao cérebro a informação recebida. No bloco descrito anteriormente, formado pelas cenas, a adição luminosa influenciou na atenção do espectador. Esta ação de ordem técnica, aplicada pelo Iluminador, burlou o provável cansaço visual, que poderia ocorrer devido à
13 Palavra utilizada pelos pais de Hari para se referir genericamente aos funcionários.
estabilidade da cena, em que os atores permaneciam, na maior parte do tempo, em torno da mesa em uma longa conversa. A adição luminosa mantinha a base da composição visual: luz interna, sugerida a partir das fontes de luz especiais e luz externa que invadia o bar através das janelas. “Em essência, o olho reage aos fluxos luminosos [...] Quando esse fluxo aumenta, o número de células retinianas atingidas torna-se maior, as reações de decomposição da
rodopsina1513produzem-se em maior quantidade e o sinal nervoso torna-se mais intenso.”
(AUMONT, 1993, p.22)
Cumprindo mais um objetivo, fundamental à encenação, ou seja, de cunho artístico, a luz também narrava a passagem do tempo, no universo da obra. A partir das janelas, o interior do bar tornava-se mais azulado, sugerindo visualmente o tempo decorrido da ação: o término da tarde difusa e chuvosa, e o início da noite densa e tensa. Entretanto, essa percepção só seria evidenciada com precisão cerca de 20 minutos antes do fim da peça.
Ainda colaborando com a concepção do diretor, a Iluminação marcava a chegada da noite, acompanhando os fatos que ampliavam o conflito entre os personagens. O encontro dos três amigos na tarde clara, brilhante, e chuvosa, que irradiava a luz difusa, filtrada pelas densas nuvens, dava lugar a noite escura, após troca de ofensas, verbal e física entre Hari e os empregados do bar.
A técnica, até então empregada para dilatar a percepção do espectador, não se caracteriza como invariável. O Iluminador Eduardo Tudella explorou os desenhos da luz para obter um resultado semelhante ao mencionado anteriormente, proporcionado com o aumento das intensidades. Nessa composição os fachos luminosos funcionaram como vetor para a cena, atraindo a atenção do espectador.
Compor, com a luz, exige do artista a escolha de uma opção dentre o diversificado e tentador leque de possibilidade de uma caixa cênica. Esta escolha favorece a seleção do que se deseja revelar (os personagens e/ou o cenário). A composição com a Iluminação resulta em um desenho, uma forma para a imagem. A escolha dos ângulos e do tipo de instrumento - com ou sem acessório - define a qualidade final de cada facho de luz. Por fim, este conjunto possibilita a redução, ou a ampliação dos contrastes numa única imagem.
Associada ao conceito, a condução do olhar por meio de vetores de luz, induz uma interpretação para a cena, ou no mínimo, recorta detalhes, expondo para os espectadores uma fatia do todo. Esta técnica de composição pode ser comparada a um recurso cinematográfico.
15 A rodopsina é uma substância que absorve quanta luminosos, e decompõem-se por reação química, em duas
Com limitada aplicação no teatro, o enquadramento no cinema, é proporcionado pela câmera. Esta ferramenta seleciona a imagem para o espectador, não lhe permitindo outro ponto de vista. O diretor cinematográfico com sua equipe de edição, sobretudo, pode compor no estúdio um único ponto de vista para os espectadores, selecionando um fragmento da cena realizado no set de filmagem, ou em áreas externas.
Nesta linguagem, podemos visualizar com riqueza de detalhes aquilo que os olhos não conseguiriam em um teatro com pequena, média e grande distância entre o palco e os espectadores. Mas a Iluminação cênica pode se inspirar na técnica cinematográfica e assim, a partir do recorte da luz, indicar uma área, um objeto e ou um personagem em detrimento de outro. Contudo, a reflexão e a difração são fenômenos físicos apenas parcialmente
controláveis.1614
A técnica, aplicada no palco, não se caracteriza como novidade. Ela é conhecida pelos artistas e espectadores que vivenciam as artes cênicas desde a Renascença. Os meios disponíveis na Sala do Coro propiciaram a aplicação do recurso cinematográfico, ao recortar fatias do espaço cênico, trazendo a tona situações imprescindíveis na condução do drama.