O aporte de recursos governamentais ao fomento das atividades turísticas no Nordeste e o dinamismo em fluxo de passageiros, como visto, atendeu aos objetivos de reestruturar o turismo na região, atraindo também novos investimentos privados. A análise dos Planos de Desenvolvimento Integrado do Turismo (PDITS) – 1995 a 2001, necessários para contratação do BID com os governos, destaca a viabilidade dos aportes de investimentos em novos hotéis, bares, restaurantes, e atrações de lazer em destinos turísticos. Entretanto, um efeito não diretamente previsto nos PDITs da Bahia, Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco foi o forte estímulo ao segmento do imobiliário-turístico na atração de grandes volumes de recursos nos anos de 2001 a 2007. Em nossa análise, não poderia ser diferente pois a estratégia do PRODETUR NE-I relacionava-se e fo tale e o seto hotelei o, aptu a a e da do tu ista ge i o , e não a produção das segundas residências ou do imobiliário-turístico nesse estados. Entretanto, foi justamente nesse segmento que o capital estrangeiro (principalmente eu opeu edes o iu o B asil , o o festejava at ia a i p e sa, e :
O Nordeste brasileiro encontrou sua vocação: a de ser o paraíso tropical onde europeus gastam e investem seus euros. Portugueses, espanhóis, franceses, italianos, alemães e escandinavos estão invadindo a região para fazer negócios, passar as férias ou para desfrutar a aposentadoria (...). Alguns milhares de estrangeiros estão comprando apartamentos e casas do lado de cá do Atlântico – para veraneio ou mesmo para morar em definitivo. No Ceará, três de cada dez imóveis são adquiridos por estrangeiros. No Rio Grande do Norte, os europeus compraram 40% das casas e apartamentos vendidos no último ano (VEJA, 2005, p.121).
Em um primeiro momento, 1999 a 2001, esses aportes privados ocorriam motivados principalmente por pequenos investidores ou mesmo turistas que, aproveitando uma vantagem cambial, decidiam apostar em uma segunda moradia com fins de temporada. Entretanto, com a dinâmica imobiliária e financeira (vista na Parte I), em pleno crescimento a partir de 2002 até 2006, cada vez mais a presença de moeda estrangeira em transações imobiliárias se tornou preponderante. Assim, o objetivo deste item é, por um lado, compreender essa face da reestruturação do setor
imobiliário no Nordeste a partir da caracterização e análise da entrada de capitais estrangeiros nos quatro estados com maior atratividade, no período de 2001 a 200743. Para tanto, utilizou-se como fontes básicas de pesquisa a entrada de capital estrangeiro no Brasil (registrado pelo Banco Central do Brasil) e o volume de investimentos privados em quatro estados do Nordeste – RN, PE, BA e CE.
Antes, porém, de observar o quadro no Nordeste é importante caracterizar a própria dinâmica da América Latina e Caribe e assim compreender a relação dessas entradas estaduais com os efeitos de competitividade global do Brasil no segmento turístico e imobiliário. Como visto na Parte I, o mercado imobiliário brasileiro passou por importantes modificações nos últimos anos principalmente na ampliação de sua interface financeira.
Os dados e análises produzidos (PAIVA, 2007; FIX, 2007) destacam a região sudeste como cenário ativo dessa reestruturação; entretanto, queremos enfatizar que se no sudeste a atratividade do capital estrangeiro encontra uma variedade de opções e setores econômicos (indústria, financeiro, construção civil, etc.), no Nordeste brasileiro os dados indicam que foi o turismo e o mercado de terras o principal e, às vezes, quase exclusivo motivo de interesse do investidor internacional. Na Figura 13, abaixo, é possível observar que a entrada de Investimento Estrangeiro, até 1996, na América Latina e Caribe foi bastante tímida se comparada aos aportes entre 2002 e 2007. A partir do ano de 2002 a curva de crescimento iniciou uma ascendente até 2006, alcançando US$ 40 bilhões, voltando de forma abrupta para metade desse valor em 2007, similar ao ano de 2005. Esse ajuste não indica uma perda de competitividade internacional, mas si a eto ada da egula idade , alte ada po u i vesti e to atípico (em termos de valores) da compra da Inco (canadense) pela empresa Vale do Rio Doce, volume transacionado tão elevado que alterou de modo exótico a curva de investimentos iniciada em 2002 (CEPAL, 2008, p.14).
43 A coleta de dados foi primeiramente produzida para o estudo comparativo das atividades do
imobiliário-turístico, desenvolvido pelo Observatório das Metrópoles, no ano de 2008 e 2009. Coube ao núcleo Natal a obtenção e tratamento dos dados estatísticos sobre a entrada de capital estrangeiro, trabalho de coleta e de campo realizado por mim e orientado pela Profa. Dra. Angela Lucia de Araujo Ferreira (Cf. OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES, 2008).
Figura 13 - América Latina e Caribe: investimento estrangeiro (1990-2007)
Fonte: CEPAL, 2008, p.14 Nota: organizado pelo autor
O maior mercado atrativo aos investimentos foi justamente o Brasil, com US$ 15 bilhões em 2007 (crescimento de 84% em relação a 2006, seguido pelo México, Chile e Colômbia) grande parte nos setores de mineração, siderurgia e recursos naturais. Mas a própria CEPAL reconhece a diversificação das atividades econômicas em segmentos como finanças, turismo e imobiliário.
Cada vez más empresas transnacionales y locales han incrementando su capacidad e interés en emprender proyectos en la región que requieren interacción entre ingeniería, finanzas y los servicios que se proveen a partir de la base física construida (ventas de inmuebles residenciales, comercio, turismo, servicios públicos). Estas empresas han podido aprovechar las oportunidades generadas por una región en crecimiento, el mejor acceso de la población al crédito, el atractivo de la región como destino turístico e iniciativas nacionales de desarrollo de la infraestructura logística y de servicios básicos. En el mercado inmobiliario residencial, las características demográficas y económicas de América Latina han atraído inversiones de empresas que buscan complementar sus negocios en sus regiones de origen. Algunas empresas españolas, como Grupo Lar y Fadesa, han invertido grandes sumas en México, aprovechando las oportunidades de una población joven, con un déficit habitacional importante, para diversificar su cartera respecto del mercado
español, sólido pero con pocas perspectivas de crecimiento. (CEPAL, 2008, p.49-50).
No Brasil, o volume de investimentos estrangeiros para o ano de 2000 foi bastante elevado (Figura 14), se comparado aos anos anteriores. Entretanto, logo se seguiu uma queda até 2003 (advinda da crise internacional, pós 11 de setembro de 2001)44 e novamente retoma o crescimento com novo patamar em 2007. Mas a própria UNCTAD demonstrou declínio global nos mesmos anos em que ocorreu o declínio no Brasil, indicando flutuações do mercado global, onde o Brasil conseguiu manter não apenas a estabilidade como avançar regionalmente e se tornar bastante competitivo entre os países em desenvolvimento45. Considerando os dados da Tabela 10, do total de entradas no período (2001 a 2007), os setores agrícola, extrativista e mineral foram responsáveis por 13,2%, contra 37,94% do setor industrial e 80,13% do comércio e serviços, este último com acumulado de US$ 80 bilhões. Na Figura 15 vê-se que, com breve exceção no ano de 2004, o setor de serviços possuiu uma capacidade de crescimento superior aos dos outros setores produtivos.
Figura 14 - Evolução do IDE no Brasil – 2000 a 2007 Fonte: Banco Central do Brasil e EMBRATUR (2008, p.10). Nota: reelaborado pelo autor
44Não se pode dei a de assi ala eação de edo do e ado f e te a possi ilidade da vit ia de
Lula, para presidente, em 2002.
Tabela 10 - Brasil: Investimentos Estrangeiros Diretos segundo Setores Econômicos Atividade Econômica Estoque (em milhões de dólares)
Ingressos (em milhões de dólares)
1995 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Agric., pecuária e ext. mineral. 924,99 2.401,08 1.493,55 637,86 1.487,01 1.072,82 2.194,37 1.363,12 4.982,07 Indústria 27.907,09 34.725,62 7.000,98 7.555,30 4.506,02 10.707,82 6.402,81 8.743,78 12.166,08 Serviços 12.863,54 65.887,81 12.547,17 10.585,15 6.909,37 8.484,70 12.924,38 12.124,40 16.556,44 Total 41.695,62 103.014,51 21.041,70 18.778,30 12.902,41 20.265,34 21.521,57 22.231,30 33.704,58
Fonte: Banco Central do Brasil
Nota 1: Ingressos de investimentos e conversões de empréstimos e de financiamentos em investimento